segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ilustres desconhecidos



mas ao menos a ele alguém o via,
ele era fixo, eu, o que vou
se morrer, não falto, e ninguém diria:
desde ontem a cidade mudou.
(Cruz na porta da tabacaria!, Fernando Pessoa) 

Morreu a senhora da lojinha da natação, como não sei seu nome a chamarei assim mesmo: “senhora da lojinha da natação”.
Apesar de nos virmos duas vezes na semana em dois anos e meio, não tivemos mais que um diálogo além dos inúmeros “boa-noite” e “boa tarde” e dos mais ainda inúmeros acenos com a cabeça a meio riso.

Tal diálogo se deu num dia em que não mais agüentei a vergonha de nadar com uma sunga cujo forro de lycra externo azul caía feito uma pelanca por entre minhas coxas, parecendo fralda suja. É que sofro de materialismo em matéria de roupa, e quando me afeiçôo não largo uma peça, antes de ela me largar.

Fui à lojinha e a boa senhora estava na sua posição habitual, sentada num banquinho, cotovelo à mesa, cabeça à mão, pés apoiados no ferrinho inferior do banquinho e pernas a balançar.

Oi, meu amor, sunga só tem pra criança.

Era uma lojinha que vendia biquínis, sungas, maiôs e alguns aparatos de natação. Após fazer cara desconsolo, ela se lembrou que havia uma sunga sim, mas que ninguém queria. Quando abriu o saquinho no fundo da colméia de fórmica branca, surgiu o estampado verde piscina de folha de coqueiro em fundo amarelo manga. Sunga de green go. Claro que ri. Perguntei, juro sem querer ofender, se estava usada, ela se ofendeu um pouquinho, disse que não havia gostado do meu comentário, pedi desculpas. Longe de mim ofender a senhora da lojinha da natação.

Mais ou menos um mês depois, me deparo com a lojinha vazia, achei que havia falido, nunca vi muita gente lá dentro e a variedade dos produtos já vinha escasseando.

Hoje a recepcionista me revelou o passamento.

Imediatamente me dei conta da importância que tem as pessoas que estão no nosso cotidiano, mesmo trocando meias palavras. É como se já compusessem o cenário de nossas vidas.

Toinho, zelador do prédio da minha mãe, que após uns quinze anos percebi que nem “boa-noite”, bem articulado, havíamos trocado, somente o bom e velho “Ô”, o Véi da Coxinha da faculdade, sobre o qual fui muito mais além chegando a entrevistá-lo para o jornal do diretório acadêmico, a auxiliar de serviços gerais do mestrado que me deixava surrupiar o cafezinho da copa, o senhor melancólico com cigarro no bico que vende LPs, revistas e livros velhos aqui na esquina de casa...

Da maioria não sabemos o nome, não importa, nos passam a confiança de que pertencemos a algum lugar e a sensação de que navegamos no mesmo barco, atravessando as ondas do tempo.

Senhora da lojinha da natação, saiba que em sua homenagem usarei aquela sunga espalhafatosa até cair pelancas novamente.

Só peço a todos vocês, ilustres desconhecidos, que não nos abandonem assim de uma hora pra outra.

Sem mais delongas, boa noite.

Bom Dilma


















“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”

(Jacques Derrida)

“Mas mesmo assim precisa ser escrita”

(eu mesmo)

por Dr. Luiz, médico de família de uma OS perto de você




Presidenta,

Mário tem 46, acha que vai fazer 48, mas tem aparência de 60, é catador de lixo e engraxate, recém tratado de tuberculose, conversador toda vida mesmo faltando-lhe os incisivos superiores, foi meu último paciente hoje às 19h30m, era o 30º-.
Sei que a senhora não é médica, mas acredito, como em qualquer outra função, que despacho de presidenta tenha limite. Quando alguém do PMDB precisa vê-la no comecinho da noite, após 2 mesas intermináveis de lançamento de programas e 3 conversas de corredor, não menos intermináveis, com aquela mãozinha no cotovelo da senhora, imagino o quanto sentimento de inimigo emana da sua robusta paciência ao ser obrigada a se sentar com a base aliada.
Estava eu que nem a senhora, apertando a mão do escritor Sarney, às 19h30m, quando entra o Mário, bem-humorado, no meu consultório de médico de família e me apresenta seu caderno de caligrafia. Isso mesmo, ele não se queixou, diferente dos outros 29 do dia, de nenhuma dor de cabeça, diarréia, coisa-ruim, coceira, mancha ou falta de ar. Mostrou seu caderno de caligrafia, foi folheando lentamente enquanto diante de mim apareciam a, e, i, o, u, muito mais elegantes do que o Arial insosso em que digito esta carta. “E” de escada, “O” de ovo, “U” de uva, cada letra correspondendo a um desenho do Mário. Quando terminou, ele se sentou, e me disse em tom de confidência: “Dr., preciso de um remédio para abrir minha cabeça”.
Sabe, presidenta... naquele momento, depois de 6h e meia sem beber água, sem ter operacionalizado minhas diureses, sofrendo da lombalgia do partido dos trabalhadores (das antigas, é claro), meu coração de operário foi amolecido numa lata de óleo. E ficou assim por alguns minutos, batendo rubro-negro.
Mário estava sendo pressionado pelas professoras de alfabetização de adultos do curso noturno que freqüenta a uns dois quilômetros da sua casa, um dos cinco barracos mais precários da minha área adstrita. Elas haviam estimulado o Mário a ir atrás de ajuda para resolver, segundo elas, sua deficiência de aprendizado. “Elas me disseram que pode ser problema de hormônio”. Subentendi depois de alguns minutos que o hormônio se chamava ritalina, se a senhora não conhece, é um nome comercial do metilfenidato, uma catecolamina (agonista adrenérgico), que possui estrutura química semelhante à anfetamina (derivado piperidínico). Trocando em miúdos, é a alegria nos últimos vinte anos da indústria farmacêutica Novartis, pois além do filão para melhora da concentração entre executivos (leia-se produtividade no mundo dos negócios), e para emagrecimento de moças já bonitas, recentemente a Novartis mirou nas criancinhas “peraltas”, o que logo virou uma epidemia chamada distúrbio de hiperatividade com déficit de atenção. Também é uma febre entre estudantes que se preparam para concursos. Enfim, uma “bolinha” vendida em farmácia, assim como a cocaína na década de 20.
No início da consulta, apesar do coração já amolecido pelo óleo da lata, resisti: “Mário, infelizmente a medicina não tem um remédio para abrir a cabeça”. Ele me olhou surpreso: “tem não?”. Nesse “tem não?”, presidenta, confesso que senti nó de choro na goela. Lembrei do Giosuè, Guido e sua “principessa” do filme “A vida é bela”, todo aquele esforço de Hércules do Guido em esconder do garoto que aquilo ali era um campo de concentração nazista, tentando sustentar que tudo não passava de uma grande brincadeira muito bem bolada.
A miséria de Mário foi o campo de concentração em que me sustentei para não lhe privar da esperança. Não iria ali fazer um discurso “conscientizante” sobre classes sociais, estrutura e superestrutura, para lhe explicar o porquê da sua dificuldade de ler. Não iria estimulá-lo a se indignar com a injustiça do mundo capitalista e se associar ao sindicato dos catadores de lixo, tornando-se em vez de um Mário falador e bem-humorado, um companheiro sisudo e com a raiva na garganta dos seus discursos.
Também não iria lhe explicar que o mote do governo Lula era o Fome Zero e o da senhora é o Brasil sem Miséria, apesar de que a fome e a miséria nunca desaparecerão se outras bolsas-valores-‘famiglias’ não esvaziarem de vez.
Muito menos iria lhe noticiar que está acontecendo uma crise no capitalismo global e que os ricos, que são a condição para a existência da sua miséria, estão agora com uma cefaléia tensional leve, muito leve.
Definitivamente, não, presidenta.
Menti que nem o Guido a Giosuè: “buonguorno princepessa, me enganei! Tem sim um remedinho pra você, Mário”, ele me abriu o sorriso banguelo, pegou a receita e disse que tinha de ir, “tô atrasado pra aula”.
Bateu à porta e me deixou sozinho, com o rubro-negro já esfacelado no fundo da lata.


Mande-me notícias, presidenta, há tempos que não recebo uma carta sua.
Carinhosamente,
o seu Dr. Luiz
ps: o “remedinho” foi Gingko Biloba, um pop star da fitoterapia.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O que há por trás de um cigarrinho?





INTRODUÇÃO


A partir da leitura de livros e artigos disponibilizados pela disciplina “Arenas Transepistêmicas e comercialização do conhecimento”, ministrada pelo prof. Kenneth Camargo Jr no Instituto de Medicina Social (IMS/Uerj) no primeiro semestre de 2011, nasceu a necessidade entre os estudantes da divulgação dos temas que rodeiam o material. O sentimento que predominava, a cada novo artigo ou capítulo de livro, sugeria o seguinte desafio: “precisamos contar isso para as pessoas...”.
A partir daí, como as informações contidas nos textos eram completamente novas e reveladores para os pós-graduandos que cursaram a disciplina, decidi me imbuir do desafio de montar um texto acessível para leigos e não-pesquisadores.
Uma das temáticas centrais dos textos trabalhados é a relação entre a ciência e a indústria. Existem realmente interesses “extra-científicos” na produção do conhecimento? Quais estratégias são necessárias para sustentar um produto no mercado apesar do seu reconhecido malefício para a saúde humana e o meio ambiente?
Apesar de os textos tratarem da relação da ciência com vários tipos de indústrias (mineradoras, petrolíferas, de celulose, farmacêuticas, de computação etc), focarei na indústria do tabaco, muito pela facilidade de se contar uma história, a qual em muitos aspectos se assemelha a um “thriller”.
Dividirei o texto em duas partes. Na primeira, tentarei discutir temas gerais para iniciar o leitor na discussão. A segunda será reservada ao referido “thriller” sobre ciência (e cientistas), mídia, liberdade e como os cigarros se mantiveram acesos até os dias de hoje.
Dedico este texto aos corajosos autores, muitos provenientes dessas indústrias, os quais decidiram revelar informações tão importantes para nós, consumidores.
Informações que reforçam nossa desconfiança em sermos mais “marionetes” do que imaginávamos. Obrigado por me mostrarem que minhas “teorias da conspiração” não são tão fantasiosas assim.
As fontes primárias a que esses autores se reportaram são da Legacy Tobacco Documents Library, onde estão mais de 13 milhões de documentos das indústrias de tabaco sobre estratégias de venda, marketing e campanhas. E que estão disponibilizadas no site da Universidade da Califórnia: http://legacy.library.ucsf.edu/.
Apesar de tão extensa documentação, quase não há publicações a respeito no Brasil. Tento estimular, portanto, a tentativa de plantar uma semente da curiosidade em pesquisadores e jornalistas que, por acaso, tenham o interesse de descobrir como essas indústrias operavam as estratégias por aqui e na América do Sul.
Antes de começar, peço consideração pelos possíveis deslizes de tradução. Toda a literatura pesquisada ainda está no inglês, espero que por pouco tempo.




PARTE 1




Maçãs, eurekas e outros insights


Que é inegável o reconhecimento que a ciência atingiu nos dias de hoje todos sabemos, que a supremacia de uma nação está diretamente proporcional à importância (leia-se investimentos) que é destinada à produção do conhecimento idem. No entanto, poucos sabem (ou se lembram) que a maçã caiu na cabeça de Newton há menos de 400 anos.
Refiro-me à ciência moderna e à difícil ruptura com os modelos anteriores de explicação do mundo. Repostas como “porque Deus quer”, ou “porque é assim” se tornaram evasivas, o próprio medo do desconhecido teve que ser desafiado a duras penas. De uma vez por todas, o ser humano, agarrado à sua própria razão, despegava-se do temor à ira divina.
No entanto, é bom lembrar que a figura da maçã como pecado de desafio a Deus no Jardim do Éden não se aplicava diretamente a Newton, muito menos a Descartes, que se esforçou por toda a vida a provar a existência de Deus.
De forma paradoxal, os responsáveis pelo eixo de sustentação da ciência moderna eram devotos fervorosos. O tiro saiu pela culatra, a ciência precisou se desgarrar da religião para se legitimar como a quintessência da racionalidade.
Não foi fácil. Se hoje são banais os aviões, celulares, antibióticos e as viagens aeroespaciais, não custa lembrar quanta dificuldade foi para Galileu, Copérnico e Giordano Bruno sustentarem suas convicções baseadas na ciência.
Todas essas transformações na natureza que vivenciamos no dia-a-dia foram frutos desse tipo de ciência, ou melhor, da ciência como hoje conhecemos. Porque justamente a intervenção na natureza, transformando-a radicalmente, foi o que diferenciou esta ciência dos antigos modelos de produção do conhecimento. Em contrapartida, especialmente nesse ponto reside o preço que pagamos desse “progresso”.
Segundo Boaventura de Souza Santos (2006, p 138), “(...) paradoxalmente, [sobre a ciência moderna] para maximizar a sua capacidade de transformar o mundo, pretendeu-se imune às transformações do mundo. (...) a ciência é feita no mundo, mas não é feita de mundo”.
O que o sociólogo português enfatiza é que a ciência possui mais poder de transformar o mundo quanto maior é a sua independência em relação a ele. A ciência possui suas próprias regras, independente de isso ser socialmente construído ou não.
Essa visão denuncia uma questão crucial para a crítica a essa forma, aparentemente magnífica e deslumbrante da produção científica: a produção do conhecimento de 400 anos para cá nem sempre privilegia a humanidade e quase nunca é compartilhada entre os seres humanos.
A ciência é fantástica para quem a detém, porém nem mesmo os privilegiados ficam imunes, por exemplo, às consequências negativas e irresponsáveis que, em nome da ciência (não necessariamente da humanidade), a natureza vem sofrendo e respondendo (muito bem explicado ironicamente pela teoria de ação e reação de Newton) através do aquecimento global e desequilíbrios dos fenômenos naturais que se avolumam a cada ano.
Além da resposta da natureza em si, a ciência moderna possibilitou outros excessos e irresponsabilidades humanas também em nome do progresso, como a indústria bélica, a engenharia nuclear e as ciências jurídicas que sustentaram a escravidão, os regimes fascistas, incluindo a utilização de seres humanos como cobaias nos estudos sobre vírus e bactérias.
Principalmente a partir da Revolução Industrial e do avanço do capitalismo, a produção do conhecimento científico vem obedecendo às regras do mercado, e ao mesmo tempo sustentando cientificamente o próprio mercado. Uma auto-regulação que privilegia ainda mais a concentração das tecnologias e conhecimentos, o não-compartilhamento e uma construção de uma ciência desatrelada das demandas sociais.
Todos esses exemplos que expõem o outro lado da moeda muitas vezes não são suficientes para arranhar a impávida figura do cientista vestido de branco, asséptico, por trás de tubos de ensaios. O que acontece é que há muito pouco tempo, a hipótese de que existem outras motivações subjacentes (e muitas vezes determinantes) para além do puro interesse intelectual na produção de pesquisas vem sendo investigada e, como era de se esperar, confirmada.
Claro que poucos são ingênuos o suficiente para não desconfiar na dificuldade (diria, impossibilidade) do cientista em ser totalmente imparcial nas suas pesquisas. Claro que parte dos seus valores e sua forma de ser e pensar o mundo vai estar contida na sua produção de alguma maneira. A novidade é que, devido ao avanço do capitalismo e a consequente transformação da ciência e do conhecimento em mercadoria, “o que” e “como” se pesquisar estão sendo determinados em um único $entido.
Se já desconfiávamos que nem a maçã de Newton, nem o eureka! de Arquimedes eram puros e românticos, há pouco começamos a perceber que o insight científico já pode nascer com preço e marca registrada.






Conexões transepistêmicas e comunidades de especialistas


Muito recentemente os cientistas sociais (sociólogos e antropólogos) ultrapassaram a porta do laboratório do cientista. O que quero dizer é que só no século XX estudos sociais sobre a ciência começaram a aparecer. Até então, prevalecia a idéia de que o único fator determinante de uma pesquisa, como já se foi enfatizado, era o interesse teórico-intelectual do cientista.
Para Knorr-Cetina (1982), pesquisadora seminal nessa área, existiria sim semelhanças entre a vida social e a vida científica. Apesar de os cientistas sociais não dominarem um determinado tipo de ciência, como a biofísica por exemplo, não quer dizer que não se poderia tentar compreender outros determinantes que poderiam estar influenciando no resultado das pesquisas biofísicas para além da biologia e da física.
O fato de as comunidades científicas serem socialmente construídas corrobora para o entendimento de que, apesar da necessária impessoalidade do cientista no decorrer de suas pesquisas, seus valores e interesses acabam “vazando” para o resultado das mesmas. O mesmo se aplica para os valores e interesses das comunidades científicas no qual está inserido, as quais também se relacionam com outros agrupamentos sociais não necessariamente de cientistas.
Essas conexões, chamadas pela Knorr-Cetina de transepistêmicas seriam o caminho chave para se abrir a “caixa-preta” dos estudos sociais sobre a ciência: a produção do conhecimento.
Tendo-se como precursor Thomas Kuhn, surge um novo campo de estudos sobre a ciência, o Science Studies (no Brasil, “Estudos sociais sobre a ciência”), que tenta focar na produção dos cientistas, apesar de também tecer associações entre o modelo de se fazer ciência e a economia de mercado. Science Studies utiliza elementos da História da Ciência, Sociologia da Ciência e Filosofia da Ciência.
Além da Knorr-Cetina, despontam nesse campo: Harry Collins, Steve Shapin, Andrew Pickering e Bruno Latour.
Em relação à implicações entre o processo de se fazer ciência e a economia de mercado, por exemplo, torna-se importante notar o quanto que o raciocínio científico dentro de um laboratório está imbricado com o raciocínio econômico. Segundo Knorr-Cetina, palavras como risco, custos e vendas estão no cotidiano dos cientistas. Além do mais outros exemplos tornam mais evidente essa relação:
- as tomadas de decisão são realizadas a partir das probabilidades de “sucesso” dos resultados esperados ao fim da pesquisa.
- muitos objetos científicos, por não utilizarem tecnologia de ponta (ou da moda), são descartados e rotulados como “simples” pela comunidade científica.
- outros objetos científicos são inventados graças à fascinação dos cientistas por uma tecnologia rara e dispendiosa, ou seja, muitas vezes o interesse do pesquisador não está no que lhe gera dúvidas e questionamentos, aliás, isso pode ser apenas um detalhe.
- o esforço em publicar pesquisas em determinadas revistas que não possuem familiaridade com o que está sendo pesquisado apenas pelo fato de serem revistas renomadas.
- o que é pesquisado não é construído socialmente (ex: a sociedade não seleciona e prioriza os temas que precisam ser pesquisados), isso ocorre através das demandas das agências financiadoras que negociam qual é o problema e como pode ser selecionado para a produção de pesquisas.
Enfim, todo esse interesse por oportunidade, resultado, riscos e produtividade numa linha de pesquisa se remete à ideia de mercado, onde a mercadoria é a ciência e, por extensão, o próprio cientista.
É muito importante nessa discussão, porém, não se perder em possíveis absolutismos. Está claro que a produção do conhecimento não se dá apenas por interesses intelectuais, porém da mesma forma não suporta uma única causalidade econômica. Um conjunto de fatores estará sempre determinando o resultado da ciência. O desafio está em identificar quando um determinado estudo está pendendo para um lado, digamos, “menos científico”.
O conceito de conexões transepistêmicas, portanto, descarta definitivamente a possibilidade de se achar que a noção de comunidade de especialistas é apenas o único contexto relevante para se estudar a produção do conhecimento científico. E isso não foi pouco.
No entanto, Bruno Latour declara que passados os anos, em outras palavras, “o feitiço está se virando contra o feiticeiro”:
"Programas inteiros de Ph.D. ainda se esforçam para se certificarem de que os jovens estão aprendendo a difícil maneira como os fatos são construídos, que não existe tanta coisa “natural”, sem mediações, que não existe um acesso sem vieses à verdade, que somos prisioneiros da linguagem, que sempre falamos de um particular ponto de vista etc. Enquanto isso, extremistas perigosos estão usando do mesmo argumento de construção social para destruir fortes evidências que poderiam salvar nossas vidas." (Latour, 2004, p. 227)
Ele se refere às estratégias das indústrias em minar o conhecimento científico com fortes evidências sobre o aquecimento global, que é fruto, entre outros, do excesso de consumo de bens e da utilização de matérias primas não renováveis, como carvão e petróleo. E mais: que essa estratégia está se pautando, deformadamente, nos princípios do próprio Science Studies. Latour continua:


"Estava eu errado em participar na invenção deste campo conhecido como Science Studies? É o bastante dizer que nós não queríamos dizer o que dissemos? Por que a língua queima ao dizer que o aquecimento global é um fato mesmo você queira ou não? Por que eu não posso dizer para o bem da humanidade que o argumento já está fechado?" (Latour, 2004, p.227)


Certamente Latour ficaria estupefato com a deformação dos valores da ciência ministrados pela indústria do tabaco no decorrer do século XX.





PARTE 2


Agora chegou a hora do “thriller”. Contarei apenas uma das tantas histórias que tivemos acesso, infelizmente deixarei para depois a história sobre a estratégia para atingir o sexo feminino e a juventude. Aqui focarei na disputa sobre os malefícios do fumo passivo. Comprem suas pipocas e boa leitura.






























O fumo passivo tem voz ativa


Personagens

Enviromental Protection Agency (EPA, agência americana de regulação e proteção do meio ambiente. Possui financiamento de pesquisas acadêmicas e agências federais, como a FDA e o National Institute of Health. Tem um bom coração, defende com coragem o meio-ambiente, mas possui um orçamento ridículo perante os seus arqui-rivais)
Tobacco Institute (TI, órgão de produção científica e planejamento de marketing das indústrias de tabaco. Riquíssimo, com amplo poder sobre as mídias e financiador de muitos institutos de pesquisa)
The Advancement of Sound Science Coalition (TASSC, uma força conjunta das indústrias de tabaco formada para combater na mídia de grande circulação, através de matérias e artigos, os “disparates” da ciência que não atinge seus objetivos)
Freedom Organization for the Right to Enjoy Smoking Tobacco (FOREST, ONG britânica que luta pelo direito à liberdade de fumar. É patrocinada pela British Tobacco Advisory Council, BTAC, órgão que reúne as indústrias de tabaco da Grã-Bretanha).


Em 1986, o Ministério da Saúde americano declara que o fumo passivo pode causar câncer em não-fumantes sadios. Até então quase todos os americanos sabiam que fumar poderia levar ao câncer, mas as indústrias estavam conseguindo sustentar suas vendas através de campanhas massivas e pesquisas falsas para incutir a dúvida nos consumidores e fazê-los desistirem de tomar partido para qualquer um dos lados. E com que finalidade? Os consumidores precisavam continuar como estavam: fumando.
A partir dessa nova e devastadora revelação, as indústrias de tabaco partiram para a ofensiva temendo as proibições públicas de fumar em ambientes fechados, o que posteriormente haveria de se tornar realidade.
De agora em diante, não apenas os dados das grandes pesquisas que atestavam os malefícios do fumo passivo eram questionados e refutados em mirabolantes estudos inventados, mas também toda a ciência que fosse produzida no sentido de atrapalhar o funcionamento da indústria seria chamada de bad science, ou junk science - “ciência porcaria”.
Um estudo de 1981 dirigido por Takeshi Hirayama, epidemiologista chefe do Instituto Nacional de Pesquisas em Câncer em Tóquio, serviu como ponto final na possível dúvida que se restava sobre os efeitos do fumo passivo. Após 14 anos de pesquisa acompanhando cerca de 540 mulheres, foi constatado que esposas de fumantes morriam mais de câncer de pulmão que esposas de não-fumantes.
Diante de tamanha evidência, o Tobacco Institute (TI) contratou vários consultores na tentativa de minar o estudo de Hirayama, inclusive um renomado bioestatístico da época, Nathan Mantel, que produziu um trabalho pelo qual demonstrava haver um “sério erro” de estatística. O poderoso TI também comprou manchetes dos jornais de grande circulação para lançar mais uma vez a dúvida. Estampavam nos grandes jornais:
“Cientistas disputam achados de risco para câncer em não-fumantes”
“Nova pesquisa contradiz sobre os riscos para os não-fumantes”


Apesar dos esforços, dessa vez o TI não saiu na vantagem, já em 1984, 3 anos após o estudo do japonês, 37 estados americanos já haviam sancionado restrições sobre o fumo em lugar público. No entanto, a partir de 1986, quando se deu o endurecimento das políticas públicas via Ministério da Saúde, o TI reforçou suas armas numa campanha nunca antes vista. Eis algumas estratégias utilizadas:
- associar a restrição ao fumo à discriminação e ao tolhimento da liberdade individual;
- criação de firmas de advogados para servirem de disfarce jurídico na contratação de cientistas para produzirem conhecimento e pesquisas contra o anti-tabagismo;
- produção de novas categorias nosológicas para confundir com as doenças já relacionadas ao fumo passivo;
-patrocínio de campanhas no cinema. Contrato de U$ 500,000 com Sylvester Stallone para aparecer fumando em 5 filmes, no intuito de associar o cigarro ao poder e à força do “Rambo”.
-contratação pela Philip Morris de uma renomada empresa de publicidade, a APCO Associates, para servir de base para as estratégias de marketing e relacionamento com a mídia.
No final das contas, foram gastos no total cerca de 16 milhões de dólares para sustentar a controvérsia de um fato dado como claramente evidente.
Em 1992, a corajosa Enviromental Protection Agency (EPA) lançou um relatório: “Efeitos do fumo passivo na saúde do sistema respiratório”. A revelação em números ficava mais assombrosa: o fumo passivo estava relacionado com 3000 casos de câncer de pulmão por ano. Como se não bastasse, também no período de um ano a exposição ao fumo atrelava-se a 150 mil a 300 mil casos de bronquite e pneumonia em crianças. 200 mil a um milhão de crianças sofriam agravamento da asma. Isso sem contar o aumento de casos novos de crianças asmáticas expostas ao fumo passivo.
Evidências, muitas evidências em estudos epidemiológicos. E foi justamente a partir daí que a indústria de tabaco focou a mira: a epidemiologia não é uma ciência exata.
Dois sujeitos, ambos funcionários de indústrias de tabaco, Fred Seitz e Fred Singer foram cruciais para essa afronta no cerne do “problema”: eles defendiam que a “melhor evidência científica”, relatada nos grandes estudos epidemiológicos, pode sofrer fortes vieses devido a não atingir um padrão de pesquisa ideal.
Traduzindo: o acompanhamento das pessoas, por exemplo, expostas ao fumo passivo não se dava em gaiolas, controlando-se todas as funções 24h/dia, 7 dias na semana. Pois só assim, segundo eles, poderia se garantir que o possível câncer de pulmão, por exemplo, estaria só e diretamente relacionado à fumaça do tabaco, e não a qualquer outro fator cancerígeno.
Mas a epidemiologia clínica e a medicina, visto que os sujeitos envolvidos são seres humanos, costuma lidar (ou deveria) com a palavra ética, e por essa “limitação” a chave para esses tipos de pesquisa chama-se probabilidade. Tanto que, em casos nos quais por exemplo o remédio pesquisado já atingiu boa evidência de benefício, o grupo que estava usando placebo é interrompido, ou seja, muitas vezes as pesquisas não vão até o “fim”, já que isso poderia gerar mortes e outros malefícios.
Mas isso parecia não ser importante, uma manchete escrita por eles nessa época declarava suas estratégias: “Junk Science na EPA”, reivindicando que a EPA estava tomando “posições extremas não baseadas pela ciência” (in Oreskes N., Conway E. p 143-144), posto que “não poderiam controlar outros fatores... como a dieta, poluição, genética, doenças pulmonares anteriores etc”.
Da mesma forma, alertavam que o fato de não estarem considerando outros fatores como chumbo, asbestos, chuva ácida e aquecimento global seria uma perseguição, sem bases científicas, à indústria do tabaco. No entanto, a EPA nunca negou que esses outros fatores não poderiam causar malefício, apenas que a fumaça do tabaco era mais um fator cancerígeno.
Fred Singer, aproveitando o ataque, escreveu um livro de bolso Bad Science: a resource book, no qual alertava à população do quão perigoso estava sendo a manipulação das agências do governo para prevalecer os interesses da política, e o quanto de déficit econômico o Estado poderia sofrer ao se basear nas pesquisas e regulações dessas agências.
À propósito, regulação era uma tema chave para ser combatido, pois a liberdade do indivíduo (principalmente o norte-americano) precisava ser preservada. O lema era: “protegendo o direito de fumar, nós estamos protegendo a liberdade”.
Apesar de toda essa ofensiva, por “detrás da fumaça” se deixava transparecer que o ataque aberto à EPA, e não apenas as estratégias anteriores de produzir estudos falsos para gerar dúvidas, sugeria um certo enfraquecimento, demonstrado nessa “falta de compostura”. As coisas para a indústria não iam tão bem assim. Pelo menos aparentemente.
Essa “má fase” transparece por exemplo num memorando entre diretores de comunicação, de Victor Han para Ellen Merlo, da gigante Philip Morris:
“Na falta de um poderoso empenho para expor a fraqueza científica no caso EPA, na falta de um esforço para construir uma dúvida considerada razoável... caso isso não aconteça, virtualmente todos os outros esforços terão eficácia reduzida”. (Oreskes; Conway, p 149)
Esse mesmo diretor de comunicação, Victor Han, entendia que o esforço deveria ser no sentido de construir um “enorme mosaico” que pudesse reunir todos os inimigos da EPA de uma só vez.
Steven J. Milloy, com passado amplo de serviços prestados a empresas que faziam campanhas para minar as evidências de malefícios do fumo passivo, foi um dos cabeças desse mosaico pensado por Victor Han. Mosaico este que se chamaria TASSC (The Advancement of Sound Science Coalition), lançada pela APCO, aquela mesma firma de fachada criada pela Philip Morris anos atrás.
A TASSC, através de ligação com jornais, televisão e rádio, tornou-se uma poderosa ferramenta para a indústria do tabaco, pois chegava aproximadamente ao alcance de 3 milhões de pessoas. Formada por produtores de notícias e de opinião de jornais, tinha como pré-condição que o conteúdo produzido tivesse o poder de minar qualquer pesquisa ou notícia que desafiasse os interesses das indústrias do tabaco.
Os ataques não pararam. As acusações de bad science e junk science, muito menos.
Isso pode ser visto logo após a extensa revisão de pares realizada nos estudos da EPA sobre fumo passivo, cujos resultados já foram divulgados na p. 10. Umas das queixas fundamentais era a respeito da baixa exposição, em concentrações químicas, sofrida pelos fumantes passivos. Parece ser óbvio (mas não para a TASSC) que se o cigarro para quem fuma e inala grande volume de substâncias cancerígenas causa doenças, as mesmas substâncias, mesmo inaladas em menor concentração bem não irão fazer.
Entretanto, apesar da unanimidade dos revisores do estudo da EPA terem concordado que o fumaça do cigarro, mesmo para quem não fuma, é carcinogênica, a TASSC persistia na campanha de desinformação e produção de dúvidas.
A EPA produziu textos em sites para tentar esclarecer a população sobre a investida das empresas de publicidade das indústrias de tabaco. Porém, qual era a força de um website perante uma máquina milionária de produção de notícias e artigos em jornais e TV de grande circulação? Para se desmentir uma matéria da TASSC, por exemplo, no The Washington Post, quantos artigos no site seriam necessários?
Um novo argumento que a indústria de tabaco lançava mão estava relacionado à questão do risco. Viver é perigoso desde que nossa espécie começou a habitar o planeta: predadores, desastres naturais, emissões naturais de radioatividade, acidentes em geral. A questão era introduzir o cigarro como mais um risco “natural” pelo qual os seres humanos, vivendo essa vida tão cheia de riscos, poderia sofrer. Mas aí pousava o sofisma, o cigarro estava longe de ser natural. Assim como dirigir bêbado, ou fazer sexo sem proteção, o ônus não recairia apenas em cima da pessoa que escolheu se arriscar.
O fato é que, através de todos esses esforços em produzir controvérsia na mídia, desde o estudo de Takayama em 1981, em 1995, as ações da Philip Morris na bolsa de valores Dow Jones foram as mais inabaláveis. Apesar de toda a regulação anti-tabagista, em todos esses anos, as indústrias de tabaco nunca haviam sofrido um ataque direto.
E continuaram os “esforços” para manutenção dos lucros. Agora, mais do que nunca, a regulação realizada pelo Estado era parte de uma “ampla estratégia ideológica fundamentada pelo socialismo”. Quem estava dizendo isso eram os britânicos da Freedom Organization for the Right to Enjoy Smoking Tobacco (FOREST). Segundo Oreskes e Conway (p. 162), “o fudamentalismo do livre mercado”.
A FOREST lutava pela “liberdade” de se fumar em hotéis, pubs, avião; lutava também contra a elevação dos impostos que taxavam o tabaco. Combatiam também a ciência “socialista” que privilegiava as ações restritivas do Estado. Em 1994, lançaram o relatório: “Through the Smokescreen of Science: The Dangers of Politically Corrupted Science for Democratic Public Policy”. Por detrás da “liberdade” e da “democracia”, estavam a defesa não explícita do neoliberalismo, do livre mercado sem regulações.
Para esse relatório o prefácio foi destinado a Lord Harris, economista chave para a “Era Thatcher”. Ele acusava as agências federais de estarem realizando uma seleção sistemática e, até mesmo, proibindo a publicação de evidências. “A ação paternalista do Estado”, que “há uma pequena probabilidade que no final estejamos mais saudáveis, porém menos livres”, trechos do seu prefácio.
A defesa do cigarro parecia ultrapassar a mera preservação dos lucros das indústrias, também servia como defesa ao Socialismo Soviético. Importante lembrar que todos esses cientistas e administradores dos governos Nixon, Reagan e Thatcher trabalhavam na disputa ideológica bipolarizada da Guerra Fria.
Diante disso, todos os malefícios decorrentes do avanço do capitalismo (e do “progresso”), como: chuva ácida, camada de ozônio, pesticidas, aquecimento global, energia nuclear, radiação eletromagnética, tabagismo, alimentação gordurosa etc, devidamente demonstradas pela ciência, precisavam ser atacados. Era uma ciência que não prestava para o livre mercado, para a liberdade individual e a democracia.
Não por acaso os mesmos cientistas, publicitários e executivos que haviam questionado a chuva ácida, duvidado do buraco na camada de ozônio e defendido o tabagismo estavam atacando as evidências científicas do aquecimento global. Por que será? Oreskes e Conway lembram o filósofo Isaiah Berlin: “liberdade para os lobos significa morte para os cordeiros”.


Enfim
Hoje em dia, quase 50 anos depois do primeiro grande estudo correlacionando tabaco com problemas de saúde (que remonta de 1964), apesar das restrições em grande parte do mundo, muitos jovens ainda iniciam sua “carreira tabágica”, achando que ainda isso simboliza um ato de rebeldia e liberdade. Recordo-me do nome do cigarro que meu pai devorava 2 a 3 maços por dia: “Free”.
Porém, para muitos outros jovens (talvez a maioria), fumar virou “caretice”, ou mesmo coisa fora de moda. Seria o começo do fim para as indústrias de tabaco? Será que ainda veremos esses executivos no banco dos réus em tribunais norte-americanos, ou até mesmo internacionais?
Talvez, mas o fato é que eles ainda estão por aí, seus capitais provavelmente não se perderam, apenas se transformaram. Fico-me perguntando se as embrionárias evidências relacionando excesso de uso de aparelhos de celular e distúrbios cerebrais, ou, para não parecer ficção científica, ou teoria da conspiração (apesar de não ter mais receio de conspirar!), a questão do aquecimento global não seriam futuros exemplos de um thriller sobre os lobos...
Livres, poderosos, uivando sob a lua cheia.










Bibliografia


Knorr-Cetina KD. Scientific Communities or Transepistemic Arenas of Research? A Critique of Quasi-Economic Models of Science. Social Studies of Science, Vol. 12, No. 1, 1982, p. 101-130


Latour B. Why has critique run out of steam? From matters os fact to matters of concern. Critical Inquiry, v. 30, n. 2, 2004, p. 225-248.


Michaelis D. Doubt is their product: how industry's assault on science threatens your health. Oxford, New York: Oxford University Press, 2008


Oreskes N.; Conway, E.M. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth os issues from tobacco smoke to global warming. New York: Bloomsbury Press, 2010.


Potter W. Deadly spin: an insurance company insider speaks out on how corporate PR is killing health care and deceiving americans. New York: Bloomsbury Press, 2010


Santos B.S. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2a- edição, 2006.


Rampton S & Stauber R. Trust us, we're experts: how industries manipulates science and gambles with your future. New York: Penguin Putnam, 2001

Bom Dilma (por Dr. Luiz, um médico da família de uma OS perto de você)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)





Querida presidenta, não sei mais o que faço aqui no Rio para me manter em linha com meu juízo. Toda semana uma novidade, “vocês agora vão precisar escrever no livro verde o nome do paciente diagnosticado com tuberculose, no vermelho os seus contactantes, no ALERT vão preencher todos em cada campo específico, e, por favor, não se esqueçam da notificação”. “A partir de hoje, todas as receitas serão impressas”. “Amanhã, você e você e você deverão estar presentes no curso sobre raiva humana”, “Pera aí, e os pacientes marcados?” acho que com tanta desmarcação em cima do pênalti devido a cursos-relâmpagos-surpresa, está mais que justificada um curso sobre a raiva humana.
A educação está em permanente crise de afobamento, é como se a gestão quisesse lavar as mãos do contrato em proporcionar um cardápio de cursos para os trabalhadores. Sendo que tais cursos morrem ao girar em torno de si numa velocidade de quebrar o rabo. Os profissionais são arrancados de suas agendas e postos numa sala onde existe uma pessoa falando de um determinado tema. Quando termina, esses profissionais retornam para o seu feijão com arroz e o tempero esperado não é adicionado à panela. Não é compartilhado com a equipe e nem avaliado pela gestão o quanto daquilo foi digerido e metabolizado para a velha prática do dia-a-dia. A questão é tratada da seguinte maneira: “ah, você fez o curso de insulinoterapia (de 2h)? hum... então sabe tudo de diabetes...”.
É grave, presidenta, de enfartar Paulo Freire. A educação permanente na atenção básica aqui do Rio está fracionada, desarticulada com a realidade das equipes e sendo produzida verticalmente, com direito a todo aquele “depósito bancário” que o barbudo gostava de falar. E nisso vão se gastando os PABs, PAB de lá, PAB de cá.
É tudo muito no aqui e agora, esvaziando água de barco furado. Parece filme de Chaplin. Um corre-corre, tudo pra ontem, salve-se quem puder!
São depositadas nas equipes de saúde da família a esperança da transformação da sociedade brasileira. Entendo que na redemocratização, o setor Saúde saiu na pole position, corajosamente reformista, o SUS deslanchando na frente, idealista, aquariano. A estratégia de saúde da família é o pelotão de frente, podemos dizer hoje que é a cara do SUS. A atenção hospitalar, assim como a classe política, vem sendo desacreditada há pelo menos duas décadas. No entanto, presidenta, Brasília virou Babel: Ministério da Saúde fala português, o da Fazenda, inglês e o do Planejamento, chinês. Enquanto temos uma atenção primária nas bases cubanas, a Fazenda continua na conduta do New Deal, colônia exportadora de matéria prima, os juros altos beneficiam a visão do país como parque de diversão de investidores, e o Planejamento sonha com o crescimento chinês. No caso de lá, do Oriente, na ausência de direitos humanos básicos, inclusive uma escravidão não revelada; por aqui uma melhora na vida, sem dúvida, mas alienada pelo “consumo, logo existo”.
Quando pergunto aos adolescentes da minha área, qual é o sonho, muitos respondem ter uma moto. Uma moto, presidenta. Uma moto, aliada a um celular smartphone e qualquer 2000 de salário é o pacote felicidade lá do morro. Fácil de entender: os pais estão alcochoados na aposentadoria da avó + Bolsa-Família, na Escola, corpo docente + salário indecente = mente doente; o que resta ao adolescente (juro que não quis mais rimar) é TIBIA, GTA, Call of Duty e Fifa 11(games, presidenta), além de ficar sonhando com a moto roubada que o tio moto-boy pilota pra cima e pra baixo, pra não dizer em cima da calçada e sobre a passarela de pedestres.
O que eu preciso lhe falar, presidenta, é que a tal da intersetorialidade precisa deletar a “ordem e progresso” e fincar um “Ctrl + V” na bandeira nacional. Não se pode achar que a equipe de saúde da família vai dar conta da HAS/DM, Tuberculose, DST/AIDS, Puericultura, Pré-natal, Transtornos mentais, Violência Familiar, Etilismo, Tabagismo, Abuso de drogas, Planejamento familiar, Pequenas cirurgias, Alimentação saudável, Atividades físicas, Reabilitação, Urgências e Raiva Humana de 4000 pessoas se o sonho continuar sendo uma moto.
Por mais que o conceito de saúde se amplie, a SUStentação reformista da democracia brasileira precisa se basear na lógica do exército zapatista, sem chefe, todos são sub-comandantes. Então Saúde da Família deve andar de braços com a Educação da Família, Cultura da Família, Economia da Família, Meio-ambiente da Familia, Esportes da Família sem ONG, para, enfim, montarmos a República Federativa da Família-Brasil. Salve, salve, presidenta.
ps 1: gostei da frase que li: “não é coitado do Lula, é coitado do câncer... foi brotar logo em quem...”
ps 2: para negociar com a Fifa e com o Comitê Olímpico, nada melhor que um comunista à brasileira, devoto de Mao Tsé-Tung, Nossa Senhora Aparecida e Saci Pererê. Baforada neles!
Carinhosamente,
Dr. Luiz











Bom Dilma (por Dr. Luiz, um médico da família de uma OS perto de você)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Querida presidenta, também assisti ao documentário Trabalho Interno (Inside Job, 2011) e, assim como a senhora, descobri que o Lehman, de “Brothers” não tem nada...
A senhora não pode quando estiver com insônia se ater a conteúdos ansiogênicos, recomendo fazer cálculos de aritmética sem nenhuma correspondência com PIB, taxa de câmbio ou juros líquidos. Sugiro contas do tipo: Pedrinho foi à feira comprar mamão, só tinha 10 reais, e a promoção era 2 mamões por 5, quantos mamões Pedrinho levou? Recomendo parar por aí, pois Pedrinho pode perguntar: por que há 3 meses o mesmo feirante vendia 3 mamões por 5?
Insisto nisso, presidenta, para que o seu sono não seja invadido por uma tempestade tenebrosa de dólares, seguido de um Godzila chamado Inflação avançando sobre a Esplanada, sua sombra crescendo... O bicho, morto de sede devido à baixa umidade de ar, num só golpe, arranca a cuia do Congresso para sorver em goles o lago Paranoá. Nem ouse, presidenta, senão pode vir um pesadelo pior: o sumiço da reserva do pré-sal. Os chineses drenaram tudo através do mais profundo buraco no chão perfurado do outro lado da Terra. E distribuíram o ouro negro por toda a China em vasilhames de molho shoyo. A senhora poderia acordar molhada de royalties, ser compulsoriamente afastada por alguns dias e... Michel Temer... não!
Mas deixemos pesadelos e Godzilas de lado, pois quero focar em tecnologia na Atenção Primária à Saúde. Sei que a senhora, ao mesmo tempo que deseja atrair investimentos, também sonha com o aumento da cadeia produtiva nacional, investindo em inovação e tecnologia, não é? Quer mandar esse papo de país-banana-agro-exportador pastar, não é? Pois bem, então por que diachos a Fiocruz praticamente havia comprado sem licitação o tal do Alert a 365 milhões dos portugueses? Saravá Dom Pedro que a Folha de São Paulo noticiou o fato e o contrato foi cancelado há poucos dias. Quem diria que poderíamos agradecer à Folha, hein?
Para quem não sabe o Alert é um software de gestão de dados, que permite a formatação de prontuários eletrônicos, e a integração das informações de saúde em rede. Para as OSs, é por onde se avalia o cumprimento das sagradas metas. Isso mesmo, no Rio já está sendo usado em vários serviços de saúde, o que quase aconteceu foi a expansão nacional.
Todo esse arrodeio, presidenta, é para lhe dizer que os portugas e os mineiros (a representação da marca é de uma empresa de Minas) nunca foram tão bem pagos para tocarem a Dança da Manivela. Lembra? Nós, profissionais do Saúde da Família do Rio, ainda estamos nos esbaldando com tamanha riqueza coreográfica. A cada travamento, um passinho: pa pa ra pá pa ra ra...
Preste atenção, há duas questões sérias a respeito do Alert. A estrutural se relaciona com uma outra dança, a do empurra-empurra, digamos num formato mais punk inglês do que axé baiano. A empresa mineira que representa o Alert no Brasil diz que a prefeitura do Rio não cumpriu cláusulas contratuais que garantem um nível “x” necessário de qualidade de rede de internet para poder correr o programa online. Leia-se sem manivelas. Já a prefeitura retruca dizendo que isso não estava no contrato original, enquanto isso a OS cobra de ambos pois ainda não está podendo checar metas e, por conseguinte, produzir mais lucros.
A outra questão é mais técnica, pois sendo um software para ser usado na Atenção Primária, não possui ferramentas diretas e acessíveis para a saúde da família: georreferenciamento, heredograma, prontuário familiar e outros recursos que poderiam ser uma mão na roda, mas é na manivela que a roda gira.
Recheando tudo isso, adiciono a cereja do ridículo treinamento a que os profissionais foram submetidos. A prefeitura diz que a empresa deveria ter oferecido mais que o dobro de horas para ensinar as equipes a manejá-lo, resultado: muitas críticas, pouca satisfação, e nenhum sentimento afetivo por parte dos trabalhadores, tipo: um software para chamar de seu.
Após 189 anos de independência, mesmo que seja de mentirinha, mesmo que tenhamos sidos transferidos para outras metrópoles, não merecíamos montar o nosso próprio software de gestão de dados para uma estratégia tão pop star para o governo como a Saúde da Família?
Bom, presidenta, espero que reflita a respeito das danças, e ponha-se em Alerta sobre transferência de tecnologias entre os cruzmaltinos e os tupiniquins.
Despeço-me lhe rogando que cuide do seu sono. Afaste-se do Godzila, do Pepe Vargas, de uma EC 29 sem Fundeb, do PT do RiOS, das tecnologias sem antropofagias e, sobretudo, desses “Brothers” que fazem Pedrinho gastar mais dinheiro.




Carinhosamente,
Dr. Luiz.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Bom Dilma (por Dr. Luiz, um médico da família de uma OSS perto de você)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)


Querida presidenta, nesta semana, durante minha visita domiciliar, senti um cheiro de queimado numa ruela, quando prontamente chegaram os periquitos, foi quando pensei na senhora.


Curupacu! Chegaram as maritacas trazendo balde d'água para salvar Amazônia, Hugo Chávez jogava xadrez com Kadafi numa folha de bananeira, que se descascava a cada pitaco de Obama, o fogo aumentava e vinha de todo lado: chineses engoliam tablets e cospiam chamas pra cima dos jequitibás, bolsas de valores, dentro de jacas maduras, transbordavam dólares fumegantes, ingleses bebiam coquetel molotov e se acendiam como fósforos. Nas cédulas americanas, em meio às labaredas, George Washington baforava calmamente seu cachimbo da guerra, mas era maconha roubada dos mexicanos. A floresta ardia e se estalava em brasa, ardia... bom dia... bom dia... Bom Dilma!


Acordei molhado de suor, presidenta, na maca do meu consultório. Para mim também havia sido um pesadelo ter atendido 20 pessoas numa manhã. Havia dormido meia hora do meu almoço.
Periquito é o carinhoso apelido dado pelos moradores aos soldados do Exército pertencentes à força de pacificação aqui do Rio de Janeiro. Naquele mesmo dia do pesadelo, enquanto perambulava pela visita domiciliar, havia sim um cheiro de queimado numa ruela. Imediatamente eu e meu fiel escudeiro ACS chegamos ao local, assim como os periquitos. Ficamos assim: Quixotes e Periquitos prontos para a batalha final em frente a uma bomba d'água que tossia uma fumaça fina. Corre, pega o extintor, força-tarefa, nisso um vizinho, daqueles que passam a tarde na calçada, mansamente chegou perto e desligou a bomba. Durante esses meses que os periquitos estão voando pelo morro tem sido assim: muita água, pouca bomba, mas a fumaça ainda Babylon protege.
É que em terra de periquito, o bico é curto, e boca vira boquinha. Todo fim de tarde parece desenho animado: quando a boquinha começa a gritar, lá vem os periquitos, vem gente avisar, fecha a boquinha. Chegam os periquitos, nada, nem migalha, voam de volta os periquitos, a boquinha vai saindo do beco da fome, dá um muxoxo e volta a comer pelas beiradas. E assim se passam as tardes no morro das boquinhas e periquitos.
Presidenta, preciso lhe confessar que não me sinto mais como quando assumi: um médico de família numa Faixa de Gaza afegã no interior do Iraque. Hoje em dia, aqueles caminhões, uniformes da mata, coturnos, todos os calibres remontam-me à coleção infantil dos Comandos em Ação. G. I. Joe! É assim que eu cumprimento os periquitos, um tanto quanto integralista, né não?
Mas os moradores, recém-saídos da tirania, começam a respirar um ar, digamos, rarefeitamente democrático. Ouço coro: “tá bem melhor, Dr. Luiz”. Dizem que antes era mais motoqueiro que gente, e dia sim dia não o proibidão se juntava à liberação no bonde que ficava parado, pois nas ruas fechadas só entravam tchutchuca e tigrão. Agora, mesmo com uma biodiversidade mais restrita, os moradores acreditam que na troca dos periquitos pela UPP, a coleira fique mais solta. Para eles, PM e tigrão não tem distinção. Para mim, o problema não será na troca, mas depois da Copa...
Faço todo esse rodeio para lhe dizer que no mapa astral seu Marte em Áries na casa 10 está pegando fogo, ou seja: “cai, cai, ministrão, cai, cai, ministrão, aqui na minha mão”. A senhora estava uma árvore cheia de fruta podre, mas, caindo uma por uma, a imagem do verde foi ficando mais frondosa, e agora espera a primavera que está se abrindo no horizonte. E o melhor, só nasce fruto hortifruti, colorido e grande.
Casa Civil, Transportes, Defesa, Turismo, Agricultura, salve-me Nossa Senhora da Saúde! Prometo-lhe que da próxima vez que vier inaugurar uma Clínica da Família, vou lhe levar num terreiro aqui perto de casa. Ainda bem que você é filha de Ogum, nega.
Como se não bastasse, parece que o climatempo está prevendo uma tempestade de dólares. Benjamin Franklin inundando bueiro entupido, George Washington (aquele que roubou dos mexicanos) escorrendo em lama morro abaixo, Thomas Jefferson caindo em goteira no prato de sopa.
Meu olho clínico me diz que os bisturis já estão afiados em relação aos juros.
Bom, presidenta, no que se refere ao meu papel como médico de família, quero-lhe dizer que estou fazendo minha parte, ando meio rouco de tanto convidar o povo para as conferências distritais com juros ou sem juros. Mas, aqui pra nós, queria convidá-los mesmo para virem aqui pro blog. E aquela banda larga? Até agora não tocou nem uma música...
Para terminar, quero muito saber se essa nova categoria nosológica: “obsessão por home care” é contagiosa. Tem vacina?


Carinhosamente,
Dr. Luiz.


1) um beijo a Goreth e o povo de Tabuí.
2) Charles, pitbull chupando manga? Espero que seja daquelas “manga pôde”. Um abraço.
3) Agradeço ao pessoal do blog Lima Coelho (http://www.limacoelho.jor.br/home/) pela ótima acolhida. Dilma já está ligada.



segunda-feira, 25 de julho de 2011

Bom Dilma (carta 4)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Querida presidenta, estava eu há pouco na parada de ônibus pós-expediente e as únicas 2 linhas que me levam à minha santa casa me deixaram de braço ereto, porém impotente. Fingiram que eu não estava ali. Fui impelido a confabular sobre público e privado, os-sem-república, os-sem-democracia, os-sem-cidadania e, finalmente, me veio a máfia dos transportes à cachola. Daí o Nascimento da idéia de lhe escrever esta carta que, como a senhora mesma me confidencia, morre de rir e chorar ao saboreá-la no divã da sala íntima da Alvorada. Apenas não entendi o porquê da sala íntima, muito menos do divã.
Acredito como médico de família que seria muito salutar para a Família República Brasil que os eleitos e eleitas para mandatos no Legislativo e Executivo fossem obrigados a utilizar os serviços públicos, idem para seus parentes de 1º- grau: saúde, educação, transporte. Paremos por aí. Uns podem me desiludir: mas eles e elas já utilizam dos serviços, porém os das ilhas de excelência, das miragens públicas, aquelas que possuem um acesso mais restrito que camorote vip em fla flu. Outros ainda podem me convencer: filas para exames, cirurgias e consultas seriam abertas perante a presença de rostos e assinaturas mais tarimbadas. Desculpe, presidenta, mas não consigo lhe ver pedindo a um assessor para checar, por exemplo, se a sua consulta no SISREG para oftalmologia já saiu.
O mesmo para melhores escolas e universidades públicas: achariam matrícula até em ovo de páscoa para entrada imediata de tão ilustres brasileiros. Agora, quando o assunto é transporte, aí não tem escapatória. Duvido muito as empresas concessionárias de metrôs, trens e ônibus abrirem exceção até mesmo para a senhora.
Se a farra do boi causa arrepios nos vegetarianos, a farra dos carros me deixa de tanque vazio. Dá para enxergar daqui a felicidade de Lula, transmita-lhe meus abraços, quando ele passa na rua por concessionárias e fábricas Fiat, Honda, Renault, Volkswagen etc. Imagino ele fazendo um tipo sinal da cruz dos católicos motoristas.
A farra dos carros, dentre outras blefadas certeiras, sustentou o Brasil no início do cracking de 2008. Lembro-me dele suplicando “comprem, batom; comprem, batom”. Presidenta, haverá um tempo em que ao me deslocar do meu quarto para o banheiro, no mínimo um ford Ka vai estar parado no meu corredor. O que eu esperaria da senhora e do Ministério dos Transportes?
Como sei que o PT, muito menos o PR, teria coragem em restringir um pouco que seja a venda de carros, que pelo menos fosse exigido a entrega grátis de um beco, rua, ou avenida, a depender do tamanho do carro vendido na hora da compra. O cidadão sairia da concessionária com seu automóvel e uma rua compacta, dobrável e inflável que poderia ser guardada numa maleta de primeiros socorros. Para os grandes, avenidas; médios, ruas; pequenos, becos e ruelas. Pronto, o estacionamento estaria garantido, sem flanelinhas. Projeto Rua Portátil para um Brasil melhor.
Se a educação e a saúde foram e estão sendo na medida do Impossível construído socialmente: SUS, Conselho Nacional de Educação, Fundeb, PNE etc, os transportes foram e ainda são jogados na piscina dos tubarões. Metrôs, trens e ônibus são engolidos sem mastigação, sem boas maneiras e sem dieta pela Família Tubarão SA.
Deixe-me ser mais claro, presidenta: a farra dos carros é apenas uma gota de gasolina da farra dos transportes. Isso vem de muito tempo, crescendo na era JK, e que se perpetuou com o PR desde o primeiro mandato de Lula para cá. K, cá, K, cá, K, cá. Não me refiro ao craque.
Voltando à minha parada de ônibus, venho anotando meticulosamente horários exatos e número dos ônibus que atrasam, que não param, que trasportam gente feito carga. Sabe o que o órgão público regulador me responde? “O motorista já foi encaminhado para o setor de psicotécnico”, leia-se: ante-sala do depejo. Eu insisto: e qual vai ser a pena para o dono da empresa?. “Não há correções para os donos, só para os empregados”.
Como a senhora sabe moro no Rio de Janeiro, e não vou me estender aqui sobre os contratos de licitação aprovados na calada de um ano-novo recente no intuito de renovação por 20 anos da empresa que chicoteia, quer dizer, regula o serviço de trem da Cidade Maravilhosa. A senhora com certeza já sabe de tudo isso, e de muito mais histórias que desconheço e que se remetem ao tempo de Cabral. O Pedro, presidenta.
Consigo entender o quanto que a senhora está preocupada com o Senado, no caso do PR cruzar para a calçada da oposição, mas, presidenta, 75% de governistas na Câmara não são vistos desde a época da Arena e MDB. 75%! Vejo Obama, coitado, suspirando antes de dormir: that’s the guy, that’s the girl...
You are the Girl, my darling. Por isso, coragem. Leve todos da Alvorada e do Congresso para a parada de ônibus mais próxima e boa viagem. Xiii, Brasília! Golpe baixo? Por que não um nocaute certeiro?
Carinhosamente,
Dr. Luiz

Bom Dilma (terceira carta)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)


Querida presidenta, entendo na pele a causa do seu silêncio em relação à minha última carta. Essa coisa de separação nos faz monotemáticos obsessivos. Se não forçarmos a mente para as tarefas do trabalho, corre o risco de ficarmos alguns minutos olhando para um porta-lápis, ou para um detalhe na infiltração de uma parede e insistentemente perguntando o porquê de Palocci, perdão!, dele ou dela ter dito aquilo, ou tido aquela atitude naquele dia aparentemente ingênuo.
Digo “na pele”, pois recentemente me separei da minha esposa, e um belo dia me peguei por alguns minutos olhando abestadamente para uma prateleira da farmácia básica da unidade de saúde da família onde trabalho. Quando voltei à realidade, a viagem foi mais cruel: o local onde deveria estar o remédio contra sarna estava vazio! Olhe só, presidenta, para onde vagueiam nossos olhos nesses dias de tristeza...
Mas poeira pra cima, e demos voltas pro lado que o santo é de barro. Trabalhemos, trabalhemos, marchons, marchons. E aindo lhe digo que a senhora saiu ganhando, o fato de ele ser querido entre os empresários e patrões a tornava unanimidade pelas mídias de lá e de cá, mas deixemos essa coisa de unanimidade com Chico Buarque.
Uma estadista precisa enfrentar as naturais inimizades e ter coragem para dizer com quem realmente anda. Ademais, é nas quedas que o rio cria energia, e de energia a senhora entende, não é mesmo? Parece que Gleisi Hoffmann também...
Falando em trabalho, gostaria lhe pedir com urgência a instalação do Plano Nacional de Banda Larga, mas larga mesmo, no quarteirão onde fica meu posto. É que o software onde operamos prontuários, cadastramentos e sistema de dados está cheirando a carimbo e papel. Lembra da “Dança da manivela”? Pois bem, essa coreografia é habitué lá no posto, principalmente no meio da manhã, e até os usuários estão entrando no clima.
Se é para digitalizar a APS, ou falar à massa que somos uma cyber família, que chame logo essa Banda Larga para a inauguração, que não agüento mais axé.
Além da Dança da Manivela, quando se aproxima o dia de fechamento dos dados mensais relativos ao trabalho da equipe, que acontece por volta do dia 19 do mês, começo a ouvir valsas, polcas e maxixes cujas melodias me vem como num sonho raso, de repente aparecem meus antepassados com pincenê, barbas suíças e relógio de bolso.
Presidenta, preencher o BPA e o PMA2 é quase uma experiência espírita mística que nos transporta ao século XIX. 19 – XIX.
O pior é que, depois de todo esse axé e espiritismo na Era OS, fiquei sabendo que no final das contas os números são levados a um salão de beleza e recebem uma demorada maquiagem com escova grátis. Tipo um “antes e depois da Xuxa em números”. Fica uma beleza, presidenta.
Metas, metas, qualidade, qualidade. Ótimo, estratégia de certificação da qualidade da assistência, 900 milhões por ano, uma beleza, mas lhe pergunto: quem vai ficar na porta do salão de beleza dos números? Quando será o show dessa Banda Larga?
Querida presidenta, me vou por aqui, desejando-lhe muita coragem nessa nova vida pós-Palocci, vida nova para o Brasil que nunca viu três superpoderosas no Palácio: Ideli, Gleisi e a senhora. Para um Palácio feminino, salões de beleza de verdade.
Ah, ia esquecendo uma dica de um leitor (pois é, presidenta, não tenho eleitores, mas já há alguns e-leitores!), o William Porto: por que não alocar o Palocci na Saúde? multiplicaria por 20 a eficiência do SUS... William, ex é ex, né?




Carinhosamente,
Dr. Luiz

domingo, 19 de junho de 2011

A flor de copihue (ou algumas dicas do Chile) parte 2



“Lá no alto, como gotas arteriais da selva mágica, vergam-se os copihues vermelhos … O copihue vermelho é a flor do sangue, o copihue branco é a flor da neve... Num tremor de folhas, a velocidade de uma raposa atravessa o silêncio, mas o silêncio é a lei destas folhagens...” (Neruda, Confesso que vivi, Ed. Difel, 17a- edição, p.5-6)




Nesta parte 2:
...Valparaíso, Puerto Varas, vulcões em chamas e uma experiência mapuche...






Valparaíso


Certamente deve ser mais convidativa próximo ao verão, nunca dentro dele. Deve ser bom se perder entre as escadas e becos dos morros que cortam a cidade portuária. O Pacífico, pelo menos por lá, faz jus ao nome, dando ao oceano um ar de baía.
Vimos outra manifestação universitária nas ruas, dessa vez no início, vindo feito cobra larga tomar a principal avenida. Para se ter ideia do tamanho não me lembro de ver a cauda, acabei pegando um acsensor, elevadores antigos, tipo mini-bondinhos de trilho que lhe leva aos mirantes da cidade.
Vale a pena a ida a Santiago no outono e no inverno apenas para conferir a La Sebastiana, casa que Neruda fazia questão de passar os reveillons com os amigos em festas que ainda dá para sentir o clima em alguns andares. Há quatro. No último, onde escrevia acompanhado de seu copos, nos dá a sensação de estar navegando na serenidade de um céu de cruzeiro. Cruzeiro com uísque.
Fomos a um restaurante-café chamado Café Turri, que se vai pelo ascensor Concepción. Boa comida, garçons muito canastrões em mostrar simpatia, não me esquecerei da voz insuportável de uma garçonete. Um ambiente pouco descontraído, mas de uma bela vista, que do terraço perto do verão deve ser agradável.
E só.


Puerto Varas e uma experiência mapuche


Fomos de Pullman Bus em assentos semi-leito para Puerto Varas, são 12h. Se não tiver problemas em dormir em ônibus, você economizará uns 25 vinhos Marques de la Casa Concha. Porque além da diferença de avião ser o triplo, ainda se ganha uma diária de hotel.
Certamente, os bosques aos quais se referem Neruda estão plantados no Distrito dos Lagos. Caso só tenha 3 ou 4 dias na manga, vá direto para a região dos Lagos, lá se fica mais perto do coração do gigante.
Vale muito ficar num hotel na beira do grande lago Llanquihue. A janela do quarto do hotel Bellavista foi uma das telas naturais mais bonitas da minha vida. No horizonte do lago arrodeado por bosques paira, quase levitando, o Ozorno vestido de neve, além de outras montanhas que lhe acompanham.
Deve-se alugar um carro e ir à sua busca, acho que o passeio de carro mais interessante que se possa ser feito em cerca de 1h, talvez em todo o planeta. Você sai de um hotel com ruas, esquinas e cafés e em 1h se está de frente a um vulcão, num teleférico, em meio da neve com a temperatura próxima a zero. A 1200 m do chão.
Outro passeio menos diferente, mas não menos imperdível são as pequenas trilhas do Parque Nacional Vicente Pérez Rosales, próximo ao Lago Todos Los Santos. Ali deve existir alguma força estranha poderosa que enche de água nossos olhos, assim como debaixo da Cachoeira da Fumaça na Chapada Diamantina baiana. É como se você estivesse recebendo calorosos abraços de mãe.
Nos arriscamos de carro para Chiloé, a maior ilha chilena e fomos levados por uma índia mapuche a uma aventura pela costa. O mais interessante que poderíamos fazer, segundo ela, seria um passeio até a a Playa de Rosaura, entre Playa Brava e Guabún. Depois pegar uma “ruta” mais selvagem pela costa, parar numa cidade chamada Pumillahue, comer uns Locos, e seguir até Dalcahue, que fica a umas 3 horas pela rodovia principal da ilha. Era sábado e chovia fino. Chegamos à Playa de Rosaura felizes por uma estrada de pedra e barro, uma paisagem bucólica de casas afastadas e pastagens de gado, vacas malhadas na estrada, ovelhas, velhas pontes de madeira.
A Playa de Rosaura é realmente bonita com chão de pedras escuras, daquelas que enfeitam colares e que também são usadas para preencher vasos de vidro em salas chiques. Diferente de Valparaíso, mar menos pacífico. Montanhas de pedra, areia grossa, só a gente na pequena praia, frio com chuva.
Achando tudo muito divertido, após tragos de vinho, nos direcionamos na aventura mapuche de Pumillahue. Após cerca de uma hora de estrada de barro, inúmeras paradas para peguntar aos moradores locais, que falam um espanhol meio dialeto, não chegamos a nenhuma Pumillahue, creio que nunca chegaremos. Passamos pelas Islotes de Puñihuil, onde os pinguins vão de vez em quando, cruzamos vilarejos e vilarejos e chegamos num lugar meio inabitado, um bar na areia de uma praia que não sei o nome embaixo de uma costa, que tive a certeza que o carro não voltaria.
A dona do bar, que também deveria ser a sua casa, abraçada à sua pequena filha, nos abriu a porta muito desconfiada. Por que, em meio a um sábado chuvoso, alguém quisesse se aventurar num bar de veraneio? Comemos os Locos, que são umas empanadas com crustáceo e, para deixar o clima ainda mais incoerente, tomamos uma cerveja gelada. Naturalmente não aceitava cartão, e nosso pesos estavam peso-pena em nossos bolsos.
- Como saímos daqui?
Ela olhou para a areia do mar: - por ali, vai à direita e sobe um barranco.
Quando falamos da nossa aventura até Dalcahue, acho que ela pensou estar vendo ETs.
Se um dia você acordar num desejo de grávida de comer uns Locos em Pumillahue, ligue pra gente.
Ainda em Puerto Varas ficamos sabendo da erupção, devido a tremores de terra, do Cordón del Caulle, uma cordilheira de vulcões ao lado do vulcão Puyehue a uns 100 km de onde estávamos. No outro dia íamos tentar um passeio de barco pelo Lago Todos Los Santos, desistimos e fomos conhecer a charmosa Frutillar.
Cidade de colonização alemã própria para enamorados. Uma pista, agora de asfalto, com paisagens bucolíssimas do Llanquihue, cujas margens habitam belas casas de campo. Sabendo vagamente da gravidade do que acontecia, fizemos ótima escolha em não ir ao passeio de barco, os brasileiros que haviam ido tiveram que retornar.
Antes de sairmos de Puerto Varas, ao lado esquerdo do Ozorno, 10 km de fumaça da erupção se lançava ao ar como uma rosa de Hiroshima. Entardecia e todos os nativos estavam misturados aos turistas para tirar fotos na beira do lago. O gigante dormia há mais de 50 anos.


Mais vulcões


No último dia do Chile, sentimos o poder do gigante na pele e nas olheiras. Chegamos ao aeroporto às 4h10m e já desconfiei da demora na fila do check-in. Resultado: céu da Argentina cerrado, todos os vôos da manhã cancelados.
Por sorte do destino, consegui ser o segundo da fila, já na sala de embarque a ser transferido para um vôo para São Paulo pela LAN às 13h45m, que não sabia se iria decolar. Decolou, decolamos, mas ao tentar aterrisagem em São Paulo 5h depois, o comandante num espanhol difícil de entender avisa à tripulação que Guarulhos também está fechado. Um ciclone.
Ficamos girando em torno de Campinas e Ribeirão Preto e depois tivemos que descer no Galeão.
Sorte nossa, a não ser pelas nossas malas que só poderiam ser resgatadas no outro dia. Mas senti que trouxe um quê da terra sensível chilena nos meus pés, quando o táxi que chamamos no Galeão, quase arrancou a porta de outro ao estacionar no desembarque.
No outro dia, chacoalhei meus sapatos e segui em terra firme pelas calçadas de Vila Isabel.


Por aqui me despeço do Chile e de vocês. Quem resistiu até aqui nessa minha longa crônica de viagem, está convidado a vir a minha casa para provar uns vinhos. E mais ainda, um pisco sur que trouxe enrolado em minhas cuecas.
Importante: se comprar vinhos e piscos: dentro da mala, senão como bagagem de mão podem ser confiscados pela muy amiga aduana chilena.