Uma paciente agendou comigo uma consulta na manhã da última sexta de carnaval. Cheguei antes da hora, peguei a rua Jardim Botânico prestes a fechar para blocos. Humaitá e Botafogo livres. Desci em frente ao empresarial na Voluntários. O consultório fica no nono andar. Na fila dos elevadores ímpares, duas mulheres de meia idade batiam um papo às 8h50. Pelo que entendi, uma estava em busca de outro consultório, e a outra era a ascensorista dos elevadores ímpares. Nós três adentramos assim que abriu.
- Acabei de passar pela Presidente Vargas, tão fechando tudo - disse a paciente com ar de recriminação. A ascensorista só acenava com a cabeça. - Daqui a pouco vai ficar aquela loucura, nessa semana já levaram o celular de duas amigas - a ascensorista fechou os olhos e inspirou lenta e profundamente.
Sentada em sua cadeira metálica, abriu os olhos e nos encarou, mostrou o antebraço esquerdo, e com o indicador direito foi pendulando por cima, a voz com um quê de saudade e papo reto:
- Olha só como eu fico.

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