sábado, 26 de agosto de 2017

carta para Tomás de um sábado qualquer

Porque hoje é sábado eu leria o conto Hills Like White Elephants, do Hemingway, só porque estou na fase pilhada com o autor em busca da macroeconomia do texto. Usaria o google tradutor a tiracolo para salvar palavras que desconheceria para usar em futuros poemas, leria pausadamente em voz alta, mas não muito, e quando estivesse em dúvida da pronúncia iria novamente ao Tradutor para ouvir a clareza de um sotaque padrão BBC / PBS. Tentaria o original no scribd onde geralmente acho tudo. Depois pegaria no violão I Fall in Love too Easily, não na versão Sinatra, mas do meu favorito Chet Baker naquele seu segundo disco de 56, e depois de muito treino gravaria no celular e enviaria para grupos de zap muito seletos pedindo para prestarem atenção na interpretação naquela passagem. Tudo muito chato virginiano, mas faria.

Porque hoje é sábado todas essas ações seriam acompanhadas pela minha única garrafa de vinho que tenho em casa, a Porca de Murça 2012, do Douro, uma mania familiar. Mestre Giba, seu avô materno, descobriu que esta "porquinha"conseguiu 90 pontos no Wine Expectator, não contamos para quase ninguém, e o Zona Sul, que o importa, parece não se importar com o preço.
Por fim, neste mesmo sábado, acabaria de ver no Netflix o documentário Empire of Dreams, sobre a primeira trilogia do Star Wars para ficar imaginando durante toda a semana: por que George Lucas insistiu profundamente num gênero fadado ao fracasso para a década de 70? O que faz com que pessoas como ele, Van Gogh, Freud, Cristo, Marx insistam em temas e linguagens que todos os amigos mais próximos recomendam não mergulhar, alertam do fracasso, e eles persistem apesar de tudo e de todos? Será que ouvem vozes? Possuem alguma segurança sensitiva metafísica ou espiritual? Cristo foi claro em dizer que sim, mas e os outros?
Hemingway, Baker e Lucas que me perdoem, mas você, fiote, acordará em menos de 30 minutos e eu tenho uma lista de recomendação de zap de sua mãe para nada esquecer de como devo vesti-lo, alimentá-lo e armazenar suas mochilas. Chamarei um Uber e iremos nós dois rumo a um casamento no Catete.
Lá muito provavelmente irei fazê-lo rir de como um personagem tosco de um vídeo no youtube levanta a mão, como quem responde presença, durante a música "Old McDonald had a farm..." e você gargalhará. Eu não abri mão da "porquinha" e cantaremos juntos o seu pout pourri de canções, grande parte infantis, acharei graça quando esquecer alguns versos e você não. Curtirei ao máximo quando você começar O Mar, de Caymmi, imitando a minha tentativa de imitar o baiano no final da 1a estrofe, naquele grave extremo "é bonito...".

Tudo isso justamente porque hoje é sábado e Vinicius faz muita, muita falta neste Brasil careta e insuportável.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

carta para Tomás s/n

Fiote, são 4h35 e o galo canta em Paraty Mirim. Estou sentado no chão frio de inverno, encostado ao frigobar, único canto do quarto em que a fresta da luz do banheiro, com sua porta recostada, me permite iluminar o teclado do meu laptop. Viemos passar 3 dias no litoral sul fluminense no final de suas férias intermináveis.
Desde que você nasceu escrever é um ato de resistência, sempre me lembro de Hemingway, “você deve escrever como quem caça leões”. Na minha juventude interpretava esse conselho como se houvesse a necessidade de se estar nu emocionalmente diante do texto, quando todos os sentimentos primitivos de raiva, coragem, medo e amor são atirados no papel como tintas ao quadro e somente muito depois burilados na mais alta sofisticação racional. Acho que era isso ao que o americano-cubano se referia, mas também, e agora não tenho mais nenhuma dúvida, ao ato de resistência que é escrever em situações adversas tipo guerra, cárcere, caçadas na savana africana e filhos pequenos. Como diz uma colega professora da Uerj, “o que é mais forte, permanece”, e eu fico feliz em saber que escrever está em meu sistema nervoso autônomo, porém melancólico ao notar que, para conseguir um horário comercial reservado, muitos leões africanos precisarei abater.
Existem outras duas cartas para você ainda incompletas porque escrever não é igual a desenhar caracóis. Primeiro se ordena a ideia do texto na cabeça ou no papel, depois se joga as tintas do Hemingway, o que raramente acontece de uma só tacada, depois vem o superego e diz “que porcaria!”, aí você toma uma cerveja e acha o texto lindo, só depois, sem cerveja, você passa pela fase final chata de edição, que é geralmente esfoliante, e quando publica sente novamente aquela sensação de nudez e se pergunta por que mesmo eu preciso, com ou sem personagens, me expor a este ponto? Aí depois de vários ciclos desses, você se acostuma e relaxa parcialmente. Já o caracol que eu desenho para você é completamente intuitivo, colorido de afeto, sem amarras e sem leitores imaginários, como me alertava Raimundo Carrero, pousados em meu ombro lendo em streaming palavra por palavra. Ou seja, desenhar caracóis é muito mais legal.

Mas vamos ao ponto G desta carta: três dias atrás sua mãe e seu avô foram com você a Teresópolis e eu tive uma tarde e uma noite de férias depois de 2 anos e 2 meses, não por acaso a sua idade, no novo bairro onde moramos, o verdejante Jardim Botânico e isso se tornou simplesmente uma aventura. Rapidamente tracei o roteiro: 1) dormir (sempre!) ao começar qualquer roteiro, mas não muito, estipulei 1hora e cumpri; 2) almoçar de-va-gar, mastigar todas as superfícies internas e externas do bolo alimentar, fechar o olho e descobrir notas de erva doce no quiche de alho poró sem se preocupar com o turno da tarde de trabalho ou se você vai novamente subir em cima do sofá e mexer nas minhas caixinhas de som do home theater. Cachacinha grátis, sobremesa, café, spotify, twitter (zap, email e fb nem pensar), café novamente ; 3) nadar, ah, nadar... a natação é a nata da ação, três meses longe da piscina e minhas tubas auditivas repletas de muco e coronárias engarrafadas de ateroma; 4) cortar minha tufa com Bruno, um italiano de sotaque com quem converso sobre massas e leio notícias da Itália na sua revista da embaixada especial para imigrantes, o objetivo desta vez é acabar de ler a matéria da capa de um número de meses atrás sobre Antonio Patriota como novo embaixador em Roma, não me recrimine, calculo que terei um pouco de vergonha de garimpar no revisteiro junto a caras e contigos, não encontrar e ter de pedir a alguém; 5) por fim entrar no grupo de zap de amigos, não me distrair, e perguntar o que a noite do Rio de uma quarta-feira de julho me reserva.
Assim que você partiu, consegui, meio ansioso pelo porvir, dormir apenas 1h e iniciei a aventura almoçando no caríssimo restaurante a peso do bairro, o Nanquim. Como diminuí meu prato para 400g achei que valeria apesar dos pesares de ser professor da Uerj, mas isso deixa para outra carta, apertei o botão F, também outra carta. Lá é bom porque se você acertar na proteína vale. Neste dia o peixe era salmão, é bom você saber que hoje está banalizado, mas quando eu era pequeno este nórdico pisciano era um artigo importado de restaurante chique, salpiquei um molho teryaki. O ponto de cozimento e a qualidade do salmão e do molho estavam uma paleta colorida, mastiguei todas as superfícies. Claro que pedi uma “água da casa”, o botão F não é isento de recalques. Quero que você saiba que seu pai não tem frescura nenhuma com comida, quando trabalhava na Penha todos os médicos de família das redondezas repugnavam o meu hábito de comer em um restaurante bem baratinho ali perto do trilho do trem, se é para comer uma buchada de bode estamos aí, meu órgão de estresse não é o intestino, mas as vias aéreas superiores. E por isso a natação e, devidamente orientado pela minha otorrinolaringologista, Lúcia Joffily, a busca incessante pelo mar, mergulhar, surfar, esquiar, velejar... Apenas busca incessante mesmo.
A piscina do clube militar, sim, militar, é o único clube que dá para eu ir a pé e a piscina tem 25m, é limpa, aquecida e tem vista para o Corcovado, não me recrimine. Pois bem, a piscina do clube militar me dá sempre vontade de tirar uma foto e fazer um post tipo #natação #eumecuido #euconsegui, mas acho piegas pra cachorro qualquer coisa neste sentido e no máximo tiro uma foto e mando pra sua mãe, sem nenhum comentário.
Nadei como de costume, desde que você nasceu, meus 1000 metros que na minha cabeça é sempre a metragem necessária numa frequência irregular de treino para o grande retorno triunfal à época em que eu percorria 2km em 45 min. Como estava de férias por um dia, decidi conhecer a sauna do clube. Senti-me numa casa de banhos do início do século XX rodeado por Benjamin Constant e Floriano Peixoto, velhos barrigudos trajando apenas um modelito havaianas e toalha no ombro, nus, mal encarados, sem fixar o olhar, muito menos boa tarde, andando da sauna para a ducha, da ducha para as espreguiçadeiras que dão para a TV de LED sintonizada na Globo News. Para aperfeiçoar um clima positivista militar de direita, a longa matéria era sobre o vandalismo na Venezuela. Caço um diálogo entre um desses velhos e um jovem, único além de mim, sobre história militar e o quanto leis marciais implementadas nas guerras franco-prussianos foram importantes para diminuir a crueldade das guerras. Chamam carinhosamente uns aos outros de “oh, viado!” e, graças ao meu olhar clínico diagnostiquei alguns micropênis, mas me retive na oferta de qualquer consulta.

Vi uma porta no fundo do corredor “massagem e repouso – silêncio absoluto”, mas fiquei com medo de grunhir alto ao apertarem meus pontos gatilhos musculares e levar uma chinelada. Dei meia volta e flutuei, assim como em qualquer pós natação, rumo à tesoura do italiano. Aproveitei a longa lavagem morna por entre as madeixas de minha tufa, chateei-me como de costume de ter cortado além do desejado e tive vergonha de pedir o número da revista da embaixada. Pronto, havia cuidado da minha saúde e da minha beleza, o que fazer agora no início da noite deste bairro verdejante? O JB, meu filho, tem este ar ecobelofitness, e achei que seria uma frase compatível para a ocasião. Comprei uma Carta Capital e um jornal Globo, não me recrimine novamente, na minha banca predileta, esquina da rua JB com a Lopes Quintas. Eu adoro jornal, fui editor do jornal do diretório acadêmico na faculdade, fiz um projeto longo e criativo, que não saiu literalmente do papel, assim como inúmeros outros projetos mirabolantes que seu pai faz, chamado A Massa, um jornal tipo Pasquim para os dias atuais ainda na época de Recife, cheguei inclusive a juntar obviamente uma redação também quixotesca em algumas reuniões, meu vereador recifense Ivan Moraes Filho que o diga, enfim, desde que o Jornal do Brasil morreu e que a Globo atuou a plenos pulmões no golpe de 2016, decidi não mais comprar jornal aqui no Rio, mas às vezes a tentação é grande, eu adoro jornal e revista, não iniciei na leitura com livrinhos infantis. Na verdade mesmo, em matéria de literatura, eu sou um grande leitor de revistas, fui assinante da Fluir, Playboy, Veja (não me recrimine novamente, parei de assinar depois da capa do Stédile em 1999) e Continente Multicultural (hoje Continente). Lia tudo obsessivamente de cabo a rabo, muita saudade da era pré-internet em que a gente focava em um único objeto, sem o vício horripilante de checar zaps. E eu já achava revista uma fonte por demais distraidora, porém venerava ler economia, ver anúncios publicitários, misturados a ensaios inteligentes e resenhas de filme bom.

Então estava eu ali em frente à banca com uma noite à minha espera e não me contive, comprei o Globo, há outro detalhe, eu não aguentava mais a cara de recriminação do vendedor careca quando eu levava apenas uma Carta Capital. Fui caminhando com os folhetins embaixo do braço sem medo de ser chamado de coxinha ou mortadela rumo ao Belmonte. Não emborquei a Carta na mesa, deixei a capa para cima e abri em frente ao chopp o primeiro caderno do Globo para que todos vissem que se tratava ali de um homem sensato, analítico, que disseca as entrelinhas de qualquer órgão da imprensa independente dos interesses político-econômicos, mas não passava na real de um pai de filho pequeno hipomaníaco numa noite de férias. Meu filho, poucos prazeres na vida do seu pai se assemelham a ler no bar, ouvindo música com headphone bom e fazendo anotações de insights para projetos mirabolantes que não sairão do papel.
A dica para a noite foi Chorinho na Glória e Jazz na Praça Tiradentes com o alerta de estarem lotados. Prefiro ouvir todos os agudos e graves do álbum que escolher tomando um drinque no silêncio sepulcral da nossa sala da rua Faro. Mas aí veio uma dica que se encaixava perfeitamente com a vibe das mini-férias: um evento descolado que acontece apenas mensalmente no Parque Lage entre 19h e 22h. A carga do meu celular, e da minha música, daria exatamente para mais um chopp e para a caminhada até o Lage. Li meia matéria de capa da Carta sobre o Temer e seu pescoço de ouro, e menos da metade do primeiro caderno, ensacolei os folhetins junto à toalha e sunga molhada da natação e me senti nas férias da faculdade em Recife, quando pegava ônibus até o Centro lendo livro de poesia, transpassava a noite, e ia tomar uma saideira na praia de Boa Viagem no outro dia, mas quando se envelhece o tempo se comprime.
Arto Lindsay, uau, o que cara que redescobriu Tom Zé, que já produziu Caetano, Marisa Monte e Orquestra Contemporânea de Olinda tocaria uma guitarra junto com um dj que esqueci o nome. Parque Lage é o verde humanas do JB, lá tem a Escola de Artes Visuais e todas aquelas exposições contemporâneas esquisitas. O que me pega lá é aquele tom sombrio da arquitetura apesar do pátio interno solar, acho que esse peso que sinto tem a ver com os velórios de Di Cavalcanti, que Glauber filmou e depois o próprio foi velado lá e obviamente também filmado. Sou fã do Glauber, portanto o que eu sinto lá é muito mais o peso da história do que possíveis assombrações do nobre e sua amante para quem a casa foi construída.

O show foi bem Escola de Artes Visuais, ininteligível, kitsch, barulhos altos de distorção em músicas sem melodias, loops com gritos e palmas, mas o lugar do show, uma varanda lateral da biblioteca, fiotão!, foi um achado: comecei a bolar o projeto de lançamento do disco do Empenha, uma banda que seu pai faz parte, bota muita fé e quer mudar o nome. Fui encher o saco do produtor do show, queria saber o passo a passo para conseguir a varanda. Ele disse: “o projeto tem que ser de arte contemporânea”, respondi: “minha banda possui muitos elementos de contemporaneidade”; “arte contemporânea é diferente de contemporaneidade”. Quando acabarmos de gravar o disco, irei de chapéu e óculos escuros carregando um livro de Bourriaud bem naturalmente.

Flutuei mais uma vez de volta para casa. Um meio sorriso intermitente ocupava minha fisionomia, tinha duas certezas, o dia tinha acabado antes de 23h, eu dormiria como nunca, mas antes eu precisaria escrever esta aventura. Desabei e nem uma palavra, por isso vim caçar leão nesta madrugada em Paraty Mirim onde além do galo o pavão emite barulhos quase humanos e o ganso bica quem chegar perto do ninho.


sábado, 3 de dezembro de 2016

novembro multicores




Estava 20 minutos atrasado, o dedo em riste rumo ao ponto eletrônico. O próximo paciente era jovem, recém chegado ao Rio e em grave sofrimento psíquico. Apesar de a consulta não ter sido marcada, tive que estendê-la por motivos óbvios, o que alcançou o horário do meu compromisso seguinte: ação coletiva da minha equipe de saúde nas ruas de Vila Isabel referente ao chamado “novembro azul”. Neste mês acontece uma campanha anual de conscientização do cuidado do homem que se iniciou na Austrália em 2003 e tinha como foco o câncer de próstata. Como hoje em dia nem o Ministério da Saúde, nem o Instituto Nacional de Câncer, nem os comitês sobre prevenção à saúde dos EUA, Canadá e Reino Unido recomendam o rastreamento de câncer de próstata em assintomáticos sem história familiar, decidimos focar nossa singela atividade nos fatores de risco que realmente importam para o homem: violência, tabagismo, etilismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis. Queríamos ir para onde supostamente os homens estariam numa tarde de sexta-feira: o bar. Para evitar um tom maçante e professoral de palestra e não atrapalhar o meio ambiente, decidimos, em vez de panfletar, criar cartazes com os seguintes hashtags:
# HomensMorrem+QueMulheres
#FiqueLongeDasArmas
#FaçaMaisAmor #EncapeOZé
#SaibaBeber #NãoVacile
#CigarroBroxa #éCaroeEnvelhece
#SeLigue #FrituraeGorduraEntopeCoração
No intuito de garantir que não seríamos ignorados, homens vestidos de mulher, e mulher de homem, pandeiro, marcação cênica e a música Tem Pouca Diferença, de Luiz Gonzaga.
Logo após a consulta com o jovem, corremos ao banheiro, o agente comunitário e eu, únicos homens do grupo, para colocarmos os vestidos emprestados pela minha mulher. Enquanto, de cuecas, apanhávamos com uns buracos existentes no colo do vestido que achávamos que era para os braços, mas era para os seios, adivinhem quem entra no banheiro após ter pego a medicação na farmácia? “Rapaz, veja só, vamos fazer uma campanha de saúde...” balbuciei totalmente sem jeito, ainda com jaleco na voz, para o meu jovem paciente que havia acabado de atender.
Quando já devidamente maquiados e ensaiando com o resto do grupo, ele já aplaudia e cantava junto, ouviram até ele comentar: “e ainda dizem que o doidinho sou eu”. A consulta havia sido ótima e ele ainda, raptz!, comete este insight freudiano?! Depois dizem que médico de família não deve participar das ações de promoção...
Desde o nosso primeiro bar, percebemos um achado antropológico: a maior parte dos bebedores de Vila Isabel no fim de tarde de sexta são do gênero feminino, bem-vindos à Vila do novo século. Utilizamos inicialmente como plateia cobaia os clientes de um bar, bem roots, na esquina da Visconde de Abaeté com a Boulevard 28 de setembro, os bebedores estranharam de início, mas fomos laureados no final com algumas palmas esparsas. Adiante, encontramos um compositor que fez questão de cantar o seu samba acompanhado do meu pandeiro. Estava só, mas acompanhado da oitava cerveja de garrafa. Montamos também o circo em outro roots bar Vila, na Duque de Caxias em frente à oficina de carros. Um pedreiro trabalhando no primeiro andar de uma casa na Torres Homem fez fiu-fiu para mim e Luiz, o agente comunitário, agradecemos como madames. De uma coisa tínhamos certeza, usar saias numa tarde quente no final da primavera em Vila Isabel é muito melhor que calças. Dá para abanar.

Como os bares ali do quadrilátero, o baixo Vila, estavam ainda repletos de mesas vazias, tentamos entrar no Hortifrutti da 28. Fomos gentilmente acolhidos pela supervisora, eu, elegantemente de batom, me apresentando como médico da nova clínica da família, mostrava-lhes cada membro da equipe e suas funções, mas infelizmente não conseguimos entrar, precisava da liberação do gerente de marketing, anotei o telefone e convidei a supervisora para conhecer a unidade de saúde da família. Precisávamos de um bar cheio, repleto de homens sedentos por informação sobre saúde e receptivos a uma performance político-musical.
Andamos toda a Jorge Hudge, sem nos animarmos muito. No fundo, já sabíamos onde seria nosso gran finale, um bar na beira da São Francisco Xavier, barulhento e quente, chamado Loreninha. Os estudantes da Uerj praticamente colam o grau ali, além de ter gente de outras tribos devido ao preço acessível da cerveja em temperaturas boreais. Bingo! Lotado e repleto de homens sedentos.
Sempre quando começávamos a performance, as pessoas olhavam meio de canto “não tenho dinheiro não, moço”. Quando, no final, entregávamos os preservativos e o kit da saúde do homem com cartilhas e outros penduricalhos, as pessoas sacavam que não éramos vendedores de rua, e aí alguns batiam palmam, os garçons davam um legal e partíamos. O Loreninha estava lotado e decidimos fazer nossa mini-apresentação sem comunicar ao dono. Quando me posicionei, olhando para a rua, na soleira do piso de cima do bar e comecei “que diferença da mulher o homem tem?”, vi no canto do olho a indecisão da dona em me expulsar ou não, estava muito confuso para alguma decisão rápida: vestido de mulher, todo pintado, com aparência de zona sul, sotaque de nordestino e não era um calouro.
A apresentação era organizada previamente para combinarmos o local de cada um no intuito de todos os clientes poderem nos ver, permanecíamos alguns segundos em estátua, e eu começava a música, havia uma deixa para que um erguesse pausadamente o cartaz, e assim era seguido, também lentamente, por todos. Na segunda deixa, eles começavam a se mover como aquelas mulheres no intervalo do boxe, passo decidido e sorriso largo. Novamente paravam em outras posições e dois deles largavam os cartazes e distribuíam os kits e preservativos, enquanto eu ia ficando rouco, competindo com o barulho dos ônibus. Apesar do constrangimento da dona, tudo estava ocorrendo na perfeição. Quando acabou, fiz um discurso breve sobre o cuidado dos homens, e agora chegou a parte mais interessante da crônica, lá ia eu falando sobre violência como causa de morte importante entre os homens, levantei a mão imitando uma arma quando para abruptamente, juro, um carro da polícia militar em frente ao bar. Um garoto de rua que estava ali vendo nossa apresentação da calçada percebe, fica lívido, e parte em disparada sentido 28 de setembro atropelando os jarros de planta. Dois policiais rapidamente saem do carro com a arma em punho, todos do bar se curvam, preparando-se para o chão. Desistem de atirar e entram no ônibus atrás de um suposto segundo garoto, todos do bar assistindo à cena. Não o encontram, entram novamente na viatura e partem zunindo de sirene ligada. Não me curvei, estava de camarote, virei estátua na soleira do piso do bar. Quando a poeira desceu, terminei o meu discurso interrompido com um “tão vendo? Eu não disse? Se cuidem!”, olhei para a dona que a esta altura já era nossa camarada e nos trouxe uma cerveja boreal. “O negócio aqui não tá brincadeira não, doutor”.
Voltamos para a clínica sem muita conversa, já havia mais gente na rua sedenta à procura de bares, a gente meio já esquecidos de nossos trajes, uma menina passou por nós “sen-sa-cio-nal!”. Rimos e nos percebemos: a Clínica da Família Pedro Ernesto não mais possuía uma equipe com o nome Manoel de Abreu, havíamos nos tornado a Equipe Azul Profeta de um Novembro Homem.






terça-feira, 3 de maio de 2016

nascido

Palavra rebenta quando quer. Nasce tanto em lençol de guardanapo, quanto num berço de papel esquecido.

Palavra que transborda gofa letra, sai se derramando em frases.

Não quero buscar dados em bancos, nem ajustar o método à pergunta. Não vejo sentido em traçar argumentativos caminhos de ida rumo a mim mesmo. Não tenho pretensão em pôr gravatas em pingos do i.

Prefiro acreditar que papel em branco é terreiro sagrado guiado por todas as incertezas de um universo que acaba de ser parido.

Possuo um único objeto direto: amar. Sou um dogmático escancarado a seu dispor, nego-me veementemente a ser argüido nesse ponto. Questionar meu deus dissílabo seria o velamento. O último a-deus.

E nunca fui de apostar na pirraça da maldade.
Corram para amar, ou melhor, parem e amem. amém. E que assim seja.




planejamento

penso
tenho tesão
ajo

tenho tesão
ajo
não penso

ajo sem tesão
não penso

penso sem tesão
não ajo

tenho tesão 
ajo ajo ajo
não penso

não tenho tesão
penso penso penso
ajo




sexta-feira, 24 de julho de 2015

carta para Tomás 2

Filhote, seu pólo cefálico coroou no pólo sul da mamãe e eu estava lá, em transe. Escrevo esta carta para lhe narrar a experiência mais visceral que seu pai já viveu, sei que é chato fazer pedidos, mas gostaria que você a relesse no seu aniversário de 60 anos, em 2075. Nem sei por que lhe pedi isso, deu vontade.
Experiência literalmente visceral vivido por sua mãe no percurso de um trabalho de parto no qual a primeira contração já se distanciou de um intervalo de apenas 5 minutos da segunda e assim por 11h.
Tomás, meu filho, você é um lorde vitoriano: já com 37 semanas esperou seu pai defender o doutorado no dia 5, concedeu à sua mãe um prazo de uma semana a partir de sua licença e, fabulosamente, nasceu na data provável do parto (DPP), 22 de maio, apenas 5% dos bebês no mundo são tão pontuais. E, para ninguém ficar nervoso, esperou o momento do passe perfeito para dar um chute mais forte e romper a bolsa amniótica: seu pai havia acabado de chegar da aula de natação, o momento mais benzodiazepínico da semana, e nós havíamos acabado de saborear uma sopa de ervilha numa noite climatizada de outono. Luxo só.
Tínhamos uma certeza, estúpida como todas as certezas, de que obviamente você não viria por aqueles dias, sua mãe estava ótima, tinha acabado de vir andando da casa dos seus bisavós até nossa casa, uma distância de 5,6 km, e já havia combinado uma prainha no outro dia.

Nesse percurso, da Gávea até aqui na Rua Faro, ela fez questão de atravessar o Jardim Botânico, o parque construído pelo proto ecologista D. João VI, a miragem verde sobre a qual a Lispector imortalizou numa crônica, o ato gratuito, onde o Jobim praticava sua religião de ouvir passarinhos, o pedaço de chão que esconde toda a força tupã-oxóssi ancestral desta cidade. Muitos dizem que não, por ter sido um jardim construído pela metrópole com espécies cientificamente escolhidas de todos os continentes. Porém, ninguém me convence do contrário: há uma grandeza de mistério e saudade no silêncio verdejante entre o bambuzal e as andirobas. No coração, uma tamanha fertilidade povoa aquele verde-escuro. A sumaúma amazônica, uma das maiores do mundo, modifica as pessoas que lhe rodeiam, enraíza-nos. O passeio despretensioso de sua mãe foi fundamental para o peteleco de vida que faltava.
Interrompe a sopa de ervilha: “vê se isso é xixi?” Até então nunca havia presenciado uma ruptura espontânea de bolsa, apenas as violentas amniotomias praticadas nas salas de gritos durante minhas práticas de obstetrícia na faculdade. Não sabia que poderia pingar. Mas era. Sabíamos que em menos de um dia você chegaria, então brindamos um vinho branco, não havia tinto na adega.
No entanto, achava que dali em diante viria tudo lentamente, contrações com intervalos largos... Que nada, sua mãe nem acabou a taça do brinde. A minha agonia era a de que mesmo com contrações lhe abraçando forte de 5 em 5 minutos, eu não poderia realizar o toque, a bolsa tinha rompido, eu não tinha luva estéril. Liguei para Heloísa, sua enfermeira obstetra, a quem um dia você vai pedir bênça, e comecei a rememorar os passos do período expulsivo, para mim havia essa chance concreta... Helô chegou umas duas horas depois e pegou seu pai no flagra, eu juro que estava com medo de uma primípara dar a luz em 2h de trabalho de parto, praticamente impossível medicamente falando. Revelo: quando sua mãe ia ao vaso, eu tinha medo de ver seus cabelos. Helô não deu muita bola quando lhe disse que a contração era “rochedo”. Bom, de dinâmica uterina, pelo menos, eu estava ok. “7cm? é boa nisso, hein?” Eu sabia que sua mãe era boa parideira desde que a conheci em Cuba, mas 7 cm em 2h eu não esperava. Senti-me melhor ainda em obstetrícia, tanto Helô quanto eu sabíamos que em poucas horas poderia sim que você chegasse ali na cama dos seus pais. Heloísa olhou para mim sem sua mãe perceber e disse “simbora!” com uma piscadela. Virei Flash, a sua bolsa estava pronta, mas e a da sua mãe? E a minha? Havíamos nos mudado há 2 meses. Na minha mochila ensaquei tudo que achei muito importante, uma camisa, uma cueca, livros de Neruda e Bandeira, um caderno de anotações e uma caneta. Havia planejado que escreveria durante o seu parto uma poesia visceral, escrita em lágrimas de tinta, uma coisa meio Rimbaud e Rilke. Reuni todas as bolsas, peguei chaves, sua mãe, Heloísa, estava eu com o apartamento nos ombros. Entramos no carro, sua mãe em contrações de 5 em 5. Sempre tive uma ideia persecutória de como deve ser o grau de tanquilidade do motorista nessas ocasiões de parto e emergência. Respirei fundo e dirigi joão gilberto, Helô me pedia para encostar a cada contração, e eu ali, um motorista conduzindo Miss Daisy, atendia elegantemente. O desespero começou quando tive a certeza de que o túnel Rebouças estaria fechado, mas não estava, não era terça-feira. Pensei em inúmeras coisas, facas, narcotráfico, batidas, errar caminho, pisei fundo. Consegui sair da bad trip já na maternidade, elas subiram rapidamente para o quarto e eu me vi novamente um sujeito calmo de fala baixa na recepção, até me pedirem o RG e carteira do plano da sua mãe. Não tinha. Antes de refazer o percurso todo de volta, meu smartphone me salvou, havia emails antigos com número do cartão e jpg da identidade. Primeiro conselho, filho: não apague seus emails.
Peguei o essencial para entrar no bloco cirúrgico: livros, o caderninho, uma caneta e um celular descarregando, vesti-me de cirurgião e encontrei sua mãe na banheira. O quarto era pequeno, sem televisão, uma maca obstétrica de boa qualidade e uma honesta hidromassagem no banheiro. A penumbra era fundamental e a equipe sabia disso, Gabriela, sua obstetra, deu play numa música meio Tinariwen ibérica, outra a quem precisarás pedir bênça. Ainda era 1 da madrugada e sua mãe já apertava minha mão na banheira com intensidade maior do que aquelas brincadeiras de adolescentes que um dia você vai conhecer. Entendi que a dor era “do fim”, segundo Luiz Gonzaga. Por aí comecei uma atividade de massagem que só iria terminar às 8h06m, foi uma prova prática de massoterapia, tenho a certeza que ainda receberei pelos correios o título de especialista pela sociedade de massoterapeutas, fui aprovado pela equipe e quase tive cãibras nas mãos.
Levanta, rebola, não quer mais banheira, maca, cadeirinha, tudo doía, claro, seu polo cefálico invadia o polo sul da sua mamãe, respira, respira. Gostava de uma posição sentada na maca com uma perna para fora e a outra dobrada, talvez por isso e, segundo Helô, pelo encucamento no neocórtex, uma parte do colo uterino fez beiço. O edema só foi reduzido após a anestesia pela Fernanda Satty, sua obstetra auxiliar, outra bênça. O momento da anestesia às 3h foi quando caiu a ficha que estávamos numa maternidade, a Medicina arrombou a porta do quarto. Acende a luz, desliga o Tinariwen, “pode sentar, mãezinha, e coloque a cabeça pra frente.” Reclama com a técnica que o campo está errado. The dream is over.
Em vez de relaxar e dormir, o objetivo da anestesia para desfazer o beiço, sua mãe começou a não sentir do quadril para baixo, pois é, drogas mesmo nas posologias indicadas podem causar revertério. Talvez quando você for pai ou avô a farmacoterapia genética personal esteja em voga. À medida que as drogas iam sendo metabolizadas, sua mãe parecia que estava num bar em Santa, papeou com a equipe, reviu meio mundo que estava de plantão e que não via há tempo. Pensei em catar umas cervejas na cantina. Eram 3h30m. Mas as pernas voltaram ao normal e as contrações voltaram dicumforça. Fecha o bar, liga o Tinariwen, baixa a luz. Tentávamos evitar a posição sentada na cama, levanta, rebola, massagem, agacha. Não queria mais banheira. O chato é que o danado do beiço não havia desinchado, veio nosso primeiro medo de mudar de sala e irmos para o bloco do lado. A madrugada passa rápido ali em Laranjeiras, nos intervalos das contrações ouvíamos gritos das colegas das salas contíguas, bem tragicômico, às vezes entoavam uma melodia, recortada com um “ya hooo!”. O ponteiro dos minutos zunia na parede.
Senti uma injustiça imensa de não compartilhar com sua mãe as dores, poderia ser pelo menos 3 para 1, fiquei com medo de um vasovagal, ela apagar de tanta dor. Inda bem que havia tomado a sopa de ervilha. Fernanda entrou e falou mansamente que sempre foi boa em práticas manuais, em manobras e procedimentos, que iria tentar reduzir o beiço com os dedos, o edema do colo do útero, que não deixava seu pólo cefálico avançar. Ainda restava um filete bioquímico do anestésico. Não doeu nada, uma manobra que costuma espremer gritos. Você adorou.
Eram 4h30 e achei que você viria em no máximo 2h, comecei a calcular seu mapa astral, dava ascendente em Touro, apegado demais, fiz bico, mas não poderia reclamar mais de nada, você havia esperado eu acabar a aula de natação. Vagou um banquinho da colega do lado, que teve bebê, um banquinho nada demais, apenas com um design para período expulsivo, lavamos o sangue da colega e testamos com sua mãe, ela aprovou, foi assim que você nasceu. No entanto, ainda teve muita rebolada, sua mãe caprichava nisso, Helô usava a técnica do reboso, chacoalhando um pano tensionado nos quadris, você curtia e dançava um tipo Fela Kuti de cabeça pra baixo.

Já havia passado o ascendente em Touro, já eram umas 7h30, e eu havia entrado num transe do qual não lembro nada semelhante no meu passado psicotrópico, sua mãe estava esgotada, já pedia clemência sem nunca ter sido batizada. Sentado por trás dela e a ela abraçado, comecei a revirar os olhos e fazer força durante as contrações para que você fosse um pouco mais abraçado. “Vamos fazer mais três”, ou “essa é a última” foi repetido várias vezes pela equipe, como se estivéssemos regredidos, aceitávamos igual uma criança e suas colheres de aviãozinho. Até que as obstetras deitam no chão com o foco do celular aceso e dizem, “põe aqui o dedo, tá aqui”. Sua mãe não viu isso, mas eu vi pelo ângulo de cima uma contração na qual um pedaço da sua tufa apareceu e voltou. Eu chorava.
Gabriela depois confidenciou para sua mãe que nunca usou tanto sonar para ouvir batimento cardiofetal no período expulsivo quanto no seu parto. Sua mãe traçava a conduta, no intervalo da contração: “vamos avaliar mais uma vez?” Foi tanto, que chegou o momento mais tenso de todo o parto. A sua tufa já aparecendo e o sonar emitindo uma ruidosa bradicardia, aquelas bulhas produziram muita noradrenalina em nossas adrenais e ressonaram como aquele tema musical de Kill Bill. Gelamos. O maior pavor da sua mãe desde os primeiros anos de residência em pediatria eram os bebês da neurologia pediátrica, muitos sofrem sequelas graves e morrem cedo por causa de asfixia no canal de parto, porém esses partos são geralmente horrorosos, cheios de intervenções desnecessárias e precedidos de um pré-natal negligente.
Sua frequência cardíaca logo voltou ao normal e, acredito eu, foi o que sua mãe precisava para, em poucas contrações adiante, fazer a maior e derradeira força se agachando para adiante do banquinho e fazendo com que você ouvisse melhor o som do Tinariwen ibérico.
Filhote, você era a tranquilidade personalizada, não deu um pio, sua mãe ficou nervosa e perguntou se Lívia, sua pediatra, bênça, não queria levá-lo, “claro que não”, você acabou de nascer e já dava lição: “não criem pânico!”. A felicidade jorrava dos nossos olhos e enchia toda a Baía de Guanabara, despoluindo Paquetá, passando pela Lagoa Rodrigo de Freitas e indo até o emissário do Leblon e Cagarras. Sem um centavo do Eike. Passei 30 minutos contados de relógio chorando, “vai ali e pega uma gaze com a técnica”, lá ia eu “boom diiaa, poor favor, umaa gazeee”. Levei você no berçário, mostrei-o para todos do vidro, tirei fotos, zap, tomei um expresso e uma água. Tudo chorando.
Fernanda e Gabriela me revelaram que fizeram questão de serem exatas nos minutos, tinham reparado em mim calculando o seu mapa. 8h06m. Gêmeos com ascendente em gêmeos. Foco, meu filho, foco.
Não sei se você notou, na sua primeira carta, chamo-lhe de Tomaz, com Z. Essa letra foi uma questão de intriga durante a gestação. Sua mãe e amigas eram do time do S, suas avós, inclusive minha sogra, meus amigos e eu, do Z. Há um cartório no subsolo da maternidade em Laranjeiras, assim que o deixei no quarto com sua mãe, tive essa incumbência. Antes eu brincava que quem iria registrar seria eu mesmo, então a mim cabia a decisão. Depois de 11h de trabalho de parto, nem pestanejei: “Tomás com S, né?” E fechei a porta.
ps1: recomendo-lhe usar Tomaz em qualquer coisa que possa fazer com esse gêmeos com ascendente em gêmeos.
ps2: o que saiu do poema Rimbaud e Rilke foi esse brega-Bandeira aqui:
to mais feliz
com tomás aprendi
to mais eu
to mais nós
to mais aqui
papai, mamãe,
vovô e vovós
saúdam o pequeno
com tomás renascemos

Beijos do seu pai que o ama desbragadamente,
Alfredo


quinta-feira, 7 de maio de 2015

Carta para Tomaz

Filhote, de agora até seu pólo cefálico coroar no pólo sul da mamãe, lhe mandarei cartas adiantando nossas conversas neste mundo novo para nós dois.
Hoje sonhei com seu avô, Bianor, vovô Bibi, que só conhecerás por fotos, poucos vídeos e histórias de monte. Trajava linho branco, como era seu costume às sextas em homenagem a Oxalá, mesmo sendo filho de Oxum. Estava num bar bonito, decorado por madeira e luz baixa, cercado por gente risonha. Lembrou-me de que nos vimos última vez também num sonho, era carnaval, eu de Chacrinha. Vagamente. Muito raro sonhar com seu avô, raro lembrar sonhos, vivo sonhando de olho aberto.
Você iria curtir bastante vovô Bibi. Na minha adolescência, era o pai predileto dentre os pais da minha gang. Extremamente liberal no nível do comportamento, sair com “tio Bianor” era sempre uma grande aventura na noite dos adultos. Como a contradição mora no cromossomo humano, ele me permitia na infância pilotar lanchas, mas nunca, e o “nunca”dele tinha força, atravessar a Av. Boa Viagem para tomar côco verde, ou me aventurar pela praia junto com meu bando. Já crescido, torcia o nariz quando eu peitava frequentar shows de rock, mas fui o primeiro da minha geração a ganhar um carro. As mães dos meus amigos achavam um absurdo, e era, eu tinha 14. “Tio Bianor é uma gréia”, só escutava.  
Os sobrinhos preferidos e eu recebíamos presentes de sonho: Castelo de Grayskull, caiaque personalizado com a grafia do nome, roupa de neoprene e aparelho de mergulho completo, home computer Hotbit MSX, passagens pra Disney, teclado Minami MP 2020, Fiat Uno vermelho zero km e um Del Rey conversível de marcha automática, ar-condicionado, vidro elétrico – quase uma mágica no final da década de 80, que ainda tinha uma televisão de três polegadas com sinal ruim que ficava embutida no som do carro e cuja a imagem era ampliada por uma lente. Para deixar a cena mais pitoresca para época, havia um telefone sem fio com um sinal de curta distância, mas que dava para usar no miolo de Boa Viagem em torno do prédio onde ele morava. Aos 8 anos, em 1987, ganhei um cartão de crédito, Dinners Club International, luxo só, porém novamente a controvérsia, ou a sabedoria, eu só poderia utilizar com a sua presença, nas compras que ele aprovasse. Paguei muita conta no Nino`s em Copacabana durante minhas férias em jantares regados à cavaquinha e uísque. Em todas as eleições antes de retirar meu título, ele me levava à cabine e me mandava votar, “não quero me responsabilizar, o futuro é seu”, deu no que deu, acabei votando no Collor. Claro que quando havia amigos seus como candidatos, e sempre havia, ele mudava minha caneta, “é melhor aqui ó”. Todo ano novo, ele segurava no gargalo uma Dom Perignon e servia um gole na boca para cada um dos seus, sempre usava o mesmo short preto e uma camiseta amarelo-ouro. De novo Oxum. Fazia anualmente uma festa ecumênica gigante na praia, em frente ao seu prédio, na qual juntava a sacristia da igrejinha de Boa Viagem com pai de santo e baianas, que rodavam a saia na beira do mar enquanto incorporavam. O padre começava a missa, havia imagens de cristo e Nossa Senhora da Conceição. Constituía uma cena típica de um filme de Glauber. Isso tudo acontecia à noite, o que me enchia de medo e curiosidade.
Medo e curiosidade era o que eu sentia pelo vovô Bibi durante toda minha infância e adolescência. Extravagante e supersticioso, liberal e repressor, irascível e educado, perseverante e perdulário. Um anarquista com pitadas de punk no comportamento e na moral, e um conservador na política. Excêntrico, megalomaníaco que amava seu pai “desbragadamente”. E, aqui pra nós, nenhum brinquedo me enchia mais de felicidade quando ele de soslaio me olhava e dizia: “É craque.” Isso acontecia com alguma nota dez na escola, ou em coisas que eu fazia e só ele enxergava tanta craquice. Depois que seu aneurisma na artéria comunicante anterior se rompeu, numa hemorragia subaracnoideia severa, a única sequela que sofreu foi uma mudança de comportamento... para melhor. Saiu do uísque para a cerveja, ficou mais manso e mais sociável. Nesse momento, perdoei-lhe por falhas e imperfeições, perdi o medo e joguei o karma no lixo mais próximo. Pena que durou pouco e vovô Bibi partiu aos 59.
Há milhões de outras histórias do seu avô que reunirei num romance sobre esta curiosíssima família Oliveira, mas o que quero lhe falar mais objetivamente nesta primeira carta é que te livrei de se chamar, em vez de Tomaz, Bianor de Oliveira III. Não só vovô Bibi queria, como você era naturalmente, numa tradição de no mínimo cem anos, a próxima vítima. Seu trisavô, Bianor de Oliveira teve o caçula, Alfredo de Oliveira, que homenageou o pai no primeiro filho homem, vovô Bibi, que teve o filho único, até onde eu saiba, Alfredo de Oliveira Neto, eu, que quebrei esta corrente Bianor-Alfredo.
Quase, meu filho, por pouco.
Saiba que estou adorando nossa comunicação mão e chutes, tenho a certeza de que já reconheces quando é o papai, muitas mãos não recebem tantos chutes. Saiba que você já orgulhou muito o papai, pois seu primeiro movimento foi durante o disco Arena Canta Zumbi, você deve ter se empolgado com o batuque.  Você está agora com 37 semanas, cuidado com a cabeça ao se encaixar, tome conta do seu fígado recém-formado, e quando estiver naqueles soluços chatos, tente dar uns apertinhos no cordão. A partir de agora a mamãe me prometeu que vai dormir mais e falar menos ao telefone.
Tomaz, muita calma nessa hora, porque segundo Heráclito e o Lao-Tsé, tudo flui. Medite, meu filho.
Do papai que te ama desde que você tem 6cm,

Alfredo