segunda-feira, 25 de julho de 2011

Bom Dilma (terceira carta)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)


Querida presidenta, entendo na pele a causa do seu silêncio em relação à minha última carta. Essa coisa de separação nos faz monotemáticos obsessivos. Se não forçarmos a mente para as tarefas do trabalho, corre o risco de ficarmos alguns minutos olhando para um porta-lápis, ou para um detalhe na infiltração de uma parede e insistentemente perguntando o porquê de Palocci, perdão!, dele ou dela ter dito aquilo, ou tido aquela atitude naquele dia aparentemente ingênuo.
Digo “na pele”, pois recentemente me separei da minha esposa, e um belo dia me peguei por alguns minutos olhando abestadamente para uma prateleira da farmácia básica da unidade de saúde da família onde trabalho. Quando voltei à realidade, a viagem foi mais cruel: o local onde deveria estar o remédio contra sarna estava vazio! Olhe só, presidenta, para onde vagueiam nossos olhos nesses dias de tristeza...
Mas poeira pra cima, e demos voltas pro lado que o santo é de barro. Trabalhemos, trabalhemos, marchons, marchons. E aindo lhe digo que a senhora saiu ganhando, o fato de ele ser querido entre os empresários e patrões a tornava unanimidade pelas mídias de lá e de cá, mas deixemos essa coisa de unanimidade com Chico Buarque.
Uma estadista precisa enfrentar as naturais inimizades e ter coragem para dizer com quem realmente anda. Ademais, é nas quedas que o rio cria energia, e de energia a senhora entende, não é mesmo? Parece que Gleisi Hoffmann também...
Falando em trabalho, gostaria lhe pedir com urgência a instalação do Plano Nacional de Banda Larga, mas larga mesmo, no quarteirão onde fica meu posto. É que o software onde operamos prontuários, cadastramentos e sistema de dados está cheirando a carimbo e papel. Lembra da “Dança da manivela”? Pois bem, essa coreografia é habitué lá no posto, principalmente no meio da manhã, e até os usuários estão entrando no clima.
Se é para digitalizar a APS, ou falar à massa que somos uma cyber família, que chame logo essa Banda Larga para a inauguração, que não agüento mais axé.
Além da Dança da Manivela, quando se aproxima o dia de fechamento dos dados mensais relativos ao trabalho da equipe, que acontece por volta do dia 19 do mês, começo a ouvir valsas, polcas e maxixes cujas melodias me vem como num sonho raso, de repente aparecem meus antepassados com pincenê, barbas suíças e relógio de bolso.
Presidenta, preencher o BPA e o PMA2 é quase uma experiência espírita mística que nos transporta ao século XIX. 19 – XIX.
O pior é que, depois de todo esse axé e espiritismo na Era OS, fiquei sabendo que no final das contas os números são levados a um salão de beleza e recebem uma demorada maquiagem com escova grátis. Tipo um “antes e depois da Xuxa em números”. Fica uma beleza, presidenta.
Metas, metas, qualidade, qualidade. Ótimo, estratégia de certificação da qualidade da assistência, 900 milhões por ano, uma beleza, mas lhe pergunto: quem vai ficar na porta do salão de beleza dos números? Quando será o show dessa Banda Larga?
Querida presidenta, me vou por aqui, desejando-lhe muita coragem nessa nova vida pós-Palocci, vida nova para o Brasil que nunca viu três superpoderosas no Palácio: Ideli, Gleisi e a senhora. Para um Palácio feminino, salões de beleza de verdade.
Ah, ia esquecendo uma dica de um leitor (pois é, presidenta, não tenho eleitores, mas já há alguns e-leitores!), o William Porto: por que não alocar o Palocci na Saúde? multiplicaria por 20 a eficiência do SUS... William, ex é ex, né?




Carinhosamente,
Dr. Luiz

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