sexta-feira, 11 de junho de 2010

De feira que se vive

A feira é de cores e de vida: nada a ver com prateleira insossa de supermercado.


Por que contamos nos dedos o número de pessoas que riem, conversam entre estranhos, exercem o divino fascínio da brincadeira, do “sarro”, da “tiração de onda”, do “tá de sacanagem” nas farmácias, supermercados e mercadinhos? E por que há um quê de criança, que se aflora nos barrigudos de cabeças brancas, em cada barraca, pechincha por pechincha numa animação sem igual na sonolenta e devagar aurora de um sábado no meio da rua em Vila Isabel?

Em qual supermercado poderia eu brincar de abaixar o preço do mamão? O sujeito que mais ganha em cima do lucro daquele mamão não é o atravessador, que estacionou num canto proibido sua Kombi velha após o expediente do dia anterior e mandou que se depositassem as papayas. O tal sujeito dono da “bolsa de valores dos mamões” está bem longe dali, no mínimo em bela soneca numa king size qualquer, sonhando um montante de coisas caras num sentido, suspeito, bem vazio do que seja uma coisa cara. Talvez esteja em pesadelos: ilhas Fiji, Dom Perignon na suíte master do seu 78 pés, quando, de assombro, ao apertar olhos para melhor entender o porquê, passivamente assiste por detrás do vidraçal a uma tempestade. Pingos graúdos de ações trabalhistas. No canto direito um raio onde lê, dobrando o pescoço: “Subprime”, num raio de letras mais adiante “Greek Cracking”. Como assim? Pois é, pesadelos não são nada fáceis.

O importante é a feira: a carne, os peixes – tão fresquinhos que provocam arrepios nos vegetarianos dos mais – daqueles que só vão de frutas. Acho eu, no cume da minha ignorância, que aulas de artes plásticas sobre naturezas mortas, principalmente na especialidade de verduras e flores – sim! Há flores! E das mais amostradas. – deveria, ou deve, ou deverá também incluir como espaço de ensino a feira. Em dias de sol, lá está Ele planejando a iluminação do espetáculo, naquele naipe: nem frio, nem quente – naquela intensidade de cor que só o melhor iluminista do Sistema Solar sabe fazer. Imaginem a cara de delícia de um Monet ou Degas chegando cedinho e ensacolando paletas e pincéis no depois da tarde... Inclusive a rua a que me refiro possui o sugestivo nome de Rua dos Artistas.

Para crianças, aula de reforço gratuito: vermelho é vermelho, roxo é roxo. A sementinha da tangerina, peixes e galinhas e vaquinhas: o filão dos vertebrados (mas também não somos vertebrados, papai?). Ensinar, ô tarefa... Geralmente há um bacuri ali pelo caminho, acolá uma pequerrucha usando pequeninos brincos no colo da mãe, aprendendo novas cores – sabia lá, por exemplo, que existia o “branco das velhinhas do queijo”! E existe. Ficam lá, parecem irmãs, vestem-se e comportam-se como idôneas beatas católicas da época do latim, porém, observando-as mais de perto, descobri um quê de protestantismo neopentecostal na forma como elas abençoam as cédulas.

“Limão a 1 real, limão a 1 real” – aborda-lhe o insubmisso sujeito, vendendo nos corredores, não possui barraca. Subversivo típico de feira. Os pregões contaminam seus ouvidos e não por acaso o velho Caymmi atribuía aos pregadores da sua época potenciais estimulantes de insights fantásticos para suas composições.

Pois ando freqüentando com muita água na boca a feira dos sábados matinais na Rua dos Artistas em Vila Isabel – É mais caro que o Mundial, ou Guanabara? – Né não. Há penas um dos parcos espaços desse nosso planetinha onde coisas caras mudam totalmente de valor.

Um comentário:

  1. Eis que hoje eu acordo me lembrando de que tinha um certo blog para visitar. Taí..acho que nunca mais comprarei mamão sem pensar nisso tudo. Angustiante, hein?! :)bjo. Hemiliene.

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