sexta-feira, 25 de junho de 2010

me salva, Drummond



Aventurei-me pela Zona da Mata mineira com o fiel e dileto escudeiro Felipe Camarão, a reencarnação do heróico potiguar que, segundo a história mitológica e descritiva da Metrópole, uniu-se aos portugueses e negros para expulsar de terras pernambucanas a progressista e protestante Holanda – a mesma que foi a 1ª- do Grupo E, e jogará contra a Eslováquia nas oitavas de final.
Gastamos quase meio dia para cruzarmos Juiz de Fora exageradamente falando. Confesso ter dificuldades com cidades de médio porte, posto que já possuem as explícitas desvantagens das capitais. Mais automóvel que rua, feiúra arquitetônica, privatizações escancaradas do espaço público, epidemia da síndrome do pânico entre a classe média, passeios no shopping e ameaças sórdidas, impostas por narcotraficantes e milicianos, aos cidadãos pobres das favelas.
Por outro lado, esses municípios grandes, porém pequenos, ainda não contêm o gordo cardápio de opções, da diversidade caótica das grandes cidades, albergando filme húngaro e lançamento de escritor moçambicano, tendo, na sala ao lado, um forró rabecado phsyco-trance. Por essas carências e outras ausências, sou bem a favor que se multipliquem centros culturais, mas que sejam centros-periferia, descentralizando, trocando, misturando-se. Os pontos de cultura, por exemplo, a depender do caráter democrático de suas gestões, parecem abrir cortinas de entusiasmo Brasil afora.
Enfatizo centros-periferia, pois não chego a sentir um clima democrático-cultural, por exemplo, por entre os jardins burlemarxianos, da beleza arquitetônica e tropical do Alto da Gávea na ex-mansão dos Moreira Salles, hoje Instituto Moreira Salles. Na guarita ainda me sinto visitando a família do influente banqueiro, seguranças Men in Black e headphones. No café, me sinto em Paris, um bistrô recheado de pessoas brancas, no mínimo bilíngües, um “menu” que afastaria qualquer família rocinhanense que estivesse, por acaso, querendo curtir um agradável fim de tarde.
Dia desses, nesse mesmo café, acompanhei de soslaio a conversa de senhoras viúvas ricas, aparentemente judias pelo tom da prosa: “(sobre o massacre recentemente realizado pelo exército israelense)... e estão fazendo isso logo contra quem? O ‘Glorioso’ exército de Israel... eles estavam errados, sabiam que era proibido aportar o navio...”. Voltemos a Minas, onde o porto mais próximo fica no Espírito Santo...
Rio Pomba, Ubá, Visconde do Rio Branco, Coimbra. Payol, “Coiotinho”, Guaraciaba Premium, Doce de Leite Viçosa, Pão de queijo molhado, quente e macio no café da manhã. Frio de rachar beiço. Foi no bar do Helinho que li emoldurado na parede um discurso de formatura do Nizan Guanaes para uma turma de publicidade: “tente trabalhar no que goste e nunca mais trabalhe na vida”. Carlos Drummond não poderia ficar de fora deste parágrafo: “Eta vida besta, meu Deus”.
“Vencer” e “Agir” estão escritos nas colunas de entrada da Universidade Federal de Viçosa. Dos cerca de 60 mil habitantes dessa cidade, perto da metade estão vinculados à vida universitária de alguma maneira. O campus é certamente um dos mais belos desse país, com direito a dois enormes lagos, construções modernistas e um conjunto de plantas ornamentais. O clima é de sol aberto e os ventos joviais criam um redemoinho de esperança, elevando nossa expectativa de vida.
Na mesma noite da chegada, fomos abençoados pelas águas do Mississipi em plena Zona da Mata mineira. Numa estação de trem desativada, um festival de blues alcançava seu último dia, onde pudemos compartilhar da felicidade da platéia em retirar as cadeiras enfileiradas na frente do palco, onde sentavam o prefeito e sua comitiva. O intuito foi o de ampliar a dança e os aplausos à última banda do festival, que não devia nada a nenhuma bluesband de New Orleans: Rodrigo Nézio & Duocondé Blues.
Após várias fichas de sinuca e doses de Guaraciaba, meu fiel escudeiro Felipe Camarão e eu encerramos as provas do concurso de professor para o recente Departamento de Medicina e Enfermagem, motivo da aventura. Ajudamos inclusive à coleção das “formas bizarras de se assistir ao jogo do Brasil na Copa”: contra a Coréia do Norte, a TV estava em “mute” e os laptops abertos. Dentro de um quarto de hotel, só aumentávamos o volume quando ouvíamos os gritos. A última etapa do concurso iria se iniciar ao término do segundo tempo.
Fomos aprovados, o Brasil reprovado, onde estava o Kaká na minha prova? Descobri que não perdemos muito, o beijo ardente de Maicon na aliança após o primeiro gol brasileiro selou o casamento da Seleção com a Nike. Na verdade, o matrimônio é poligâmico: aventuras amorosas com o Itaú (quem diria!); Guaraná Antarctica, como o energético loverman e a Vivo se disfarçando de Tiazinha malvada, não comentarei sobre o Gillette e outros participantes dessa orgia futebolística... Vampeta é que está certo em dizer que só quem pode reclamar da Jabulani são os goleiros e os invejosos do relacionamento estável entre a FIFA e o Adidas.
Voltamos certos de que só os bobinhos acreditam ainda em nações, que os jornalões brasileiros são os responsáveis pelos engarrafamentos de carros no país e que Luis Fabiano é um filho bastardo de Pelé.
Microsofteanos, nikeanos e cocacolenses, por favor, chamem novamente o Drummond: “Eta vida besta, meu Deus”.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

De feira que se vive

A feira é de cores e de vida: nada a ver com prateleira insossa de supermercado.


Por que contamos nos dedos o número de pessoas que riem, conversam entre estranhos, exercem o divino fascínio da brincadeira, do “sarro”, da “tiração de onda”, do “tá de sacanagem” nas farmácias, supermercados e mercadinhos? E por que há um quê de criança, que se aflora nos barrigudos de cabeças brancas, em cada barraca, pechincha por pechincha numa animação sem igual na sonolenta e devagar aurora de um sábado no meio da rua em Vila Isabel?

Em qual supermercado poderia eu brincar de abaixar o preço do mamão? O sujeito que mais ganha em cima do lucro daquele mamão não é o atravessador, que estacionou num canto proibido sua Kombi velha após o expediente do dia anterior e mandou que se depositassem as papayas. O tal sujeito dono da “bolsa de valores dos mamões” está bem longe dali, no mínimo em bela soneca numa king size qualquer, sonhando um montante de coisas caras num sentido, suspeito, bem vazio do que seja uma coisa cara. Talvez esteja em pesadelos: ilhas Fiji, Dom Perignon na suíte master do seu 78 pés, quando, de assombro, ao apertar olhos para melhor entender o porquê, passivamente assiste por detrás do vidraçal a uma tempestade. Pingos graúdos de ações trabalhistas. No canto direito um raio onde lê, dobrando o pescoço: “Subprime”, num raio de letras mais adiante “Greek Cracking”. Como assim? Pois é, pesadelos não são nada fáceis.

O importante é a feira: a carne, os peixes – tão fresquinhos que provocam arrepios nos vegetarianos dos mais – daqueles que só vão de frutas. Acho eu, no cume da minha ignorância, que aulas de artes plásticas sobre naturezas mortas, principalmente na especialidade de verduras e flores – sim! Há flores! E das mais amostradas. – deveria, ou deve, ou deverá também incluir como espaço de ensino a feira. Em dias de sol, lá está Ele planejando a iluminação do espetáculo, naquele naipe: nem frio, nem quente – naquela intensidade de cor que só o melhor iluminista do Sistema Solar sabe fazer. Imaginem a cara de delícia de um Monet ou Degas chegando cedinho e ensacolando paletas e pincéis no depois da tarde... Inclusive a rua a que me refiro possui o sugestivo nome de Rua dos Artistas.

Para crianças, aula de reforço gratuito: vermelho é vermelho, roxo é roxo. A sementinha da tangerina, peixes e galinhas e vaquinhas: o filão dos vertebrados (mas também não somos vertebrados, papai?). Ensinar, ô tarefa... Geralmente há um bacuri ali pelo caminho, acolá uma pequerrucha usando pequeninos brincos no colo da mãe, aprendendo novas cores – sabia lá, por exemplo, que existia o “branco das velhinhas do queijo”! E existe. Ficam lá, parecem irmãs, vestem-se e comportam-se como idôneas beatas católicas da época do latim, porém, observando-as mais de perto, descobri um quê de protestantismo neopentecostal na forma como elas abençoam as cédulas.

“Limão a 1 real, limão a 1 real” – aborda-lhe o insubmisso sujeito, vendendo nos corredores, não possui barraca. Subversivo típico de feira. Os pregões contaminam seus ouvidos e não por acaso o velho Caymmi atribuía aos pregadores da sua época potenciais estimulantes de insights fantásticos para suas composições.

Pois ando freqüentando com muita água na boca a feira dos sábados matinais na Rua dos Artistas em Vila Isabel – É mais caro que o Mundial, ou Guanabara? – Né não. Há penas um dos parcos espaços desse nosso planetinha onde coisas caras mudam totalmente de valor.

domingo, 6 de junho de 2010

O canteiro de obras do recomeço do mundo

No começo, máquinas leais aos homens reproduzem, em movimentos ágeis e robotizados, o rastro da revolução inglesa. Girafas mecânicas oferecem seios de aço às plataformas das embarcações de ferro e sol

Uma tribo movida a petróleo adormece à direita de quem passa. Hálito de sono quente, surpreendente paciência automotiva no labirinto de garagens

Girafas mecânicas se somam a trombas e chifres cenozóicos gerenciados por genomas de computadores primitivos

O clima é de recomeço: sopro de pássaro faminto de vôo içando vela de caravela, um alvorecer de águas arejando dia nascido, montanhas se banham ao sol, raios de luz escorrendo pelas encostas... Quantos dedos de Deus são necessários para desenhar o novo mundo?

À medida que se passa, de ambos os lados as máquinas vão perdendo suas dimensões de homem diante do pequeno infinito de silêncio. Gaivotas me passeiam, me oferecem uma visita ao encantado. Um tailandês sob o sol tempera a sal e saudade um linguado poliglota de águas profundas, uma mulata alemã invoca preces batistas da janela de uma aeronave que num rabo de rasante risca a parábola da manhã

De repente, chove no canteiro de obras do recomeço do mundo e a constelação de barcos vai se caramelando no azul-cinzento

Quantos sonhos cochila o marujo no convés daquela corveta distante? Quantas lágrimas de brandy restam no seu cantil?

Gaivotas me passeiam, me largam na corcunda da serpente de cimento e aço. De cima da corcunda não preciso de asas. A corcunda me gravita, avisto a passagem para o desconhecido. Por um instante me agasalho de esperança, abro um sorriso para a estrada

Reaparecem girafas mecânicas, trombas, chifres, fumaça de petróleo, giga-watts do incessante futuro que me ultrapassa, aposto corrida, sou ingurgitado da garganta da serpente, cimento e aço do meu carro na janela do pedágio: são 4 reais, reais demais para o canteiro de obras do recomeço do mundo.


(para “o tudo” que é visto de cima da ponte Rio-Niterói...)