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sábado, 3 de dezembro de 2016

novembro multicores




Estava 20 minutos atrasado, o dedo em riste rumo ao ponto eletrônico. O próximo paciente era jovem, recém chegado ao Rio e em grave sofrimento psíquico. Apesar de a consulta não ter sido marcada, tive que estendê-la por motivos óbvios, o que alcançou o horário do meu compromisso seguinte: ação coletiva da minha equipe de saúde nas ruas de Vila Isabel referente ao chamado “novembro azul”. Neste mês acontece uma campanha anual de conscientização do cuidado do homem que se iniciou na Austrália em 2003 e tinha como foco o câncer de próstata. Como hoje em dia nem o Ministério da Saúde, nem o Instituto Nacional de Câncer, nem os comitês sobre prevenção à saúde dos EUA, Canadá e Reino Unido recomendam o rastreamento de câncer de próstata em assintomáticos sem história familiar, decidimos focar nossa singela atividade nos fatores de risco que realmente importam para o homem: violência, tabagismo, etilismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis. Queríamos ir para onde supostamente os homens estariam numa tarde de sexta-feira: o bar. Para evitar um tom maçante e professoral de palestra e não atrapalhar o meio ambiente, decidimos, em vez de panfletar, criar cartazes com os seguintes hashtags:
# HomensMorrem+QueMulheres
#FiqueLongeDasArmas
#FaçaMaisAmor #EncapeOZé
#SaibaBeber #NãoVacile
#CigarroBroxa #éCaroeEnvelhece
#SeLigue #FrituraeGorduraEntopeCoração
No intuito de garantir que não seríamos ignorados, homens vestidos de mulher, e mulher de homem, pandeiro, marcação cênica e a música Tem Pouca Diferença, de Luiz Gonzaga.
Logo após a consulta com o jovem, corremos ao banheiro, o agente comunitário e eu, únicos homens do grupo, para colocarmos os vestidos emprestados pela minha mulher. Enquanto, de cuecas, apanhávamos com uns buracos existentes no colo do vestido que achávamos que era para os braços, mas era para os seios, adivinhem quem entra no banheiro após ter pego a medicação na farmácia? “Rapaz, veja só, vamos fazer uma campanha de saúde...” balbuciei totalmente sem jeito, ainda com jaleco na voz, para o meu jovem paciente que havia acabado de atender.
Quando já devidamente maquiados e ensaiando com o resto do grupo, ele já aplaudia e cantava junto, ouviram até ele comentar: “e ainda dizem que o doidinho sou eu”. A consulta havia sido ótima e ele ainda, raptz!, comete este insight freudiano?! Depois dizem que médico de família não deve participar das ações de promoção...
Desde o nosso primeiro bar, percebemos um achado antropológico: a maior parte dos bebedores de Vila Isabel no fim de tarde de sexta são do gênero feminino, bem-vindos à Vila do novo século. Utilizamos inicialmente como plateia cobaia os clientes de um bar, bem roots, na esquina da Visconde de Abaeté com a Boulevard 28 de setembro, os bebedores estranharam de início, mas fomos laureados no final com algumas palmas esparsas. Adiante, encontramos um compositor que fez questão de cantar o seu samba acompanhado do meu pandeiro. Estava só, mas acompanhado da oitava cerveja de garrafa. Montamos também o circo em outro roots bar Vila, na Duque de Caxias em frente à oficina de carros. Um pedreiro trabalhando no primeiro andar de uma casa na Torres Homem fez fiu-fiu para mim e Luiz, o agente comunitário, agradecemos como madames. De uma coisa tínhamos certeza, usar saias numa tarde quente no final da primavera em Vila Isabel é muito melhor que calças. Dá para abanar.

Como os bares ali do quadrilátero, o baixo Vila, estavam ainda repletos de mesas vazias, tentamos entrar no Hortifrutti da 28. Fomos gentilmente acolhidos pela supervisora, eu, elegantemente de batom, me apresentando como médico da nova clínica da família, mostrava-lhes cada membro da equipe e suas funções, mas infelizmente não conseguimos entrar, precisava da liberação do gerente de marketing, anotei o telefone e convidei a supervisora para conhecer a unidade de saúde da família. Precisávamos de um bar cheio, repleto de homens sedentos por informação sobre saúde e receptivos a uma performance político-musical.
Andamos toda a Jorge Hudge, sem nos animarmos muito. No fundo, já sabíamos onde seria nosso gran finale, um bar na beira da São Francisco Xavier, barulhento e quente, chamado Loreninha. Os estudantes da Uerj praticamente colam o grau ali, além de ter gente de outras tribos devido ao preço acessível da cerveja em temperaturas boreais. Bingo! Lotado e repleto de homens sedentos.
Sempre quando começávamos a performance, as pessoas olhavam meio de canto “não tenho dinheiro não, moço”. Quando, no final, entregávamos os preservativos e o kit da saúde do homem com cartilhas e outros penduricalhos, as pessoas sacavam que não éramos vendedores de rua, e aí alguns batiam palmam, os garçons davam um legal e partíamos. O Loreninha estava lotado e decidimos fazer nossa mini-apresentação sem comunicar ao dono. Quando me posicionei, olhando para a rua, na soleira do piso de cima do bar e comecei “que diferença da mulher o homem tem?”, vi no canto do olho a indecisão da dona em me expulsar ou não, estava muito confuso para alguma decisão rápida: vestido de mulher, todo pintado, com aparência de zona sul, sotaque de nordestino e não era um calouro.
A apresentação era organizada previamente para combinarmos o local de cada um no intuito de todos os clientes poderem nos ver, permanecíamos alguns segundos em estátua, e eu começava a música, havia uma deixa para que um erguesse pausadamente o cartaz, e assim era seguido, também lentamente, por todos. Na segunda deixa, eles começavam a se mover como aquelas mulheres no intervalo do boxe, passo decidido e sorriso largo. Novamente paravam em outras posições e dois deles largavam os cartazes e distribuíam os kits e preservativos, enquanto eu ia ficando rouco, competindo com o barulho dos ônibus. Apesar do constrangimento da dona, tudo estava ocorrendo na perfeição. Quando acabou, fiz um discurso breve sobre o cuidado dos homens, e agora chegou a parte mais interessante da crônica, lá ia eu falando sobre violência como causa de morte importante entre os homens, levantei a mão imitando uma arma quando para abruptamente, juro, um carro da polícia militar em frente ao bar. Um garoto de rua que estava ali vendo nossa apresentação da calçada percebe, fica lívido, e parte em disparada sentido 28 de setembro atropelando os jarros de planta. Dois policiais rapidamente saem do carro com a arma em punho, todos do bar se curvam, preparando-se para o chão. Desistem de atirar e entram no ônibus atrás de um suposto segundo garoto, todos do bar assistindo à cena. Não o encontram, entram novamente na viatura e partem zunindo de sirene ligada. Não me curvei, estava de camarote, virei estátua na soleira do piso do bar. Quando a poeira desceu, terminei o meu discurso interrompido com um “tão vendo? Eu não disse? Se cuidem!”, olhei para a dona que a esta altura já era nossa camarada e nos trouxe uma cerveja boreal. “O negócio aqui não tá brincadeira não, doutor”.
Voltamos para a clínica sem muita conversa, já havia mais gente na rua sedenta à procura de bares, a gente meio já esquecidos de nossos trajes, uma menina passou por nós “sen-sa-cio-nal!”. Rimos e nos percebemos: a Clínica da Família Pedro Ernesto não mais possuía uma equipe com o nome Manoel de Abreu, havíamos nos tornado a Equipe Azul Profeta de um Novembro Homem.






terça-feira, 4 de março de 2014

Michael Isabel

Eu tinha tudo pra assinar meu login de @chato no carnaval do Rio, fazer um instagram blasé para qualquer programa. Ah vou não, quero não, posso não... Passar carnaval longe de Recife, mesmo sendo um consciente descansar na Patagônia, é de se fazer chorar por dentro para qualquer recifense, até para os que não bebem.
Entretanto, após um sábado de bloquinhos enfadonhos nas proximidades do Centro do Rio, recebo um convite de conhecer um bloco novo no meu quente e cervejeiro bairro de Vila Isabel. Chato por chato é melhor ser chato a pé, em vez de se implorar por táxis vazios em cada esquina. Assim como morar perto do trabalho: há sempre uns 15 minutos embaixo do seu travesseiro. Por isso, sabotei, um pouquinho só, o começo do domingo do carnaval da minha mulher que, por eu estar chato, chata estava. O Ministério da Saúde se diverte: Chatice contamina e pode virar epidemia. Ao se chatear, como médico e místico, recomendo-lhe se desenchatear o mais rápido possível com exercícios introvertidos de mantra – como lavar a pliha de louças da farra da véspera, banho frio, duas doses de qualquer garrafa, ou 45 min de exercício aeróbico, mantendo-se uma frequência cardíaca maior que 100. Senão... senão pode se cair em esquecimentos de chaves, carteiras e celulares, pequenos furtos e ódios exacerbados num trânsito nem tão engarrafado assim.
Chegando à praça Barão de Drummond, vejo uma instalação diferente do dia anterior de carnaval em que para se ouvir os dois saxes e o trombone teria que se desligar a abafada caixa amplificada da guitarra do Noites do Norte (aliás, a ideia pega que nem virose e é claro que eu preciso frequentar a festa de vocês, que se enche com as pérolas do Pará). Na Praça de Vila Isabel, o Barão de Drummond estava com headphone Bose Noise-Canceling, ou seja, dava ótimo para ouvir os agudos do baixo com uma cerveja na mão num lugar aberto. E para não bastar estavam tocando Smoothie Criminal na base do Morro dos Macacos acompanhados de uma bateria de escola de samba, praticamente uma UPP Social.
Teatrais, com um desejo gigante de se fazer aquele show, a felicidade transbordava do palco, causando uma enchente numa plateia que não parava de gritar “Aaow!”. O Bloco Thriller Elétrico é o melhor do carnaval do Rio 14, um show pão quente manteiga com sal derretida, interativo, irreverentemente clássico, que instigou uma plateia que não se acotovelava, e tudo isso embaixo de um céu cinza que escondia o feroz reluzente do verão carioca.
Dois homens e uma mulher conduziam a voz amparada por uma banda que incluía metais e um teclado daqueles com efeitos que cheiram a capa de vinil. Um cantor com agudos tipo Gal e sósias dançantes do Michael, que já antes eram fãs do rei do pop e frequentavam paramentados os shows da banda, e que foram convidados a participar do elenco, enfeitavam o topo do bolo. Houve até um divertido concurso de Moonwalker em que uma olindense com sombrinha na mão e elegância nos pés representou o carnaval de Pernambuco e ficou em segundo lugar graças aos meus “Aaow!” de torcida na plateia.
Acho que Noel Rosa gostaria de conhecer o Michael, ambos eram muito originais e muito estranhos. Tem uma música de Noel, A.b.surdo, a qual acredito que poderia rolar uma versão jacksoniana bem engraçada. Assim como Billie Jean poderia sincopar num samba da década de 30. Eu adoro os dois, tanto que já fiz Noel no teatro e Michael num show em 87 em homenagem ao Dia das Crianças na quadra lotada do ginásio no Colégio Santa Maria em Recife. Tinha 9 anos, estava morrendo de medo e dancei o Bad com uma roupa de couro preto e detalhes de metal, cabelo em gel e uma maquiagem expressionista. Minha turma de 2ª- série tanto gostou que ficou me jogando pro alto, enquanto eu tentava me livrar para ver o próximo número: a colega Gildinha, pela qual todos eram apaixonados, desfilando “Like a Virgin” fantasiada de Madonna.

O Bloco Thriller Elétrico foi o Dia das Crianças Grandes, deixei de ser chato, comecei a perceber que existe carnaval fora da vida de Recife, e só não me candidatei ao concurso Moonwalker pois desde 87 não ensaiava, estava sem meias e o chão não era liso. Enfim, “Aaow!”, à espera das oficinas do bloco para o carnaval que vem.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Assim como são os bares, são as pessoas


Assim como são os bares, são as pessoas. Em março completarei 4 anos de Vila Isabel, ou melhor, me graduarei em bar. Como em qualquer universidade, você sofre nos dois anos iniciais, principalmente no primeiro. Como calouro você geralmente busca um currículo canônico, está inseguro com a quantidade de informações e a sua futura aplicabilidade. O calouro, por exemplo, não frequenta de cara um bar que não esteja nos guias mais bacanas, não falo nem do elitista “veja rio”, mas sim do delicioso “confesso que bebi: memórias de um amnésio alcoólico”, do Jaguar, indicado insistentemente pelo meu amigo carioca Jorge Zepeda.

 Revelo que antes de ser calouro na Vila já havia realizado um tour Rio essencialmente etílico. Meu Corcovado e Pão de Açúcar se resumiam a seguir com muita disciplina as recomendações desse guia sobre quais bebidas e petiscos pedir em cada bar listado. Foi esse livrinho do Jaguar o meu guia único, sobre o qual se desfilam as histórias lírico-fofoqueira-etílicas dos bares freqüentados por ele aqui no Rio, e bote bar nisso. Provei de pérolas como o Bar Luiz: o melhor chopp q já tomei em vida, com alguma lágrima nos olhos, descobri há 2 anos que mudaram de fornecedor, da Brahma para o "Xixicariol"; o Bracarense no Leblon, o melhor pré ou pós-praia, há um garçom especializado em tirar chopp, que fica plantado defronte à serpentina, além dos quitutes da Alaíde, que já proclamou sua independência e montou com o marido um bar próprio no mesmo Leblon, Chico e Alaíde;  o Bar Urca, talvez o campeão no quesito paisagem no fim da tarde, situado próximo à morada de sua majestade Roberto Carlos; o Bar Brasil: aquele clima germânico... onde nessa mesma viagem dei de cara com Jaguar numa mesa discreta à esquerda de quem entra. Enlouqueci, achei que era conspiração, escrevi uma carta e o enviei pelo garçom. Na dita cuja eu me declarava para o velho, dizendo que queria ter um fígado igual ao dele, que queria fazer um novo Pasquim, que seria ele quando crescesse, bla´, blá, blá , aquelas chatices de carente bêbado. Saí rapidamente e na volta ele não estava mais lá. Até hoje me culpo do quão chato e inoportuno fui, o velho deve ter morrido de medo, seria eu um serial killer de cartunistas bêbados? Por fim (ufa!, ou ihc!) o Nova Capela, onde você se sente nos tempos de Noel: gravata borboleta e pratos com o mínimo de salada possível.

Claro que após esse curso livre “Rio Jaguar” no currículo, entrei com três pés atrás na graduação da boemia vilazebense, mesmo assim caí na armadilha do Petisco da Vila e do Bar do Costa. Os mais famosos, entretanto os mais artificiais. Sabe boemia artificial? Aquela em que na expulsadeira você logo reconhece quem é quem. Sem humor nem para expulsar os mais sedentos, como se o pano se fechasse e se retirassem as máscaras, quando as caretas se descortinam...

Assim como são as pessoas, são os bares. O “Petisco” é um aristocrata falido, conheço bem esse tipo, graças ao círculo de amizades de meu pai lá em Pernambuco, “comer m... e arrotar caviar”. Um climinha de que “a boemia é aqui”, nas paredes reverências aos bambas, principalmente ao Noel, matérias de jornais na parede, uma vez fiz questão de ler todas, numa delas se dizia que era só avisar ao garçom para sacar de um violão e começar um “sambinha na calçada”. Saquei o meu e fui logo proibido pelo gerente, mostrei-lhe a matéria e ele ficou com um risinho entre os lábios. Só fachada. O chopp mais caro do pedaço e uma sensação de que a qualquer momento podem lhe sangrar mais do seu salário.

“Costa” faz mais um estilo glutão, já foi mestre-sala de uma escola de samba antiga e tradicional, porém sucumbiu à concorrência das mais endinheiradas. Mesmo assim esse ex-mestre-sala fica contando vantagens e vaidades pra quem quiser, ou não, ouvir. Possui uma clientela fiel, muito familiar e é o bar responsável pelo bloco Eu sou eu, Jacaré é Bicho D’água, tendo como líder o simpaticíssimo e grande figura: o Rosa. Ele salva o “Costa”. No paralelo e nas perpendiculares muito bêbado chato e metido a valente.

Ao ingressar no 2º ano de graduação vilazebense descobri a pérola: fica ao lado do Bar do Costa, como calouro é cego...,  naquela mesma calçada alta que mais parece um palco no quadrilátero do “baixo Vila”, está o Gente Nossa, já gostei do nome de cara pois é um trecho de uma música de Noel  bem escrita. Os chefes do pedaço eram Antônio e Rosie, um casal que tratava todo mundo como convidado da casa. Não tem essa frescura de “normas técnicas gerenciais de relacionamento com o cliente”, que me irrita profundamente, os sorrisos já esculturados no rosto e uma clima de que “o cliente tem sempre razão”, até que não queira gastar mais um pouquinho... No Gente Nossa ainda rola o PF mais generoso do pedaço, com o toque maternal de Rosie, o preço idem. Lá tive deliciosos encontros casuais ou não com meu querido amigo e antigo vilazebense (nos trocou por Copacabana) o Tãozinho , Victor Neves, o Vitão.  No “Antonio”, como a gente chama, não tem chopp, mais Heineken e Original sempre muito polares. O Antônio sempre um boa-praça, ele e sua mulher muito atenciosos in natura sem extrapolar a fronteira da chatice, enfim ingredientes essenciais para cativar a clientela. Lá tenho cartão fidelidade e sou cliente platinum.

Uma coisa chata é que Antônio e Rosie se separaram faz uns 6 meses, o que gerou comoção de todo mundo. Mas, como não se mete a colher, torcemos para que a felicidade lhes invada e lhes conserve para o todo sempre amém. Hoje a Rosie pilota sozinha, passou um tempo num semblante de amargura, mas já levantou a poeira e voltou a sorrir, principalmente quando chego lá sem cascos para renovar meu estoque caseiro de Original. Ainda tenho saudades do Antônio e a sua generosidade de presentear os clientes com seu cigarro, para não precisar interromper o papo e ir comprar novo maço na 28 de setembro. Para quem não é do Rio, 28 de setembro é o nome da nossa principal avenida e “boullevard” daqui de Vila Isabel. É que o Barão de Drummond, dono da Fazenda dos Macacos e amigo de Pedro II, idealizou um bairro parisiense com um clima avant-garde abolicionista. Da sua fazenda foi projetado esse bairro, cujo nome indica uma explícita homenagem à filha do “cumpadi Pedrão”, a princesa.

Mas estamos falando de bares, não de movimento abolicionista do Segundo Reinado, que os ingleses já sem paciência estimulavam no intuito do tão sonhado mercado escravo-consumidor of America. Por falar nos britânicos, na rua Pereira Nunes, existe o Snooker & Bar Classic Billiards, que ostenta uma fachada de capa de disco de rock 60’s. Lá se contam umas 5 mesas profissionais de sinuca, 2 de bilhar, e no segundo piso 2 de sinuca do Brasil, aquelas que funcionam a ficha de orelhão de antigamente.

O “Snooker”, que alguns vilazebenses chamam “isnuque” é um inglês aposentado que veio ao Brasil nos meados da década de 80 achando que poderia levar vantagem da recém-garantida Malvinas War, guerra descabida que elevou a popularidade de sua Thatcher e encheu de esperança a classe média inglesa na perspectiva de enriquecer abaixo da linha do Equador. Claro que o inglês preferiu o Rio a Buenos Aires, pois não queria ver seus tacos de sinuca virarem cassetetes nas mãos de los hermanos.

“Snooker” faz questão que o ar-condicionado permaneça na temperatura 16, e se apresenta com aquela lua vermelha na face após tomar uns brandies. Claro que torce pelo Manchester, mas é simpático ao Botafogo do Garwincha. Possui uma barriga com 40 cm de altura de fundo uterino, e não se faz de rogado quando o assunto é expulsar bêbado valente com taco na mão. Pessoalmente dá-lhe uns empurrões pra fora do seu “isnuque”.
Há alguns outros que deixarei para uma outra oportunidade por já ter passado do tempo regulamentar desta crônica, como o Abate (preço imbatível), o Gato de Botas (ótimo petisco, mas iluminado com luz branca) e o Amigos da Esquina (bar de maior fidelização de clientes que já vi, o arqui-inimigo do Petisco).

Termino a minha graduação na Vila já de olho na pós: é que há um bar com luz amarela baixa na esquina da Maxwell com a Gonzaga Bastos, onde se vê duas mesas de sinuca do Brasil, além de uma enorme estante de mercearia, que provavelmente deve conter salame e mortadela Bolonha. Chutaria que esse “amarelinho” seja um nordestino da cidade de Parnamirim, PE, extremamente desconfiado com freguês novo, porém quando se “aprochega”, revela-se um coração mole de queijo coalho frito...

Assim como são os bares, são as pessoas.


sábado, 5 de março de 2011

carta para Noel (peça Rosas de Noel, 01/03/11)



Meu caro Noel,
Escrevo-lhe esta carta no calor da semana pré-carnavalesca de 2011 para, quem sabe, lhe dar mais gosto em nos presentear com uma visita. Se você por acaso fizesse um passeio no Centro pela Graça Aranha neste 1º- de março iria se defrontar com um cartaz no Teatro Sesi anunciando um musical sobre a sua pessoa. Saiba que desde sua ida, há 73 anos, muitas foram as homenagens, em discos, teatro, livro, cinema, e principalmente em intermináveis farras nas noites de homens e mulheres que lhe adoram cantar, e lhe beber em litros e mais litros, brindando o consagrado Poeta da Vila, é assim que lhe chamam ainda hoje.
O seu cartaz por aqui anda em alta, Noel, desde os preparos para a comemoração do seu centenário no ano passado. Claro que ninguém te imaginou um vovozinho com cem anos na corcunda, mas, mesmo assim, a Vila te comemorou com uma enorme cachaçada ali na esquina da Visconde de Abaeté e a Torres Homem, aliás fique sabendo que essa encruzilhada é o novo “Ponto dos Cem Réis”, onde a noite é curta para tanta sede de boemia.
Sobre a sua querida Vila, tenho boas e más notícias. As más têm a ver com o clima barra-pesada nos morros do Rio. Pois é, a cocaína não é mais vendida em farmácia, entrou no mercado negro, assim como a maconha, e quem organiza o pedaço exerce um regime tirânico baseado no terror muito feio de se ver.. Subir os Macacos e a Mangueira para tomar um trago e fazer sambas virou uma aventura de faroeste. No entanto, pintou no pedaço há poucos meses uma nova polícia, que dizem ser incorruptível e possui uma proposta mais cidadã de trabalho com as pessoas, chama-se UPP e tenho certeza que você faria um samba a respeito.
As boas novas é que a Escola de Samba da Vila Isabel, que você nem chegou a conhecer o homenageou no seu centenário, fazendo um belo desfile na Marquês da Sapucaí, um corredor muito pomposo ali perto da Praça 11, construído especialmente paras as escolas desfilaram durante o carnaval, para o qual vem gente do mundo inteiro tirar o chapéu. Pode acreditar, o samba ficou conhecido em todo o planeta e você é um grande bamba reverenciado por todos. Dizem até que você virou Cult!
Além do samba, você projetou a Vila, que em muitos aspectos retribui o amor por você: as duas margens da calçada da 28 estão desenhadas com partituras de canções, a maioria sua, escolhidas a dedo na época  pelo Almirante; shopping, bar, escola, pequenos comércios possuem referências a você e sua obra; fizeram até estátua, tendo você sentado, naturalmente num botequim, e sendo servido por um garçom; e recentemente grafitaram, quer dizer, desenharam e pintaram você no muro de uma escola pública na 28.
Saiba que você se foi no mesmo ano em que o Getúlio implantou uma ditadura braba, vindo outra, ainda mais casca grossa 10 anos depois que o Pequeno morreu, de suicídio, dizem. Certamente muitas de suas canções iriam ser censuradas, e foi até bom você ter ido antes para não morrer de raiva. Até porque no início do século XXI fumar cigarros virou demodé, implantaram uma tal de Lei Seca e as academias de ginásticas estão abarrotadas de sarados e saradas. Definitivamente, você iria achar tudo muito estranho.
Mas também temos os nossos encantos, você iria adorar uma novidade chamada internet. É como um rádio em que existe mão dupla não só de voz, mas de textos, fotos e cinema. Calma, o cinema ainda existe, permanece falado, agora com tradução, mas, infelizmente, está cada vez mais concentrado nuns tais de shoppings, que são prédios sem graça onde se concentra uma enorme quantidade de comércio. Cada bairro tem o seu, na Vila destruíram o campo do América para tal fim. Mas voltando a tal da internet, tenho certeza absoluta que você iria ser um blogueiro assíduo e seu twitter seguido por milhares.
Você talvez não acredite, mas o tal do disco deu muito dinheiro por um bom tempo, e teve muito sambista que lavou a burra. Você abriu os caminhos para que um compositor possa viver só de música. Mas como nada são flores, os artistas acabaram engessados com essa coisa de mercado, que inventa uma fôrma e pasteuriza tudo e mais um pouco. Por isso, temos muita saudade do seu desprendimento, dessa ousadia que lhe era característica e que hoje em dia anda em extinção na temeridade que tem o artista em arriscar.
Mas deixa eu lhe contar coisas boas: Cartola antes de partir gravou discos e viveu a fama, é muito gravado até hoje, Vadico foi músico requisitado em Hollywood, Mário Lago virou ator e um velhinho querido, Braguinha também viveu muito e fez muitas marchinhas inesquecíveis, Pixinguinha virou um deus na música popular brasileira, Aracy chegou a participar como jurada de calouros numa tal de televisão; e a Ceci, bem a Ceci morreu dizendo que lhe amava.
Querido Noel, preciso terminar por agora essa singela cartinha pois me encontro no palco encenando aquele musical de que lhe falei no início. Quero lhe garantir para a sua felicidade algumas certezas do tempo de hoje: as pessoas ainda choram e sorriem ao escutar um bom samba, as cervejas estão cada vez mais geladas e variadas e ainda existem nas ruas mulheres encantadas, enchendo-nos de esperança e mistérios.
Forte abraço

Rosas de Noel