domingo, 19 de junho de 2011

A flor de copihue (ou algumas dicas do Chile) parte 2



“Lá no alto, como gotas arteriais da selva mágica, vergam-se os copihues vermelhos … O copihue vermelho é a flor do sangue, o copihue branco é a flor da neve... Num tremor de folhas, a velocidade de uma raposa atravessa o silêncio, mas o silêncio é a lei destas folhagens...” (Neruda, Confesso que vivi, Ed. Difel, 17a- edição, p.5-6)




Nesta parte 2:
...Valparaíso, Puerto Varas, vulcões em chamas e uma experiência mapuche...






Valparaíso


Certamente deve ser mais convidativa próximo ao verão, nunca dentro dele. Deve ser bom se perder entre as escadas e becos dos morros que cortam a cidade portuária. O Pacífico, pelo menos por lá, faz jus ao nome, dando ao oceano um ar de baía.
Vimos outra manifestação universitária nas ruas, dessa vez no início, vindo feito cobra larga tomar a principal avenida. Para se ter ideia do tamanho não me lembro de ver a cauda, acabei pegando um acsensor, elevadores antigos, tipo mini-bondinhos de trilho que lhe leva aos mirantes da cidade.
Vale a pena a ida a Santiago no outono e no inverno apenas para conferir a La Sebastiana, casa que Neruda fazia questão de passar os reveillons com os amigos em festas que ainda dá para sentir o clima em alguns andares. Há quatro. No último, onde escrevia acompanhado de seu copos, nos dá a sensação de estar navegando na serenidade de um céu de cruzeiro. Cruzeiro com uísque.
Fomos a um restaurante-café chamado Café Turri, que se vai pelo ascensor Concepción. Boa comida, garçons muito canastrões em mostrar simpatia, não me esquecerei da voz insuportável de uma garçonete. Um ambiente pouco descontraído, mas de uma bela vista, que do terraço perto do verão deve ser agradável.
E só.


Puerto Varas e uma experiência mapuche


Fomos de Pullman Bus em assentos semi-leito para Puerto Varas, são 12h. Se não tiver problemas em dormir em ônibus, você economizará uns 25 vinhos Marques de la Casa Concha. Porque além da diferença de avião ser o triplo, ainda se ganha uma diária de hotel.
Certamente, os bosques aos quais se referem Neruda estão plantados no Distrito dos Lagos. Caso só tenha 3 ou 4 dias na manga, vá direto para a região dos Lagos, lá se fica mais perto do coração do gigante.
Vale muito ficar num hotel na beira do grande lago Llanquihue. A janela do quarto do hotel Bellavista foi uma das telas naturais mais bonitas da minha vida. No horizonte do lago arrodeado por bosques paira, quase levitando, o Ozorno vestido de neve, além de outras montanhas que lhe acompanham.
Deve-se alugar um carro e ir à sua busca, acho que o passeio de carro mais interessante que se possa ser feito em cerca de 1h, talvez em todo o planeta. Você sai de um hotel com ruas, esquinas e cafés e em 1h se está de frente a um vulcão, num teleférico, em meio da neve com a temperatura próxima a zero. A 1200 m do chão.
Outro passeio menos diferente, mas não menos imperdível são as pequenas trilhas do Parque Nacional Vicente Pérez Rosales, próximo ao Lago Todos Los Santos. Ali deve existir alguma força estranha poderosa que enche de água nossos olhos, assim como debaixo da Cachoeira da Fumaça na Chapada Diamantina baiana. É como se você estivesse recebendo calorosos abraços de mãe.
Nos arriscamos de carro para Chiloé, a maior ilha chilena e fomos levados por uma índia mapuche a uma aventura pela costa. O mais interessante que poderíamos fazer, segundo ela, seria um passeio até a a Playa de Rosaura, entre Playa Brava e Guabún. Depois pegar uma “ruta” mais selvagem pela costa, parar numa cidade chamada Pumillahue, comer uns Locos, e seguir até Dalcahue, que fica a umas 3 horas pela rodovia principal da ilha. Era sábado e chovia fino. Chegamos à Playa de Rosaura felizes por uma estrada de pedra e barro, uma paisagem bucólica de casas afastadas e pastagens de gado, vacas malhadas na estrada, ovelhas, velhas pontes de madeira.
A Playa de Rosaura é realmente bonita com chão de pedras escuras, daquelas que enfeitam colares e que também são usadas para preencher vasos de vidro em salas chiques. Diferente de Valparaíso, mar menos pacífico. Montanhas de pedra, areia grossa, só a gente na pequena praia, frio com chuva.
Achando tudo muito divertido, após tragos de vinho, nos direcionamos na aventura mapuche de Pumillahue. Após cerca de uma hora de estrada de barro, inúmeras paradas para peguntar aos moradores locais, que falam um espanhol meio dialeto, não chegamos a nenhuma Pumillahue, creio que nunca chegaremos. Passamos pelas Islotes de Puñihuil, onde os pinguins vão de vez em quando, cruzamos vilarejos e vilarejos e chegamos num lugar meio inabitado, um bar na areia de uma praia que não sei o nome embaixo de uma costa, que tive a certeza que o carro não voltaria.
A dona do bar, que também deveria ser a sua casa, abraçada à sua pequena filha, nos abriu a porta muito desconfiada. Por que, em meio a um sábado chuvoso, alguém quisesse se aventurar num bar de veraneio? Comemos os Locos, que são umas empanadas com crustáceo e, para deixar o clima ainda mais incoerente, tomamos uma cerveja gelada. Naturalmente não aceitava cartão, e nosso pesos estavam peso-pena em nossos bolsos.
- Como saímos daqui?
Ela olhou para a areia do mar: - por ali, vai à direita e sobe um barranco.
Quando falamos da nossa aventura até Dalcahue, acho que ela pensou estar vendo ETs.
Se um dia você acordar num desejo de grávida de comer uns Locos em Pumillahue, ligue pra gente.
Ainda em Puerto Varas ficamos sabendo da erupção, devido a tremores de terra, do Cordón del Caulle, uma cordilheira de vulcões ao lado do vulcão Puyehue a uns 100 km de onde estávamos. No outro dia íamos tentar um passeio de barco pelo Lago Todos Los Santos, desistimos e fomos conhecer a charmosa Frutillar.
Cidade de colonização alemã própria para enamorados. Uma pista, agora de asfalto, com paisagens bucolíssimas do Llanquihue, cujas margens habitam belas casas de campo. Sabendo vagamente da gravidade do que acontecia, fizemos ótima escolha em não ir ao passeio de barco, os brasileiros que haviam ido tiveram que retornar.
Antes de sairmos de Puerto Varas, ao lado esquerdo do Ozorno, 10 km de fumaça da erupção se lançava ao ar como uma rosa de Hiroshima. Entardecia e todos os nativos estavam misturados aos turistas para tirar fotos na beira do lago. O gigante dormia há mais de 50 anos.


Mais vulcões


No último dia do Chile, sentimos o poder do gigante na pele e nas olheiras. Chegamos ao aeroporto às 4h10m e já desconfiei da demora na fila do check-in. Resultado: céu da Argentina cerrado, todos os vôos da manhã cancelados.
Por sorte do destino, consegui ser o segundo da fila, já na sala de embarque a ser transferido para um vôo para São Paulo pela LAN às 13h45m, que não sabia se iria decolar. Decolou, decolamos, mas ao tentar aterrisagem em São Paulo 5h depois, o comandante num espanhol difícil de entender avisa à tripulação que Guarulhos também está fechado. Um ciclone.
Ficamos girando em torno de Campinas e Ribeirão Preto e depois tivemos que descer no Galeão.
Sorte nossa, a não ser pelas nossas malas que só poderiam ser resgatadas no outro dia. Mas senti que trouxe um quê da terra sensível chilena nos meus pés, quando o táxi que chamamos no Galeão, quase arrancou a porta de outro ao estacionar no desembarque.
No outro dia, chacoalhei meus sapatos e segui em terra firme pelas calçadas de Vila Isabel.


Por aqui me despeço do Chile e de vocês. Quem resistiu até aqui nessa minha longa crônica de viagem, está convidado a vir a minha casa para provar uns vinhos. E mais ainda, um pisco sur que trouxe enrolado em minhas cuecas.
Importante: se comprar vinhos e piscos: dentro da mala, senão como bagagem de mão podem ser confiscados pela muy amiga aduana chilena.


segunda-feira, 13 de junho de 2011

A flor de copihue (ou algumas dicas do Chile) parte 1


Apertar el cinturón de seguridad, cumeeira dos Andes esfriando nossos pés, encontro dos ventos mais altos das Américas soprando o aviãozinho de papel. Os Andes são como o mar ressacado do Atlântico, de longe emana o espírito magnético da grandeza selvagem, de perto, a certeza desconcertante do intransponível.
A natureza do Chile é sensível, diferente, irritável, apaixonante. Um pequeno filete de terra banhada pelo Pacífico, cuja estrutura física se assemelha a um gigante aprisionado, que de vez em vez, grita terromotos e cospe vulcões.
O resultado são bosques rodeados por cordilheiras, cachoeiras, pedras molhadas, vegetação exuberante, abraçados por montanhas enevadas. Segundo Neruda: “quem não conhece o bosque chileno não conhece este planeta”. Saí dos bosques levando uma flor de Copihue que ofereci à Terra.
Nesta crônica de viagem, a qual fiz de lua-de-mel com a minha Luana, tentarei apresentar um pouco de minhas lembranças mapuches.
Dividirei em 2 partes para evitar bocejos e cochilos...


Santiago:
Do cerro de San Cristóbal, tem-se a certeza de que a indústria automobilística precisa ser cruzada por ciclovias. Uma espessa camada cinzenta amaldiçoa o futuro da cidade, rouba-lhe o fôlego. Apesar disso, lá de baixo o céu é azul, os álamos elegantemente se despem folha por folha, e um ar parisiense perfuma as calçadas. Apesar do charme ser fermentado, tudo se veste de brilho quando um cálice de pisco sur é tragado em alguma botilleria de Bellavista. Bairro querido pela fonte inesgotável de amor chilena, o grande Nefatli Ricardo Reyes Basoalto, mas se chamá-lo por Pablo Neruda, ele atenderá. Nunca desconfiei que seria um pseudônimo...
Bellavista, antes um bairro operário, comporta hoje uma fileira de bares charmosos. Dois se depontam: um, que me esqueci do nome, mas basta descer a rua Constitución rumo ao Pátio Bellavista, que dará para ver uma graça de varandinha, de onde se pode enamorar de uma encruzilhada de outros bares. Fica justamente na esquina à direita de quem desce a calle.
Cai a tarde fria em Santiago, e uns camarones a pil pil aterrisam à mesa, é como que se a gente se acasacasse por dentro.
Outro bar imperdível é um jazz club de nome Thelonius (http://www.theloniouschile.com/). Particularmente, o melhor bar de jazz que já fui, confesso que não conheço tantos, mas o aconchego e as jams sessions naturalíssimas, ao ponto de aqui um trompetista levantar após uma garfada de pizza, ali um baterista se animar após um gole de vinho, essa espontaneidade me transportou para os olhos fechados de Bessie Smith e as bochechas de Armstrong.
Os caras iam se revezando sob aplausos de todos a cada duas a três canjas.
Quando, de repente, levantou-se do balcão um negro, o primeiro que tinha visto no Chile, alto, usava uma vasta barba crespa, que se unia a uma trança generosa de rastafarai. Andando de forma elegante dentro de um blazer sentou-se ao banco do piano. Era a encarnação Thelonius. Por detrás da bateria se jogou um teenager ariano, muito magro, rosto branco de criança com rabo de cavalo galego. No baixo, um provável chileno de traços mapuches. Ou seja, um outdoor da Benetton.
Esse jazz multiétnico foi o melhor grupo da noite, o bar todo se virou para conferir como é possível um mundo de diferentes gerar uma unidade, uma sintonia de fazer Gilberto Freyre chorar. Após umas duas músicas, houve um pequeno estresse, pois perfeição é pura invenção humana, justamente entre o negro pianista e o baterista branco. O piano soltou um ritmo inicial que a bateria não conseguia seguir, após muitas tentativas do pianista, amigos do teenager vieram lhe soprar aos ouvidos a levada. A partir daí, não teve mais desentendimento e a miscigenação musical dava mais uma vez o exemplo para o pequeno mundo de privilegiados que madrugavam naquele jazz club enfumaçado.
Isso: fumaça, justamente na primeira semana de junho, quando lá estava, a pauta principal das manchetes antes da erupção do vulcão, era a recente Lei do Tabaco que acabava de ser votada no senado chileno. Talvez o Chile tinha sido o retardatário, apenas sei que aproveitei para fumar talvez meu último cigarro dentro de um bar, provavelmente uma cena de um futuro museu multimídia. Fiz questão de pedir na mesa ao lado.
A querela entre o branco e o negro como já disse não deu em nada, o que conferi no final quando fui lhes agradecer e já estavam conversando perto do balcão com suas doses e gentilezas.
Essa diplomacia interétnica me remonta ao grande Neruda que comprou uma casa cortada por um córrego numa época que a especulação imobiliária em Bellavista era rasa. Uma casa para se encontrar com a sua amante, que depois se tornou sua musa e viúva e para quem lhe dedicou cem sonetos de amor. Era Matilda Urrutia, e devido à sua cabeleira ruiva e esvoaçada, o poeta entitulou a casa de La Chascona, “a despenteada”.
Visitar as casas de Neruda no Chile (há mais duas: La Sebastiana em Valparaíso e uma em Isla Negra) é um dever para quem gosta de viver bem. Muito peculiares, muitas vezes de uma esquisitice kitsch, mas de um charme e aconchego inegáveis. As casas possuem em sua decoração e espaço interno uma sensação de interior de barcos, como se dali ele se aventurasse no mar de sua poesia. Casas de “cantinhos” com exuberância de detalhes e histórias.
Mas ao descer na cidade, não fui recebido pela poesia.
A primeira visão de Santiago ao descer do ônibus Centropuerto próximo à estação Los Heroes, foi de policiais da tropa de elite atravessando a Av O'Higgens escoltando jovens de olhos firmes de dignidade rumo ao camburão. Descobrimos pelo taxista que las manifestaciones juvenis contra a política de Piñera de privatização do ensino público havia desencadeado um efeito dominó de movimentação estudantil em todo o Chile.
Esse sentimento político que invade as ruas tanto do Chile como da Argentina é nitidamente diferente do nosso e mais próximo aos europeus.
Para além da Europa, suponho que as raízes dessas terras ficaram impregnadas por uma resistência indígena mais forte que a nossa. Neruda explica o extermínio da raça com fina ironia: “Contra os índios todas as armas foram usadas com generosidade: disparos de carabina, incêndio de suas choças, e depois, de forma mais paternal, empregou-se a lei e o álcool. O advogado se tornou especialista também na espoliação de seus campos, o juiz os condenou quando protestaram, o sacerdote os ameaçou com o fogo eterno. E, por fim, a aguardente consumou o aniquilamento de uma raça soberba...”.
Carabina, fogo e a lei, mas os gritos mapuche ainda são ouvidos pelas ruas.


Dicas rápidas de Santiago:
1) Pegue o blue bus Centropuerto no Aeroporto, sempre carregue poucas malas. Esse autobus pára no Centro na estação Los Heroes, de lá você percorre quase toda Santiago embaixo do chão.
2) Evite vôos de madrugada, o Centropuerto só começa a circular a partir das 6 da manhã. Além disso, viajar pelo Chile é muito mais barato de ônibus, e esses só chegam em Santiago, independente de onde você vier, a partir das seis da manhã.
3) Deixe para cambiar dinheiro no Banco do Brasil que fica na principal avenida O' Higgens no bairro Las Condes, próximo à estação Le Golf. No banco Safra do aeroporto do Rio (o BB do Galeão não trabalha com peso chileno) 1000 pesos são 4,5 reais. No BB de Santiago, 1000 pesos são 3,28 reais.
4) Não deixe de aproveitar os piscos, uma cachaça de uva vendida em todos os bares e que levanta qualquer ressaca.
5) Como em qualquer cidade se deixe mofar por algumas horas em algum café do Centro lendo um jornal matutino.
6) Chocolate quente das padarias mais baratas, aquece as mãos e lhe deixa com o olhar para o nada.
7) Tente ficar em algum hotel ou apart-hotel no Centro. Passei uma diária no Ameristar Apart-hotel, bem localizado. Não deixe de acessar o booking.com (em qualquer viagem), muita variedade a todos os preços, além de promoções.
8) Leve carteira de estudante, caso seja, alguns cantos aceitam carteira brasileira.
9) Ir ao vinhedo da Concha y Toro, escolher o tour mais caro, com direito a quatro taças e uma tábua de queijo, tentar pechinchar uns 10%. Depois, almojantar ao entardecer num restaurante que tem lá perto La Vaquita Echá, eles não cobram a rolha do vinho e o clima é de restaurante familiar, descontraído e bom.
10) Visitar o Museu Chileno de Arte Precolombino, próximo a Plaza de Armas, para perceber a necessidade de uma multa vitalícia e hereditária paga mensalmente pelos colonizadores aos colonizados (preferencialmente em libras esterlinas).


Obs.: Fim da parte 1.


Cenas do próximo capítulo:


...Valparaíso, Puerto Varas, vulcões em chamas e uma experiência mapuche...

Bom Dilma 2 (postada pelo amigo Dr. Luiz)


“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Presidenta, queria lhe agradecer a carta que você me enviou escrita em chinês. Fico muito agradecido de a senhora ter lido e, mais ainda, retribuído tantas gentilezas em língua oriental. Entendi perfeitamente quando me advertiu que me escreveria na “língua do futuro”, a qual já me empenhei em aprender, 非常感謝.
O que preciso lhe revelar hoje é um sentimento que tem pouco a ver com a dinastia Ming. É o sentimento irrefutável e onipresente que habita os corações dos profissionais da atenção primária: a impotência.
Visitei três senhoras nesta semana que me deixaram olhando pro chão. Muito diferente das 3 viúvas de Pablo Neruda, das longíquas montanhas chilenas, que serviam banquetes à francesa para os andarilhos mais arriscados. No meu caso, fui recebido também com muita dignidade, mas desci as florestas de pedra do morro faminto de alegria…
D. Conceição vem perdendo progressivamente ambas as visões, foi diagnosticada catarata por um médico em Bangu e, desde dezembro, ela tenta um encaminhamento para o oftalmolgista através do seu posto de referência. Mora próximo a um lixão com a neta adolescente e já parou de frequentar a igreja, pois não consegue mais andar só. É diabética dependente de insulina, e a neta às vezes se esquece de aplicar as doses. Sua médica do posto, na última consulta lhe aconselhou ser mais “dura” com a recepcionista no intuito de conseguir mais rapidamente a vaga da doutora da vista.
Já D. Maria vive com duas filhas, a biológica está tentando aos poucos se estruturar após meses de internação num hospital psiquiátrico, a outra, adotada quando adolescente, sofre de retardo mental e depende integralmente da mãe. D. Maria parou de faxinar para cuidar das duas. recebe uns trocados do ex-marido que se aposentou com um salário mínimo. D. Maria está obesa, pressão nas alturas, uma aparência de ter ultrapassado há muitas noites o seu limite. Me revela que não lhe sobra dinheiro para comprar o medicamento das filhas, isso há 3 semanas.
D. Rosa, após fraturas múltiplas por várias quedas e 50 anos de experiência em lavar roupas para a família de um doutor no Leblon, é impedida pelos filhos de cozinhar e de pegar na vassoura, eles  temem uma nova queda. Ela precisa se contentar com a única tarefa que lhe liberaram: passar roupas em cima da cama. É de Alagoas, morava perto do mar, e agora habita um porão de pedras,  o ar é sufocante e úmido. Não sai dali nem para ver a rua, “tenho medo de cair”. Realmente, no percurso de sua porta para rua, até eu ia caindo quando saí. Sua neta de 12 anos acompanha atentamente a consulta e me promete que vai lhe ajudar no manejo dos medicamentos, que estavam sendo administrados em outros fuso horários.
Presidenta, quando me distanciei rumo ao posto de saúde, hiperdia, captopril, estetoscópio, carimbo, caneta, palavras, recomendações, medicina, ciência, SUS, todos os programas, normas e planejamentos se esfarelavam pelas minhas mãos e escorriam morro abaixo numa correnteza de desilusão. Sinceramente, se na enxurrada me levassem todas essas palavras, eu me voaria para outros parágrafos, outras páginas, mergulharia em livros e iria me esconder por entre os terabytes da internet, me poria a pregar poesias islandesas do século XVIII e, após a tontura dos insaciáveis, repousaria inerte no colo de uma placa mãe.
Tudo, presidenta, faria de tudo naquele momento para não voltar à condição de me sentir um joão-bobo inflável de riso ridículo. Desculpe a ironia, presidenta, mas quando ouço que a senhora está inaugurando mais uma Clínica da Família, meu coração se desacelera num compasso murcho. A senhora não sabe o que significa um prato de SISREG vazio, uma farmácia “Tem mas tá faltando”, uma dança sem par intersetorial.
Me responda, por favor: Por que não fortalecer a base antes de construir o prédio? Melhorar a relação entre atenção primária e secundária, implantar e fortalecer o NASF, assegurar financiamento adequado para laboratórios e farmácias, ops!, me enganei, essas perguntas devem ser feitas à OS…
Preciso dizer à senhora que eu não quero carregar o mundo nas costas e que até o super-homem morreu tetraplégico. Enquanto D. Conceição não operar a visão, D. Maria não conseguir remédios para as filhas e D. Rosa não sair do porão, o mundo precisa ficar no chão de castigo, e ai se pular nas costas de alguém. Até porque operar visão, conseguir remédio e sair do porão, até podem rimar, mas não são solução.

Com estima,
不來的超人
Dr. Luiz

Bom Dilma (postada pelo amigo Dr. Luiz)



“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)
A senhora talvez já tenha me visto com uma caneta na mão e um carimbo na outra, subindo e descendo morros e becos. Não, não sou o homem do censo, sou um jovem médico de família, e preciso muito dizer à senhora que acordarei cada manhã mais animado ao saber da vossa atenção sobre minhas inquietações, digamos, primárias.
Estou no Rio das OS, e talvez por esse fato, venho me molhando com experiências de várias naturezas. Ontem um agente comunitário gritou um eureka no meio de uma reunião de equipe: “nós somos a UPP da saúde”. Fiquei imaginando quem seria o capitão Nascimento… bom, espero que não seja eu, pois todos nós sabemos que o Nascimento desbancará quem quer que se atreva a disputar com ele as eleições de 2014, inclusive a senhora, e eu não topo esbravejar em palanques o aumento da cobertura da UPP da saúde. Peço pra sair. Pois veja, presidenta, se essa questão da cobertura não é basal…
Cobrir números é muito mais fácil que cobrir gente, mesmo que sejam cifras astronômicas. Pensando tecnocraticamente, nova matriz ideológica de um médico da família OS, os números não mentem e não fazem barraco, pois podem ficar juntinhos embaixo da coberta, amontoados, mesmo que sejam zeros ou uns. Por outro lado, gente se espicha, ronca, e se embola um no outro empurrando sempre alguém para fora do lençol. Deixe-me ser mais clarividente: “a cobertura do PSF no Rio aumentou de 7 para 20% em dois anos”, mas apertando a tecla SAP: “aê, sangue bom, destampamo a tampa do caldeirão, o rango tá mei azedo, mas a fissura é gigante…”
O resultado dessa feijoada são 41 consultas num dia de trabalho. Saúde do trabalhador poderia ser uma sobremesa apetitosa nesse banquete comunitário, mas teria que ser servida  nas UPAs: uma simples triagem de cores me embalaria para o leito branco da sala vermelha.  Imagine, presidenta, os custos futuros com reabilitação de trabalhadores que teoricamente acreditam nas vantagens promocionais, digo, da promoção à saúde das famílias deste país… Ó país, ó!
Ao “destampar o caldeirão”, transbordou uma demanda que estava empacotada em panela de pressão. Sei que o parto é difícil, também chorei ao nascer, mas as equipes de saúde da família estão ávidas para encontrar logo a mamãe para seguirem embalados pela mágica do amor, olho no olho.
Tudo é muito novo PSF, Rio, OS, mas, por favor, por mais emancipatórios que sejamos, e acredito que a senhora seja realmente, imploro uma regulação em rede, ou em qualquer web que seja. Porque se continuarmos nessas linhas paralelas de fluxo, não vamos conseguir nos dar as mãos, muito menos, dançar uma ciranda. E, por favor, cancele os próximos palanques de aumento de cobertura, se o Padilha já está cansado em pronunciar a palavra qualidade na atenção, que tal arrumarmos primeiro o terreno, para que o compasso do chinelo faça a gente sorrir quando mais um entrar na roda?
Por fim, queria lhe fazer um elogio: apesar de todo aquele papo de “generalzona” que a direita adorava lhe pintar na campanha, a senhora está cada vez mais bonita e elegante.
Até a próxima
Carinhosamente, Dr. Luiz