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sábado, 14 de março de 2026

as meninas de Minab

Hoje na aula não falaremos como ocorre a destilação fracionada do óleo cru e seus pontos de ebulição

o gás deixou de ser natural há muito tempo

Nem como Ciro aglutinou os povos e fundou a Pérsia


nem que a Pérsia foi o nome dado pelos europeus


Não falaremos de Alexandre, que nem era tão grande


Nem das exportações de  romã, damascos e pistaches


A geografia das montanhas de Zagros ficará para depois


Como já estudamos nossa biotecnologia, as cadeias moleculares dos hidrocarbonetos não serão cobradas na prova


Não teremos mais provas


- Silêncio! - pede a professora depois de um alvoroço criado por esta notícia.


Por fim, a mostra de cinema de Kiarostami e Panahi precisará ser cancelada


Indefinidamente


Uma menina pergunta:


- Professora, e o hijab? - aquele véu que esconde o rosto. A professora responde:


- Está ouvindo este barulho chegando? Podem tirar, a partir de agora o mundo todo vai usá-lo.


sexta-feira, 30 de maio de 2025

sonhos e arpões

para Sebastião Salgado e Miró da Muribeca

O cara do biscoito no sinal
amolece a patricinha doce
que dirige um porshe
ela faz coraçãozinho
o laranja acende a janela
ela e o porshe
Jorge era o cara do biscoito

A amargura em pessoa devora
com sinceridade e angústia um sonho
escorre água salgada no rosto do arpoador                  
um sonho é devorado em frente ao mar
armagura em doce de leite
lágrima flor de sal

A brisa resseca meu sorriso de infância
é só um sonho que me resta
quem tem um barco? uma chuva que me aqueça?
tem muita graça nesta prancha do Seixas

O divino sorriso preto da Jamaica
em Hackney

Nesta bolsa da moça imersa em sobriedade
a resistência hippie chilena
sexo pictórico
células de um tecido abstrato
estriadas, eriçadas
tinta tesão

Beijo a pinacoteca inteira

Menina grande com dedo na boca
volto pro colo, me encolho
cadeira de rodas gira o coração em memórias
e o pôr do sol senta na cadeira
vislumbra sem rodas os olhinhos de orvalho

Embasbacados é o nome da música
que venderei no atacado
A bossa do samba é o funk do bamba

Os Dois Irmãos gostam é de sossego
brincam no play da orla
juntinhos no cobertor de folhas

O piano do Tom embaraça os cabelos da menina
a natureza grande faz a gente se sentir miúdo
e bonito
aperto os olhos pra ver se Deus tá vendo

Vem sem medo contra um vento sudeste
a oeste de quem tem saudade
repete o mantra
olho marejado não tem idade
Marujo! É por ali o leme do teu norte!

A proa divide vento, ressoa os dados da sorte
na poupa só músculo
estriado cardíaco
coração de poupa
no final, água só
Carbono e nitrogênio
náufragos
o ovo aberto no verão

Tudo será elemento
Re li ga re
um instantâneo sem Insta
nunca mais insista
em aterrar
o que não tem mais jeito

A música salva
até em lua nova
Afro Roda
Fela fala, follows
felow feelings
Coreana, baixo, baixo, baixo
Calote de Volks
gira please percussão PIX it

Acordou saxofone, dormiu trombone
Mengo a caminho da Gávea
e o Vidiga?
pisca, pisca, pisca

Sextou na cesta
e ninguém deixa a fumaça cair
o vento espanta o medo abafado
rouba o trono da primavera

Uma gota aqui uma louca lá
e a fumaça se afasta
apesar da brasa teimar acesa

À tardinha, o Rio tem sede
correnteza de drinks
a terceira margem do chopp
li que Demi Moore topou
um remake de Ghost

De braços abertos chega uma saudade
Capiba no leito arterial
é tudo Recife
de que importa se a aorta tem cacife?

Saturno é um véio sábio ranzinza
e mandinga é palavra gostosa d'África

Os Dois Irmãos vivem de abraço
mesmo na briga uma luz escorre da barriga
e acende o mar

Do lado de lá, uma mensagem de zap te espreita
se esconde atrás do poste
tacape no post!
fight pós night

pode ser nice uma vida sem bright

Um rasante fim de tarde de um pombo botafogo joga uma tinta no azul distraído
lá na Quinta a gente se vê
e se cumprimenta no pé do ouvido

O sol não sabe qual é a praia
nunca ouviu falar de Ipanema, Garapuá, Boa Viagem ou Tamandaré
da menina com tatuagem no peito que passeia de bike elétrica
da prancha que tem apenas um astrodeck e o resto parafina
nunca soube como é bonito o beijo que ele próprio assinou
direção e iluminação
que se não fosse por ele
o carbono não teria paquerado com o nitrogênio
e a cor seria para sempre triste
não há samba e frevo sem ele

Mas hoje
ele tomou ciência
algum meteorito já cantou a pedra
a beleza estalando em cada grão
pele pedrinhas espuma
no riso de graça
graças a ele, o olho no olho não cegará
a esperança
de uma dia a gente se encontrar

se espreguiça yoga
e faz um carinho quente no Vidigal

Brisa atrasada de outono
dizem verão
mas pincelaram o mar cor de chumbo
as ondas ocuparam em protesto a nossa atenção
Inventa algum cartaz, o coro no repeat
alguma dose que esquente o nosso medo de amar
é só silabar que a melodia chega

Cobre os pés pra fora da canga
do casal que não queria dormir na areia
mas uma fragata me peitou ventania
engata ilha, me canta o segredo
incendeia

Nós frio laço cria
cutuca bala
pix tio
é Rio
bagaço
uruca
pedala
insiste
partiu

sábado, 16 de maio de 2020

pan demo

nunca me instalaria no meio do caos
dessaturando a utopia
mas eis que preciso lavar uma pia
e estender a roupa amassada
de toda uma geração
enclausurada

o pão não é nosso
e a cada dia
endurece mais o meu encantamento

chega de rimas
saudade já foi coroada

mas arrebento
e em cima desta pedra cansada
me destroço na cidade vazia

pandemia
amanhece cristalino
de um azul-desgosto
anoitece vidro-fosco

de que vale esta tempestade de citocina?
a quarentena, todas as posturas de Yoga
o relatório do FMI
Estados Unidos e China
as modalidades psicoterápicas do enfrentamento
as lives de Paul McCartney, Rolling Stones
e Ludmilla?
de que valem os tacanhos da cloroquina
e do anti-isolamento?

se hoje
no Morro do Alemão
a aurora se pintou de sangue e tinta preta

e que ninguém se esqueça
da menina do balão amarelo
se rodopia, acaba o brinquedo
ninguém fica mais velho

e ela ria, ria, ria


pandemia



Alfredo de Oliveira Neto


terça-feira, 3 de maio de 2016

nascido

Palavra rebenta quando quer. Nasce tanto em lençol de guardanapo, quanto num berço de papel esquecido.

Palavra que transborda gofa letra, sai se derramando em frases.

Não quero buscar dados em bancos, nem ajustar o método à pergunta. Não vejo sentido em traçar argumentativos caminhos de ida rumo a mim mesmo. Não tenho pretensão em pôr gravatas em pingos do i.

Prefiro acreditar que papel em branco é terreiro sagrado guiado por todas as incertezas de um universo que acaba de ser parido.

Possuo um único objeto direto: amar. Sou um dogmático escancarado a seu dispor, nego-me veementemente a ser argüido nesse ponto. Questionar meu deus dissílabo seria o velamento. O último a-deus.

E nunca fui de apostar na pirraça da maldade.
Corram para amar, ou melhor, parem e amem. amém. E que assim seja.




planejamento

penso
tenho tesão
ajo

tenho tesão
ajo
não penso

ajo sem tesão
não penso

penso sem tesão
não ajo

tenho tesão 
ajo ajo ajo
não penso

não tenho tesão
penso penso penso
ajo




sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

o grande canal

a divina marquesa da ponte me conquista

enche de esperança  meu asfalto

muita gente atravessa

cabelo branco, boina, guarda chuva de amanhã

pouca gente fica sob um arco gótico e desmitifica todo
 renascimento veneziano

touca

um telefone rouco de um italiano seco no meio do tudo molhado

barroca é uma igreja longe manchada de fog

a divina marquesa da ponte me conquista

sorri gioconda e sua gargalhada faz marolas nas escadas do cais

molha meus pés descalços

cade minhas botas de borracha?

tem uma viela no meu olho de água estreita

reflete pedra de peso medieval

a quantos graus da proa a gondola girará?

espreita

o vaporetto torto numa ré sobre o porto

Mercato

Veneza comprou a seda da China

e a divina marquesa me ensina

que cada ponte me leva a Rialto


domingo, 24 de agosto de 2014

febre por dentro

                                  para Júlia Rocha

quando Celsius beija o Farenheit do meu desejo

me sinto inteiro, quente, maneiro

38 é quase minha idade e por maturidade

minha velhice vira bebê

me sinto prenho e mantenho uma chama

de delícia nas minhas entranhas

nada do que é pouco me sacia

e nunca saberia que

grau tem a ver com quentura

39 ou 40

pra mim é par de sapato

porque tudo o que me esquenta é doçura

e nem você de cima do seu salto

e do seu sentimento

perceberá de leve que agora

o nada que eu sinto por fora

vem da febre de tudo que eu sinto por dentro

quarta-feira, 18 de junho de 2014

crédito cardíaco


nunca fui tão debitado pela sua paixão
sua ganância de me querer à vista
essa generosidade de não cobrar juros
do beijo meu
sempre me fez economizar afetos

num planejamento concreto
do que vai ser a longo prazo
me penalizo do risco
de sempre investir no acaso
não sei se no fundo dos meus investimentos
nisso tudo
 a bolsa que eu trago
de importante se descostura
e deixa cair a crise
sobre a qual assinamos concordata

sinto uma palpitação chata
que taquicardiza essa figura
chamada meu coração
rogo para que o déficit coronariano
cicatrize
e no superávit da minha ilusão
você volte para os braços da usura
e que o nosso produto interno seja bruto
uma tremenda exportação de prazeres
e tudo que for importado seja sem tributo
vinho, queijo, pão

e este ar que me falta?
essa inflação de O2, de nós dois
essa economia de dizeres
que me ama
tudo isso interroga a pressão
dos meus investidores arteriais

não serão os meus ais
que penalizarão o nosso ato

mas se o meu débito for perdoado
um largo crédito cardíaco
será dilatado sem juros
cá dentro do peito
e tudo que me é de direito
será socializado
 e o nosso amor será considerado
estado

terça-feira, 19 de março de 2013

a mulher e o girassol

ela poderia andar numa laje da Vila Cruzeiro
numa miragem no deserto de Israel
prestes a cair num bueiro de uma avenida
beira-mar qualquer

poderia ser minha tia, uma querida
mesmo sem ser querida
ser a covardia de enganar
alguém com uma flor
ser a própria alegria
a cotovia daquele poema

ela deveria voar
alguns quilômetros de azul
ultrapassar o teto do dia-a-dia
sua flor virar ventilador
motor de lanche
turbina de ônibus espacial
qual o quê?

ela saiu do metrô abraçada à flor
passo a passo de cuidado
e a flor girassol acenou:
amarelou, amarelou

domingo, 21 de outubro de 2012

O amor no meio de todos os queijos



Pra Lulu e
Ibrahim Ferrer

à espera de um talharim à 4 queijos
o amor no meio de todos os queijos
tentando nadar
de peito mussarela
um crau roquefort
um reino de costas
uma borboleta gorgonzola

uma piscina cheia de azul
no cinza do Malecón
na câmera lenta da saudade
me sinto seco
mesmo mergulhado em você

yo nunca me olvidaré
dos fins de tarde
do nosso começo
mormaço que ninava
nossa vontade de deitar
e do sol
que nos pintava de vermelho

segunda-feira, 23 de julho de 2012

mingo

entre a fumaça da chaminé de um navio

e a fumaça brasa da carne

existe um domingo, uma baía de delícias

e Angenor Cartola regendo marolas


tive sim vários domingos

fumaças de domingos com toalhas floridas

à sombra do tamarineiro

"a sorrir eu pretendo levar a vida"

mesmo quando as pedras não pareciam se acostumar

com a brasa

churrasco de pedra

que se esfriava

com a alvorada


morro de beleza entre fumaças que me brasam

nas cinzas do que eu sinto

na fogueira inevitável da memória

que ainda arde



22 de julho de 12
linda tarde de inverno
maracangalha das motos
aterro do flamengo