segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

carta aos residentes da primeira turma de Medicina de Família e Comunidade da Prefeitura do Rio

Rio, 1 de fevereiro de 2014

Já é.  D. Maria do Carmo foi atendida pelo menos uma vez por semana, ontem voltou novamente, a menina Yasmyn trouxe outra vez um TIG positivo, e Vitória, a da internação, sobreviveu e já teve dengue. Seu Romualdo recebeu alta da tuberculose, será que foi registrado no livro?
O grupo de gestantes vingou, a enfermeira tomou a frente, mas aquele outro de hipertensos e diabéticos... quem manda fazer grupo de hipertensos? Glorinha, da associação comunitária, mandou lembranças, o pastor também.
D. Conceição, que começamos a insulina, está morrendo de saudade de vocês, encheu os olhos d’ água, até a barraqueira Keylane deixou escapar um descontentamento, mas logo emendou: “mas a gente vai ficar sem médico até quando, hein? Olha lá!” Seu Orlando, aquele velhinho simpático, deixou-lhes presentes.  Aquela figura, D. Antonia, não voltou a fumar, entrou na dança de salão e está paquerando Seu Jorge, aquele quietinho, caladinho.
A ferida de Seu Gilberto fechou, mas continuamos sem dersane. Lembra a Stephanny, sua primeira paciente do DIU? Pediu para tirar, casou de novo, está morando longe. Já é.
Técnicos de enfermagem e ACS, cadê eles aqui?, mesmo depois das festinhas de despedida, não param de lastimar suas ausências, alertam todos os dias para escolhermos os próximos residentes que entrarão, como se pudéssemos. Claro que tem aquele e aquela que comemoram no seu íntimo discretamente, senão seria novela de Manoel Carlos. Longe disso, enquadramo-nos melhor num set com um enredo realista, beirando o naturalista.
Vocês são os filhos mais velhos, com todas as suas dores e delícias, sei como é porque também fui da primeira turma de uma residência, é como se a gente amadurecesse em acetileno, em panela de pressão, nossas lentes ficam mais grossas para enxergar as deficiências e as virtudes, sentimos um misto de sensação de cuidar da casa, mas também de quebrá-la por inteiro, atear fogo e gritar “sou Zé Pequeno, porra!”. No entanto, fico muito feliz que alguns se aventurarão na dificílima tarefa da preceptoria, na qual precisarão, além de se reinventar, alcançar os poderes de The Flash e do Multi-Homem dos Impossíveis, Hanna Barbera, lembram? Pois bem, vocês sairão de R2 para P1, era assim que o saudoso Armando nos chamava.
Por mais piegas que possa parecer, é verdade que fizemos história, aos trancos e barrancos, verdadeiros barrancos, tentamos melhorar a qualidade da assistência da atenção primária prestada no município. Digo uma coisa para vocês, não foi fácil para ninguém, nós, os P1s, também somos os filhos mais velhos, portanto também compartilhamos dos sentimentos do Zé Pequeno, além disso, trazemos nossos vícios de conduta médica e aprendemos muita coisa sem consultar previamente o livro para saber se era assim que se fazia. E tome Dynamed, Uptodate, Nice, AAFP, os bons capítulos do Tratado e do Duncan, além do próprio Duncan ambulante. E como dar conta disso com duas equipes, mais de quatro mil pessoas para cada uma, quatro residentes, negociações com gerentes e coordenadores? Tome natação, análise, alpinismo, bicicleta, guitarra, bateria, cerveja e violoncelo.
Apesar do Euract, dos cursos do pessoal do Conceição, das trocas de experiências com todo o grupo de Santa Catarina e Paraná, cada aula, espaço teórico era repensado. Como vamos avaliá-los? Antes disso, como reconhecer em cada um os potenciais e as deficiências? Como fazer um feedback com gentileza? Como cobrar uma mudança de atitude naquilo que se repete? Por que não estudaram? E por que eu não estudei? E vamos aprender PBI, como realizar a amada e odiada metodologia de aula do amigo de Armando. E mais PBI e as intermináveis aulas de revisões clínicas com Adelson. Enfim, se extrapolamos os limites da cobrança e da ansiedade, é porque estávamos realmente ansiosos.
Além de tudo isso e mais um pouco, a implantação da residência foi meio big bang dentro das Unidades, tendo como consequências cicatrizes que até hoje tem sempre um para espetar. Então o começo foi explosão, todos arremessados, tentando recolher os estilhaços ainda no ar. Agora, apesar de estarmos ainda num universo em expansão, tentamos navegar a Enterprise, mas daqui a um mês teremos outra batalha e se chama número 100.
O que teremos para amanhã? Coragem, podemos sim melhorar a cobertura, diminuir a quantidade de gente por equipe, pensar num melhor modelo público para APS, garantir espaços mais qualificados para as próprias pessoas atendidas refletirem e decidirem o que fazer para melhorar a demanda, a demora e a falta de esperança. Daqui a três anos, milhares de médicos recém-formados farão um novo tipo de residência, que se nós não ajudarmos a construir, a APS brasileira ficará muito chateada.
O SUS com 25 anos é um R1 que vai entrar agora na próxima turma, será nosso colega, então, por que não um “vem cá, SUS, vamos ali tomar uma cerveja”?
Corajosos filhos mais velhos, voai! Olho pra frente, o GPS? Esqueçam, quem faz o software somos nós, e precisa ser livre e compartilhado.
Beijos e abraços,
Alfredo de Oliveira Neto




2 comentários:

  1. Bem dito! Com suor, sensibilidade, e sorriso.
    Vamos em frente, que tem uma gente com a gente querendo fazer.
    Bom fazer parte deste grupo. Bom lugar de estar.

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    1. Obrigado, Marcos, realmente é um bom lugar para se estar hoje no Brasil, sinto saudades. abraço.

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