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sábado, 16 de maio de 2020

pan demo

nunca me instalaria no meio do caos
dessaturando a utopia
mas eis que preciso lavar uma pia
e estender a roupa amassada
de toda uma geração
enclausurada

o pão não é nosso
e a cada dia
endurece mais o meu encantamento

chega de rimas
saudade já foi coroada

mas arrebento
e em cima desta pedra cansada
me destroço na cidade vazia

pandemia
amanhece cristalino
de um azul-desgosto
anoitece vidro-fosco

de que vale esta tempestade de citocina?
a quarentena, todas as posturas de Yoga
o relatório do FMI
Estados Unidos e China
as modalidades psicoterápicas do enfrentamento
as lives de Paul McCartney, Rolling Stones
e Ludmilla?
de que valem os tacanhos da cloroquina
e do anti-isolamento?

se hoje
no Morro do Alemão
a aurora se pintou de sangue e tinta preta

e que ninguém se esqueça
da menina do balão amarelo
se rodopia, acaba o brinquedo
ninguém fica mais velho

e ela ria, ria, ria


pandemia



Alfredo de Oliveira Neto


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

carta para Raquel Stern


Minha querida Raquel, te escrevo esta carta do depois para me lembrar para sempre. Apesar de não termos sido tão próximos, a distância se diluía com o tamanho dos nossos sonhos. Fomos colegas de trabalho, mas de um trabalho sem salário, ganhávamos um lote de esperança a cada encontro, o que nos saciava mais do que qualquer centavo.
Trabalhávamos madrugadas e finais de semana pagos pela certeza do caminho ao sul utópico de Torres García, do cinema nacional soberano e da universidade pública de qualidade. Passamos mais de um ano semeando a trajetória do mini-doc em homenagem à Uerj, Estado de Desmantelo, título que a Clarissa Nanchery escolheu primorosamente.
Tive a oportunidade de realizar um sonho adolescente, mesmo que a duras penas e com todos os percalços e surpresas que uma produção permite. Valeram as inúmeras viagens com amontoados de lixo que fiz do Hospital Pedro Ernesto à Uerj, as inúmeras ligações aos funcionários auxiliares de serviços gerais das empresas terceirizadas, a classe mais oprimida, e justamente por isso a protagonista do nosso vídeo, valeram os ajustes e contatos com as preciosas estudantes de medicina, algumas médicas hoje em dia, as discussões com John CM e a sua perseverança na fotografia mais impactante, que ficou linda e a generosidade de Alê Borges e Sílvia Boschi.
O que foi aquela surpresa aos 45 do segundo tempo de termos uma funcionária varrendo o chão do mesmo corredor do set de filmagem? Lembro a sua euforia em resgatá-la para o set e do quanto ela percebeu a importância de amplificar a voz abafada dos mais frágeis, daqueles que foram os primeiros a sofrer com a ausência de salário nas vésperas do natal de 2015. O projeto macabro de exterminar a universidade pública com maior inclusão social do Brasil foi iniciado com a humilhação aos mais necessitados, e foram eles no decorrer do desmantelo os que realmente ficaram sem salário algum.
Eles foram a fogueira necessária para irmos adiante aquecidos de esperança. Lembro com muita felicidade daquela noite regada a cerveja na minha casa em que você, Bruno Sicuro e eu decupamos o vídeo, preparando-o para a edição de Clarissa. Aquele luxuoso encontro na casa de Jordana Berg, no quartinho de sua ilha de edição nos fundos. Era noite e desde manhã cedo ela vinha editando o documentário sobre o golpe. O acolhimento, o incentivo, as dicas, saímos de lá com um latifúndio de esperança e fomos bebemorar na esquina.


Desde “O Óbvio”, do Bruno, percebi que ali havia a presença competente de algum profissional do ramo e, nesta época, a paixão de vocês foi salpicada naturalmente neste vídeo contundente e necessário. E toda esta trajetória de amor entre vocês nos contagiava e nos impulsionava a produzir, era a base e matéria-prima para exportação de sonhos.


Um casal pluripotente que unia paixão, música, cinema, road trip, boemia e militância social em torno de uma charmosa Kombi da década de 60. Foi o casal mais beatnik que conheci. Lua de mel com cachaça. As festas e histórias em torno da Magnólia eram as melhores e as mais quentes.
Tive a felicidade de tocar com as bandas Empenha e Harmonia Enlouquece em festas com a Magnólia, inclusive tendo ela como cenário. Tive o prazer de manejá-la bêbado dentro do Rio Centro, depois de uma festa, completamente perdido à procura de uma saída. A saída para o golpe e todo este lamaçal em que nos afundamos era a Magnólia, a integração cultural com a esquecida América Latina, o sonho de ir além. Minha querida Raquel, você sempre estará associada à perigosa e necessária capacidade de ousar.

Juro que estava ansioso em trabalhar naquele projeto sobre o feminino que seria o trabalho de conclusão de curso da segunda residência médica do Bruno, e imaginava muito mais: cine-clubes com a Magnólia discutindo Glauber, Buñuel e Sganzerla; Magnólia Vai Nordeste; Magnólia Vai Cuba e Jamaica; Magnólia Vai África; Magnólia Vai Leste Europeu; Magnólia Vai China.
Quando Bruno me falou do projeto da América do Sul em um bar na Tijuca, meus olhos brilhavam. Ele havia naquela semana ido atrás do Paulinho Moska para convidá-lo, porém ele estava justamente em um projeto semelhante com uma outra turma, ou seja, o projeto era quente e necessário. E Magnólia foi mesmo assim, com o nosso querido Diogo Martinz como frontman musical. Quanto foi a minha alegria em acompanha-los pelos posts tarde da noite no FB mesmo arrasado de cansaço.
Iríamos nos encontrar naquele trágico dia de dezembro, eu tocava com o Empenha no congresso municipal de medicina de família na UFRJ, onde possivelmente você chegaria com Bruno e a Magnólia.
Fiquei sabendo da pior forma possível, após o show por um grupo de zap antigo, de pessoas distantes. Enquanto o pranto e o chão caíam, busquei ficar perto dos seus, estavam todos na casa da Lorena. O ambiente naturalmente pesado, cinza, silêncio sepulcral cortado por choros que pipocavam aos soluços. Pensei do quanto que você não gostaria que assim ficássemos e comprei várias garrafas de cerveja, propondo brindes a sua felicidade e a sua esperança na vida que sempre nos contagiou. O clima deu uma aliviada. O nosso amigo-irmão Puig foi essencial no suporte emocional de todo esse processo, infinitamente solícito.
Fiz questão de entoar o coro de canções no seu enterro com a Clarissa, claro que Belchior e Novos Baianos estavam no repertório. Foi uma forma de me posicionar no enterro mais triste da minha vida. Fui com o seu pessoal do cinema tomar umas em sua homenagem na Cantareira, onde você adorava.
O fato de a tragédia ter acontecido justamente com a Magnólia no período histórico mais tenso da nossa vida adulta neste país não pode ter soado diferente de “o sonho acabou” para a nossa geração.
Fiquei entalado meses até te escrever, os inúmeros amigos estão cuidando de Bruno, que vem se mostrando a fortaleza assim como tenho a certeza de que você gostaria que fosse.
Minha querida Raquel Stern, termino esta carta derradeira no começo da primavera te dizendo que o sonho está vivo, as flores teimam em crescer e se eu nunca perder a capacidade de me indignar e me transformar você será certamente uma das culpadas.
Beijos do amigo,
Alfredo                   


sábado, 26 de agosto de 2017

carta para Tomás de um sábado qualquer

Porque hoje é sábado eu leria o conto Hills Like White Elephants, do Hemingway, só porque estou na fase pilhada com o autor em busca da macroeconomia do texto. Usaria o google tradutor a tiracolo para salvar palavras que desconheceria para usar em futuros poemas, leria pausadamente em voz alta, mas não muito, e quando estivesse em dúvida da pronúncia iria novamente ao Tradutor para ouvir a clareza de um sotaque padrão BBC / PBS. Tentaria o original no scribd onde geralmente acho tudo. Depois pegaria no violão I Fall in Love too Easily, não na versão Sinatra, mas do meu favorito Chet Baker naquele seu segundo disco de 56, e depois de muito treino gravaria no celular e enviaria para grupos de zap muito seletos pedindo para prestarem atenção na interpretação naquela passagem. Tudo muito chato virginiano, mas faria.

Porque hoje é sábado todas essas ações seriam acompanhadas pela minha única garrafa de vinho que tenho em casa, a Porca de Murça 2012, do Douro, uma mania familiar. Mestre Giba, seu avô materno, descobriu que esta "porquinha"conseguiu 90 pontos no Wine Expectator, não contamos para quase ninguém, e o Zona Sul, que o importa, parece não se importar com o preço.
Por fim, neste mesmo sábado, acabaria de ver no Netflix o documentário Empire of Dreams, sobre a primeira trilogia do Star Wars para ficar imaginando durante toda a semana: por que George Lucas insistiu profundamente num gênero fadado ao fracasso para a década de 70? O que faz com que pessoas como ele, Van Gogh, Freud, Cristo, Marx insistirem em temas e linguagens que todos os amigos mais próximos recomendam não mergulhar, alertam do fracasso, e eles persistem apesar de tudo e de todos? Será que ouvem vozes? Possuem alguma segurança sensitiva metafísica ou espiritual? Cristo foi claro em dizer que sim, mas e os outros?
Hemingway, Baker e Lucas que me perdoem, mas você, fiote, acordará em menos de 30 minutos e eu tenho uma lista de recomendação de zap de sua mãe para nada esquecer de como devo vesti-lo, alimentá-lo e armazenar suas mochilas. Chamarei um Uber e iremos nós dois rumo a um casamento no Catete.
Lá muito provavelmente irei fazê-lo rir de como um personagem tosco de um vídeo no youtube levanta a mão, como quem responde presença, durante a música "Old McDonald had a farm..." e você gargalhará. Eu não abri mão da "porquinha" e cantaremos juntos o seu pout pourri de canções, grande parte infantis, acharei graça quando esquecer alguns versos e você não. Curtirei ao máximo quando você começar O Mar, de Caymmi, imitando a minha tentativa de imitar o baiano no final da 1a estrofe, naquele grave extremo "é bonito...".

Tudo isso justamente porque hoje é sábado e Vinicius faz muita, muita falta neste Brasil careta e insuportável.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

carta para Tomás s/n

Fiote, são 4h35 e o galo canta em Paraty Mirim. Estou sentado no chão frio de inverno, encostado ao frigobar, único canto do quarto em que a fresta da luz do banheiro, com sua porta recostada, me permite iluminar o teclado do meu laptop. Viemos passar 3 dias no litoral sul fluminense no final de suas férias intermináveis.
Desde que você nasceu escrever é um ato de resistência, sempre me lembro de Hemingway, “você deve escrever como quem caça leões”. Na minha juventude interpretava esse conselho como se houvesse a necessidade de se estar nu emocionalmente diante do texto, quando todos os sentimentos primitivos de raiva, coragem, medo e amor são atirados no papel como tintas ao quadro e somente muito depois burilados na mais alta sofisticação racional. Acho que era isso ao que o americano-cubano se referia, mas também, e agora não tenho mais nenhuma dúvida, ao ato de resistência que é escrever em situações adversas tipo guerra, cárcere, caçadas na savana africana e filhos pequenos. Como diz uma colega professora da Uerj, “o que é mais forte, permanece”, e eu fico feliz em saber que escrever está em meu sistema nervoso autônomo, porém melancólico ao notar que, para conseguir um horário comercial reservado, muitos leões africanos precisarei abater.
Existem outras duas cartas para você ainda incompletas porque escrever não é igual a desenhar caracóis. Primeiro se ordena a ideia do texto na cabeça ou no papel, depois se joga as tintas do Hemingway, o que raramente acontece de uma só tacada, depois vem o superego e diz “que porcaria!”, aí você toma uma cerveja e acha o texto lindo, só depois, sem cerveja, você passa pela fase final chata de edição, que é geralmente esfoliante, e quando publica sente novamente aquela sensação de nudez e se pergunta por que mesmo eu preciso, com ou sem personagens, me expor a este ponto? Aí depois de vários ciclos desses, você se acostuma e relaxa parcialmente. Já o caracol que eu desenho para você é completamente intuitivo, colorido de afeto, sem amarras e sem leitores imaginários, como me alertava Raimundo Carrero, pousados em meu ombro lendo em streaming palavra por palavra. Ou seja, desenhar caracóis é muito mais legal.

Mas vamos ao ponto G desta carta: três dias atrás sua mãe e seu avô foram com você a Teresópolis e eu tive uma tarde e uma noite de férias depois de 2 anos e 2 meses, não por acaso a sua idade, no novo bairro onde moramos, o verdejante Jardim Botânico e isso se tornou simplesmente uma aventura. Rapidamente tracei o roteiro: 1) dormir (sempre!) ao começar qualquer roteiro, mas não muito, estipulei 1hora e cumpri; 2) almoçar de-va-gar, mastigar todas as superfícies internas e externas do bolo alimentar, fechar o olho e descobrir notas de erva doce no quiche de alho poró sem se preocupar com o turno da tarde de trabalho ou se você vai novamente subir em cima do sofá e mexer nas minhas caixinhas de som do home theater. Cachacinha grátis, sobremesa, café, spotify, twitter (zap, email e fb nem pensar), café novamente ; 3) nadar, ah, nadar... a natação é a nata da ação, três meses longe da piscina e minhas tubas auditivas repletas de muco e coronárias engarrafadas de ateroma; 4) cortar minha tufa com Bruno, um italiano de sotaque com quem converso sobre massas e leio notícias da Itália na sua revista da embaixada especial para imigrantes, o objetivo desta vez é acabar de ler a matéria da capa de um número de meses atrás sobre Antonio Patriota como novo embaixador em Roma, não me recrimine, calculo que terei um pouco de vergonha de garimpar no revisteiro junto a caras e contigos, não encontrar e ter de pedir a alguém; 5) por fim entrar no grupo de zap de amigos, não me distrair, e perguntar o que a noite do Rio de uma quarta-feira de julho me reserva.
Assim que você partiu, consegui, meio ansioso pelo porvir, dormir apenas 1h e iniciei a aventura almoçando no caríssimo restaurante a peso do bairro, o Nanquim. Como diminuí meu prato para 400g achei que valeria apesar dos pesares de ser professor da Uerj, mas isso deixa para outra carta, apertei o botão F, também outra carta. Lá é bom porque se você acertar na proteína vale. Neste dia o peixe era salmão, é bom você saber que hoje está banalizado, mas quando eu era pequeno este nórdico pisciano era um artigo importado de restaurante chique, salpiquei um molho teryaki. O ponto de cozimento e a qualidade do salmão e do molho estavam uma paleta colorida, mastiguei todas as superfícies. Claro que pedi uma “água da casa”, o botão F não é isento de recalques. Quero que você saiba que seu pai não tem frescura nenhuma com comida, quando trabalhava na Penha todos os médicos de família das redondezas repugnavam o meu hábito de comer em um restaurante bem baratinho ali perto do trilho do trem, se é para comer uma buchada de bode estamos aí, meu órgão de estresse não é o intestino, mas as vias aéreas superiores. E por isso a natação e, devidamente orientado pela minha otorrinolaringologista, Lúcia Joffily, a busca incessante pelo mar, mergulhar, surfar, esquiar, velejar... Apenas busca incessante mesmo.
A piscina do clube militar, sim, militar, é o único clube que dá para eu ir a pé e a piscina tem 25m, é limpa, aquecida e tem vista para o Corcovado, não me recrimine. Pois bem, a piscina do clube militar me dá sempre vontade de tirar uma foto e fazer um post tipo #natação #eumecuido #euconsegui, mas acho piegas pra cachorro qualquer coisa neste sentido e no máximo tiro uma foto e mando pra sua mãe, sem nenhum comentário.
Nadei como de costume, desde que você nasceu, meus 1000 metros que na minha cabeça é sempre a metragem necessária numa frequência irregular de treino para o grande retorno triunfal à época em que eu percorria 2km em 45 min. Como estava de férias por um dia, decidi conhecer a sauna do clube. Senti-me numa casa de banhos do início do século XX rodeado por Benjamin Constant e Floriano Peixoto, velhos barrigudos trajando apenas um modelito havaianas e toalha no ombro, nus, mal encarados, sem fixar o olhar, muito menos boa tarde, andando da sauna para a ducha, da ducha para as espreguiçadeiras que dão para a TV de LED sintonizada na Globo News. Para aperfeiçoar um clima positivista militar de direita, a longa matéria era sobre o vandalismo na Venezuela. Caço um diálogo entre um desses velhos e um jovem, único além de mim, sobre história militar e o quanto leis marciais implementadas nas guerras franco-prussianos foram importantes para diminuir a crueldade das guerras. Chamam carinhosamente uns aos outros de “oh, viado!” e, graças ao meu olhar clínico diagnostiquei alguns micropênis, mas me retive na oferta de qualquer consulta.

Vi uma porta no fundo do corredor “massagem e repouso – silêncio absoluto”, mas fiquei com medo de grunhir alto ao apertarem meus pontos gatilhos musculares e levar uma chinelada. Dei meia volta e flutuei, assim como em qualquer pós natação, rumo à tesoura do italiano. Aproveitei a longa lavagem morna por entre as madeixas de minha tufa, chateei-me como de costume de ter cortado além do desejado e tive vergonha de pedir o número da revista da embaixada. Pronto, havia cuidado da minha saúde e da minha beleza, o que fazer agora no início da noite deste bairro verdejante? O JB, meu filho, tem este ar ecobelofitness, e achei que seria uma frase compatível para a ocasião. Comprei uma Carta Capital e um jornal Globo, não me recrimine novamente, na minha banca predileta, esquina da rua JB com a Lopes Quintas. Eu adoro jornal, fui editor do jornal do diretório acadêmico na faculdade, fiz um projeto longo e criativo, que não saiu literalmente do papel, assim como inúmeros outros projetos mirabolantes que seu pai faz, chamado A Massa, um jornal tipo Pasquim para os dias atuais ainda na época de Recife, cheguei inclusive a juntar obviamente uma redação também quixotesca em algumas reuniões, meu vereador recifense Ivan Moraes Filho que o diga, enfim, desde que o Jornal do Brasil morreu e que a Globo atuou a plenos pulmões no golpe de 2016, decidi não mais comprar jornal aqui no Rio, mas às vezes a tentação é grande, eu adoro jornal e revista, não iniciei na leitura com livrinhos infantis. Na verdade mesmo, em matéria de literatura, eu sou um grande leitor de revistas, fui assinante da Fluir, Playboy, Veja (não me recrimine novamente, parei de assinar depois da capa do Stédile em 1999) e Continente Multicultural (hoje Continente). Lia tudo obsessivamente de cabo a rabo, muita saudade da era pré-internet em que a gente focava em um único objeto, sem o vício horripilante de checar zaps. E eu já achava revista uma fonte por demais distraidora, porém venerava ler economia, ver anúncios publicitários, misturados a ensaios inteligentes e resenhas de filme bom.

Então estava eu ali em frente à banca com uma noite à minha espera e não me contive, comprei o Globo, há outro detalhe, eu não aguentava mais a cara de recriminação do vendedor careca quando eu levava apenas uma Carta Capital. Fui caminhando com os folhetins embaixo do braço sem medo de ser chamado de coxinha ou mortadela rumo ao Belmonte. Não emborquei a Carta na mesa, deixei a capa para cima e abri em frente ao chopp o primeiro caderno do Globo para que todos vissem que se tratava ali de um homem sensato, analítico, que disseca as entrelinhas de qualquer órgão da imprensa independente dos interesses político-econômicos, mas não passava na real de um pai de filho pequeno hipomaníaco numa noite de férias. Meu filho, poucos prazeres na vida do seu pai se assemelham a ler no bar, ouvindo música com headphone bom e fazendo anotações de insights para projetos mirabolantes que não sairão do papel.
A dica para a noite foi Chorinho na Glória e Jazz na Praça Tiradentes com o alerta de estarem lotados. Prefiro ouvir todos os agudos e graves do álbum que escolher tomando um drinque no silêncio sepulcral da nossa sala da rua Faro. Mas aí veio uma dica que se encaixava perfeitamente com a vibe das mini-férias: um evento descolado que acontece apenas mensalmente no Parque Lage entre 19h e 22h. A carga do meu celular, e da minha música, daria exatamente para mais um chopp e para a caminhada até o Lage. Li meia matéria de capa da Carta sobre o Temer e seu pescoço de ouro, e menos da metade do primeiro caderno, ensacolei os folhetins junto à toalha e sunga molhada da natação e me senti nas férias da faculdade em Recife, quando pegava ônibus até o Centro lendo livro de poesia, transpassava a noite, e ia tomar uma saideira na praia de Boa Viagem no outro dia, mas quando se envelhece o tempo se comprime.
Arto Lindsay, uau, o cara que redescobriu Tom Zé junto com David Byrne, que já produziu Caetano, Marisa Monte e Orquestra Contemporânea de Olinda tocaria uma guitarra junto com um dj que esqueci o nome. Parque Lage é o verde humanas do JB, lá tem a Escola de Artes Visuais e todas aquelas exposições contemporâneas esquisitas. O que me pega lá é aquele tom sombrio da arquitetura apesar do pátio interno solar, acho que esse peso que sinto tem a ver com os velórios de Di Cavalcanti, que Glauber filmou e depois o próprio foi velado lá e obviamente também filmado. Sou fã do Glauber, portanto o que eu sinto lá é muito mais o peso da história do que possíveis assombrações do nobre e sua amante para quem a casa foi construída.

O show foi bem Escola de Artes Visuais, ininteligível, kitsch, barulhos altos de distorção em músicas sem melodias, loops com gritos e palmas, mas o lugar do show, uma varanda lateral da biblioteca, fiotão!, foi um achado: comecei a bolar o projeto de lançamento do disco do Empenha, uma banda que seu pai faz parte, bota muita fé e quer mudar o nome. Fui encher o saco do produtor do show, queria saber o passo a passo para conseguir a varanda. Ele disse: “o projeto tem que ser de arte contemporânea”, respondi: “minha banda possui muitos elementos de contemporaneidade”; “arte contemporânea é diferente de contemporaneidade”. Quando acabarmos de gravar o disco, irei de chapéu e óculos escuros carregando um livro de Bourriaud bem naturalmente.

Flutuei mais uma vez de volta para casa. Um meio sorriso intermitente ocupava minha fisionomia, tinha duas certezas, o dia tinha acabado antes de 23h, eu dormiria como nunca, mas antes eu precisaria escrever esta aventura. Desabei e nem uma palavra, por isso vim caçar leão nesta madrugada em Paraty Mirim onde além do galo o pavão emite barulhos quase humanos e o ganso bica quem chegar perto do ninho.


sábado, 3 de dezembro de 2016

novembro multicores




Estava 20 minutos atrasado, o dedo em riste rumo ao ponto eletrônico. O próximo paciente era jovem, recém chegado ao Rio e em grave sofrimento psíquico. Apesar de a consulta não ter sido marcada, tive que estendê-la por motivos óbvios, o que alcançou o horário do meu compromisso seguinte: ação coletiva da minha equipe de saúde nas ruas de Vila Isabel referente ao chamado “novembro azul”. Neste mês acontece uma campanha anual de conscientização do cuidado do homem que se iniciou na Austrália em 2003 e tinha como foco o câncer de próstata. Como hoje em dia nem o Ministério da Saúde, nem o Instituto Nacional de Câncer, nem os comitês sobre prevenção à saúde dos EUA, Canadá e Reino Unido recomendam o rastreamento de câncer de próstata em assintomáticos sem história familiar, decidimos focar nossa singela atividade nos fatores de risco que realmente importam para o homem: violência, tabagismo, etilismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis. Queríamos ir para onde supostamente os homens estariam numa tarde de sexta-feira: o bar. Para evitar um tom maçante e professoral de palestra e não atrapalhar o meio ambiente, decidimos, em vez de panfletar, criar cartazes com os seguintes hashtags:
# HomensMorrem+QueMulheres
#FiqueLongeDasArmas
#FaçaMaisAmor #EncapeOZé
#SaibaBeber #NãoVacile
#CigarroBroxa #éCaroeEnvelhece
#SeLigue #FrituraeGorduraEntopeCoração
No intuito de garantir que não seríamos ignorados, homens vestidos de mulher, e mulher de homem, pandeiro, marcação cênica e a música Tem Pouca Diferença, de Luiz Gonzaga.
Logo após a consulta com o jovem, corremos ao banheiro, o agente comunitário e eu, únicos homens do grupo, para colocarmos os vestidos emprestados pela minha mulher. Enquanto, de cuecas, apanhávamos com uns buracos existentes no colo do vestido que achávamos que era para os braços, mas era para os seios, adivinhem quem entra no banheiro após ter pego a medicação na farmácia? “Rapaz, veja só, vamos fazer uma campanha de saúde...” balbuciei totalmente sem jeito, ainda com jaleco na voz, para o meu jovem paciente que havia acabado de atender.
Quando já devidamente maquiados e ensaiando com o resto do grupo, ele já aplaudia e cantava junto, ouviram até ele comentar: “e ainda dizem que o doidinho sou eu”. A consulta havia sido ótima e ele ainda, raptz!, comete este insight freudiano?! Depois dizem que médico de família não deve participar das ações de promoção...
Desde o nosso primeiro bar, percebemos um achado antropológico: a maior parte dos bebedores de Vila Isabel no fim de tarde de sexta são do gênero feminino, bem-vindos à Vila do novo século. Utilizamos inicialmente como plateia cobaia os clientes de um bar, bem roots, na esquina da Visconde de Abaeté com a Boulevard 28 de setembro, os bebedores estranharam de início, mas fomos laureados no final com algumas palmas esparsas. Adiante, encontramos um compositor que fez questão de cantar o seu samba acompanhado do meu pandeiro. Estava só, mas acompanhado da oitava cerveja de garrafa. Montamos também o circo em outro roots bar Vila, na Duque de Caxias em frente à oficina de carros. Um pedreiro trabalhando no primeiro andar de uma casa na Torres Homem fez fiu-fiu para mim e Luiz, o agente comunitário, agradecemos como madames. De uma coisa tínhamos certeza, usar saias numa tarde quente no final da primavera em Vila Isabel é muito melhor que calças. Dá para abanar.

Como os bares ali do quadrilátero, o baixo Vila, estavam ainda repletos de mesas vazias, tentamos entrar no Hortifrutti da 28. Fomos gentilmente acolhidos pela supervisora, eu, elegantemente de batom, me apresentando como médico da nova clínica da família, mostrava-lhes cada membro da equipe e suas funções, mas infelizmente não conseguimos entrar, precisava da liberação do gerente de marketing, anotei o telefone e convidei a supervisora para conhecer a unidade de saúde da família. Precisávamos de um bar cheio, repleto de homens sedentos por informação sobre saúde e receptivos a uma performance político-musical.
Andamos toda a Jorge Hudge, sem nos animarmos muito. No fundo, já sabíamos onde seria nosso gran finale, um bar na beira da São Francisco Xavier, barulhento e quente, chamado Loreninha. Os estudantes da Uerj praticamente colam o grau ali, além de ter gente de outras tribos devido ao preço acessível da cerveja em temperaturas boreais. Bingo! Lotado e repleto de homens sedentos.
Sempre quando começávamos a performance, as pessoas olhavam meio de canto “não tenho dinheiro não, moço”. Quando, no final, entregávamos os preservativos e o kit da saúde do homem com cartilhas e outros penduricalhos, as pessoas sacavam que não éramos vendedores de rua, e aí alguns batiam palmam, os garçons davam um legal e partíamos. O Loreninha estava lotado e decidimos fazer nossa mini-apresentação sem comunicar ao dono. Quando me posicionei, olhando para a rua, na soleira do piso de cima do bar e comecei “que diferença da mulher o homem tem?”, vi no canto do olho a indecisão da dona em me expulsar ou não, estava muito confuso para alguma decisão rápida: vestido de mulher, todo pintado, com aparência de zona sul, sotaque de nordestino e não era um calouro.
A apresentação era organizada previamente para combinarmos o local de cada um no intuito de todos os clientes poderem nos ver, permanecíamos alguns segundos em estátua, e eu começava a música, havia uma deixa para que um erguesse pausadamente o cartaz, e assim era seguido, também lentamente, por todos. Na segunda deixa, eles começavam a se mover como aquelas mulheres no intervalo do boxe, passo decidido e sorriso largo. Novamente paravam em outras posições e dois deles largavam os cartazes e distribuíam os kits e preservativos, enquanto eu ia ficando rouco, competindo com o barulho dos ônibus. Apesar do constrangimento da dona, tudo estava ocorrendo na perfeição. Quando acabou, fiz um discurso breve sobre o cuidado dos homens, e agora chegou a parte mais interessante da crônica, lá ia eu falando sobre violência como causa de morte importante entre os homens, levantei a mão imitando uma arma quando para abruptamente, juro, um carro da polícia militar em frente ao bar. Um garoto de rua que estava ali vendo nossa apresentação da calçada percebe, fica lívido, e parte em disparada sentido 28 de setembro atropelando os jarros de planta. Dois policiais rapidamente saem do carro com a arma em punho, todos do bar se curvam, preparando-se para o chão. Desistem de atirar e entram no ônibus atrás de um suposto segundo garoto, todos do bar assistindo à cena. Não o encontram, entram novamente na viatura e partem zunindo de sirene ligada. Não me curvei, estava de camarote, virei estátua na soleira do piso do bar. Quando a poeira desceu, terminei o meu discurso interrompido com um “tão vendo? Eu não disse? Se cuidem!”, olhei para a dona que a esta altura já era nossa camarada e nos trouxe uma cerveja boreal. “O negócio aqui não tá brincadeira não, doutor”.
Voltamos para a clínica sem muita conversa, já havia mais gente na rua sedenta à procura de bares, a gente meio já esquecidos de nossos trajes, uma menina passou por nós “sen-sa-cio-nal!”. Rimos e nos percebemos: a Clínica da Família Pedro Ernesto não mais possuía uma equipe com o nome Manoel de Abreu, havíamos nos tornado a Equipe Azul Profeta de um Novembro Homem.






terça-feira, 3 de maio de 2016

nascido

Palavra rebenta quando quer. Nasce tanto em lençol de guardanapo, quanto num berço de papel esquecido.

Palavra que transborda gofa letra, sai se derramando em frases.

Não quero buscar dados em bancos, nem ajustar o método à pergunta. Não vejo sentido em traçar argumentativos caminhos de ida rumo a mim mesmo. Não tenho pretensão em pôr gravatas em pingos do i.

Prefiro acreditar que papel em branco é terreiro sagrado guiado por todas as incertezas de um universo que acaba de ser parido.

Possuo um único objeto direto: amar. Sou um dogmático escancarado a seu dispor, nego-me veementemente a ser argüido nesse ponto. Questionar meu deus dissílabo seria o velamento. O último a-deus.

E nunca fui de apostar na pirraça da maldade.
Corram para amar, ou melhor, parem e amem. amém. E que assim seja.




planejamento

penso
tenho tesão
ajo

tenho tesão
ajo
não penso

ajo sem tesão
não penso

penso sem tesão
não ajo

tenho tesão 
ajo ajo ajo
não penso

não tenho tesão
penso penso penso
ajo