segunda-feira, 25 de julho de 2011

Bom Dilma (carta 4)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Querida presidenta, estava eu há pouco na parada de ônibus pós-expediente e as únicas 2 linhas que me levam à minha santa casa me deixaram de braço ereto, porém impotente. Fingiram que eu não estava ali. Fui impelido a confabular sobre público e privado, os-sem-república, os-sem-democracia, os-sem-cidadania e, finalmente, me veio a máfia dos transportes à cachola. Daí o Nascimento da idéia de lhe escrever esta carta que, como a senhora mesma me confidencia, morre de rir e chorar ao saboreá-la no divã da sala íntima da Alvorada. Apenas não entendi o porquê da sala íntima, muito menos do divã.
Acredito como médico de família que seria muito salutar para a Família República Brasil que os eleitos e eleitas para mandatos no Legislativo e Executivo fossem obrigados a utilizar os serviços públicos, idem para seus parentes de 1º- grau: saúde, educação, transporte. Paremos por aí. Uns podem me desiludir: mas eles e elas já utilizam dos serviços, porém os das ilhas de excelência, das miragens públicas, aquelas que possuem um acesso mais restrito que camorote vip em fla flu. Outros ainda podem me convencer: filas para exames, cirurgias e consultas seriam abertas perante a presença de rostos e assinaturas mais tarimbadas. Desculpe, presidenta, mas não consigo lhe ver pedindo a um assessor para checar, por exemplo, se a sua consulta no SISREG para oftalmologia já saiu.
O mesmo para melhores escolas e universidades públicas: achariam matrícula até em ovo de páscoa para entrada imediata de tão ilustres brasileiros. Agora, quando o assunto é transporte, aí não tem escapatória. Duvido muito as empresas concessionárias de metrôs, trens e ônibus abrirem exceção até mesmo para a senhora.
Se a farra do boi causa arrepios nos vegetarianos, a farra dos carros me deixa de tanque vazio. Dá para enxergar daqui a felicidade de Lula, transmita-lhe meus abraços, quando ele passa na rua por concessionárias e fábricas Fiat, Honda, Renault, Volkswagen etc. Imagino ele fazendo um tipo sinal da cruz dos católicos motoristas.
A farra dos carros, dentre outras blefadas certeiras, sustentou o Brasil no início do cracking de 2008. Lembro-me dele suplicando “comprem, batom; comprem, batom”. Presidenta, haverá um tempo em que ao me deslocar do meu quarto para o banheiro, no mínimo um ford Ka vai estar parado no meu corredor. O que eu esperaria da senhora e do Ministério dos Transportes?
Como sei que o PT, muito menos o PR, teria coragem em restringir um pouco que seja a venda de carros, que pelo menos fosse exigido a entrega grátis de um beco, rua, ou avenida, a depender do tamanho do carro vendido na hora da compra. O cidadão sairia da concessionária com seu automóvel e uma rua compacta, dobrável e inflável que poderia ser guardada numa maleta de primeiros socorros. Para os grandes, avenidas; médios, ruas; pequenos, becos e ruelas. Pronto, o estacionamento estaria garantido, sem flanelinhas. Projeto Rua Portátil para um Brasil melhor.
Se a educação e a saúde foram e estão sendo na medida do Impossível construído socialmente: SUS, Conselho Nacional de Educação, Fundeb, PNE etc, os transportes foram e ainda são jogados na piscina dos tubarões. Metrôs, trens e ônibus são engolidos sem mastigação, sem boas maneiras e sem dieta pela Família Tubarão SA.
Deixe-me ser mais claro, presidenta: a farra dos carros é apenas uma gota de gasolina da farra dos transportes. Isso vem de muito tempo, crescendo na era JK, e que se perpetuou com o PR desde o primeiro mandato de Lula para cá. K, cá, K, cá, K, cá. Não me refiro ao craque.
Voltando à minha parada de ônibus, venho anotando meticulosamente horários exatos e número dos ônibus que atrasam, que não param, que trasportam gente feito carga. Sabe o que o órgão público regulador me responde? “O motorista já foi encaminhado para o setor de psicotécnico”, leia-se: ante-sala do depejo. Eu insisto: e qual vai ser a pena para o dono da empresa?. “Não há correções para os donos, só para os empregados”.
Como a senhora sabe moro no Rio de Janeiro, e não vou me estender aqui sobre os contratos de licitação aprovados na calada de um ano-novo recente no intuito de renovação por 20 anos da empresa que chicoteia, quer dizer, regula o serviço de trem da Cidade Maravilhosa. A senhora com certeza já sabe de tudo isso, e de muito mais histórias que desconheço e que se remetem ao tempo de Cabral. O Pedro, presidenta.
Consigo entender o quanto que a senhora está preocupada com o Senado, no caso do PR cruzar para a calçada da oposição, mas, presidenta, 75% de governistas na Câmara não são vistos desde a época da Arena e MDB. 75%! Vejo Obama, coitado, suspirando antes de dormir: that’s the guy, that’s the girl...
You are the Girl, my darling. Por isso, coragem. Leve todos da Alvorada e do Congresso para a parada de ônibus mais próxima e boa viagem. Xiii, Brasília! Golpe baixo? Por que não um nocaute certeiro?
Carinhosamente,
Dr. Luiz

Bom Dilma (terceira carta)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)


Querida presidenta, entendo na pele a causa do seu silêncio em relação à minha última carta. Essa coisa de separação nos faz monotemáticos obsessivos. Se não forçarmos a mente para as tarefas do trabalho, corre o risco de ficarmos alguns minutos olhando para um porta-lápis, ou para um detalhe na infiltração de uma parede e insistentemente perguntando o porquê de Palocci, perdão!, dele ou dela ter dito aquilo, ou tido aquela atitude naquele dia aparentemente ingênuo.
Digo “na pele”, pois recentemente me separei da minha esposa, e um belo dia me peguei por alguns minutos olhando abestadamente para uma prateleira da farmácia básica da unidade de saúde da família onde trabalho. Quando voltei à realidade, a viagem foi mais cruel: o local onde deveria estar o remédio contra sarna estava vazio! Olhe só, presidenta, para onde vagueiam nossos olhos nesses dias de tristeza...
Mas poeira pra cima, e demos voltas pro lado que o santo é de barro. Trabalhemos, trabalhemos, marchons, marchons. E aindo lhe digo que a senhora saiu ganhando, o fato de ele ser querido entre os empresários e patrões a tornava unanimidade pelas mídias de lá e de cá, mas deixemos essa coisa de unanimidade com Chico Buarque.
Uma estadista precisa enfrentar as naturais inimizades e ter coragem para dizer com quem realmente anda. Ademais, é nas quedas que o rio cria energia, e de energia a senhora entende, não é mesmo? Parece que Gleisi Hoffmann também...
Falando em trabalho, gostaria lhe pedir com urgência a instalação do Plano Nacional de Banda Larga, mas larga mesmo, no quarteirão onde fica meu posto. É que o software onde operamos prontuários, cadastramentos e sistema de dados está cheirando a carimbo e papel. Lembra da “Dança da manivela”? Pois bem, essa coreografia é habitué lá no posto, principalmente no meio da manhã, e até os usuários estão entrando no clima.
Se é para digitalizar a APS, ou falar à massa que somos uma cyber família, que chame logo essa Banda Larga para a inauguração, que não agüento mais axé.
Além da Dança da Manivela, quando se aproxima o dia de fechamento dos dados mensais relativos ao trabalho da equipe, que acontece por volta do dia 19 do mês, começo a ouvir valsas, polcas e maxixes cujas melodias me vem como num sonho raso, de repente aparecem meus antepassados com pincenê, barbas suíças e relógio de bolso.
Presidenta, preencher o BPA e o PMA2 é quase uma experiência espírita mística que nos transporta ao século XIX. 19 – XIX.
O pior é que, depois de todo esse axé e espiritismo na Era OS, fiquei sabendo que no final das contas os números são levados a um salão de beleza e recebem uma demorada maquiagem com escova grátis. Tipo um “antes e depois da Xuxa em números”. Fica uma beleza, presidenta.
Metas, metas, qualidade, qualidade. Ótimo, estratégia de certificação da qualidade da assistência, 900 milhões por ano, uma beleza, mas lhe pergunto: quem vai ficar na porta do salão de beleza dos números? Quando será o show dessa Banda Larga?
Querida presidenta, me vou por aqui, desejando-lhe muita coragem nessa nova vida pós-Palocci, vida nova para o Brasil que nunca viu três superpoderosas no Palácio: Ideli, Gleisi e a senhora. Para um Palácio feminino, salões de beleza de verdade.
Ah, ia esquecendo uma dica de um leitor (pois é, presidenta, não tenho eleitores, mas já há alguns e-leitores!), o William Porto: por que não alocar o Palocci na Saúde? multiplicaria por 20 a eficiência do SUS... William, ex é ex, né?




Carinhosamente,
Dr. Luiz