sábado, 1 de maio de 2010

Dando corda na Grota


Num dia de sol fraco, do tipo esquenta mas não faz suar, enquanto descia uma ruela apertada de cimento bruto em busca da casa de um paciente a que iria realizar visita, ouvi um som completamente estranho em relação ao que eu poderia esperar estando eu onde estava. Era a Grota do Surucucu, uma comunidade pobre de Niterói, que fica por detrás de uma comunidade rica, São Francisco.
Um som agudo de instrumento perfumava o ar, não era de furadeira em parede, nem de espátula cortando tijolo à batida do martelo, eu disse perfumava. Som de música, de notas que se esticavam pela ruela de escadas mal acabadas, diferentes a cada lance em tamanho e altura, sem corrimão. Sabe quando você se depara com um sonho agradável e surreal em pleno asfalto da realidade crua? Um violino era executado e estudado em plena manhã de sol fraco na Grota do Surucucu.
Tive que gritar para a técnica de enfermagem e moradora da comunidade que ia adiante descendo o morro como se nada tivesse acontecido. Ah, doutor, são os meninos da Horta de D. Otávia.
Pelo que entendi, D. Otávia, já falecida e mãe de Márcio, foi uma pessoa bastante querida na Grota. Era dada a pensar o social e concretizar sonhos de transformação daquela realidade lascante em projetos palpáveis, cheirosos e sabidos. De início, ainda não sei o que havia feito possivelmente antes, construiu com as pessoas daquele local uma horta, uma horta comunitária, um pedaço de terra fértil onde todos dali são responsáveis por cuidar e plantar alface, espinafre, mamão, maracujá e outras delícias. Baseado num planejamento coletivo, os processos de produção de germinagem, cuidança do terreno, galhinhos e folhinhas e coleta das delícias eram orientados, decididos e pactuados pelas gentes. Uma atitude de fazer corar bochecha de grileiro e latifundiário. Uma terra que tem um dono, mas que seus frutos são compartilhados por todos.
Para não perder a pose de mestre em saúde coletiva, uma produção socialista que tem como conseqüências diretas a congregação de saberes e práticas de promoção à saúde, além de prevenção e tratamento de doenças na arte milenar de manipular as plantas para o fortalecimento da vida. Afinal de contas, vida reproduz vida e, como já dizia o profeta, gentileza gera gentileza.
Muito infelizmente a horta, pelo que eu saiba, não mais existe. Porém.... tchan, tchan, tchan, tchan! Hoje temos violinos, violas, contrabaixos, violoncelos, flautas e percussão perfumando o campo sonoro, compondo o espaço, nem sei se dialogando ou disputando com a batida do funkão-pornô, as pieguices do pagode, a apelação dos hinos evangélicos e a animação do axé. Bom, pelo visto dos adjetivos, deu pra perceber que só posso falar de mim, que carrego uma das máximas do meu pai adiante: essa estória de dizer que macaco gosta de banana é mentira...
Mas isso não é importante, o essencial mesmo dessa crônica é a Orquestra de Cordas da Grota, comandada pelo músico Márcio, aquele filho de D. Otávia... Uma Orquestra que me fez chorar no último 29 de abril, quinta passada sob a regência de Nayran Pessanha, ao executar o Divertimento em fá maior, do Mozart, e a Suíte “Mestre Vitalino”, de Carlos Cruz na ostensiva sala de sessões do Centro Cultural da Justiça Federal, Cinelândia, Rio.
Desde 1995, sob o comando de Márcio, este projeto social, gerido por uma ONG, a Reciclarte, que eles mesmos fundaram, já formou dezenas de garotos e garotas na arte da música clássica. Além de já terem se apresentado em São Paulo, Minas, Paraná e Brasília, possuem carimbo de passaporte para o “gringo” – Portugal e Nova Iorque. Inclusive dia desses ouvi uma história de que dois desses “grotenses” quedaram-se por Manhattan e estão por lá, estudando a valer, comendo maçã e violinando nos weekends at Central Park.
A atraente e bonita sede do Centro Cultural da Grota, recém-construída em 2007, é um daqueles espaços em que você sente good vibrations, um lugar para o qual costumo fazer um esforço para dar uma passada, peitico, alugo a técnica de enfermagem para dar uma esticadinha para lá quando estamos em trabalho de campo, visitando as famílias. As grades do andar de cima são parecidas com as calçadas de Vila Isabel, partituras musicais. Tem uma grande árvore no espaço externo nem tão grande assim, que passa a idéia de reverência à natureza, de comunhão dos espaços.
Os jovens, a galera, são como quaisquer outros da Grota: rap, Orkut, novela, baile, lan-house, problemas de repressão por parte de pais evangélicos, alcoolistas, milicianos etc. Agora, uma coisa diferente que notei é que eles têm a noção do reconhecimento de uma carreira, a de músico. Têm a noção do trampo, da trampagem, do esforço que se deve fazer para se seguir adiante. Muitos achavam um saco a racionalidade e a estética aparentemente idosa, gagá, da música clássica, mas depois de estudarem Mozart, Vivaldi e Bach, acabaram reconhecendo este mundo como um mundo maneiro, bacana, que tem suas coisas boas e ruins como qualquer outro. Mas, sobretudo, tiveram o privilégio que poucos dali tiveram, ou terão: o acesso, a escolha por algo que é, à primeira vista, completamente destoante do “normal” para a sua realidade e para os seus sonhos. Acho que eles podem ir além, trazer elementos do funkão, dos hinos, do pagode para a música clássica e fazer o som deles.
Antes da apresentação que fui, percebi que o violoncelista principal com cara de gente boa portava um boné escrito “reggae”. Perguntei: tu saca base de reggae no violencelo? Sei. Então vamos marcar um som: eu toco conga e tu toca violoncelo, poderíamos começar com Bob Marley e Peter Tosh, que tal? Bacana, pode ser, vamo ver, coisa e tal. Ele havia me adiantado que para formar banda era complicado, que ninguém estava topando, que não havia gente que aceitasse uma proposta dessas. De novo a questão do acesso, da comunicação: duvido deodó que nenhum músico do Rio ou Niterói não se interessasse por um projeto desses: reggae com a base de um violoncelo.

São “cordas” como essas de Márcio e D. Otávia que o mundo agradece, tira o chapéu, e grita viva! E como o que é bom e gostoso precisa ser falado e cantado, estou junto com Márcio, ainda bem devagarzinho, pensando num showzão para arrecadar dindin e ser destinado à reconstrução de Niterói pós-desastre – só para lembrar, na Grota morreram 14 e nesse momento existem mais de 500 desabrigados em escolas e igrejas. Nascida de um delírio, a minha idéia é um mega espetáculo em que a Orquestra, e talvez outros projetos semelhantes no Rio e Niterói, abririam a noite e depois viriam Lenine, Maria Rita, Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto, Teresa Cristina, Alcione, Zeca Pagodinho etc etc etc. “Só” preciso de um também mega... produtor. Alôou? Alguém poderia me ajudar?
“Tem que pensar grande, muito grande!”, outra do velho...

2 comentários:

  1. Que legal... Já ouvi falar desse projeto do Grota. Mas nunca dessa forma, naturalmente. (rs...). Muito legal. Muito legal. E no show eu já estou!
    Bjos!

    Ps: a revisão blogográfica é um desvio da revisão bibliográfica que, essa sim, TENHO que fazer e tenho feito (mestrado na uff psicologia mesmo, cuidado, trabalho em equipe de saúde, coisa e tal...). Acontece que para cada página da dissetação eu escrevo uma poesia e para cada referência um blog novo para visitar. Assim parece que tudo se equilibra. rs...

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  2. Alfredinho, meu querido! Marido vai bem e tua Luana? Mande beijos! Ler-te, ver-te pensando grande... Um bom projeto, como esse ai parece ser, suscita mesmo a vontade de altos vôos. E parafraseando Tom Zé, ninguém vai pensar que tu andas tão no eixo, porque pareces incapaz de ter um sonho idiota! :)
    Sorte no caminho e muitas outras idéias é o que te desejo! Beijos.

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