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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Febre e paixão


Entrei na faculdade para ser cirurgião, adorava os desenhos de Andreas Vesalius e a personagem do Dr. Benton, do Plantão Médico, que conseguia trabalhar sob pressão, como se protagonizasse qualquer última cena de filme de herói. Curtia gazear aula e ir à biblioteca e seu silêncio no Centro de Ciências da Saúde, da minha amada Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para folhear As Bases das Técnicas Cirúrgicas e Anestésicas.

Desisti da vida de bloco assim que entrei como estagiário da Sala de Trauma do Hospital da Restauração e vi os modos com que um R1 de cirurgia era tratado pelo seu preceptor e, com maior gravidade, como essas equipes lidavam com os pacientes. Nunca pensei em carreira militar. A hipótese de ser recruta após a graduação e me expor a relações tóxicas nas décadas seguintes me brocharam.

Pensei na cardiologia e suas subespecialidades intervencionistas, tipo hemodinâmica, e marquei presença nas sessões clínicas do Serviço de Cardiologia.

Costumava me sentar no fundão e me deliciar com os casos complexos de cardiopatias diversas. Um dia percebi que havia dois gringos ao meu lado, mais velhos e cascudos. Ao término de um caso sobre cardiopatia reumática, a dúvida pairava sobre a indicação da prótese valvar, se mecânica ou biológica, pois os dados nos levavam à fronteira da conduta. Após a discussão, perguntaram aos gringos, professores cubanos velhos e cascudos. No podemos hablar del caso, pues en Cuba no hay fiebre reumática. Vupt! Por que?, voando para cima deles, frequento o maior ambulatório de febre reumática do Nordeste. Porque en Cuba la gente tiene acceso a médicos y antibióticos. Corei. Saí da sala não encontrando sentido na beleza clínica da sessão.

“Vai pra Cuba!” de 2013 me soou antiquado. Em 2004, no 5o ano, parti para Havana graças ao Núcleo Brasil Cuba da Diretoria Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, viagem que deu um ziguirau na minha vida até hoje.

Fui da turma 108 da UFPE, a última do currículo velho, apenas um ano de internato e zero sobre Atenção Primária à Saúde (APS). Ao final do 5o ano nem sabia que Medicina de Família e Comunidade (MFC) existia. 

Nós, estudantes de medicina brasileiros, boquiabertos com o número de equipes, a cobertura populacional, a relação dos médicos com o território, a comunicação entre níveis assistenciais e, sobretudo, com a vida pulsante e musical de Havana. Gravamos 10h de vídeo com câmera profissional da UFPE, apelidada de La Poderosa, inúmeras entrevistas, incluindo Aleida Guevara, filha do Che, pediatra em um hospital de cardiopediatria. Um dia produzirei este documentário.

Voltamos com metas palpáveis de se fazer uma revolução socialista no Brasil, mas nos contentamos em iniciar um movimento para emplacar a primeira residência multiprofissional na APS em Pernambuco. A inesquecível Liu Leal, minha contemporânea na universidade, pertencia ao grupo. Como havia um edital nacional aberto para estimular o aparecimento de novos programas de residências em Medicina de Família e Comunidade (PRMFC), saímos do coletivo e escrevemos o projeto do primeiro PRMFC de Pernambuco, ligada à UFPE. Isso mesmo, em 2005 internos escreveram o projeto de uma PRMFC.

Não satisfeitos com a ousadia, além do estágio optativo, inventamos mais dois, cada um com 30 dias de duração: o estágio integrativo, onde rodávamos em um serviço do SUS recifense que ofertava apenas práticas integrativas: acupuntura, homeopatia, fitoterapia etc; e o estágio estratégico, no assentamento do MST em Gameleira/PE, uma zona de conflito. O objetivo era iniciar a territorialização, abordagem comunitária, atendimentos e visitas domiciliares. Uma das maiores experiências da minha vida, passava a semana no assentamento e voltava para a capital aos fins de semana, sentindo-me num livro de Sebastião Salgado. A residência multiprofissional aconteceria uns 3 anos depois. Liu viveu para ver.

Para além dos estágios, montamos um eixo de iniciação à docência no R1, sob supervisão de uma pedagoga, Regina, construímos ementa, preparávamos e produzíamos aulas teóricas e práticas e construíamos as avaliações da recente disciplina Fundamentos da Atenção Básica 1 para o 3o período de medicina. Em outras palavras, R1s tocavam uma disciplina da graduação. Não por acaso a maioria dos egressos desta primeira turma virou professor.

Quando falo “nós”, Izaias de Souza Jr., Vitor Hugo Lima Barreto, Júlio Lins e eu, um grupo ligado ao movimento estudantil e, principalmente, aos projetos de extensão Bulicomtu e O Caminho. O professor Oscar Coutinho e o recém egresso do PRMFC do Murialdo (RS), Rodrigo Cariri, nosso mestre dos magos veterano querido, encabeçaram a coordenação. Tornamo-nos R1s e, ao mesmo tempo, co-coordenadores. Era inimaginável, um retorno à década de 70 quando as primeiras residências brotaram no Brasil. Toneladas nos ombros.

Apesar de toda a insegurança de egresso e de R1s nessas condições, apesar de a maioria dos preceptores locais não ter título de MFC, não podíamos abandonar o barco e nos preparar para uma outra residência. As outras gozavam de um serviço experiente e formado, cronogramas já estabelecidos, onde residentes não precisavam articular com ninguém para garantir os estágios, prezar pela qualidade da carga teórica e nem prestar relatórios à Coreme.

A sensação era a de que a inserção de uma nova especialidade na medicina pernambucana dependia apenas da gente. Em parte era verdade, mas de outra, esta sensação guardaria um sentimento coletivo destruidor entre MFCs, que falarei mais adiante, a síndrome de super-homem.

Decidimos morar juntos, iniciando uma república, A Casa dos Macacos, cuja história contamos melhor em um livro homônimo. Aos trancos e barrancos, terminamos a 1a turma. Foi tão intenso que ao final do R2 migrei para o Rio, onde moro até hoje, e passei 2 anos fazendo mestrado e trabalhando em plantões de emergência sem querer saber de APS.

Voltei à MFC em 2010 em Niterói, ano de uma terrível enchente que conto no blog Riocife. Em 2011 assumi uma equipe como primeiro médico na Penha, Clínica da Família Felippe Cardoso, no início da reforma da APS no Rio e fui preceptor da 1a turma da PRMFC da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (PRMFC-Rio) em 2012. Para encurtar, passei 6 anos como preceptor, PRMFC-Rio e PRMFC da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fui professor de APS na UERJ por 5 anos e desde 2018 sou professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tive a imprescindível experiência de ser médico de equipe sem PRMFC, 20h por semana, de 2016 a 2024. Desde que ingressei na APS do Rio, passei por 9 unidades, sentia-me um Vinicius de Moraes da APS. Anti-longitudinalidade, mas fiel às paixões. 


Da sessão de cardiologia na UFPE até  eu assumir como preceptor de residência, a resposta ao “Por que MFC?” tinha mais a ver com um sentimento de missão, afinal era o que o SUS mais precisava, a taxa de cobertura naquela época era vergonhosa para um sistema universal de dimensões brasileiras. Também havia uma ideia de retribuição por ter cursado seis anos de universidade pública. A sensação de poder trabalhar alguns turnos da semana em visitas domiciliares e, sobretudo, montando grupos com a população, que poderiam ser de tabagismo a teatro, calcados na educação popular em saúde. Um atrativo gigante para um jovem que sempre quis conciliar medicina e arte.

No entanto, inexistia até então um encantamento pela clínica em si e pelo oceano das habilidades de comunicação, pois todo este universo era praticamente ignorado. A cirurgia ambulatorial é possível! Não há nada melhor do que residentes e internos indentando-nos os calcanhares, empurrando-nos a melhorar nosso tempo de maratona.

A partir daí, o tesão se concentrou na qualidade da consulta. Como proporcionar uma consulta e seguimento para usuários do SUS com uma qualidade superior do que muitos privados? O objetivo seria impressionar aquela pessoa já amplamente castigada não só pelo setor público de saúde, mas por todos os outros.

Retirando-se os 2 anos que passei fora da APS, já se vão 16 e uma aposta na docência atrelada à assistência, o medo do encastelamento acadêmico e, ao mesmo tempo, da roda viva dos serviços sem respiros para o necessário afastamento reflexivo. Em contrapartida, a pergunta “Por que continuar MFC?” rodopia o divã e vem me paralisando na encruzilhada.

A forma canhestra como reproduzimos um modelo de acesso da saúde privada californiana do final do século XX, e já criticado em vários cenários, em morros cariocas e periferias urbanas vem promovendo um descontentamento coletivo, uma alta rotatividade de profissionais e, o pior, adoecendo multidões.

O horror que tínhamos da velha agenda programática engessada nos aproximou de soluções utópicas para a nossa realidade, os erros de vieses na implementação são catastróficos. Uma população completamente diferente, equipes supersaturadas e nenhuma adequação entre oferta e demanda transformaram o acesso avançado no monstro do acesso arrombado. A gestão bate palma para os números.

E aqui retorno à síndrome de super-homem. O que mais me aflige é que a hipomania, regente dos chegados a esta especialidade, ajudou-nos a naturalizar, quase como um valor cultural. A tentativa de organizar o acesso soa quase como um cancelamento.

Não preciso repetir o quão insuportável é atender aquela imensa complexidade em tão pouco tempo, sem contar o excesso digital competindo com os minutos da consulta: prontuário à manivela, exames e suas impressões e registros, solicitação de exames e consultas para a atenção secundária em outras plataformas, interconsultas várias, renovações de receita indecorosas, passes livres para transporte público etc. O trabalho de vigilância invariavelmente invade o turno da visita domiciliar. Grupos? Abordagem familiar e comunitária? Sobrou apenas um “M” velho e frustrado, o Sr. Queixa-conduta.

Sem contar nos últimos anos da falta de itens essenciais de medicamentos e insumos nas unidades de APS do Rio que faziam Austrália, EUA e países da Europa sentirem inveja. 

A eterna sensação de que não dispomos do tempo suficiente para quem mais precisa, a equidade ferida no meio do peito.

Ou a gente coloca isso no centro da mesa, feito a tora cheia de cupim da Sônia Braga no filme Aquarius, ou destruiremos com tudo. Eis a minha encruzilhada: sinto-me acanhado para estimular graduandos a escolherem MFC.

O que me resta de esperança é estar completamente errado. Por que continuo? Porque tenho a certeza de que escolhi a especialidade certa, porque existem estudantes e residentes que me lampejam, porque o SUS ainda é o principal empregador de médicos do país. E em se tratando do maior sistema universal do mundo, tudo pode acontecer.

Por último, continuo especialmente por causa desta gente que carrega o Brasil nas costas e que me ensina todos os dias que meus white people problems são quite ridiculous.

Resisto porque não tem outra maneira de um médico classe média branco encarar a cidade de Deus, cuidar e ser cuidado por este torto arado chamado Brasil.


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Medo Medieval: o conto do canto

A primeira vez que ouvi tiroteio de verdade no Rio foi numa madrugada no apê da Rua Gonzaga Bastos, Vila Isabel, que meu amigo Lucas Benevides, psiquiatra carioca que morava no Recife, me emprestou para uma temporada no Rio, a qual já dura 13 anos. Passei apenas seis meses, e foi naquela sala onde compus Medo Medieval, também na madrugada. Tinha acabado de ingressar no mestrado de Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social da UERJ. Acordei de supetão e rolei para debaixo da cama. Era 2008.
O medo de andar pra cima e pra baixo, de trem e busão, plantão de São Gonçalo a Bangu, estava presente, mas não me ameaçava. Cheguei no início do pacto de paz, aos custos reais que desconhecemos até hoje, e que durou até a Copa de 14. Cabral, UPP, grandes eventos. O fato é que todo aquele Rio perigoso, que ouvimos no JN desde a década de 80, havia se tornado novamente aquele Rio pré-70. O sol, o sal e o mar, e aquela sensação de que o caos estava abafado e escondidinho debaixo do tapete. Perdi o medo, voltei inúmeras vezes no sono alcoólico, 433, queimando a parada para despertar no terminal. A passos lentos, 3 da madruga, da Praça Barão de Drumond à Gonzaga Bastos, o único pedestre, destemido, que nem nos tempos de Noel.
O mestrado era puxado, só dava para trabalhar como plantonista, passava horas lendo uma literatura que não tinha a menor aproximação prévia: ciências políticas, economia, sociologia, filosofia. Outra linguagem, outros sentidos para as palavras, dicionário do Bobbio a tiracolo, como se aprendesse uma outra língua. Para aliviar a barra, minha turma era sensacional, multidisciplinar e adorava um bar. Rimou.
Fizemos jornalzinho, cine-clube, seminário estudantil, muitos rolês. Buscávamos outra maneira de escrever para a área, expressão em outros formatos que não fosse algo maçante. Foi quando, numa madrugada da sala da Gonzaga Bastos, lendo A Dinâmica do Capitalismo, do Fernand Braudel, para apresentar numa avaliação de disciplina, pensei em fazer algo diferente.
No dia da avaliação estaria no Recife para o São João, então tive a ideia de enviar uma gravação, que a minha turma apresentaria ao vivo quando chegasse a minha vez. Como estava interessado na área da comunicação e saúde e iria trabalhar com rádio comunitária, inventei um programa de rádio em que tentava imitar as vozes de radialistas populares do Recife da minha infância. Escrevi um roteiro sobre a minha parte naquele livro e em outros da disciplina, tentando temperar com humor tipo Pasquim e Monty Phyton. No entanto, precisava de uma canção.
Estudei teoria musical e cursei 3 anos de teclado no final da infância e pré-adolescência, tocava Yesterday, La Cumparsita, Reality e Eu sei que vou te amar nos natais em família. Não era lounge, num determinado momento da noite minha mãe chamava todo mundo para o meu quarto, eu ensaiava para tal, palmas e plateia. Aos 14, a primeira banda com a galera do Colégio Santa Maria. Levei meu teclado para o quartinho na cobertura do meu primo. O meu tio nos chamava de Inimigos do Ritmo, mas o nome era The Primos. Achei conveniente a crítica e pedi um baixo para o meu pai, queria resolver esta lacuna. Giannini Slim Line preto. A banda durou dos 14 aos 19, nosso ápice foi tocar na formatura do 3o ano. Rock 60s, Beatles, Stones, Doors e Jovem Guarda. Na infância gostava tanto de Elvis que levava a foto dele para o cabeleireiro, tentava o topete e não conseguia, apelei para o gel, e logo ganhei o apelido de Tufa na escola.
O nome da banda era em homenagem a uma outra, Os Primos, cujo pai de um dos integrantes teve, também com o seus primos. nos anos 60 e que teve alguma repercussão, tocavam nos auditórios de TV e eram amigos do ritmo e da afinação. Desde então nunca abandonei o violão e os songbooks de Almir Chediak, entrei na faculdade mais MPB. E daí para se apaixonar pelos ritmos pernambucanos foi um pulo. Saí da faculdade de pandeiro na mão.
Até 2008 havia escrito apenas 4 canções, todas em parceria: um rockão em inglês, um samba ainda sem harmonia, um baião que veio de um poema e outro sambinha que já tem harmonia e experiência em shows e que gravarei em 22. A minha praia era literatura, poesia e crônica.
O livro de Braudel foca em como se deu a expansão da economia de mercado do final da Idade Média até fins do século XVIII, como foi que a expansão do capitalismo acabou subjugando e empobrecendo os camponeses autônomos da Idade Média que estavam fora dos limites dos mercados em ascensão: Veneza, Flandres, Ístria, Pérsia, China. No final das contas, é o que já sabemos, a acumulação inumerável de riquezas roubadas da América, África e Ásia a partir do século XV, eliminando qualquer possibilidade de vida autônoma que seja a par desse sistema. E mesmo depois da Peste, todas as guerras e pandemias, “a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”.
A referência para compor veio da Califórnia, a música Alabama Song (Whiskey Bar), dos The Doors. Colhi palavras e frases do livro do Braudel e comecei a compor uma métrica, pensei inicialmente num poema. Tanto que a brincadeira com mercado, ria! e pirata, ria! acabou ficando na gravação, e precisei castigar no “r” do verbo rir para não perder o trocadilho. Havia brincado também com Veneza (Vê, Neuza) e troquei "de coca", de cócoras, por "invoca". Havia escrito "elã", sei que não dá para entender esta palavra velha ao cantar, mas deixei. Quer dizer entusiasmo, impulso, acho que errei, mas prometo melhorar e tomar extremo cuidado quando for transcrever um poema para uma canção.
A harmonia original foi feita pelo meu parceiro João Bustamante, fizemos inclusive uma canção juntos em que, de novo, trouxe um poema para uma canção, e que gravaremos em 22, mas acho que nesta deu certo. O ritmo original é bem Alabama Song, meio circense, mas o samba sempre esteve presente. Eu fazia um vocalize humilde no final do formato original que virou o coro grande de samba do final.
Quando nós, médicos de família e comunidade do bairro da Penha, formamos a banda Empenha em 2012, a ideia era se divertir na base rock, assumi os vocais e matei a saudade da adolescência, porém sempre descambamos para música brasileira, Gil, Caetano e Chico com uma roupagem mais rock clássico. Levei o Medo Medieval para os ensaios e começamos a brincar, a rapaziada tira onda comigo até hoje, dizem não entender parte da letra. Certamente é a nossa mais antiga música autoral depois da marchinha Sisreg que fizemos bem no início e gravamos uma demo.
Adorei os arranjos de guitarra, baixo e bateria. a combinação de Zartinho (Moisés Nunes) e Baiano (Fernando Pedroso) na guitarra, a precisão, adoro especialmente o solo do Zartinho e o retorno pós início da parte B2 (Veneza) do Baiano, lembra muito Gang of Four, The Clash. A segurança na bateria, inclusive no samba, que não é a praia do Leo Graever, e a linha de baixo original e diferente do Jorge Maravilha (Jorge Esteves), prestem atenção, são pontos altos. A gravação e mixagem desses instrumentos ficaram ótimas nas mãos do nosso produtor nesta canção e em outras, Bruno Villar, que está conosco desde 2017. Não gosto do esforçozinho que fiz a mais para cantar, nunca mais gritarei, só em show, não gosto da minha dicção em "Pérsia", meio carioca de ponte aérea. Porém, gosto da voz no samba e adoro também o coro final.
Gravamos alguns instrumentos de percussão (surdo, tamborim, pandeiro, ganzá) com a minha amigona percussionista super talentosa Geiza Carvalho, que estudou clássico e popular aqui no Rio e na Alemanha, e foi minha parceira de percussão na banda Harmonia Enlouquece, da qual ainda pertenço com muito orgulho. Aprendi muito com ela e com Dedé, meu outro parceiro. Acho apenas que na próxima poderíamos melhorar na captação e mixagem, não é fácil gravar percussão.
Sobre o processo de gravação, deu-se em dois estúdios, Overloud, em Vila Isabel, e HR, na Tijuca. Lembro das madrugadas no Overloud, a garrafa de uísque e nós exaustos. Tem fotos de Baiano e Jorge dormindo no chão da sala da técnica e da gente gravando o coro, acho que tirada pelo Leo, que não sei porquê não cantou, apesar de afinado.

Medo Medieval é o nosso filho mais velho, então a gente ama, e também enxerga mais os defeitos, espero que trazer o contexto do processo ajude vocês a ouvir com outros tímpanos. Jacques Le Goff, especialista em Idade Média, defende a tese de que esta coisa de pintar essa época como sombria, cinza, trevas, estagnação, cheia de medo e de superstições, como antagonista do Renascimento, iluminado e ilustrado é um erro, mas também uma narrativa proposital. Não pode haver alegria e criatividade em tempos de baixo consumo. Porém, engana-se quem acha que os que ficaram à margem são necessariamente deprimidos por não terem grana para consumir o que não precisam no mercado livre.
No meio do massapê da monocultura exportadora escravocrata, na Zona da Mata pernambucana, nasce a flor do cavalo-marinho e maracatu rural. De mono para multicultura stereo, mais rico do que qualquer lucro. Daí a insistência no medo medieval, que é na verdade um não medo, uma coragem de enfrentar as nossas próprias trevas, que nunca estão isoladas, pois sempre terá a esperança de um batuque e da guitarra, seja em Vila Isabel, em Nazaré da Mata, na China, na Península da Ístria ou num banco de uma praça russa.

Instagram @praia_vermelha_



Medo Medieval (Tufa)


a Fernand Braudel


 


  Invista no vinho branco da Ístria

  Insista no extremo norte capitalista

  Elã!,  o verde trigo da Pérsia

  Conversa no banco da praça russa


 
Mercado,  ria!


Vem, capital

De poesia


  Chega de tanto lucro irreal (3X)


    Veneza comprou a seda da China

    Me ensina usura que não se esqueça

    Milito no rico mundo da troca

    Invoca, me peça mais gasolina



    Pirata,  ria!


Bem virtual


    À revelia


      Do nosso medo medieval (3x)


           (solo de guitarra)



Veneza comprou a seda da China


    Me ensina usura que não se esqueça

    Milito no rico mundo da troca

    Invoca, me peça mais gasolina



    Pirata,  ria!


Bem virtual


    À revelia

         
      Do nosso medo medieval

         Do nosso medo medieval

         Do nosso medo medieval

         Chega de tanto lucro irreal


            coro




créditos:


melodia e letra: Alfredo de Oliveira Neto (Tufa)

arranjo: banda Empenha

produção musical: Bruno Villar


créditos da gravação:

guitarra base: Fernando Pedroso (Baiano)

guitarra solo: Moisés Nunes (Zartinho)

bateria: Leo Graever

baixo: Jorge Esteves (Jorge Maravilha)

voz, pandeiro, palmas e efeitos: Alfredo de Oliveira Neto (Tufa)

vocais: Baiano, Zartinho, Tufa, Bruno Villar e Jorge Maravilha

surdo, tamborim, efeitos, palmas: Geiza Carvalho.


gravado entre 2017 e 2018 nos estúdios Overloud, no bairro de Vila Isabel, e HR, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro.


 



sábado, 3 de dezembro de 2016

novembro multicores




Estava 20 minutos atrasado, o dedo em riste rumo ao ponto eletrônico. O próximo paciente era jovem, recém chegado ao Rio e em grave sofrimento psíquico. Apesar de a consulta não ter sido marcada, tive que estendê-la por motivos óbvios, o que alcançou o horário do meu compromisso seguinte: ação coletiva da minha equipe de saúde nas ruas de Vila Isabel referente ao chamado “novembro azul”. Neste mês acontece uma campanha anual de conscientização do cuidado do homem que se iniciou na Austrália em 2003 e tinha como foco o câncer de próstata. Como hoje em dia nem o Ministério da Saúde, nem o Instituto Nacional de Câncer, nem os comitês sobre prevenção à saúde dos EUA, Canadá e Reino Unido recomendam o rastreamento de câncer de próstata em assintomáticos sem história familiar, decidimos focar nossa singela atividade nos fatores de risco que realmente importam para o homem: violência, tabagismo, etilismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis. Queríamos ir para onde supostamente os homens estariam numa tarde de sexta-feira: o bar. Para evitar um tom maçante e professoral de palestra e não atrapalhar o meio ambiente, decidimos, em vez de panfletar, criar cartazes com os seguintes hashtags:
# HomensMorrem+QueMulheres
#FiqueLongeDasArmas
#FaçaMaisAmor #EncapeOZé
#SaibaBeber #NãoVacile
#CigarroBroxa #éCaroeEnvelhece
#SeLigue #FrituraeGorduraEntopeCoração
No intuito de garantir que não seríamos ignorados, homens vestidos de mulher, e mulher de homem, pandeiro, marcação cênica e a música Tem Pouca Diferença, de Luiz Gonzaga.
Logo após a consulta com o jovem, corremos ao banheiro, o agente comunitário e eu, únicos homens do grupo, para colocarmos os vestidos emprestados pela minha mulher. Enquanto, de cuecas, apanhávamos com uns buracos existentes no colo do vestido que achávamos que era para os braços, mas era para os seios, adivinhem quem entra no banheiro após ter pego a medicação na farmácia? “Rapaz, veja só, vamos fazer uma campanha de saúde...” balbuciei totalmente sem jeito, ainda com jaleco na voz, para o meu jovem paciente que havia acabado de atender.
Quando já devidamente maquiados e ensaiando com o resto do grupo, ele já aplaudia e cantava junto, ouviram até ele comentar: “e ainda dizem que o doidinho sou eu”. A consulta havia sido ótima e ele ainda, raptz!, comete este insight freudiano?! Depois dizem que médico de família não deve participar das ações de promoção...
Desde o nosso primeiro bar, percebemos um achado antropológico: a maior parte dos bebedores de Vila Isabel no fim de tarde de sexta são do gênero feminino, bem-vindos à Vila do novo século. Utilizamos inicialmente como plateia cobaia os clientes de um bar, bem roots, na esquina da Visconde de Abaeté com a Boulevard 28 de setembro, os bebedores estranharam de início, mas fomos laureados no final com algumas palmas esparsas. Adiante, encontramos um compositor que fez questão de cantar o seu samba acompanhado do meu pandeiro. Estava só, mas acompanhado da oitava cerveja de garrafa. Montamos também o circo em outro roots bar Vila, na Duque de Caxias em frente à oficina de carros. Um pedreiro trabalhando no primeiro andar de uma casa na Torres Homem fez fiu-fiu para mim e Luiz, o agente comunitário, agradecemos como madames. De uma coisa tínhamos certeza, usar saias numa tarde quente no final da primavera em Vila Isabel é muito melhor que calças. Dá para abanar.

Como os bares ali do quadrilátero, o baixo Vila, estavam ainda repletos de mesas vazias, tentamos entrar no Hortifrutti da 28. Fomos gentilmente acolhidos pela supervisora, eu, elegantemente de batom, me apresentando como médico da nova clínica da família, mostrava-lhes cada membro da equipe e suas funções, mas infelizmente não conseguimos entrar, precisava da liberação do gerente de marketing, anotei o telefone e convidei a supervisora para conhecer a unidade de saúde da família. Precisávamos de um bar cheio, repleto de homens sedentos por informação sobre saúde e receptivos a uma performance político-musical.
Andamos toda a Jorge Hudge, sem nos animarmos muito. No fundo, já sabíamos onde seria nosso gran finale, um bar na beira da São Francisco Xavier, barulhento e quente, chamado Loreninha. Os estudantes da Uerj praticamente colam o grau ali, além de ter gente de outras tribos devido ao preço acessível da cerveja em temperaturas boreais. Bingo! Lotado e repleto de homens sedentos.
Sempre quando começávamos a performance, as pessoas olhavam meio de canto “não tenho dinheiro não, moço”. Quando, no final, entregávamos os preservativos e o kit da saúde do homem com cartilhas e outros penduricalhos, as pessoas sacavam que não éramos vendedores de rua, e aí alguns batiam palmam, os garçons davam um legal e partíamos. O Loreninha estava lotado e decidimos fazer nossa mini-apresentação sem comunicar ao dono. Quando me posicionei, olhando para a rua, na soleira do piso de cima do bar e comecei “que diferença da mulher o homem tem?”, vi no canto do olho a indecisão da dona em me expulsar ou não, estava muito confuso para alguma decisão rápida: vestido de mulher, todo pintado, com aparência de zona sul, sotaque de nordestino e não era um calouro.
A apresentação era organizada previamente para combinarmos o local de cada um no intuito de todos os clientes poderem nos ver, permanecíamos alguns segundos em estátua, e eu começava a música, havia uma deixa para que um erguesse pausadamente o cartaz, e assim era seguido, também lentamente, por todos. Na segunda deixa, eles começavam a se mover como aquelas mulheres no intervalo do boxe, passo decidido e sorriso largo. Novamente paravam em outras posições e dois deles largavam os cartazes e distribuíam os kits e preservativos, enquanto eu ia ficando rouco, competindo com o barulho dos ônibus. Apesar do constrangimento da dona, tudo estava ocorrendo na perfeição. Quando acabou, fiz um discurso breve sobre o cuidado dos homens, e agora chegou a parte mais interessante da crônica, lá ia eu falando sobre violência como causa de morte importante entre os homens, levantei a mão imitando uma arma quando para abruptamente, juro, um carro da polícia militar em frente ao bar. Um garoto de rua que estava ali vendo nossa apresentação da calçada percebe, fica lívido, e parte em disparada sentido 28 de setembro atropelando os jarros de planta. Dois policiais rapidamente saem do carro com a arma em punho, todos do bar se curvam, preparando-se para o chão. Desistem de atirar e entram no ônibus atrás de um suposto segundo garoto, todos do bar assistindo à cena. Não o encontram, entram novamente na viatura e partem zunindo de sirene ligada. Não me curvei, estava de camarote, virei estátua na soleira do piso do bar. Quando a poeira desceu, terminei o meu discurso interrompido com um “tão vendo? Eu não disse? Se cuidem!”, olhei para a dona que a esta altura já era nossa camarada e nos trouxe uma cerveja boreal. “O negócio aqui não tá brincadeira não, doutor”.
Voltamos para a clínica sem muita conversa, já havia mais gente na rua sedenta à procura de bares, a gente meio já esquecidos de nossos trajes, uma menina passou por nós “sen-sa-cio-nal!”. Rimos e nos percebemos: a Clínica da Família Pedro Ernesto não mais possuía uma equipe com o nome Manoel de Abreu, havíamos nos tornado a Equipe Azul Profeta de um Novembro Homem.






domingo, 24 de agosto de 2014

febre por dentro

                                  para Júlia Rocha

quando Celsius beija o Farenheit do meu desejo

me sinto inteiro, quente, maneiro

38 é quase minha idade e por maturidade

minha velhice vira bebê

me sinto prenho e mantenho uma chama

de delícia nas minhas entranhas

nada do que é pouco me sacia

e nunca saberia que

grau tem a ver com quentura

39 ou 40

pra mim é par de sapato

porque tudo o que me esquenta é doçura

e nem você de cima do seu salto

e do seu sentimento

perceberá de leve que agora

o nada que eu sinto por fora

vem da febre de tudo que eu sinto por dentro

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

carta aos residentes da primeira turma de Medicina de Família e Comunidade da Prefeitura do Rio

Rio, 1 de fevereiro de 2014

Já é.  D. Maria do Carmo foi atendida pelo menos uma vez por semana, ontem voltou novamente, a menina Yasmyn trouxe outra vez um TIG positivo, e Vitória, a da internação, sobreviveu e já teve dengue. Seu Romualdo recebeu alta da tuberculose, será que foi registrado no livro?
O grupo de gestantes vingou, a enfermeira tomou a frente, mas aquele outro de hipertensos e diabéticos... quem manda fazer grupo de hipertensos? Glorinha, da associação comunitária, mandou lembranças, o pastor também.
D. Conceição, que começamos a insulina, está morrendo de saudade de vocês, encheu os olhos d’ água, até a barraqueira Keylane deixou escapar um descontentamento, mas logo emendou: “mas a gente vai ficar sem médico até quando, hein? Olha lá!” Seu Orlando, aquele velhinho simpático, deixou-lhes presentes.  Aquela figura, D. Antonia, não voltou a fumar, entrou na dança de salão e está paquerando Seu Jorge, aquele quietinho, caladinho.
A ferida de Seu Gilberto fechou, mas continuamos sem dersane. Lembra a Stephanny, sua primeira paciente do DIU? Pediu para tirar, casou de novo, está morando longe. Já é.
Técnicos de enfermagem e ACS, cadê eles aqui?, mesmo depois das festinhas de despedida, não param de lastimar suas ausências, alertam todos os dias para escolhermos os próximos residentes que entrarão, como se pudéssemos. Claro que tem aquele e aquela que comemoram no seu íntimo discretamente, senão seria novela de Manoel Carlos. Longe disso, enquadramo-nos melhor num set com um enredo realista, beirando o naturalista.
Vocês são os filhos mais velhos, com todas as suas dores e delícias, sei como é porque também fui da primeira turma de uma residência, é como se a gente amadurecesse em acetileno, em panela de pressão, nossas lentes ficam mais grossas para enxergar as deficiências e as virtudes, sentimos um misto de sensação de cuidar da casa, mas também de quebrá-la por inteiro, atear fogo e gritar “sou Zé Pequeno, porra!”. No entanto, fico muito feliz que alguns se aventurarão na dificílima tarefa da preceptoria, na qual precisarão, além de se reinventar, alcançar os poderes de The Flash e do Multi-Homem dos Impossíveis, Hanna Barbera, lembram? Pois bem, vocês sairão de R2 para P1, era assim que o saudoso Armando nos chamava.
Por mais piegas que possa parecer, é verdade que fizemos história, aos trancos e barrancos, verdadeiros barrancos, tentamos melhorar a qualidade da assistência da atenção primária prestada no município. Digo uma coisa para vocês, não foi fácil para ninguém, nós, os P1s, também somos os filhos mais velhos, portanto também compartilhamos dos sentimentos do Zé Pequeno, além disso, trazemos nossos vícios de conduta médica e aprendemos muita coisa sem consultar previamente o livro para saber se era assim que se fazia. E tome Dynamed, Uptodate, Nice, AAFP, os bons capítulos do Tratado e do Duncan, além do próprio Duncan ambulante. E como dar conta disso com duas equipes, mais de quatro mil pessoas para cada uma, quatro residentes, negociações com gerentes e coordenadores? Tome natação, análise, alpinismo, bicicleta, guitarra, bateria, cerveja e violoncelo.
Apesar do Euract, dos cursos do pessoal do Conceição, das trocas de experiências com todo o grupo de Santa Catarina e Paraná, cada aula, espaço teórico era repensado. Como vamos avaliá-los? Antes disso, como reconhecer em cada um os potenciais e as deficiências? Como fazer um feedback com gentileza? Como cobrar uma mudança de atitude naquilo que se repete? Por que não estudaram? E por que eu não estudei? E vamos aprender PBI, como realizar a amada e odiada metodologia de aula do amigo de Armando. E mais PBI e as intermináveis aulas de revisões clínicas com Adelson. Enfim, se extrapolamos os limites da cobrança e da ansiedade, é porque estávamos realmente ansiosos.
Além de tudo isso e mais um pouco, a implantação da residência foi meio big bang dentro das Unidades, tendo como consequências cicatrizes que até hoje tem sempre um para espetar. Então o começo foi explosão, todos arremessados, tentando recolher os estilhaços ainda no ar. Agora, apesar de estarmos ainda num universo em expansão, tentamos navegar a Enterprise, mas daqui a um mês teremos outra batalha e se chama número 100.
O que teremos para amanhã? Coragem, podemos sim melhorar a cobertura, diminuir a quantidade de gente por equipe, pensar num melhor modelo público para APS, garantir espaços mais qualificados para as próprias pessoas atendidas refletirem e decidirem o que fazer para melhorar a demanda, a demora e a falta de esperança. Daqui a três anos, milhares de médicos recém-formados farão um novo tipo de residência, que se nós não ajudarmos a construir, a APS brasileira ficará muito chateada.
O SUS com 25 anos é um R1 que vai entrar agora na próxima turma, será nosso colega, então, por que não um “vem cá, SUS, vamos ali tomar uma cerveja”?
Corajosos filhos mais velhos, voai! Olho pra frente, o GPS? Esqueçam, quem faz o software somos nós, e precisa ser livre e compartilhado.
Beijos e abraços,
Alfredo de Oliveira Neto