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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

carta para Raquel Stern


Minha querida Raquel, te escrevo esta carta do depois para me lembrar para sempre. Apesar de não termos sido tão próximos, a distância se diluía com o tamanho dos nossos sonhos. Fomos colegas de trabalho, mas de um trabalho sem salário, ganhávamos um lote de esperança a cada encontro, o que nos saciava mais do que qualquer centavo.
Trabalhávamos madrugadas e finais de semana pagos pela certeza do caminho ao sul utópico de Torres García, do cinema nacional soberano e da universidade pública de qualidade. Passamos mais de um ano semeando a trajetória do mini-doc em homenagem à Uerj, Estado de Desmantelo, título que a Clarissa Nanchery escolheu primorosamente.
Tive a oportunidade de realizar um sonho adolescente, mesmo que a duras penas e com todos os percalços e surpresas que uma produção permite. Valeram as inúmeras viagens com amontoados de lixo que fiz do Hospital Pedro Ernesto à Uerj, as inúmeras ligações aos funcionários auxiliares de serviços gerais das empresas terceirizadas, a classe mais oprimida, e justamente por isso a protagonista do nosso vídeo, valeram os ajustes e contatos com as preciosas estudantes de medicina, algumas médicas hoje em dia, as discussões com John CM e a sua perseverança na fotografia mais impactante, que ficou linda e a generosidade de Alê Borges e Sílvia Boschi.
O que foi aquela surpresa aos 45 do segundo tempo de termos uma funcionária varrendo o chão do mesmo corredor do set de filmagem? Lembro a sua euforia em resgatá-la para o set e do quanto ela percebeu a importância de amplificar a voz abafada dos mais frágeis, daqueles que foram os primeiros a sofrer com a ausência de salário nas vésperas do natal de 2015. O projeto macabro de exterminar a universidade pública com maior inclusão social do Brasil foi iniciado com a humilhação aos mais necessitados, e foram eles no decorrer do desmantelo os que realmente ficaram sem salário algum.
Eles foram a fogueira necessária para irmos adiante aquecidos de esperança. Lembro com muita felicidade daquela noite regada a cerveja na minha casa em que você, Bruno Sicuro e eu decupamos o vídeo, preparando-o para a edição de Clarissa. Aquele luxuoso encontro na casa de Jordana Berg, no quartinho de sua ilha de edição nos fundos. Era noite e desde manhã cedo ela vinha editando o documentário sobre o golpe. O acolhimento, o incentivo, as dicas, saímos de lá com um latifúndio de esperança e fomos bebemorar na esquina.


Desde “O Óbvio”, do Bruno, percebi que ali havia a presença competente de algum profissional do ramo e, nesta época, a paixão de vocês foi salpicada naturalmente neste vídeo contundente e necessário. E toda esta trajetória de amor entre vocês nos contagiava e nos impulsionava a produzir, era a base e matéria-prima para exportação de sonhos.


Um casal pluripotente que unia paixão, música, cinema, road trip, boemia e militância social em torno de uma charmosa Kombi da década de 60. Foi o casal mais beatnik que conheci. Lua de mel com cachaça. As festas e histórias em torno da Magnólia eram as melhores e as mais quentes.
Tive a felicidade de tocar com as bandas Empenha e Harmonia Enlouquece em festas com a Magnólia, inclusive tendo ela como cenário. Tive o prazer de manejá-la bêbado dentro do Rio Centro, depois de uma festa, completamente perdido à procura de uma saída. A saída para o golpe e todo este lamaçal em que nos afundamos era a Magnólia, a integração cultural com a esquecida América Latina, o sonho de ir além. Minha querida Raquel, você sempre estará associada à perigosa e necessária capacidade de ousar.

Juro que estava ansioso em trabalhar naquele projeto sobre o feminino que seria o trabalho de conclusão de curso da segunda residência médica do Bruno, e imaginava muito mais: cine-clubes com a Magnólia discutindo Glauber, Buñuel e Sganzerla; Magnólia Vai Nordeste; Magnólia Vai Cuba e Jamaica; Magnólia Vai África; Magnólia Vai Leste Europeu; Magnólia Vai China.
Quando Bruno me falou do projeto da América do Sul em um bar na Tijuca, meus olhos brilhavam. Ele havia naquela semana ido atrás do Paulinho Moska para convidá-lo, porém ele estava justamente em um projeto semelhante com uma outra turma, ou seja, o projeto era quente e necessário. E Magnólia foi mesmo assim, com o nosso querido Diogo Martinz como frontman musical. Quanto foi a minha alegria em acompanha-los pelos posts tarde da noite no FB mesmo arrasado de cansaço.
Iríamos nos encontrar naquele trágico dia de dezembro, eu tocava com o Empenha no congresso municipal de medicina de família na UFRJ, onde possivelmente você chegaria com Bruno e a Magnólia.
Fiquei sabendo da pior forma possível, após o show por um grupo de zap antigo, de pessoas distantes. Enquanto o pranto e o chão caíam, busquei ficar perto dos seus, estavam todos na casa da Lorena. O ambiente naturalmente pesado, cinza, silêncio sepulcral cortado por choros que pipocavam aos soluços. Pensei do quanto que você não gostaria que assim ficássemos e comprei várias garrafas de cerveja, propondo brindes a sua felicidade e a sua esperança na vida que sempre nos contagiou. O clima deu uma aliviada. O nosso amigo-irmão Puig foi essencial no suporte emocional de todo esse processo, infinitamente solícito.
Fiz questão de entoar o coro de canções no seu enterro com a Clarissa, claro que Belchior e Novos Baianos estavam no repertório. Foi uma forma de me posicionar no enterro mais triste da minha vida. Fui com o seu pessoal do cinema tomar umas em sua homenagem na Cantareira, onde você adorava.
O fato de a tragédia ter acontecido justamente com a Magnólia no período histórico mais tenso da nossa vida adulta neste país não pode ter soado diferente de “o sonho acabou” para a nossa geração.
Fiquei entalado meses até te escrever, os inúmeros amigos estão cuidando de Bruno, que vem se mostrando a fortaleza assim como tenho a certeza de que você gostaria que fosse.
Minha querida Raquel Stern, termino esta carta derradeira no começo da primavera te dizendo que o sonho está vivo, as flores teimam em crescer e se eu nunca perder a capacidade de me indignar e me transformar você será certamente uma das culpadas.
Beijos do amigo,
Alfredo