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sábado, 9 de novembro de 2024

rolezinho em Serrambi: o conto do canto

Geralmente era noite alta e após vários pedidos, ele pegava o violão, apoiava o uísque num porta-copos de uma mesa grande de centro, conferia a afinação no mi maior e, nos primeiros acordes, minha atenção se voltava aos olhos da pequena plateia. Ia de criança a gente de 40 + e eu focava nas mulheres. Das meninas às mais velhas, era como se aqueles olhos retirassem a roupa após um dia de trabalho e elevassem as pernas, como se entrassem numa banheira quente, tomassem o primeiro gole da sexta à noite e esquecessem os aperreios na escola, as intrigas, as culpas e os boletos. Olhos de pôr-do-sol. Contemplei durante toda a meninice e adolescência aquele poder de alumbramento de Tio Duca, pai do meu melhor amigo de infância e ex-integrante de uma banda da jovem guarda recifense na década de 60, Os Primos.
Invariavelmente o repertório tinha um lugar cativo para You Can't Do That, dos Beatles, e ele seguia com uma introdução de um dó maior para um mi com sétima na sétima casa, um rock clássico mi - lá - si, com uma segunda parte inventiva em sol sustenido, inventiva para o Lennon daquela época. Uma letra boba de ciúmes de um garoto pela namorada, que não poderia dançar com outro, bem 50's e 60's. O grande trunfo do Tio Duca era o ritmo da mão direita e o baixo que fazia nos acordes e, obviamente, sua voz rouca afinada e seu porte galã 60s, de botas, tipo Springsteen.

Bruno, o seu filho, e eu, apesar de sermos de 78, na pré-adolescência colamos nos 60s e 70s. Até gostávamos de Nirvana, Pearl Jam, Guns e Metallica, porém o que emocionava mesmo era Chuck Berry, Little Richard, Elvis, Beatles, Stones e Doors. Decidimos montar uma banda focada nestes gringos e na jovem guarda, tendo o conjunto do pai como referência local, demos o criativo nome de The Primos, o "the" para sugerir que cantávamos também em inglês. como já escrevi em Medo Medieval, durou do final do fundamental até o fim do ensino médio e o nosso ápice foi tocar na formatura do terceiro ano do Colégio Santa Maria em Boa Viagem, Recife.
Insistimos tanto em pegar a batida de Tio Duca, que You Can't Do That entrou no nosso repertório, eu adorava tocar esta música como baixista.
São José da Coroa Grande é a última praia do litoral sul pernambucano, fronteira com Alagoas. A minha praia de veraneio desde a barriga da minha mãe até o final da adolescência. Meu primo-irmão Lula, que também tocava no The Primos, tinha casa lá, assim como o Tio Duca, que por acaso era primo de segundo grau de Lula. Enfim, em todo janeiro a primaiada parte de mãe e amigos invadiam aquele paraíso cheio de corais. Primeiros porres e beijos, todos nós aprendemos a dirigir carros em São José.
As praias mais famosas do litoral sul pernambucano hoje em dia são Porto de Galinhas e a Praia dos Carneiros, que pertence ao município de Tamandaré. Naquela época, Tamandaré era um point mais legal que Porto, e Carneiros era uma praia deserta que ninguém se arvorava a ir. No litoral sul,  além das menos conhecidas, como Gaibu e Calhetas, tem a praia de Serrambi, situada entre Maracaípe, a praia de surfe perto de Porto, e a pequena Toquinho, que eu achava quando pequeno que era uma homenagem ao parceiro do Vinícius.

Por um acaso algorítmico no Airbnb, fui parar em Serrambi em um verão longíquo daqueles, poucos anos atrás. Já com filhos pequenos, juntei-me com a família de um amigo e, para economizarmos, pegamos uma casa mais recuada da orla. Serrambi ficou conhecido nacionalmente devido ao caso horroroso das duas meninas, que até hoje, mesmo passados 20 anos, não foi encerrado, mas que ficou emblemático, pois tem a ver com a cultura da elite nordestina: farras adolescentes na casa de praia dos pais. Todo o litoral nordestino possui talvez uma desigualdade tão escancarada quanto Leblon e Rocinha, mansões e lanchas à beira-mar, e quem vive ali de fato se contenta com casebres recuados e jangadas de pau.
Chegamos e montamos um cooler com boas cervejas, carregamos o guarda-sol e cadeiras da casa para conferir o mar. Passei por uma ruela em que dava para ver, entre plantas ornamentais, uma grande casa em que adolescentes de bermudas de linho e camisas sociais dobradas antes dos cotovelos conversavam com garotas de cabelos bravamente escovados ao som de Sunday Bloody Sunday em ritmo de axé. Pura sublimação histórica, o domingo sangrento entre católicos e protestantes irlandeses lá na década de 70 encontrara sua redenção tropical entre mauricinhos e patricinhas pernambucanas no século XXI em Serrambi.  Na beira-mar, ao sentarmos, em vez do horizonte marítimo benzodiazepínico e inspiração pulmonar profunda, lanchas ancoradas, uma ao lado da outra e jet skis ziguezagueando, quase um tapume de uma imobiliária anunciando as maravilhas de se adquirir um terreno chamado Mar. Quando mergulhamos no "terreno", pedindo licença às lanchas, óleo diesel na maré.
Contentamo-nos com picolé e cerveja e nos percebemos uma classe média dando um rolezinho no Praia Shopping Serrambi.
De volta à nossa casinha, peguei o violão e comecei a brincar com a harmonia de You Can't Do That no jeito Tio Duca de tocar, "Vou dar um rolé..." Comecei algumas estrofes e terminei logo em seguida. A banda Empenha, que se chama hoje Praia Vermelha, adotou-a rapidamente, pois se encaixava muito na nossa base rock. A segunda parte da música só veio anos depois, para melhorar a dinâmica e diminuir a chatice. Mostrei para o Zartinho (Moisés Nunes) a ideia melódica e ele harmonizou. Achei conveniente temperar com romance uma música cômico-social, porém seguindo o tom, entre um classe média e uma patricinha.
"Ponho minha camisa UV só pra te ver passar" vem da moda no litoral nordestino, no máximo uns 15 anos para cá, de os homens, de classes diferentes, todos usarem este tipo de malha durante o dia. O clássico Dia Branco, de Geraldinho, entrou na letra pois, na época da composição, Zartinho e eu estávamos fissurados, ouvindo toda a discografia dele.
Os baculejos, ação ostensiva da polícia no corpo de outrem à procura de tóxicos, eram comuns em não brancos e não classe média nas festinhas nos centros de Tamandaré e São José. Gostei da cena de o rapaz enfrentar uma dura ao ultrapassar o limite de castas e dar um beijo numa boyzinha. Fiquei também feliz em rimar o verso de Geraldinho com as minhas praias queridas do litoral sul. À propósito, o primeiro show que fui pós pandemia foi Chico César e Geraldo Azevedo no Circo Voador, tenho fotos, ainda de máscara chorando todo o litoral. Showzaço, vi novamente no primeiro Rock the Mountain. Duas vozes e dois violões, Paraíba e Pernambuco, explodindo o coração de todos em orquestra.
Apesar de, para a maioria do Brasil, jangada remeter a embarcações simples dos pescadores de Caymmi, de vela e madeira, em Pernambuco jangada também é uma lanchinha pequena, cerca de 16 pés, que a classe média costuma comprar se juntando a outras famílias, para irem aos paradisíacos "pocinhos", pontos rasos de areia no meio dos corais com águas cristalinas, é necessário destreza para, com o motor de poupa quase todo levantado, livrar o casco dos arrecifes, a depender do nível da maré, ao tentar entrar no pocinho. Por isso, "eu sei pilotar jangada".




Para a gravação assumimos um clima sábado de praia. Inicialmente, a ideia era terminar a música numa rodinha de violão na própria Praia Vermelha, na Urca, com a barulheira natural do vento, mar, praieiros e banhistas, mas não conseguimos produzir. No entanto, levamos ao estúdio a nossa memória dos pregadores da beira-mar do nordeste e do Rio. Globo, mate, ostra e caldinho.
Bruno Villar novamente assina a produção e a ideia de trazer a diversão praiana foi dele. Acho que Zartinho teve a ideia do coro na introdução "Serrambi" e da brincadeira vocal, que ficou ótima em "que rolé? que rolé? que rolé?". Eu gosto do tecladinho em vibrato, bem Renato e seus Blue Caps o qual, depois da Jovem Guarda, foi amplamente usado no brega.
A música foi toda gravada em várias sessões durante o ano de 2023 no estúdio Praia Vermelha, o nosso reduto e bunker.
A base se deu com Leo Graever na batera, Brenda Costa no baixo, os baianos Daniel e Fernando nas guitarras e Zartinho nos teclados. Nos vocais, Thaís Façanha, Laís Pimenta. Brenda e eu.
Apesar da experiência de se sentir dando um rolezinho no litoral, estas praias continuam lindas de morrer, com a água do mar quentinha, o abraço no balanço de ser e falar dos nativos e aquela vontade infinita de virar árvore ao curtir uma brisa numa rede amarrada entre coqueiros. 
Uma briga recente no bairro da Gávea, aqui no Rio, entre moradores e construtoras que insistem em avançar tratores em direção à floresta, justificando empreendimentos eco light de morar bem, me remontam às inúmeras tentativas de abocanhar pedaços de areia, céu e mar pelos resorts e outros lobos vestidos de cordeiros no Nordeste. Rolezinho em Serrambi brinca com a classe média branca que, segundo Jessé de Souza, fica achatada, na parte de cima quer se colar à elite e por isso defende os privilégios dos ricos, apesar de saber que dificilmente encontrará um buraco para subir, enquanto que seus pés tentam se livrar das camadas mais baixas, onde há muito mais buracos pra cair. É a classe média que ao se sentar na areia, e não contemplar o horizonte, dá graças a Deus de estar próxima às lanchas.   




Ficha técnica

bateria: Leo Graever
baixo: Brenda Costa
guitarras: Daniel Baiano e Fernando Baiano
teclado: Moisés Nunes
vocais: Thaís Façanha, Laís Pimenta, Brenda Costa e Tufa
voz: Tufa
produção: Bruno Villar e Moisés Nunes



Rolezinho em Serrambi
(Tufa e Moisés Nunes)

E7

Vou dar um rolé
                                             A
Vou dar um rolé em Serrambi
                          E7
vou dar um um rolé, um rolezinho
                                        A
um rolezinho em Serrambi
               B                       A                           E7     B
tomo cerveja importada, mas nao tenho jet ski
             E7                                                             A
Da mansão na beira-mar escapava um som  qualquer (2x)
       B                                    A                         E7
era Sunday Bloody Sunday       suingado no axé 

A
Mas me sento nessa areia
               C#m
mesmo sendo um sem-terra na maré cheia
G                                                           Bm
ponho minha camisa UV só pra te ver passar
A
como no canção do Dia Branco
          C#m
eu enfrento um baculejo pra te dar um beijo
               G
Pro que der e vier
                                                  B
em Gaibú, Tamandaré e São José


                        E7
Vou dar um rolé
                                             A
Vou dar um rolé em Serrambi
                          E7
vou dar um um rolé, um rolezinho
                                        A
um rolezinho em Serrambi
          B                            A
já viajei pra Nova Iorque
                                          E7
mas lua de mel não foi Paris


solo


A
Mas me sento nessa areia
             C#m
mesmo sendo um sem-terra na maré cheia
G                                                              Bm
ponho minha camisa UV só pra te ver passar
A
como no canção do Dia Branco
C#m                                                                G
eu enfrento um baculejo pra te dar um beijo

Pro que der e vier
                                                   B
em Gaibu, Tamandaré e São José


                 E7
O guarda-sol é protetor
                                    A
tem caranguejo e picolé (2x)
         B                              A
no rasinho é tanta lancha
                             E7       B
óleo diesel na maré

                        E7
Vou dar um rolé
                                             A
Vou dar um rolé em Serrambi
                          E7
vou dar um um rolé, um rolezinho
                                        A
um rolezinho em Serrambi
           B                       A
Eu sei pilotar jangada
                                             E7
mas pra alugar só dá pro esqui

domingo, 4 de setembro de 2022

sarrabulho: o conto do canto

 

Na cheia de 66, Alfredo de Oliveira, meu avô paterno, perdeu os originais das quatro peças que havia escrito e vários roteiros de teledramaturgia da TV Jornal do Commercio no Recife, do qual foi superintendente. A água barrenta chegou ao teto da casa da Rua Doze de Outubro no bairro dos Aflitos, de sugestivo nome.

Perto dali, minha mãe, na rua Viscondessa do Livramento, no Derby, aos 14 anos, foi impelida a realizar um aventura. A sua tia, do outro lado da Avenida Agamenon Magalhães, tipo uma Presidente Vargas, estava com a casa intacta, por ser mais elevada. A sua prima grávida, Silvia Suassuna e o seu saudoso companhiero Sérgio Suassuna,  ilhados com a minha mãe, além do meu tio, o caçula Petronilo Santa Cruz de Oliveira Filho, o Petrinho, do qual nunca digeri a partida aos 49, foram literalmente na enrascada com a água no pescoço, tateando buracos e pontes para atravessar o canal.

Quando menino, no bairro de Boa Viagem, lembro o percurso da minha casa às temerosas provas de fim de primeiro semestre no Colégio Santa Maria durante o mês de junho. Carros com água na porta. Todo junho era isso. No entanto, nunca sofri grandes cheias no Recife. Meu batismo de desespero com a ansiedade das águas se deu já no Rio de Janeiro na enchente de abril de 2010, uma experiência tão forte que comecei este blog, Riocife

Numa ida à capital pernambucana por volta de 2010, li uma matéria de jornal sobre cidades que desapareceriam em algumas décadas por estarem abaixo do nível do mar, devido a uma previsão de aquecimento global bem pior que a do verão carioca. Recife e Sydney estavam na lista de futuras cidades submersas, projetei o fim da minha cidade querida com uma orquestra de frevo resistindo tipo banda do Titanic, o último carnaval embaixo d’água no sarrabulho da maré.

Alfredinho, cuidado com o sarrabulho! Minha mãe costumava me alertar quando me arvorava já na carreira rumo ao mergulho. Um pai de santo me falara, eu filho de Iemanjá, o que me dava uma segurança tremenda, até hoje. Na minha pré-adolescência, última fase do surf em Boa Viagem pré-tubarão, a galera falava “vaca”, mas sempre me referi ao caldo, vaca como sarrabulho. Achei que todo mundo falava assim, e por isso sempre precisei me explicar quando a pronunciava. Descobri após gravar a música que é também um prato ibérico de carnes tradicionalíssimo, tipo sarapatel, Buñuel que me ensinou no seu irresistível Meu Último Suspiro. Fico na dúvida se uma gravação do mestre Jackson do Pandeiro de mesmo nome se remete a ter sido convidado para comer este tipo de comida, ou se seria uma festa.

Da matéria do jornal, veio a ideia do frevo e comentei com Sid Dantas, parceiro em Bispo, Mudânica Superativa e Sapo e Perereca sobre a vontade de cantar um frevo distópico-elegíaco pra minha cidade. Outra cena que me ajudou a letrar a canção foi aquela do final do Inteligência Artificial, com Jude Law e o menino do I see dead people. Um submarino nas profundezas encontrando os escombros de Manhattan. Imaginei-me naquele módulo tipo 20 mil léguas submarinas passeando pelo telhado do Teatro Santa Isabel, o baobá da Praça da República, o Acaiaca, os mercados.

Lembro um fim de semana ainda em Vila Isabel quando Sid me enviou a melodia toda pronta e majestosa por email. Na rede azul da varanda das plantas da rua Torres Homem me prometi que só me levantaria com a letra pronta. Não demorou tanto. Vibrei quando consegui a rima disse-me-disse com Recife, e a imagem de “a tuba que mergulha demais no refrão”.  Na época descobrindo Manoel de Barros, mandei um “vem me navegar, Beira-Rio, Maré”.

O frevo é um gênero muito caro a mim e a minha família. Meu avô Alfredo foi o fundador do Baile Municipal do Recife, tradicional baile carnavalesco quando secretário de cultura de lá. Valdemar de Oliveira, meu tio avô, irmão de Alfredo, escreveu um ensaio seminal intitulado Frevo, Capoeira e Passo. Quando Spok e sua Orquestra o comentou num show no antigo Canecão, tomei um susto. China recentemente no excelente podcast O Som a Pino , da Roberta Martinelli, citou Valdemar quando falou sobre a versão de frevo que fez para Deixe-se Acreditar, da qual gostei muito, e Hardcore Brasileiro. Meu tio-vô também compunha e tocava piano muy bien. O seu irmão Walter era cunhado do craque Nelson Ferreira, o nosso Pixinguinha do Frevo, com quem Valdemar costumava se abraçar com projetos teatrais e musicais. Meu pai, afilhado de Valdemar, costumava cantar quando altinho um frevo triste lindíssimo do tio Vavá que ainda vou gravar antes de partir.

Antônio Maria era primo legítimo do meu avô materno, Petronilo Santa Cruz de Oliveira. Exatamente, a árvore da azeitona oliva cristã nova está nas raízes de ambos os lados. O vô Petro conviveu com o Maria na infância e adolescência na Usina Cachoeira Lisa em Gameleira/PE e nos contava as histórias confessáveis e as de fazer Erika Lust corar. Há várias crônicas deliciosas do Maria no seu recente livro de inéditas Vento Vadio, que ganhei de aniversário da minha bem-amada ano passado, e faço questão de lê-lo devagar com medo de acabar. Maria ficou conhecido pelos sambas-canções, mas escreveu frevos da série “é de fazer chorar”.

As principais referências para Sid e eu foram os frevos do Valdemar de Oliveira, Nelson Ferreira, Antônio Maria e do Edu Lobo, cujo pai, Fernando Lobo, também pernambucano, era amigo-irmão do Maria. Você Está Sozinha, “Carnaval na Lua”, assim chamarei a inédita do tio-vô, Frevo da Saudade, Frevo n.2 , No Cordão da Saideira e Frevo de Itamaracá. Ou seja, nossa onda era um frevo-canção tradiça, porém harmonicamente sofisticado, todavia sem pretensões contemporâneas de temperar com brega-trance, funk melody, música cigana, ou algo do tipo. Nada contra, tá?

A banda Empenha começou a ensaiá-la com orquestração de guitarras, baixo e bateria. Tocamos em alguns shows, porém sabia que não poderia ser gravada assim. Quando Henrique Albino se aproximou da Orquestra Contemporânea de Olinda, dos amigos Tiné e Gilu Amaral, tomei coragem de perguntar se ele toparia compor os arranjos de metais e executá-los. Foi antes da pandemia. O trabalho ficou bem melhor que a encomenda. Espero um dia que a Praia Vermelha lance a guia só dos metais, uma loucura de precisão e técnica. Fico muito feliz que Sarrabulho tenha a assinatura deste que considero um dos mais inventivos metaleiros do país. Ele nos presenteou com um vídeo sobre a canção que começa: “Acordai-vos!..”, tá no nosso Insta.


A gravação da base se deu sob as batutas do nosso produtor Bruno Villar em um estúdio muito aconchegante na Tijuca, o Locomotiva, do educado e dedicado Sidney Sohn. A base clássica do Empenha gravou: Leo Graever na batera, Jorge Esteves no baixo, Zartinho nas guitarras e eu na voz. Bruno Villar fez comigo os vocais.

Considero este frevo minha melhor letra em melodia pronta, e a melhor gravação do Praia Vermelha, por isso a elegemos o nome de nosso primeiro EP. A história da sessão de fotos para a capa deste EP cabe em outra crônica, mas adianto aqui.

Zartinho, o Moisés Nunes, amigo-irmão, diretor musical e proprietário do Praia Vermelha Estúdios S/A me alertou que não poderíamos escolher imagens ao léu no google sobre sarrabulhos no mar e inserir como capa devido aos direitos autorais e coisa e tal. Portanto, em uma mísera fração de horas numa tarde dia de semana, entre trabalho e pegar os meninos na escola, fomos à própria Praia Vermelha com figurinos e uma câmera à prova d'água. Nossa sorte é que naquele mar geralmente flat, havia umas marolas que dariam para encenar, e tomar de verdade!, sarrabulhos. Os banhistas nada entenderam, eu de blusa e camisa social entrando n'água. Insatisfeitos com a sessão, fomos à casa do Zartinho, ali mesmo na av. Pasteur, e onde ficam os estúdios, para tentar de dentro de sua piscina, que estava suja, takes de mim com capacete de moto embaixo d'água. Pensem numa coisa difícil, afundar com capacete numa piscina turva. Acho que a ideia do capacete é porque eu gostava da capa sui generis do Astronauta Tupy, do Pedro Luís e A Parede.

    

Como Sarrabulho foi composto em 2010, obviamente não imaginávamos o retrocesso trash pós 2013 das políticas ambientais e nos sentimos os próprios Orwell e Huxley quando a lançamos em pleno 2022, quando foi registrado na Amazônia, durante o primeiro trimestre, o recorde de desmatamento desde 2016 segundo o Inpe. 2022 também foi o ano do recorde de mortes por enchentes no Brasil. Só na terrível enchente do Recife no último maio foram 128 corpos encontrados, o pior desastre natural pernambucano em 50 anos. A comunidade onde participei de um projeto de extensão na graduação, Bulicomtu, chamada Jardim Monte Verde, no qual apresentava um programa de rádio, Bulicomtu, com meu outro amigo-irmão Izaias Francisco de Souza Jr., comunidade contígua ao Jordão Baixo, onde fiz residência médica de medicina de família e comunidade, pois bem, foi muito destruída pela chuva e eu dedico esta crônica para os familiares sobreviventes, os verdadeiros heróis brasileiros. 

Acordai-vos para as emissões de CO2, para as bandeiras vermelhas na conta de luz, para a economia na vazão de vossas pias. Acordai-vos, senão levantareis com a água no pescoço, nadando na área de serviço para alcançar a boia do menino que ficou ali entretido em cima do móvel da sala vendo a banda passar embaixo d’água. Porque quando vem a enxurrada é que nem o frevo que, segundo Valdemar de Oliveira, não convida a multidão à dança. O frevo simplesmente arrasta.


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Ficha técnica:

melodia e harmonia: Sidnei Dantas

letra: Alfredo de Oliveira Neto

arranjos gerais: Moisés Nunes, Jorge Esteves, Leo Graever e Alfredo de Oliveira Neto

arranjo de sopros: Henrique Albino

produção musical: Bruno Villar e Moisés Nunes

mixagem e masterização: Bruno Villar e Moisés Nunes

gravado no Locomotiva Estúdio (Rio de Janeiro/RJ) e Estúdio Carranca (Recife/PE) em 2018 e 2019

 

Voz: Alfredo de Oliveira Neto

Vocais: Bruno Villar e Alfredo de Oliveira Neto

Guitarra: Moisés Nunes 

Bateria: Leo Graever

Baixo: Jorge Esteves

Sax alto, Sax tenor e Flauta: Henrique Albino

Trombone: Moab Nascimento

Trompete: Jonatas Araújo

Tuba: Alex Santana





quinta-feira, 31 de março de 2022

o conto do canto: Bispo

2013, exposição da Yayoi Kusama no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Sid Dantas e eu lá fomos após um ensaio do Harmonia Enlouquece no Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, localizado no bairro adjacente, na Saúde. Sid é andarilho, mesmo segurando um case de violão, provavelmente fomos a pé.

Vale muito conhecer o CCBB Rio, um dos centros culturais mais bonitos que já fui, o prédio da primeira agência do Banco do Brasil, enorme, inaugurada em 1808. O nome da exposição era Obsessão Infinita, a japonesa Kusama nos atordoou profundamente com a obsessão com esferas, bolas coloridas de tudo que é tamanho e cor. Ela sofria de esquizofrenia e foi submetida a várias internações. Lembro da vertigem que tivemos na saída, selamos que faríamos uma música sobre este universo da arte e loucura, aliás tudo a ver com a banda que Sid havia iniciado em 2001, junto com Kiko Sayão e Hamilton de Jesus Assumpção, na qual eu toco percussão desde 2008.

O Harmonia Enlouquece é uma das maiores expressões da arte e loucura na música brasileira, sou membro e fã. Ainda de pé, #Resistir #Ocupar, com o quarto disco autoral na agulha, possui um histórico de abertura para shows de Gilberto Gil, Maria Bethânia, Luiz Melodia, Tom Zé e outros e outras gigantes da música brasileira, apresentações em vários estados, além de Argentina e Uruguai. Sufoco da Vida virou música de novela. Hamilton de Jesus, compositor e cantor, é um patrimônio nacional, ainda não devidamente reconhecido, mas certamente o será, e espero muitíssimo que em vida.

Sid Dantas é a única pessoa que conheço que fez três graduações, psicologia e duas em música, além de ter especialização em musicoterapia. Foi ele quem primeiro percebeu o talento do Hamilton. Sid é o meu amigo que mais entende de música e que melhor toca, possui uma paciência infinita com a minha imaturidade técnica, mas percebo que acha graça nos meus atrevimentos melódicos.

Da parceria com Sid, já havia saído um baião, Mudânica Superativa, e um samba, Sapo e Perereca, que tem o Hamilton também como parceiro, ambas já gravadas no 3o disco do Harmonia Enlouquece. Portanto, estávamos indo para o nosso terceiro trabalho e o tema estava claro. Fiz uma melodia e letra que seguia por um toré indígena, como se Kusama nos libertasse da prisão do racional e seguíssemos nas correntezas do imprevisível. Daí, acho que foi o Sid quem trouxe a ideia de fazermos algo sobre arte e loucura brasileira e um dos maiores nomes das artes plásticas é o Arthur Bispo do Rosário, quem Sid conheceu quando estagiou no curso de psicologia na Colônia Juliano Moreira, onde o Bispo passou décadas numa cela na ala dos mais perigosos. A melodia e letra que havíamos feito para Kusama combinamos de ser a introdução da música que finalmente se chamou Bispo e só foi lançada oficialmente em janeiro de 2022, porém sem a introdução de Kusama, a qual ainda a ampliaremos em uma nova canção.



Sid mandou para mim a parte A e B do Bispo pronta, e que vinha com os primeiros versos: Dizem que ele vem de Japaratuba / Mas poderia dizer / Apenas apareci, os quais deixei na letra porque trazia o nome de cidade natal do Bispo, em Sergipe, que em tupi quer dizer conjunto de terrenos arenosos. E “apenas apareci” ele costumava dizer quando perguntavam de onde ele veio, a primeira crise dele se deu, inclusive, durante suas aparições em igrejas no Centro do Rio, anunciando-se como Jesus.

Para fazer a letra, assisti ao documentário O Prisioneiro da Passagem, do Hugo Denizart, psicanalista e cineasta, que o entrevista dentro de sua cela. As palavras desengancho, abismo, casa forte e terra arrasada, que estão na canção, eu coletei desse filme. Casa forte não tem a ver com o bairro da classe média recifense, o Bispo diz “a casa forte pertence a Cristo”.


Em um dos inúmeros tecidos que bordava para mantos e estandartes, geralmente há objetos, como bandeirinhas e broches, insígnias referente à Marinha, para a qual ele serviu quando jovem, além de várias frases místico-proféticas, como: “chamo pelas guias, desengancho, tenho ordens”.

O que mais me impactou no filme foi quando ele disse que só fazia aquilo tudo porque as vozes o obrigavam, e que se não o fizesse, no Juízo Final, iria para o inferno e seria castigado, portanto por vontade própria não faria nada daquilo, então acentuei isso em na parte B: Ouço o que devo fazer / Morro pra me apresentar / Quando vão compreender?

Há também uma passagem interessante em que ele relata que vem fazendo um barco para o Juízo Final, algo como o mito do Noé. E o barco é lindo, cheio de bandeirinhas: Se você mandar fazer / Um barco para me salvar / Fico escutando você / Durmo de olhos pro mar.

Ao terminar as letras das partes A e B, achei que precisava da parte C, que deveria extrapolar mais ainda a razão, uma parte em que fosse cantada em coro, delirante, para ajudar a diminuir o abismo do medo e da indiferença entre os ditos normais e anormais.

Lembro exatamente onde fiz a melodia e letra dessa parte, num sofá na sala do apê de Vila Isabel, bairro do coração no qual morei sete anos, estava pronto para ir a um show no Circo Voador, só não lembro qual: Desengancho de tudo isso / Me convenço, perco o juízo.


Eu sempre adorei o nome da praia famosa da Urca, Praia Vermelha, que tem este nome nas barbas da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, de um Clube Militar, do Instituto Militar de Engenharia e de prédios residenciais de militares. Apesar da fissura, nenhum deles pode prender, torturar ou exilar a danada da praia. 

A faculdade de medicina da UFRJ pré-ditadura também era lá, ainda resistem outros campus da UFRJ e um da UniRio, neste inclusive tem o prestigiado e subversivo curso de artes cênicas. Bispo do Rosário chegou a ser internado também no Instituto de Psiquiatria do Brasil, que fica no Campus da Praia Vermelha, como é chamado o da UFRJ. Por isso, usei praia vermelha como uma alucinação visual, pois, para quem não é do Rio e não sabe do nome dessa praia, não deixa de ser um nome delirante. Pelo mesmo motivo nomeamos o nosso atual coletivo musical que gravou o Bispo.


Já o Engenho de Dentro é o bairro do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil, o Pedro II, de 1852, o qual, desde 2004, chama-se Instituto Municipal Nise da Silveira, uma homenagem à gigante da psiquiatria brasileira que revolucionou a saúde mental no país, introduzindo a arteterapia ainda na década de 40. Somente em 2021, a última alta hospitalar foi realizada, encerrando-se assim a larga história manicomial desse sanatório. Inclusive o próprio CCBB Rio, em 2021, hospedou uma excelente exposição sobre a Nise da Silveira e os grandes artistas plásticos que ela ajudou a despertar, como Adelina Gomes, Fernando Diniz, Carlos Pertuis e Emydgio de Barros.

Pois bem, na época da composição eu lia Dom Quixote e adorava como Cervantes usava as palavras engenho e empresa para representar criatividade e empenho para realizar um objetivo, respectivamente. Para um recifense, engenho sempre remete à organização social, política e econômica escravocrata de produção açucareira da época colonial. Então achei libertador este outro significado de engenho, e como o bairro carioca se chama Engenho de Dentro, adicionei o “de mim” para tentar representar o que o inquieto Bispo, que também esteve um tempo internado no Pedro II, sentia tudo aquilo: De ver a praia vermelha / E o engenho de dentro de mim.

Não lembro porque Hamilton de Jesus não quis cantar a música no Harmonia, só sei que não pegou nos ensaios, então levei para a banda Empenha, de médicos de família amigos que trabalhavam no bairro da Penha, e que hoje se chama Praia Vermelha. Tocamos exaustivamente Bispo e Medo Medieval por uns 5 anos até gravarmos em 2017 e 2018. Fizemos um arranjo meio pop jazz do qual gosto muito. Curto particularmente a bateria do Leo Graever, as respostas na guitarra e do solo do Fernando Baiano e a marcação do baixo do Jorge Maravilha.

Na parte instrumental mais jazzística, poderíamos ter gravado algum instrumento de sopro, mas não tivemos cacife, gastamos o nosso tesouro no arranjo e execução brilhantes de Henrique Albino e sua trupe no frevo Sarrabulho, também uma parceria com Sid.

Lembro perfeitamente das gravações de voz e vocais no HR estúdio na Tijuca, de frente para o Centro da Música Carioca Artur da Távola, onde também gravamos toda a percussão de Medo Medieval. Levei meu amigo irmão pernambucano Maneco Baccarelli, o melhor cantor da minha geração, para fazer os vocais, e me arrependo de ele não ter feito a voz. Bruno Villar, nosso produtor, inventou na hora os vocais, com referência Beatles, e gravou junto com Maneco. Eram uns três fraseados diferentes, consegui mal fazer um. Assim como no Medo Medieval, forço a voz, não gosto, principalmente do final quando tento oitavar “Vermeeeelha”, prefiro minhas gravações de Ágatha e Sarrabulho. No entanto, gosto muito da música Bispo, tem um compasso ternário que me lembra balcão de bar, tipo cena de comercial, amigos sentados caneca de chopp na mão, abraçados numa dancinha valseada de um lado pro outro.


Recomendo o longa nacional O Senhor do Labirinto, sobre a história do Bispo do Rosário, com uma interpretação louvável de Flávio Bauraqui fazendo o protagonista, adoraria se um dia a música chegasse aos ouvidos de toda a galera que fez esse filme.

Assim como Kusama e Hamilton de Jesus, Bispo do Rosário enfrentou suas mais aterrorizantes angústias utilizando a produção artística como elemento organizador da sua existência. E não tem nada mais subversivo do que resistir de dentro de uma cela manicomial, o cenário de exclusão mais lobotomizante que há, exercendo o ato mais potente e transformador da humanidade, a criação, mesmo sendo obrigado por uma voz, mesmo não tendo consciência explícita disso. Ele simplesmente bordava o seu próprio universo e, no seu abismo, era um rei.





Bispo (Sidnei Dantas / Tufa)


Dizem que ele vem de Japaratuba

         

Mas poderia dizer


apenas apareci


Borda seu universo de cada traço


Que segue a risca do céu


No seu abismo era rei



Se você mandar fazer


Um barco para me salvar


Fico escutando você


Durmo de olhos pro mar



Borda um manto verde de mangas

Longas


Com bandeirinhas de cor


São parecidas


Broche de almirante, casa caiada


Da nossa federação


Terra arrasada


Ouço o que devo fazer


Morro pra me apresentar


Quando vão compreender


Solto o estandarte no ar



Desengancho de tudo isso


Me convenço, perco o juízo


De ver a Praia Vermelha


E o Engenho de Dentro de mim



  



 créditos:


melodia e letra: Sidnei Dantas e Alfredo de Oliveira Neto (Tufa)

arranjo: banda Empenha

produção musical: Bruno Villar


gravação:

guitarra solo: Fernando Pedroso (Baiano)

guitarra base: Moisés Nunes (Zartinho)

bateria: Leo Graever

baixo: Jorge Esteves (Jorge Maravilha)

vocais: Maneco Baccarelli, Bruno Villar e Tufa

voz: Tufa


gravado entre 2017 e 2018 nos estúdios Overloud, no bairro de Vila Isabel, e HR, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro.



Youtube


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Deezer


  

 



 


segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

o conto do canto: Ágatha


2019 já começou estranho para as favelas do Rio de Janeiro. Na disputa das eleições de 2018, o candidato que prometia “atirar na cabecinha” foi eleito. Desde 2014, o pacto entre facções e Estado, ocorrido para pacificar os grandes eventos da Copa e Olimpíadas, já havia caducado. Portanto, em 2019 inevitavelmente esperávamos uma evolução para a gravidade.

Na unidade de saúde da família em que trabalhava semanalmente no Complexo do Alemão como professor, Clínica da Família Zilda Arns, o clima desde janeiro de 2019 começou a ficar carregado, as visitas domiciliares, realizadas pelos profissionais das equipes, estavam canceladas, relatos do aumento da frequência dos confrontos policiais se avolumavam, e até o ir e vir no asfalto em horário comercial estava tenso, no morro então, insuportável. Batidas diárias da polícia antes das 6h, justamente quando trabalhadores e crianças estão na rua a caminho da labuta e da escola.

A sensação era a mesma de quando o vento para em um dia completamente cinza, à espera da primeira gota do temporal. O toró se anunciava.

Despencou em setembro quando a menina de 8 anos, Ágatha Félix, foi assassinada pela polícia dentro de uma van, acompanhada do avô.

Ao chegar à Zilda Arns na semana posterior à tragédia, nunca senti tanto peso nos ombros, os profissionais e as pessoas ali esperando atendimento, mesmo sem falar nada a respeito, estavam no mesmo velório. As feições, os olhares, o modo de falar, o trabalho no piloto automático.

Na supervisão dos estudantes de medicina da UFRJ, não conseguimos progredir. Foi lido o diário semanal do aluno Matheus Nolasco, que terminava assim: "na chuva dessa cidade tem sangue de criança preta". A cidade estava em prantos, a gente também. Juntamo-nos com um projeto de reunia vários cursos da UFRJ, o PET-Saúde, e decidimos iniciar a partir dali uma ocupação, Ocupação da Saúde pela Paz no Alemão, chamamos todos os movimentos sociais que tínhamos contato: Oca dos Curumins (capoeira), Abraço Campeão (lutas marciais), Na Ponta dos Pés (balé), Educap (educação e serviço social), Estação Skate (skate), Slam Lage (poesia) e Voz das Comunidades (comunicação). Todos estavam no mesmo velório. Os relatos dos que viviam lá eram arrebatadores, nós do asfalto, mesmo trabalhando lá, não sabemos absolutamente nada do que acontece quando o sol se põe.

O Ocupa foi o movimento mais potente que já vi em 13 anos como médico de família e comunidade. No intervalo de uma semana, produzimos o primeiro evento gigantesco voltado para as crianças do Alemão dentro da unidade. Toda a produção por zap, oficinas de música, pintura, teve até oficina de sonho, brotaram pula pula, pipoqueiro, um batalhão de voluntários, levei meus filhos e minha companheira entrou no movimento.



Pelos relatos, as crianças estavam em transtorno de estresse pós-traumático, não queriam sair de casa, entrar em vans, o discurso monotônico sobre a morte, a pergunta repetida: quando e como vou morrer? E por isso escolhemos esse público-alvo para o primeiro evento. 260 crianças estavam presentes. #ÁgathaPresente 

A filha de uma das participantes do Ocupa era amiga da Ágatha, haviam brincado juntas dias antes da tragédia. Descobri que uma amiga minha, a sanitarista Thaís Severino, era colega de trabalho da mãe da Ágatha, Vanessa. Assisti a uma Live no final de 2019 em que ela e outras mães que perderam filhos por tiroteio contavam suas histórias. Eu era só choro e enviava comentários: lindaaa!!!, maravilhooosaaa!!!!!!, tipos de comentários que não têm nada a ver comigo, não costumo multiplicar letras nem muito menos exclamações. Uma das discussões era sobre a tentativa da polícia em resgatar os projéteis no IML para se livrarem do flagrante, e a enorme contribuição de profissionais da Defensoria Pública durante todo o processo. Estava transtornado, e quando isso acontece geralmente me recolho para escrever, ou balbuciar alguma melodia triste.

Verão de 2020, estava na praia, e não saía da cabeça a imagem de Ágatha, fortemente repercutida na mídia, ela sorrindo, fofa, segurando um balão amarelo. Há um livro do qual meus filhos gostam, Gildo, em que um elefante não tem medo de quase nada, vê filme de terror, pula do trampolim mais alto da piscina, sobe num palco, canta e toca guitarra, embarca numa montanha russa e abre os braços na descida. No entanto, ele guarda para si um tipo de medo específico, meio tolo, que é do barulho do estouro de balões de festa, ele se apavora na véspera de festa de aniversário de amigos, pois inevitavelmente ouvirá estouros. No dia da festa, ele se esconde embaixo da mesa após o parabéns, mãos tampando os ouvidos.

Vieram os primeiros versos já com a melodia, “eu vou furar meu balão amarelo / acabou o brinquedo / ninguém fica mais velho”, a ciranda chegou dias depois.

A ideia desde o início era uma melodia no trecho da ciranda, para as crianças, e uma outra, mais intimista, para os adultos. À medida em que fui mexendo, fui incorporando as referências do Alemão, Curumins e Ponta dos Pés, capoeira e balé que ela mesma praticava, e Fazendinha, a microrregião na qual morava, inclusive o nome de uma das equipes de saúde da Zilda.

Levei o rascunho da música numa quinta feira em brasas da semana pré-carnavalesca de 2020 à casa do Zartinho (Moisés Nunes) e a terminamos, com harmonia e tudo.

Como o tema é de total delicadeza, mostrei uma gravação de celular que fizemos nesse dia para Thaís e ela mostrou à Vanessa, que se emocionou, gostou e eu entrei no carnaval, sem saber que seria nosso último, de alma lavada.

Pandemia. Em maio de 2020, a polícia mata mais de 15 jovens no Alemão e os moradores quebram a quarentena para resgatar os corpos nas ruas. Sangue nos olhos, entro na madrugada para escrever alguma coisa http://riocife.blogspot.com/2020/05/pandemo.html e fico na certeza de que a música precisava ser gravada.

Diante da dimensão do desastre, seria natural nos afastarmos, fugir para não sofrer, mas a atitude da Vanessa e de outras mães na mesma situação, empurrou-nos para encarar a monstruosidade master. Ágatha não foi a única no ano de 2019. Em 2020, pandemia plena, 12 crianças foram mortas por balas nas favelas e periferias do Rio.

Começamos a produção a passos lentos, pensamos no piano de Rodrigo Alzuguir e na percussão de Geiza Carvalho, que tocou grande parte da percussão de Medo Medieval,  mas não conseguimos viabilizar com a loucura que foi aquele primeiro ano pandêmico. Aproveitamos um baterista, amigo de colégio do Zartinho, Felipe Fire, que ingenuamente foi levar sua criança para conhecer os rebentos do brother. A bateria por acaso já estava montada no home studio do 1o andar, e aí, topa? Foram 2 takes, e como o primeiro geralmente é o valendo sem ser, foi o que ficou. A cama foi forrada pelo piano e 7 cordas de Zartinho nos contrapontos, ao ponto. A ideia na estrofe era justamente frasear respondendo um verso e logo em seguida preparar para o próximo como na viola de 10 do repente nordestino.

Adelson Jantsch, o Delsinho, é médico, mas titubeou quando marcou ainda com caneta a opção de curso na UFPR, estudou violão clássico e toca de tudo. Trabalhamos juntos no bairro da Penha, na hora do almoço ele fazia questão de tirar um violoncelo do carro para treinar na Arena Carioca Dicró, um ótimo centro cultural que nem sei se ainda funciona e para onde íamos comer um pf na nossa escassa uma hora de almoço. Foi guitarrista do Empenha, nossa banda de médicos de família e comunidade que trabalhavam na Penha e arredores. Depois, por um tempo, costumava levar seu clarinete preto bonito para as nossas sociais. Estávamos juntos, fantasiados e suados no final de um dia de carnaval tbt, quando fomos assaltados por uma peixeira enorme, Delsinho havia saído de um bloco no qual tocara com o clarinete, levaram o dito cujo com case e tudo. Comprou outro, e foi neste que ele soprou os fraseados e o solo que preenchem a canção. No assalto, fui o único que não sofreu avarias, pois estava devidamente fantasiado com top e saia longa, os meus pertences estavam numa bolsinha perto da cueca. Levantei os braços, só viram o suvaco cabeludo.

Matias Salina é um argentino de Rosário super bem-humorado que abrilhantou recentemente o Harmonia Enlouquece, banda na qual toco percussão e que me serve como psicoterapia sem eles saberem há 13 anos, o timbre do bandoneón é inconfundível, fecho os olhos para ouvi-lo nos ensaios.

Numa tarde ele foi gravar para uma faixa do Harmonia no estúdio de Zartinho e Bruno Villar e de novo rolou: poderia estar roubando, mas estou só pedindo clemência para você ouvir isto aqui e, quem sabe, colocar este timbre de Piazzolla para perfumar de jasmim alguns compassos. E assim foi. ¡Gracias! Na foto ele apareceu com o nosso queridíssimo Kiko, violonista e um dos fundadores do Harmonia.

Reservo este final para os vocais de Thuane de Oliveira e Thayllane de Souza, jovens lindas e talentosas do Alemão. Desde o início da produção fiquei encabulado de cantar sozinho a música sendo homem branco cis nordestino que mora na Gávea. Pedi à nossa parceira e líder comunitária, Lúcia Cabral, indicações de vozes femininas do Alemão e ela me enviou o contato delas. A primeira demo que nos enviaram era solar, brincando com a melodia com ginga meio gospel funk, adoramos.


A presença delas foi essencial para a minha segurança em manter o leme na voz. Valeuzíssimo, meninas!



Teve um fato que só compartilhei com o Zartinho. A música foi lançada nos tocadores em 26 de novembro de 2021. Às 8h43m deste dia a enviei para Vanessa, mãe da Agatha. Antes, no dia 22, havia retornado o contato para lhe dizer que finalmente teríamos o lançamento naquela sexta, e ela deu a maior força. Pois bem, ela só respondeu meu zap no dia do lançamento às 17h10. Neste dia, atendi na Clínica da Família Helena Besserman Vianna, no Rio das Pedras, Jacarepaguá, em meio à epidemia de influenza, bombando, minha enfermeira preferida, Danielle Conceição, de férias, ou seja, a ansiedade que tive pela ausência da resposta de Vanessa foi infinitamente maior do que a de dezenas de atendimento que realizei exaurido até a última gota.

A sua resposta no zap foi daquelas imagens de trevos da sorte, o suficiente para sextar, no entanto sextei e lido com essa música até hoje com a sensação de que preciso e precisamos fazer mais, se existe mote para se mobilizar politicamente no Rio, as mortes de crianças por balas perdidas-encontradas é indiscutivelmente um dos maiores. Ter gente que ganha dinheiro com a invenção desta guerra, dos dois lados, que na real é de um lado só para quem não vive no morro, é a face mais sórdida deste espetáculo medíocre, do qual só pode ter os holofotes destruídos pelas marias, mahins, marielles, ágathas e, principalmente, por nós mesmos.


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playlist Ágatha

matéria do The Guardian


ps: em março de 22 o Ocupa vai produzir um evento de música e poesia na Praça da Vivi, no Alemão, o Praia Vermelha deve tocar lá, apareçam e participem do coletivo. a princípio será dia 12/3, sábado, a partir das 14h. informaremos nas nossas redes.



Ágatha

(Tufa e Moisés Nunes)


 C7/9                 Eø  A7               Am7       C7/G

eu vou fu- rar        meu balão ama- relo

                          D/F#      Fm6

acabou o brin-quedo

                              C

ninguém fica mais velho (2x)


                     G                           C

me esparramar nas ruas sem fuzis

                       G                       C  C7

quem for de lá pode chegar aqui

               F                            C

amanhecer e somente ouvir

             G                                 C

o rouxinol, pardal e bem-te-vi


   C    Bb7                                 Am     C7/G

aqui           o Alemão tem cor preta

                                   D/F#   Fm6

e o senhor não se es-queça

                              C

suas mãos, minha dor

   C    Bb7                                 Am     C7/G

aqui           o Alemão tem cor preta

                                  D/F#    Fm6

nem que tudo se in-verta

                             C

vou cantar minha cor


                  G                                  C

quero dançar na ponta dos meus pés

                  G                               C      C7

vou me jogar nos curumins convés

                  F                    C

na Fazendinha vou cavalgar

              G

na amarelinha

                           C

pular do céu no mar

       

  


créditos:


voz: Tufa

vocais: Thayllane de Souza e Thuane de Oliveira

violão de 7 cordas e piano: Moisés Nunes

bateria: Felipe Fire

clarinete: Adelson Jantsch

bandoneón: Matias Salina

produção musical: Bruno Villar e Moisés Nunes

gravação, mixagem e masterização: Bruno Villar e Moisés Nunes

gravada entre 2020 e 2021 no estúdio Praia Vermelha (Urca, Rio de Janeiro)