sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Preciso escrever sobre Noel



Fui a um debate com João Máximo sobre Noel Rosa, produzido pelo projeto Toca-Livros, na Caixa Cultural do Rio (www.tocalivros.com.br). E me dei conta que escrevo pouco ou quase nada sobre esse, carinhosamente falando, safado que foi o Noel de Medeiros Rosa.
O meu primeiro alumbramento que tive com Noel se deu graças à gloriosa e potencialmente revolucionária inter-netch. Precisamente em outubro de 2005 venho passar a primeira temporada em Vila Isabel, temporei dois meses inesquecíveis numa república anárquica de estudantes – como sempre deve ser - “A Robertinha”, na rua Jorge Rudge.
Em poucos dias percebi que Noel era uma referência constante no bairro: nome de túnel, de shopping, de casa que conserta roupa (“Com que Roupa”), estátua, busto, e uma coisa ímpar que acho que não existe pareia no mundo: as calçadas da avenida principal do bairro são copacabanamente desenhadas com partituras, não só de Noel, mas de compositores chaves para o samba carioca. Então, para se ter uma idéia, dá para se pular de uma mínina para uma semínima e solfejar uma melodia. Descobri dia desses que o repertório das canções calçadadas foi escolhido pelo Almirante, amigo de Noel e líder da primeira e única banda que Noel participou: o “Bando de Tangarás”.
Mas voltemos para como foi minha descoberta, simples e retamente: comunidade Noel Rosa no Orkut (http://www.orkut.com/Main?hl=pt-BR#Community?cmm=51164). Claro que já conhecia os clássicos, mas só. Meses antes estava encafurnando numa loja de discos e fiquei hipnotizado por um box de Noel chamado Noel, pela primeira vez, 229 canções originais, 14 cds. Custava mais de 500 reais e fiquei a ver navios na orla da penúria.
Um belo dia nas ondas das madrugadas, quando parecia mais uma vez que dormiria chateado com o desperdício de tempo de navegagem, abro despretensiosamente a comunidade Noel Rosa do Orkut. Numa das enquetes estava escrito Noel pela primeira vez. Resultado: varei a noite chupando wma de originais e não acreditando no poder de solidariedade embutido nos seres humanos que de vez em vez é extravasado nessa rede de peixe grande. O cara que comprou por mais de 500 pratas o tal Box estava disponibilizando para o mundo uma raridade da história da música na América Latina, e um outro cara numa lanhouse da comunidade do Borel estava tendo a possibilidade igual a minha de estar dominando o mesmo material.
Dos 14 cds disponibilizados baixei primeiramente 6 para o meu pen drive que serviu como trilha sonora durante a temporada na Robertinha. O que me chamou de imediato a atenção era no sistema rudimentar de gravação da época, que dá a impressão de estarem gravando ao redor de um único microfone pendurado no teto de um quarto.
Para 1930 era a coisa mais moderna que poderia existir: o sistema de gravação elétrico e, posteriormente, a difusão via rádio, o que seria analogamente hoje uma sensação semelhante às redes sociais. Gravar música nessa época para a geração de Noel não passava mais do que uma tiração de onda, raros os que ganhavam alguma coisa com canções e venda de discos, a música popular não havia sido ainda devidamente apropriado pelo capital.
Outra coisa que me impressionou no material era a teatralidade das canções do Noel. Favor conferir Quem dá mais?, A.B. Surdo e Não tem tradução. Pensei de imediato num musical, liguei para uma amiga cantora, o projeto ficou chocando por 4 anos, até que ano passado conseguimos formar um conjunto Rosa da Vila, de onde saíram ótimos arranjos para violão para canções como João Ninguém, Positivismo e Feitiço da Vila. Os ensaios eram aqui em casa, tive o prazer de construir amizades com músicos maravilhosos. A banda se desfez, mas neste ano, 2010, através de um contato inesperado fui me aproximando de um grupo de teatro amador da UERJ junto com o qual estarei encenando o espetáculo Rosas de Noel no próximo 14 de dezembro às 19h no Teatro Noel Rosa, da UERJ.
Para além da propaganda do espetáculo, preciso escrever sobre Noel...
Noel foi para o samba, digamos, uma entidade meio Exú misturado com Dionísio, tanto o mensageiro entre o céu e a terra – entre o morro e o asfalto – quanto o deus da farra.
Subir morros, se misturar com pessoas de outra raça e de outra classe no início da década de 30, para um bairro classe média do Rio, era no mínimo uma ousadia. Noel foi o primeiro branco classe média na música popular a romper com as barreiras de raça. Isso numa época em que se pesquisava comparativamente crânios e outros segmentos anatômicos entre raças distintas para se explicar caráter, boa índole e personalidade; uma época de franca ascendência do eugenismo, anti-semitismo e fascismo na Europa.
Outro feito de Noel que o faz, segundo Sérgio Cabral, “não necessariamente ser o maior compositor de sua época, mas sem dúvida o mais importante”, era no que tange a feitura do conteúdo de suas letras. Segundo o biógrafo João Máximo, não existia até então em música de meio de ano – música “séria”, que não seja de Carnaval – temas como pobreza, fome, mentira, bonde, credor (prestamista) etc. Noel exalava cheiro de rua, transformava em samba tanto manchete de jornal, quanto histórias contadas pela massa que perambulava pelas noites do Rio.
Essa nova maneira de letrar melodias rocambolou a história da música popular. É fato que na década de 50 houve uma enxurrada de sambas dor de cotovelo, mas depois disso esse tipo de feitura iniciado com Noel ganhou mais e mais adeptos. Bob Dylan provavelmente foi um deles...
Noel se foi aos 26 com a danada da tuberculose, morreu tamborilando a escrivaninha da cama na mesma casa onde havia nascido de parto difícil. 100 anos de nascimento serão comemorados no próximo 11 de dezembro.
Dia desses passando por um dos poucos chalés que ainda restam na Vila, imaginei o Centro Cultural Noel Rosa, onde os meninos dos Macacos e da Mangueira poderiam cursar teatro, música, cinema etc. O dono falou que estava quase que fechando com uma imobiliária, mais um arranha-céu estaria sendo planejado. Contei essa história pro João Máximo, que desapontado confessou que havia tentado algo semelhante junto com o Martinho da Vila, o projeto auspicioso tinha a assinatura de Oscar Niemeyer e seria construído na quadra da Escola de Samba do bairro. Entretanto, ganância e politicagem barraram o projeto.
Noel, dentre outros talentos, foi presenteado com o dom da profecia:
Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

Um comentário:

  1. Boa.
    Vai nessa linha! Gostei do texto.
    Saudades de você, meu grande amigo...
    Grande abraço.
    Anderson

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