domingo, 25 de abril de 2010

Quem será o herói de Niterói?



Após três semanas do desastre, o desenrolar dos fatos em Niterói lembra capítulos de uma novela, mais especificamente um seriado de suspense, um thriller.
Atualmente na Grota, comunidade onde trabalho, contam-se mais de 500 desabrigados. A Defesa Civil, ansiosamente esperada pela população, deu um “an passant”, condenando praticamente todo o território via notificação. Apenas alguns conseguiram o tão cobiçado laudo da defesa civil, o ponto de gatilho jurídico para se disputar aluguel social e casas populares que são prometidas pelo poder público.
Para se ter uma idéia da destruição por lá, até o posto de saúde onde exerço a medicina de família foi condenado e a casa ao lado da técnica de enfermagem com quem trabalho foi destruída, o nível da lama chegou no interruptor de luz de sua sala. No total, 14 mortos atingidos diretamente pela monstruosa enchente e, na última quinta 22, ficamos sabendo do primeiro caso de morte por doença infecto-contagiosa, quem sabe leptospirose, dengue, ou hepatite... o pior é que justamente após três semanas o contato com a água barrenta e o tempo de incubação dos germes no nosso organismo necessário para o aparecimento dos primeiros sintomas revelam que infelizmente outras dezenas de casos estarão batendo às nossa porta em breve.
Todo esse relato de desastre se resume, como já mencionei, à comunidade da Grota. Em Niterói, existem mais umas 15 regiões pobres que foram furiosamente atingidas, porém, só o Morro do Bumba está sendo amplamente coberta pela mídia, quer dizer, estava. Não se ouve mais as hélices do Globocop, as matérias sobre Niterói começaram a se recolher no caderno das Cidades, Boechat e Heródoto, respectivamente BandNews e CBN Notícias, já voltaram à programação normal. Enfim, o desastre não mais está sendo lucrativo para os anunciantes. Dando um giro no Google maps, imaginem como deve estar a situação por agora no Haiti? Quem já perdeu gente querida sabe: indispensável a presença no velório e sétimo dia, mas quando todos voltam à rotina, o choro escorre mais facilmente.

Nunca ouvi nessas semanas dois nomes tão repetidas vezes: defesa e defensoria. Pelo que entendi a Defesa (civil) é responsável por emitir os laudos dos imóveis e áreas com riscos de mais deslizamentos, já a Defensoria (pública) atua como um “advogado do povo”, garantindo uma digna remoção das pessoas desabrigadas. Na última e única reunião que fui da Defensoria, por exemplo, os “advogados” estavam perto de meia-noite dentro de um ônibus improvisado de escritório, a “defensoria móvel”, redigindo uma ação judicial coletiva no intuito de exigir contratação, em caráter de urgência, de mais técnicos da defesa civil sem precisar de licitação para dar conta do território do Bumba e adjacências. O jornalista Ancelmo Góis havia denunciado que para toda a cidade, a Defesa Civil tinha disponibilizado o número pífio de 4 técnicos. Estávamos pedindo mais 150 e, em caso de não cumprimento da ação, uma multa na bagatela de R$ 500.000,00 por dia. Achei meio impossível isso se tornar realidade. Pois bem, na semana passada fiquei sabendo que a Prefeitura de Niterói conseguiu barrar a ação.
Toda esse capítulo defesa X defensoria acompanhei de camarote lá no Morro do Bumba. Caso essa iniciativa dos “advogados” desse certo, o combinado seria reproduzir essa mesma ação para outras comunidades. Enquanto isso, a Grota ainda espera ansiosamente a presença da Defensoria, que já foi desmarcada umas três vezes. A impressão é que todos estão perdidos: Estado, Prefeituras, coordenadores de abrigo, população. Parece que voltamos ao marco zero.
O mais importante no marco zero é se concretizar o que se imagina impossível: resgatar das profundezas a esperança do coração das pessoas que estão repartindo metro quadrado com desconhecidos em salas de aulas e em salões de igrejas. Fazê-los acreditar que ainda vale à pena lutar por algo. Para justamente não ficarem à margem do processo de remoção, para não se construírem novas Cidades de Deus e Conjuntos Habitacionais Maria Tereza, esse último fruto de uma remoção em 1991, próximo ao lixão do Morro do Céu, e a maior pobreza que já vi ao vivo. Para não se contentarem com qualquer “agrado” dos governos, para não serem tratados como gados portadores de título eleitoral.
Alguns valentes coordenadores de abrigo, uns voluntários, outros desabrigados com espírito de liderança, estão cadastrando a população, racionalizando a entrega de donativos, batendo de frente com Estado e Prefeitura, que o ameaçam covardemente de estarem fazendo o papel do poder público e, o mais assustador, esses valentes estão barrando a entrada dos demônios, dos mais bisonhos demônios: os parlamentares aproveitadores, que em meio ao caos implantado insistem em adentrar nos abrigos com suas respectivas assessorias de imprensa com objetivo surpreendente de gravar imagens para o guia eleitoral deste ano. Hienas, urubus, raposas que vão se deliciar com a carcaça alheia. No meio desse purgatório, juntam-se os saqueadores de donativos ligados ao narcotráfico, cenas condizentes com o filme Ensaio Sobre a Cegueira, onde graças a Deus havia a lucidez da única mulher que via toda a desgraça.
No filme-seriado de Niterói, quem será o herói? De onde virá a lucidez que demarcará a espada da justiça sobre os ombros dos demônios aproveitadores de miséria alheia? Não hesito em responder que somente esse naco de esperança escondido nas profundezas dos corações mais atormentados pelo desastre pode ter uma chance que seja de vir à tona e florescer a terra barrenta.
Se não forem formadas comissões compostas por coordenadores de abrigos, associação de moradores e voluntários, se todos permanecerem calados à espera da Defesa, da Defensoria, ou de quem quer que seja, corre sério o risco de se concretizarem cenas dos próximos capítulos que, aliás, já estão sendo ensaiadas:
1) Tendas de guerra a la Iraque estão sendo erguidas no Barreto, no Batalhão de Infantaria do Exército para “acomodar” 2000 pessoas, politicamente uma terra de ninguém entre Niterói e São Gonçalo (contam-se em cada cidade mais de 7000 desabrigados). Imaginem agrupar num só terreno o Comando Vermelho e o Terceiro Comando...
2) A mais nova idéia da Prefeitura é refazer o cadastramento já realizado por grande parte dos coordenadores de abrigos para executar o cruzamento dos dados e evitar a presença dos possíveis aproveitadores de aluguéis sociais. O novo cadastramento conterá de 4 vias e por baixo uns 40 dias para ficar pronto.
3) Um grupo de trabalho formado pelo Estado do Rio e Prefeitura de Niterói trabalharam em regime de plantão na quinta 22 e sexta 23, no intuito de refazerem o cadastramento dos desabrigados ex-moradores das duas ruas principais do Bumba. A idéia parece é garantir o número de 93 casas já anteriormente erguidas há alguns anos por algum projeto de habitação em Venda da Cruz. Por que trabalhar no feriado? Parece que Lula viria hoje no domingo 25 anunciar a remoção para essas 93 novas moradias. Em relação aos demais que perderam casas e famílias?

Eu não disse que “Quem será o herói de Niterói?” é só suspense? E ainda está na 1a- temporada.

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