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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Bom Dilma (por Dr. Luiz, um médico da família de uma OS perto de você)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)





Querida presidenta, não sei mais o que faço aqui no Rio para me manter em linha com meu juízo. Toda semana uma novidade, “vocês agora vão precisar escrever no livro verde o nome do paciente diagnosticado com tuberculose, no vermelho os seus contactantes, no ALERT vão preencher todos em cada campo específico, e, por favor, não se esqueçam da notificação”. “A partir de hoje, todas as receitas serão impressas”. “Amanhã, você e você e você deverão estar presentes no curso sobre raiva humana”, “Pera aí, e os pacientes marcados?” acho que com tanta desmarcação em cima do pênalti devido a cursos-relâmpagos-surpresa, está mais que justificada um curso sobre a raiva humana.
A educação está em permanente crise de afobamento, é como se a gestão quisesse lavar as mãos do contrato em proporcionar um cardápio de cursos para os trabalhadores. Sendo que tais cursos morrem ao girar em torno de si numa velocidade de quebrar o rabo. Os profissionais são arrancados de suas agendas e postos numa sala onde existe uma pessoa falando de um determinado tema. Quando termina, esses profissionais retornam para o seu feijão com arroz e o tempero esperado não é adicionado à panela. Não é compartilhado com a equipe e nem avaliado pela gestão o quanto daquilo foi digerido e metabolizado para a velha prática do dia-a-dia. A questão é tratada da seguinte maneira: “ah, você fez o curso de insulinoterapia (de 2h)? hum... então sabe tudo de diabetes...”.
É grave, presidenta, de enfartar Paulo Freire. A educação permanente na atenção básica aqui do Rio está fracionada, desarticulada com a realidade das equipes e sendo produzida verticalmente, com direito a todo aquele “depósito bancário” que o barbudo gostava de falar. E nisso vão se gastando os PABs, PAB de lá, PAB de cá.
É tudo muito no aqui e agora, esvaziando água de barco furado. Parece filme de Chaplin. Um corre-corre, tudo pra ontem, salve-se quem puder!
São depositadas nas equipes de saúde da família a esperança da transformação da sociedade brasileira. Entendo que na redemocratização, o setor Saúde saiu na pole position, corajosamente reformista, o SUS deslanchando na frente, idealista, aquariano. A estratégia de saúde da família é o pelotão de frente, podemos dizer hoje que é a cara do SUS. A atenção hospitalar, assim como a classe política, vem sendo desacreditada há pelo menos duas décadas. No entanto, presidenta, Brasília virou Babel: Ministério da Saúde fala português, o da Fazenda, inglês e o do Planejamento, chinês. Enquanto temos uma atenção primária nas bases cubanas, a Fazenda continua na conduta do New Deal, colônia exportadora de matéria prima, os juros altos beneficiam a visão do país como parque de diversão de investidores, e o Planejamento sonha com o crescimento chinês. No caso de lá, do Oriente, na ausência de direitos humanos básicos, inclusive uma escravidão não revelada; por aqui uma melhora na vida, sem dúvida, mas alienada pelo “consumo, logo existo”.
Quando pergunto aos adolescentes da minha área, qual é o sonho, muitos respondem ter uma moto. Uma moto, presidenta. Uma moto, aliada a um celular smartphone e qualquer 2000 de salário é o pacote felicidade lá do morro. Fácil de entender: os pais estão alcochoados na aposentadoria da avó + Bolsa-Família, na Escola, corpo docente + salário indecente = mente doente; o que resta ao adolescente (juro que não quis mais rimar) é TIBIA, GTA, Call of Duty e Fifa 11(games, presidenta), além de ficar sonhando com a moto roubada que o tio moto-boy pilota pra cima e pra baixo, pra não dizer em cima da calçada e sobre a passarela de pedestres.
O que eu preciso lhe falar, presidenta, é que a tal da intersetorialidade precisa deletar a “ordem e progresso” e fincar um “Ctrl + V” na bandeira nacional. Não se pode achar que a equipe de saúde da família vai dar conta da HAS/DM, Tuberculose, DST/AIDS, Puericultura, Pré-natal, Transtornos mentais, Violência Familiar, Etilismo, Tabagismo, Abuso de drogas, Planejamento familiar, Pequenas cirurgias, Alimentação saudável, Atividades físicas, Reabilitação, Urgências e Raiva Humana de 4000 pessoas se o sonho continuar sendo uma moto.
Por mais que o conceito de saúde se amplie, a SUStentação reformista da democracia brasileira precisa se basear na lógica do exército zapatista, sem chefe, todos são sub-comandantes. Então Saúde da Família deve andar de braços com a Educação da Família, Cultura da Família, Economia da Família, Meio-ambiente da Familia, Esportes da Família sem ONG, para, enfim, montarmos a República Federativa da Família-Brasil. Salve, salve, presidenta.
ps 1: gostei da frase que li: “não é coitado do Lula, é coitado do câncer... foi brotar logo em quem...”
ps 2: para negociar com a Fifa e com o Comitê Olímpico, nada melhor que um comunista à brasileira, devoto de Mao Tsé-Tung, Nossa Senhora Aparecida e Saci Pererê. Baforada neles!
Carinhosamente,
Dr. Luiz











segunda-feira, 13 de junho de 2011

Bom Dilma (postada pelo amigo Dr. Luiz)



“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)
A senhora talvez já tenha me visto com uma caneta na mão e um carimbo na outra, subindo e descendo morros e becos. Não, não sou o homem do censo, sou um jovem médico de família, e preciso muito dizer à senhora que acordarei cada manhã mais animado ao saber da vossa atenção sobre minhas inquietações, digamos, primárias.
Estou no Rio das OS, e talvez por esse fato, venho me molhando com experiências de várias naturezas. Ontem um agente comunitário gritou um eureka no meio de uma reunião de equipe: “nós somos a UPP da saúde”. Fiquei imaginando quem seria o capitão Nascimento… bom, espero que não seja eu, pois todos nós sabemos que o Nascimento desbancará quem quer que se atreva a disputar com ele as eleições de 2014, inclusive a senhora, e eu não topo esbravejar em palanques o aumento da cobertura da UPP da saúde. Peço pra sair. Pois veja, presidenta, se essa questão da cobertura não é basal…
Cobrir números é muito mais fácil que cobrir gente, mesmo que sejam cifras astronômicas. Pensando tecnocraticamente, nova matriz ideológica de um médico da família OS, os números não mentem e não fazem barraco, pois podem ficar juntinhos embaixo da coberta, amontoados, mesmo que sejam zeros ou uns. Por outro lado, gente se espicha, ronca, e se embola um no outro empurrando sempre alguém para fora do lençol. Deixe-me ser mais clarividente: “a cobertura do PSF no Rio aumentou de 7 para 20% em dois anos”, mas apertando a tecla SAP: “aê, sangue bom, destampamo a tampa do caldeirão, o rango tá mei azedo, mas a fissura é gigante…”
O resultado dessa feijoada são 41 consultas num dia de trabalho. Saúde do trabalhador poderia ser uma sobremesa apetitosa nesse banquete comunitário, mas teria que ser servida  nas UPAs: uma simples triagem de cores me embalaria para o leito branco da sala vermelha.  Imagine, presidenta, os custos futuros com reabilitação de trabalhadores que teoricamente acreditam nas vantagens promocionais, digo, da promoção à saúde das famílias deste país… Ó país, ó!
Ao “destampar o caldeirão”, transbordou uma demanda que estava empacotada em panela de pressão. Sei que o parto é difícil, também chorei ao nascer, mas as equipes de saúde da família estão ávidas para encontrar logo a mamãe para seguirem embalados pela mágica do amor, olho no olho.
Tudo é muito novo PSF, Rio, OS, mas, por favor, por mais emancipatórios que sejamos, e acredito que a senhora seja realmente, imploro uma regulação em rede, ou em qualquer web que seja. Porque se continuarmos nessas linhas paralelas de fluxo, não vamos conseguir nos dar as mãos, muito menos, dançar uma ciranda. E, por favor, cancele os próximos palanques de aumento de cobertura, se o Padilha já está cansado em pronunciar a palavra qualidade na atenção, que tal arrumarmos primeiro o terreno, para que o compasso do chinelo faça a gente sorrir quando mais um entrar na roda?
Por fim, queria lhe fazer um elogio: apesar de todo aquele papo de “generalzona” que a direita adorava lhe pintar na campanha, a senhora está cada vez mais bonita e elegante.
Até a próxima
Carinhosamente, Dr. Luiz