sábado, 3 de dezembro de 2016

novembro multicores




Estava 20 minutos atrasado, o dedo em riste rumo ao ponto eletrônico. O próximo paciente era jovem, recém chegado ao Rio e em grave sofrimento psíquico. Apesar de a consulta não ter sido marcada, tive que estendê-la por motivos óbvios, o que alcançou o horário do meu compromisso seguinte: ação coletiva da minha equipe de saúde nas ruas de Vila Isabel referente ao chamado “novembro azul”. Neste mês acontece uma campanha anual de conscientização do cuidado do homem que se iniciou na Austrália em 2003 e tinha como foco o câncer de próstata. Como hoje em dia nem o Ministério da Saúde, nem o Instituto Nacional de Câncer, nem os comitês sobre prevenção à saúde dos EUA, Canadá e Reino Unido recomendam o rastreamento de câncer de próstata em assintomáticos sem história familiar, decidimos focar nossa singela atividade nos fatores de risco que realmente importam para o homem: violência, tabagismo, etilismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis. Queríamos ir para onde supostamente os homens estariam numa tarde de sexta-feira: o bar. Para evitar um tom maçante e professoral de palestra e não atrapalhar o meio ambiente, decidimos, em vez de panfletar, criar cartazes com os seguintes hashtags:
# HomensMorrem+QueMulheres
#FiqueLongeDasArmas
#FaçaMaisAmor #EncapeOZé
#SaibaBeber #NãoVacile
#CigarroBroxa #éCaroeEnvelhece
#SeLigue #FrituraeGorduraEntopeCoração
No intuito de garantir que não seríamos ignorados, homens vestidos de mulher, e mulher de homem, pandeiro, marcação cênica e a música Tem Pouca Diferença, de Luiz Gonzaga.
Logo após a consulta com o jovem, corremos ao banheiro, o agente comunitário e eu, únicos homens do grupo, para colocarmos os vestidos emprestados pela minha mulher. Enquanto, de cuecas, apanhávamos com uns buracos existentes no colo do vestido que achávamos que era para os braços, mas era para os seios, adivinhem quem entra no banheiro após ter pego a medicação na farmácia? “Rapaz, veja só, vamos fazer uma campanha de saúde...” balbuciei totalmente sem jeito, ainda com jaleco na voz, para o meu jovem paciente que havia acabado de atender.
Quando já devidamente maquiados e ensaiando com o resto do grupo, ele já aplaudia e cantava junto, ouviram até ele comentar: “e ainda dizem que o doidinho sou eu”. A consulta havia sido ótima e ele ainda, raptz!, comete este insight freudiano?! Depois dizem que médico de família não deve participar das ações de promoção...
Desde o nosso primeiro bar, percebemos um achado antropológico: a maior parte dos bebedores de Vila Isabel no fim de tarde de sexta são do gênero feminino, bem-vindos à Vila do novo século. Utilizamos inicialmente como plateia cobaia os clientes de um bar, bem roots, na esquina da Visconde de Abaeté com a Boulevard 28 de setembro, os bebedores estranharam de início, mas fomos laureados no final com algumas palmas esparsas. Adiante, encontramos um compositor que fez questão de cantar o seu samba acompanhado do meu pandeiro. Estava só, mas acompanhado da oitava cerveja de garrafa. Montamos também o circo em outro roots bar Vila, na Duque de Caxias em frente à oficina de carros. Um pedreiro trabalhando no primeiro andar de uma casa na Torres Homem fez fiu-fiu para mim e Luiz, o agente comunitário, agradecemos como madames. De uma coisa tínhamos certeza, usar saias numa tarde quente no final da primavera em Vila Isabel é muito melhor que calças. Dá para abanar.

Como os bares ali do quadrilátero, o baixo Vila, estavam ainda repletos de mesas vazias, tentamos entrar no Hortifrutti da 28. Fomos gentilmente acolhidos pela supervisora, eu, elegantemente de batom, me apresentando como médico da nova clínica da família, mostrava-lhes cada membro da equipe e suas funções, mas infelizmente não conseguimos entrar, precisava da liberação do gerente de marketing, anotei o telefone e convidei a supervisora para conhecer a unidade de saúde da família. Precisávamos de um bar cheio, repleto de homens sedentos por informação sobre saúde e receptivos a uma performance político-musical.
Andamos toda a Jorge Hudge, sem nos animarmos muito. No fundo, já sabíamos onde seria nosso gran finale, um bar na beira da São Francisco Xavier, barulhento e quente, chamado Loreninha. Os estudantes da Uerj praticamente colam o grau ali, além de ter gente de outras tribos devido ao preço acessível da cerveja em temperaturas boreais. Bingo! Lotado e repleto de homens sedentos.
Sempre quando começávamos a performance, as pessoas olhavam meio de canto “não tenho dinheiro não, moço”. Quando, no final, entregávamos os preservativos e o kit da saúde do homem com cartilhas e outros penduricalhos, as pessoas sacavam que não éramos vendedores de rua, e aí alguns batiam palmam, os garçons davam um legal e partíamos. O Loreninha estava lotado e decidimos fazer nossa mini-apresentação sem comunicar ao dono. Quando me posicionei, olhando para a rua, na soleira do piso de cima do bar e comecei “que diferença da mulher o homem tem?”, vi no canto do olho a indecisão da dona em me expulsar ou não, estava muito confuso para alguma decisão rápida: vestido de mulher, todo pintado, com aparência de zona sul, sotaque de nordestino e não era um calouro.
A apresentação era organizada previamente para combinarmos o local de cada um no intuito de todos os clientes poderem nos ver, permanecíamos alguns segundos em estátua, e eu começava a música, havia uma deixa para que um erguesse pausadamente o cartaz, e assim era seguido, também lentamente, por todos. Na segunda deixa, eles começavam a se mover como aquelas mulheres no intervalo do boxe, passo decidido e sorriso largo. Novamente paravam em outras posições e dois deles largavam os cartazes e distribuíam os kits e preservativos, enquanto eu ia ficando rouco, competindo com o barulho dos ônibus. Apesar do constrangimento da dona, tudo estava ocorrendo na perfeição. Quando acabou, fiz um discurso breve sobre o cuidado dos homens, e agora chegou a parte mais interessante da crônica, lá ia eu falando sobre violência como causa de morte importante entre os homens, levantei a mão imitando uma arma quando para abruptamente, juro, um carro da polícia militar em frente ao bar. Um garoto de rua que estava ali vendo nossa apresentação da calçada percebe, fica lívido, e parte em disparada sentido 28 de setembro atropelando os jarros de planta. Dois policiais rapidamente saem do carro com a arma em punho, todos do bar se curvam, preparando-se para o chão. Desistem de atirar e entram no ônibus atrás de um suposto segundo garoto, todos do bar assistindo à cena. Não o encontram, entram novamente na viatura e partem zunindo de sirene ligada. Não me curvei, estava de camarote, virei estátua na soleira do piso do bar. Quando a poeira desceu, terminei o meu discurso interrompido com um “tão vendo? Eu não disse? Se cuidem!”, olhei para a dona que a esta altura já era nossa camarada e nos trouxe uma cerveja boreal. “O negócio aqui não tá brincadeira não, doutor”.
Voltamos para a clínica sem muita conversa, já havia mais gente na rua sedenta à procura de bares, a gente meio já esquecidos de nossos trajes, uma menina passou por nós “sen-sa-cio-nal!”. Rimos e nos percebemos: a Clínica da Família Pedro Ernesto não mais possuía uma equipe com o nome Manoel de Abreu, havíamos nos tornado a Equipe Azul Profeta de um Novembro Homem.






terça-feira, 3 de maio de 2016

nascido

Palavra rebenta quando quer. Nasce tanto em lençol de guardanapo, quanto num berço de papel esquecido.

Palavra que transborda gofa letra, sai se derramando em frases.

Não quero buscar dados em bancos, nem ajustar o método à pergunta. Não vejo sentido em traçar argumentativos caminhos de ida rumo a mim mesmo. Não tenho pretensão em pôr gravatas em pingos do i.

Prefiro acreditar que papel em branco é terreiro sagrado guiado por todas as incertezas de um universo que acaba de ser parido.

Possuo um único objeto direto: amar. Sou um dogmático escancarado a seu dispor, nego-me veementemente a ser argüido nesse ponto. Questionar meu deus dissílabo seria o velamento. O último a-deus.

E nunca fui de apostar na pirraça da maldade.
Corram para amar, ou melhor, parem e amem. amém. E que assim seja.




planejamento

penso
tenho tesão
ajo

tenho tesão
ajo
não penso

ajo sem tesão
não penso

penso sem tesão
não ajo

tenho tesão 
ajo ajo ajo
não penso

não tenho tesão
penso penso penso
ajo




sexta-feira, 24 de julho de 2015

carta para Tomás 2

Filhote, seu pólo cefálico coroou no pólo sul da mamãe e eu estava lá, em transe. Escrevo esta carta para lhe narrar a experiência mais visceral que seu pai já viveu, sei que é chato fazer pedidos, mas gostaria que você a relesse no seu aniversário de 60 anos, em 2075. Nem sei por que lhe pedi isso, deu vontade.
Experiência literalmente visceral vivido por sua mãe no percurso de um trabalho de parto no qual a primeira contração já se distanciou de um intervalo de apenas 5 minutos da segunda e assim por 11h.
Tomás, meu filho, você é um lorde vitoriano: já com 37 semanas esperou seu pai defender o doutorado no dia 5, concedeu à sua mãe um prazo de uma semana a partir de sua licença e, fabulosamente, nasceu na data provável do parto (DPP), 22 de maio, apenas 5% dos bebês no mundo são tão pontuais. E, para ninguém ficar nervoso, esperou o momento do passe perfeito para dar um chute mais forte e romper a bolsa amniótica: seu pai havia acabado de chegar da aula de natação, o momento mais benzodiazepínico da semana, e nós havíamos acabado de saborear uma sopa de ervilha numa noite climatizada de outono. Luxo só.
Tínhamos uma certeza, estúpida como todas as certezas, de que obviamente você não viria por aqueles dias, sua mãe estava ótima, tinha acabado de vir andando da casa dos seus bisavós até nossa casa, uma distância de 5,6 km, e já havia combinado uma prainha no outro dia.

Nesse percurso, da Gávea até aqui na Rua Faro, ela fez questão de atravessar o Jardim Botânico, o parque construído pelo proto ecologista D. João VI, a miragem verde sobre a qual a Lispector imortalizou numa crônica, o ato gratuito, onde o Jobim praticava sua religião de ouvir passarinhos, o pedaço de chão que esconde toda a força tupã-oxóssi ancestral desta cidade. Muitos dizem que não, por ter sido um jardim construído pela metrópole com espécies cientificamente escolhidas de todos os continentes. Porém, ninguém me convence do contrário: há uma grandeza de mistério e saudade no silêncio verdejante entre o bambuzal e as andirobas. No coração, uma tamanha fertilidade povoa aquele verde-escuro. A sumaúma amazônica, uma das maiores do mundo, modifica as pessoas que lhe rodeiam, enraíza-nos. O passeio despretensioso de sua mãe foi fundamental para o peteleco de vida que faltava.
Interrompe a sopa de ervilha: “vê se isso é xixi?” Até então nunca havia presenciado uma ruptura espontânea de bolsa, apenas as violentas amniotomias praticadas nas salas de gritos durante minhas práticas de obstetrícia na faculdade. Não sabia que poderia pingar. Mas era. Sabíamos que em menos de um dia você chegaria, então brindamos um vinho branco, não havia tinto na adega.
No entanto, achava que dali em diante viria tudo lentamente, contrações com intervalos largos... Que nada, sua mãe nem acabou a taça do brinde. A minha agonia era a de que mesmo com contrações lhe abraçando forte de 5 em 5 minutos, eu não poderia realizar o toque, a bolsa tinha rompido, eu não tinha luva estéril. Liguei para Heloísa, sua enfermeira obstetra, a quem um dia você vai pedir bênça, e comecei a rememorar os passos do período expulsivo, para mim havia essa chance concreta... Helô chegou umas duas horas depois e pegou seu pai no flagra, eu juro que estava com medo de uma primípara dar a luz em 2h de trabalho de parto, praticamente impossível medicamente falando. Revelo: quando sua mãe ia ao vaso, eu tinha medo de ver seus cabelos. Helô não deu muita bola quando lhe disse que a contração era “rochedo”. Bom, de dinâmica uterina, pelo menos, eu estava ok. “7cm? é boa nisso, hein?” Eu sabia que sua mãe era boa parideira desde que a conheci em Cuba, mas 7 cm em 2h eu não esperava. Senti-me melhor ainda em obstetrícia, tanto Helô quanto eu sabíamos que em poucas horas poderia sim que você chegasse ali na cama dos seus pais. Heloísa olhou para mim sem sua mãe perceber e disse “simbora!” com uma piscadela. Virei Flash, a sua bolsa estava pronta, mas e a da sua mãe? E a minha? Havíamos nos mudado há 2 meses. Na minha mochila ensaquei tudo que achei muito importante, uma camisa, uma cueca, livros de Neruda e Bandeira, um caderno de anotações e uma caneta. Havia planejado que escreveria durante o seu parto uma poesia visceral, escrita em lágrimas de tinta, uma coisa meio Rimbaud e Rilke. Reuni todas as bolsas, peguei chaves, sua mãe, Heloísa, estava eu com o apartamento nos ombros. Entramos no carro, sua mãe em contrações de 5 em 5. Sempre tive uma ideia persecutória de como deve ser o grau de tanquilidade do motorista nessas ocasiões de parto e emergência. Respirei fundo e dirigi joão gilberto, Helô me pedia para encostar a cada contração, e eu ali, um motorista conduzindo Miss Daisy, atendia elegantemente. O desespero começou quando tive a certeza de que o túnel Rebouças estaria fechado, mas não estava, não era terça-feira. Pensei em inúmeras coisas, facas, narcotráfico, batidas, errar caminho, pisei fundo. Consegui sair da bad trip já na maternidade, elas subiram rapidamente para o quarto e eu me vi novamente um sujeito calmo de fala baixa na recepção, até me pedirem o RG e carteira do plano da sua mãe. Não tinha. Antes de refazer o percurso todo de volta, meu smartphone me salvou, havia emails antigos com número do cartão e jpg da identidade. Primeiro conselho, filho: não apague seus emails.
Peguei o essencial para entrar no bloco cirúrgico: livros, o caderninho, uma caneta e um celular descarregando, vesti-me de cirurgião e encontrei sua mãe na banheira. O quarto era pequeno, sem televisão, uma maca obstétrica de boa qualidade e uma honesta hidromassagem no banheiro. A penumbra era fundamental e a equipe sabia disso, Gabriela, sua obstetra, deu play numa música meio Tinariwen ibérica, outra a quem precisarás pedir bênça. Ainda era 1 da madrugada e sua mãe já apertava minha mão na banheira com intensidade maior do que aquelas brincadeiras de adolescentes que um dia você vai conhecer. Entendi que a dor era “do fim”, segundo Luiz Gonzaga. Por aí comecei uma atividade de massagem que só iria terminar às 8h06m, foi uma prova prática de massoterapia, tenho a certeza que ainda receberei pelos correios o título de especialista pela sociedade de massoterapeutas, fui aprovado pela equipe e quase tive cãibras nas mãos.
Levanta, rebola, não quer mais banheira, maca, cadeirinha, tudo doía, claro, seu polo cefálico invadia o polo sul da sua mamãe, respira, respira. Gostava de uma posição sentada na maca com uma perna para fora e a outra dobrada, talvez por isso e, segundo Helô, pelo encucamento no neocórtex, uma parte do colo uterino fez beiço. O edema só foi reduzido após a anestesia pela Fernanda Satty, sua obstetra auxiliar, outra bênça. O momento da anestesia às 3h foi quando caiu a ficha que estávamos numa maternidade, a Medicina arrombou a porta do quarto. Acende a luz, desliga o Tinariwen, “pode sentar, mãezinha, e coloque a cabeça pra frente.” Reclama com a técnica que o campo está errado. The dream is over.
Em vez de relaxar e dormir, o objetivo da anestesia para desfazer o beiço, sua mãe começou a não sentir do quadril para baixo, pois é, drogas mesmo nas posologias indicadas podem causar revertério. Talvez quando você for pai ou avô a farmacoterapia genética personal esteja em voga. À medida que as drogas iam sendo metabolizadas, sua mãe parecia que estava num bar em Santa, papeou com a equipe, reviu meio mundo que estava de plantão e que não via há tempo. Pensei em catar umas cervejas na cantina. Eram 3h30m. Mas as pernas voltaram ao normal e as contrações voltaram dicumforça. Fecha o bar, liga o Tinariwen, baixa a luz. Tentávamos evitar a posição sentada na cama, levanta, rebola, massagem, agacha. Não queria mais banheira. O chato é que o danado do beiço não havia desinchado, veio nosso primeiro medo de mudar de sala e irmos para o bloco do lado. A madrugada passa rápido ali em Laranjeiras, nos intervalos das contrações ouvíamos gritos das colegas das salas contíguas, bem tragicômico, às vezes entoavam uma melodia, recortada com um “ya hooo!”. O ponteiro dos minutos zunia na parede.
Senti uma injustiça imensa de não compartilhar com sua mãe as dores, poderia ser pelo menos 3 para 1, fiquei com medo de um vasovagal, ela apagar de tanta dor. Inda bem que havia tomado a sopa de ervilha. Fernanda entrou e falou mansamente que sempre foi boa em práticas manuais, em manobras e procedimentos, que iria tentar reduzir o beiço com os dedos, o edema do colo do útero, que não deixava seu pólo cefálico avançar. Ainda restava um filete bioquímico do anestésico. Não doeu nada, uma manobra que costuma espremer gritos. Você adorou.
Eram 4h30 e achei que você viria em no máximo 2h, comecei a calcular seu mapa astral, dava ascendente em Touro, apegado demais, fiz bico, mas não poderia reclamar mais de nada, você havia esperado eu acabar a aula de natação. Vagou um banquinho da colega do lado, que teve bebê, um banquinho nada demais, apenas com um design para período expulsivo, lavamos o sangue da colega e testamos com sua mãe, ela aprovou, foi assim que você nasceu. No entanto, ainda teve muita rebolada, sua mãe caprichava nisso, Helô usava a técnica do reboso, chacoalhando um pano tensionado nos quadris, você curtia e dançava um tipo Fela Kuti de cabeça pra baixo.

Já havia passado o ascendente em Touro, já eram umas 7h30, e eu havia entrado num transe do qual não lembro nada semelhante no meu passado psicotrópico, sua mãe estava esgotada, já pedia clemência sem nunca ter sido batizada. Sentado por trás dela e a ela abraçado, comecei a revirar os olhos e fazer força durante as contrações para que você fosse um pouco mais abraçado. “Vamos fazer mais três”, ou “essa é a última” foi repetido várias vezes pela equipe, como se estivéssemos regredidos, aceitávamos igual uma criança e suas colheres de aviãozinho. Até que as obstetras deitam no chão com o foco do celular aceso e dizem, “põe aqui o dedo, tá aqui”. Sua mãe não viu isso, mas eu vi pelo ângulo de cima uma contração na qual um pedaço da sua tufa apareceu e voltou. Eu chorava.
Gabriela depois confidenciou para sua mãe que nunca usou tanto sonar para ouvir batimento cardiofetal no período expulsivo quanto no seu parto. Sua mãe traçava a conduta, no intervalo da contração: “vamos avaliar mais uma vez?” Foi tanto, que chegou o momento mais tenso de todo o parto. A sua tufa já aparecendo e o sonar emitindo uma ruidosa bradicardia, aquelas bulhas produziram muita noradrenalina em nossas adrenais e ressonaram como aquele tema musical de Kill Bill. Gelamos. O maior pavor da sua mãe desde os primeiros anos de residência em pediatria eram os bebês da neurologia pediátrica, muitos sofrem sequelas graves e morrem cedo por causa de asfixia no canal de parto, porém esses partos são geralmente horrorosos, cheios de intervenções desnecessárias e precedidos de um pré-natal negligente.
Sua frequência cardíaca logo voltou ao normal e, acredito eu, foi o que sua mãe precisava para, em poucas contrações adiante, fazer a maior e derradeira força se agachando para adiante do banquinho e fazendo com que você ouvisse melhor o som do Tinariwen ibérico.
Filhote, você era a tranquilidade personalizada, não deu um pio, sua mãe ficou nervosa e perguntou se Lívia, sua pediatra, bênça, não queria levá-lo, “claro que não”, você acabou de nascer e já dava lição: “não criem pânico!”. A felicidade jorrava dos nossos olhos e enchia toda a Baía de Guanabara, despoluindo Paquetá, passando pela Lagoa Rodrigo de Freitas e indo até o emissário do Leblon e Cagarras. Sem um centavo do Eike. Passei 30 minutos contados de relógio chorando, “vai ali e pega uma gaze com a técnica”, lá ia eu “boom diiaa, poor favor, umaa gazeee”. Levei você no berçário, mostrei-o para todos do vidro, tirei fotos, zap, tomei um expresso e uma água. Tudo chorando.
Fernanda e Gabriela me revelaram que fizeram questão de serem exatas nos minutos, tinham reparado em mim calculando o seu mapa. 8h06m. Gêmeos com ascendente em gêmeos. Foco, meu filho, foco.
Não sei se você notou, na sua primeira carta, chamo-lhe de Tomaz, com Z. Essa letra foi uma questão de intriga durante a gestação. Sua mãe e amigas eram do time do S, suas avós, inclusive minha sogra, meus amigos e eu, do Z. Há um cartório no subsolo da maternidade em Laranjeiras, assim que o deixei no quarto com sua mãe, tive essa incumbência. Antes eu brincava que quem iria registrar seria eu mesmo, então a mim cabia a decisão. Depois de 11h de trabalho de parto, nem pestanejei: “Tomás com S, né?” E fechei a porta.
ps1: recomendo-lhe usar Tomaz em qualquer coisa que possa fazer com esse gêmeos com ascendente em gêmeos.
ps2: o que saiu do poema Rimbaud e Rilke foi esse brega-Bandeira aqui:
to mais feliz
com tomás aprendi
to mais eu
to mais nós
to mais aqui
papai, mamãe,
vovô e vovós
saúdam o pequeno
com tomás renascemos

Beijos do seu pai que o ama desbragadamente,
Alfredo


quinta-feira, 7 de maio de 2015

Carta para Tomaz

Filhote, de agora até seu pólo cefálico coroar no pólo sul da mamãe, lhe mandarei cartas adiantando nossas conversas neste mundo novo para nós dois.
Hoje sonhei com seu avô, Bianor, vovô Bibi, que só conhecerás por fotos, poucos vídeos e histórias de monte. Trajava linho branco, como era seu costume às sextas em homenagem a Oxalá, mesmo sendo filho de Oxum. Estava num bar bonito, decorado por madeira e luz baixa, cercado por gente risonha. Lembrou-me de que nos vimos última vez também num sonho, era carnaval, eu de Chacrinha. Vagamente. Muito raro sonhar com seu avô, raro lembrar sonhos, vivo sonhando de olho aberto.
Você iria curtir bastante vovô Bibi. Na minha adolescência, era o pai predileto dentre os pais da minha gang. Extremamente liberal no nível do comportamento, sair com “tio Bianor” era sempre uma grande aventura na noite dos adultos. Como a contradição mora no cromossomo humano, ele me permitia na infância pilotar lanchas, mas nunca, e o “nunca”dele tinha força, atravessar a Av. Boa Viagem para tomar côco verde, ou me aventurar pela praia junto com meu bando. Já crescido, torcia o nariz quando eu peitava frequentar shows de rock, mas fui o primeiro da minha geração a ganhar um carro. As mães dos meus amigos achavam um absurdo, e era, eu tinha 14. “Tio Bianor é uma gréia”, só escutava.  
Os sobrinhos preferidos e eu recebíamos presentes de sonho: Castelo de Grayskull, caiaque personalizado com a grafia do nome, roupa de neoprene e aparelho de mergulho completo, home computer Hotbit MSX, passagens pra Disney, teclado Minami MP 2020, Fiat Uno vermelho zero km e um Del Rey conversível de marcha automática, ar-condicionado, vidro elétrico – quase uma mágica no final da década de 80, que ainda tinha uma televisão de três polegadas com sinal ruim que ficava embutida no som do carro e cuja a imagem era ampliada por uma lente. Para deixar a cena mais pitoresca para época, havia um telefone sem fio com um sinal de curta distância, mas que dava para usar no miolo de Boa Viagem em torno do prédio onde ele morava. Aos 8 anos, em 1987, ganhei um cartão de crédito, Dinners Club International, luxo só, porém novamente a controvérsia, ou a sabedoria, eu só poderia utilizar com a sua presença, nas compras que ele aprovasse. Paguei muita conta no Nino`s em Copacabana durante minhas férias em jantares regados à cavaquinha e uísque. Em todas as eleições antes de retirar meu título, ele me levava à cabine e me mandava votar, “não quero me responsabilizar, o futuro é seu”, deu no que deu, acabei votando no Collor. Claro que quando havia amigos seus como candidatos, e sempre havia, ele mudava minha caneta, “é melhor aqui ó”. Todo ano novo, ele segurava no gargalo uma Dom Perignon e servia um gole na boca para cada um dos seus, sempre usava o mesmo short preto e uma camiseta amarelo-ouro. De novo Oxum. Fazia anualmente uma festa ecumênica gigante na praia, em frente ao seu prédio, na qual juntava a sacristia da igrejinha de Boa Viagem com pai de santo e baianas, que rodavam a saia na beira do mar enquanto incorporavam. O padre começava a missa, havia imagens de cristo e Nossa Senhora da Conceição. Constituía uma cena típica de um filme de Glauber. Isso tudo acontecia à noite, o que me enchia de medo e curiosidade.
Medo e curiosidade era o que eu sentia pelo vovô Bibi durante toda minha infância e adolescência. Extravagante e supersticioso, liberal e repressor, irascível e educado, perseverante e perdulário. Um anarquista com pitadas de punk no comportamento e na moral, e um conservador na política. Excêntrico, megalomaníaco que amava seu pai “desbragadamente”. E, aqui pra nós, nenhum brinquedo me enchia mais de felicidade quando ele de soslaio me olhava e dizia: “É craque.” Isso acontecia com alguma nota dez na escola, ou em coisas que eu fazia e só ele enxergava tanta craquice. Depois que seu aneurisma na artéria comunicante anterior se rompeu, numa hemorragia subaracnoideia severa, a única sequela que sofreu foi uma mudança de comportamento... para melhor. Saiu do uísque para a cerveja, ficou mais manso e mais sociável. Nesse momento, perdoei-lhe por falhas e imperfeições, perdi o medo e joguei o karma no lixo mais próximo. Pena que durou pouco e vovô Bibi partiu aos 59.
Há milhões de outras histórias do seu avô que reunirei num romance sobre esta curiosíssima família Oliveira, mas o que quero lhe falar mais objetivamente nesta primeira carta é que te livrei de se chamar, em vez de Tomaz, Bianor de Oliveira III. Não só vovô Bibi queria, como você era naturalmente, numa tradição de no mínimo cem anos, a próxima vítima. Seu trisavô, Bianor de Oliveira teve o caçula, Alfredo de Oliveira, que homenageou o pai no primeiro filho homem, vovô Bibi, que teve o filho único, até onde eu saiba, Alfredo de Oliveira Neto, eu, que quebrei esta corrente Bianor-Alfredo.
Quase, meu filho, por pouco.
Saiba que estou adorando nossa comunicação mão e chutes, tenho a certeza de que já reconheces quando é o papai, muitas mãos não recebem tantos chutes. Saiba que você já orgulhou muito o papai, pois seu primeiro movimento foi durante o disco Arena Canta Zumbi, você deve ter se empolgado com o batuque.  Você está agora com 37 semanas, cuidado com a cabeça ao se encaixar, tome conta do seu fígado recém-formado, e quando estiver naqueles soluços chatos, tente dar uns apertinhos no cordão. A partir de agora a mamãe me prometeu que vai dormir mais e falar menos ao telefone.
Tomaz, muita calma nessa hora, porque segundo Heráclito e o Lao-Tsé, tudo flui. Medite, meu filho.
Do papai que te ama desde que você tem 6cm,

Alfredo

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

o grande canal

a divina marquesa da ponte me conquista

enche de esperança  meu asfalto

muita gente atravessa

cabelo branco, boina, guarda chuva de amanhã

pouca gente fica sob um arco gótico e desmitifica todo
 renascimento veneziano

touca

um telefone rouco de um italiano seco no meio do tudo molhado

barroca é uma igreja longe manchada de fog

a divina marquesa da ponte me conquista

sorri gioconda e sua gargalhada faz marolas nas escadas do cais

molha meus pés descalços

cade minhas botas de borracha?

tem uma viela no meu olho de água estreita

reflete pedra de peso medieval

a quantos graus da proa a gondola girará?

espreita

o vaporetto torto numa ré sobre o porto

Mercato

Veneza comprou a seda da China

e a divina marquesa me ensina

que cada ponte me leva a Rialto


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

bom dilma

Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jaques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)


Um dia passando de táxi na frente do Palácio da Alvorada vi no piso superior direito uma sala de estar ampla e bonita com uma grande TV ligada e tive a certeza de que a senhora estava lá. Já ia alta a madrugada e pude lhe ver sentada numa poltrona violeta, vestida com um tailleur branco com detalhes pretos, pés descalços com unhas bem feitas amparados no banquinho em frente, um tablet desligado no colo e os olhos fixos na TV. A sala em meia luz. Fiz mais um esforço para imaginar o que estaria na tela e, claramente, me veio o último capítulo da segunda temporada de House of Cards, que seu colega Obama já tinha visto antes de nós dois. Digo colega porque best friend está longe de ser após Snowden e WikiLeaks.
A inescrupulosa escalada ao poder do Frank Underwood nos convida à reflexão dos nossos próprios limites entre desejo, razão e ética, mas também salpica na tela toda a sujeira por detrás do paletós, os financiadores de campanha, os lobistas e todas as mais de 500 espécies de anelídeos sanguessugas que se alimentam de milhões de eleitores-hemácias. Pois bem, nesse mesmo dia em que lhe vi no Palácio, presidenta, havia votado “sim” no Plebiscito por uma constituinte exclusiva, o embrião da reforma política. Sei que a senhora também votou igual a mim e a 7.999.999 brasileiros.
Presidenta, eu lhe mando cartas desde 2011, sei que você as lê com carinho, mesmo sem entender uns trechos, já foram mais de 15 correspondências. Saiba que apesar do mensalão, de apertar a mão de Collor e Maluf, de denúncias diárias do Globo, Folha, Estadão e Veja, votei na senhora no primeiro turno e assim o farei no segundo, e sabe por quê? Porque em 44 anos de vida brasileira nunca havia conversado com uma empregada doméstica na poltrona ao lado do avião, nunca paguei tão caro a uma diarista e nunca, mais nunca mesmo, vi uma agente comunitária de saúde estudando medicina em uma universidade pública, tendo ainda como colega de turma a sua filha. Para a senhora ter ideia desse nunca, no meu tempo de faculdade havia apenas 1 negro nas 12 turmas,do primeiro ao sexto ano. E era de filho de diplomata.
E quer saber o que eu acho dos podres que eu mencionei lá em cima? Desde o Partido Republicano Paulista, primeiro partido republicano fundado antes da proclamação, sabe-se que para assumir o maior poder executivo do país precisa esquecer qualquer rito religioso praticado na infância e fazer alianças com divinos, centro-divinos, centrão, centro-demoníacos e demoníacos. Com os extremistas de ambos os lados, seja de esquerda ou direita, seja de cima ou debaixo, não se mexe, nem se entra em acordo, apesar de serem essenciais para se tensionar o tabuleiro do jogo senão o dado pula.

Daí a existência do Collor, Sarney, Maluf e Renan, o que deixaria novamente em coma um militante do PT que teve um acidente vascular hemorrágico vendo o famoso debate Collor e Lula na Globo em 1989, e que acordou na primeira década do século XXI e deu uma zapeada na TV. Claro, seria um choque comparável a uma mulher que viu o beta HCG positivo na quinta semana e na sexta pariu. O sujeito era de esquerda ou extrema esquerda e acordou como centro-esquerda ou centrão, que é sinônimo de PMDB desde 1989, ou 1889, sei lá...
Sobre o mensalão, Presidenta, resumo-lhe este diálogo que escutei na ante-sala do Congresso nos idos de 2004 ao lado de Eduardo Jorge, antes de ele ser secretário de saúde dos demoníacos (DEM), quando lá estávamos balançando faixas do movimento médico sindical contra o desmonte do CPMF:
- Não tem como a gente falar das mesadas! (cochichando) É assim desde que o Congresso é Congresso.
- Última carta, ninguém tem outra ideia pra acabar com a reeleição.
Para mais informações sobre isso, especificamente sobre o envolvimento do Joaquim Barbosa, aconselho-a reler minha última carta que lhe enviei em fevereiro, especificamente o trecho sobre o fatídico dia em que o encontrei no Metropolitan de Nova Iorque e lá, dentro do museu, o que a deusa Osíris me revelou no Templo de Dendur. http://riocife.blogspot.com.br/2014/02/bom-dilma.html  
Segundo o profeta satírico alemão, Brecht, que também era médico:
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.
Claro que Brecht está certo e, por isso, aqui no Rio votei no Tarcísio, Chico e Freixo, claro que toda essa naturalidade do jogo político é um lixão que produz várias estamiras esquizolúcidas, que nos enlouquece, nos confunde, mas, em paralelo, vai-nos polindo a razão e trazendo a angústia da lucidez no meio da rua de uma humanidade engarrafada. Entretanto, não se pode negar que o eixo estruturante do desenvolvimento econômico adotado pelo PT nesses 12 anos de inclusão social e de distribuição de renda, que culminou, segundo a ONU, com a retirada do país do mapa da fome mundial, e com a agente comunitária de saúde numa turma de medicina, não é absolutamente nada natural comparado com todo o período republicano, monarquista e colonial brasileiro.
Em relação às denúncias do Globo, Folha, Estadão e Veja, presidenta, é só ler um pouco a história da imprensa nesse país e entender que os Diários Associados, o Correio da Manhã e o Diário de Notícias nas décadas de 40 e 50 e o próprio Globo na década de 60 sempre foram contra qualquer governo que ousasse uma mísera que seja distribuição de renda via políticas sociais, ou que garantisse mais direitos trabalhistas, muito menos que propusesse debates mais progressistas como reforma agrária, ou reforma política. Assim se deu com o último governo de Getúlio, com o de JK e de Jango. É só lembrar que apenas um jornal de alcance nacional foi contra o golpe militar, “A Última Hora”, de Samuel Wainer, que eu sei que na época a senhora morria de vontade de assinar, mas era muito centro-esquerda para uma VAR-Palmarense. Portanto, presidenta, ter esse batalhão monopolista e quase monárquico produzindo diariamente manchetes negativas quer no mínimo dizer que a senhora está no caminho certo.

Em contrapartida, os paradoxos não podem justificar os fins. Para além de um partido que cresceu tanto, desconfigurou-se, e perdeu sua unidade dando margem a aventureiros mercenários, eu não aguento mais essa insistência na indústria automobilísitica e a redução eterna do IPI, mesmo sabendo que isso sustentou a crise internacional.
Diversifique, pelo amor, o setor industrial, ou invente o impossível: “compre seu carro e leve de graça uma rua, uma avenida ou um viaduto. Monte seu próprio bairro.”
Da mesma forma, não mais suporto que as políticas de transferência de renda sirvam majoritariamente para o jovem comprar moto e se acidentar, TV led e se emburrecer, smartphone para entrar no Face, e diploma de facul privada que se multiplica por geração espontânea. Produzimos a nova classe rolezinho-funk-ostentação, que quando se descasca, falta o tutano. As 23 milhões de carteiras assinadas, a amplidão do mercado interno, do consumo de massas, o aumento sustentado do salário mínimo, que fez grande fatia da classe média lavar louça e passar um pano no banheiro, precisa ser acompanhado de um investimento muito maior que o do Templo de Salomão no salário e capacitação do professor público, do Infantil à Pós-Graduação. O querer aprender com a vida nos tempos de zap zap e Face precisa produzir um novo universo de criatividade e esforço didático para se crescer, curtir, compartilhar, e crescer novamente.
Voltando ao meu solitário passeio noturno em torno do Palácio da Alvorada, nós sabemos muito bem quem é o Underwood tupiniquim. Toda vez que vejo o Never falando em acabar com a corrupção, inflação, e que vai fazer o país crescer lembro do Frank sozinho no salão oval em pé por detrás da cadeira presidencial se entupindo de orgulho e dando as duas rápidas batidas na mesa com a mão direita. É bom colocar os pontos no U, como dizia meu bisavô alemão: compra de votos para reeleição de FHC e o superfaturamento de trens e metrôs em São Paulo são exemplos corrupção no PSDB, a inflação no governo FHC era maior que todos os 12 anos do PT, e a estabilidade da moeda com o Plano Real em 1994 se deu graças a um endividamento brutal da dívida interna, o que culminou com a quebra do Brasil por três vezes, tendo-se como “solução” o maior OFF Brasil que já se teve notícia com dezenas de privatizações a preço de paçoquita. O PSDB materializou literalmente a canção “Aluga-se”, de 1980, do também profeta Raul Seixas, que cantara a pedra: “É tudo free / Tem o Atlântico, tem vista pro mar / a Amazônia é o jardim do quintal”.  O que mais me entristece, presidenta, é a quantidade de gente estudada que embarca nessa farsa com o único argumento de “mudar”, como se o Never representasse o que há de mais progressista de projeto de sociedade para o futuro do país. Abre a boca para falar de meritocracia, quando sua grande meritocracia foi ter virado mórula, blástula, gástrula e por aí vai após o encontro das células germinativas dos seus pais.

Para um eventual desastre, já organizei meus anti-depressivos e benzodiazepínicos na farmacinha do banheiro, como um bom virginiano, e reservei passagem de ida para Montevidéu, nossa Paris dos anos 20. A senhora poderia finalmente realizar o desejo de, desculpa a intimidade, pegar o Mujica. Eu seria o médico dessa nova família, e todo domingo dançaríamos um Candombe e enviaríamos axés para Lula aguentar firme até 2018.
Mas, não! Definitivamente, never. Chacoalho a cuca com Marte passando em trígono com meu Mercúrio em leão na casa 7, e aperto forte a guia de Iemanjá. Rezo para que o Estado seja laico, graças aos homens.
Presidenta, segundo Bertoldo Brecha, “veeeenhaa!”. Contudo, venha sabendo que, além do baixo crescimento, serão anos que o governo federal, diante de um Congresso mais reacionário desde 64, se não tiver clareza de que lado está sambando, vai descer até o chão.
É manter mais ainda a atitude multilateral na política externa, porque se aliar à cadeia produtiva global é copiar o fracasso mexicano e voltar à cartilha do FMI. É ter raça para baixar a Selic e investir na indústria nacional com sustentabilidade energética, sem medo da inflação, e longe dessa aberração de deixar o Banco Central “independente” nas mãos dos bancos privados. É fazer mágica com os estados e municípios para elevar a qualidade da saúde e educação sem privatizar. É desfivelar o cinto do Centrão e chegar mais perto da base e dos movimentos sociais. É fazer com que eu não consiga mais pagar minha diarista e passe o pano no chão do meu banheiro, é lotar um A330 de empregadas domésticas e pedreiros rumo à Fernando de Noronha.
Mas qualquer cuidado é muito pouco, vi na TV agora mesmo a senhora passando mal numa entrevista e dizendo que foi “pressão baixa”. Na verdade, foi um piti, um faimizim, uma bilora. Receito-lhe sal grosso no bolso do taileur, parar de assistir House of Cards, e ler todas as minhas cartas antigas para rir um pouquinho. Muito importante: nunca fixar o olhar no riso sardônico do adversário. Em vez de ele bater duas vezes a mão à mesa, por trás do riso ele dá duas trincadas na mandíbula para consumar o ato final. Mentalize: Underwood never.


Cordialmente,
Dr. Luiz