Powered By Blogger
Mostrando postagens com marcador bom dilma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bom dilma. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

bom dilma

Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jaques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)


Um dia passando de táxi na frente do Palácio da Alvorada vi no piso superior direito uma sala de estar ampla e bonita com uma grande TV ligada e tive a certeza de que a senhora estava lá. Já ia alta a madrugada e pude lhe ver sentada numa poltrona violeta, vestida com um tailleur branco com detalhes pretos, pés descalços com unhas bem feitas amparados no banquinho em frente, um tablet desligado no colo e os olhos fixos na TV. A sala em meia luz. Fiz mais um esforço para imaginar o que estaria na tela e, claramente, me veio o último capítulo da segunda temporada de House of Cards, que seu colega Obama já tinha visto antes de nós dois. Digo colega porque best friend está longe de ser após Snowden e WikiLeaks.
A inescrupulosa escalada ao poder do Frank Underwood nos convida à reflexão dos nossos próprios limites entre desejo, razão e ética, mas também salpica na tela toda a sujeira por detrás do paletós, os financiadores de campanha, os lobistas e todas as mais de 500 espécies de anelídeos sanguessugas que se alimentam de milhões de eleitores-hemácias. Pois bem, nesse mesmo dia em que lhe vi no Palácio, presidenta, havia votado “sim” no Plebiscito por uma constituinte exclusiva, o embrião da reforma política. Sei que a senhora também votou igual a mim e a 7.999.999 brasileiros.
Presidenta, eu lhe mando cartas desde 2011, sei que você as lê com carinho, mesmo sem entender uns trechos, já foram mais de 15 correspondências. Saiba que apesar do mensalão, de apertar a mão de Collor e Maluf, de denúncias diárias do Globo, Folha, Estadão e Veja, votei na senhora no primeiro turno e assim o farei no segundo, e sabe por quê? Porque em 44 anos de vida brasileira nunca havia conversado com uma empregada doméstica na poltrona ao lado do avião, nunca paguei tão caro a uma diarista e nunca, mais nunca mesmo, vi uma agente comunitária de saúde estudando medicina em uma universidade pública, tendo ainda como colega de turma a sua filha. Para a senhora ter ideia desse nunca, no meu tempo de faculdade havia apenas 1 negro nas 12 turmas,do primeiro ao sexto ano. E era de filho de diplomata.
E quer saber o que eu acho dos podres que eu mencionei lá em cima? Desde o Partido Republicano Paulista, primeiro partido republicano fundado antes da proclamação, sabe-se que para assumir o maior poder executivo do país precisa esquecer qualquer rito religioso praticado na infância e fazer alianças com divinos, centro-divinos, centrão, centro-demoníacos e demoníacos. Com os extremistas de ambos os lados, seja de esquerda ou direita, seja de cima ou debaixo, não se mexe, nem se entra em acordo, apesar de serem essenciais para se tensionar o tabuleiro do jogo senão o dado pula.

Daí a existência do Collor, Sarney, Maluf e Renan, o que deixaria novamente em coma um militante do PT que teve um acidente vascular hemorrágico vendo o famoso debate Collor e Lula na Globo em 1989, e que acordou na primeira década do século XXI e deu uma zapeada na TV. Claro, seria um choque comparável a uma mulher que viu o beta HCG positivo na quinta semana e na sexta pariu. O sujeito era de esquerda ou extrema esquerda e acordou como centro-esquerda ou centrão, que é sinônimo de PMDB desde 1989, ou 1889, sei lá...
Sobre o mensalão, Presidenta, resumo-lhe este diálogo que escutei na ante-sala do Congresso nos idos de 2004 ao lado de Eduardo Jorge, antes de ele ser secretário de saúde dos demoníacos (DEM), quando lá estávamos balançando faixas do movimento médico sindical contra o desmonte do CPMF:
- Não tem como a gente falar das mesadas! (cochichando) É assim desde que o Congresso é Congresso.
- Última carta, ninguém tem outra ideia pra acabar com a reeleição.
Para mais informações sobre isso, especificamente sobre o envolvimento do Joaquim Barbosa, aconselho-a reler minha última carta que lhe enviei em fevereiro, especificamente o trecho sobre o fatídico dia em que o encontrei no Metropolitan de Nova Iorque e lá, dentro do museu, o que a deusa Osíris me revelou no Templo de Dendur. http://riocife.blogspot.com.br/2014/02/bom-dilma.html  
Segundo o profeta satírico alemão, Brecht, que também era médico:
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.
Claro que Brecht está certo e, por isso, aqui no Rio votei no Tarcísio, Chico e Freixo, claro que toda essa naturalidade do jogo político é um lixão que produz várias estamiras esquizolúcidas, que nos enlouquece, nos confunde, mas, em paralelo, vai-nos polindo a razão e trazendo a angústia da lucidez no meio da rua de uma humanidade engarrafada. Entretanto, não se pode negar que o eixo estruturante do desenvolvimento econômico adotado pelo PT nesses 12 anos de inclusão social e de distribuição de renda, que culminou, segundo a ONU, com a retirada do país do mapa da fome mundial, e com a agente comunitária de saúde numa turma de medicina, não é absolutamente nada natural comparado com todo o período republicano, monarquista e colonial brasileiro.
Em relação às denúncias do Globo, Folha, Estadão e Veja, presidenta, é só ler um pouco a história da imprensa nesse país e entender que os Diários Associados, o Correio da Manhã e o Diário de Notícias nas décadas de 40 e 50 e o próprio Globo na década de 60 sempre foram contra qualquer governo que ousasse uma mísera que seja distribuição de renda via políticas sociais, ou que garantisse mais direitos trabalhistas, muito menos que propusesse debates mais progressistas como reforma agrária, ou reforma política. Assim se deu com o último governo de Getúlio, com o de JK e de Jango. É só lembrar que apenas um jornal de alcance nacional foi contra o golpe militar, “A Última Hora”, de Samuel Wainer, que eu sei que na época a senhora morria de vontade de assinar, mas era muito centro-esquerda para uma VAR-Palmarense. Portanto, presidenta, ter esse batalhão monopolista e quase monárquico produzindo diariamente manchetes negativas quer no mínimo dizer que a senhora está no caminho certo.

Em contrapartida, os paradoxos não podem justificar os fins. Para além de um partido que cresceu tanto, desconfigurou-se, e perdeu sua unidade dando margem a aventureiros mercenários, eu não aguento mais essa insistência na indústria automobilísitica e a redução eterna do IPI, mesmo sabendo que isso sustentou a crise internacional.
Diversifique, pelo amor, o setor industrial, ou invente o impossível: “compre seu carro e leve de graça uma rua, uma avenida ou um viaduto. Monte seu próprio bairro.”
Da mesma forma, não mais suporto que as políticas de transferência de renda sirvam majoritariamente para o jovem comprar moto e se acidentar, TV led e se emburrecer, smartphone para entrar no Face, e diploma de facul privada que se multiplica por geração espontânea. Produzimos a nova classe rolezinho-funk-ostentação, que quando se descasca, falta o tutano. As 23 milhões de carteiras assinadas, a amplidão do mercado interno, do consumo de massas, o aumento sustentado do salário mínimo, que fez grande fatia da classe média lavar louça e passar um pano no banheiro, precisa ser acompanhado de um investimento muito maior que o do Templo de Salomão no salário e capacitação do professor público, do Infantil à Pós-Graduação. O querer aprender com a vida nos tempos de zap zap e Face precisa produzir um novo universo de criatividade e esforço didático para se crescer, curtir, compartilhar, e crescer novamente.
Voltando ao meu solitário passeio noturno em torno do Palácio da Alvorada, nós sabemos muito bem quem é o Underwood tupiniquim. Toda vez que vejo o Never falando em acabar com a corrupção, inflação, e que vai fazer o país crescer lembro do Frank sozinho no salão oval em pé por detrás da cadeira presidencial se entupindo de orgulho e dando as duas rápidas batidas na mesa com a mão direita. É bom colocar os pontos no U, como dizia meu bisavô alemão: compra de votos para reeleição de FHC e o superfaturamento de trens e metrôs em São Paulo são exemplos corrupção no PSDB, a inflação no governo FHC era maior que todos os 12 anos do PT, e a estabilidade da moeda com o Plano Real em 1994 se deu graças a um endividamento brutal da dívida interna, o que culminou com a quebra do Brasil por três vezes, tendo-se como “solução” o maior OFF Brasil que já se teve notícia com dezenas de privatizações a preço de paçoquita. O PSDB materializou literalmente a canção “Aluga-se”, de 1980, do também profeta Raul Seixas, que cantara a pedra: “É tudo free / Tem o Atlântico, tem vista pro mar / a Amazônia é o jardim do quintal”.  O que mais me entristece, presidenta, é a quantidade de gente estudada que embarca nessa farsa com o único argumento de “mudar”, como se o Never representasse o que há de mais progressista de projeto de sociedade para o futuro do país. Abre a boca para falar de meritocracia, quando sua grande meritocracia foi ter virado mórula, blástula, gástrula e por aí vai após o encontro das células germinativas dos seus pais.

Para um eventual desastre, já organizei meus anti-depressivos e benzodiazepínicos na farmacinha do banheiro, como um bom virginiano, e reservei passagem de ida para Montevidéu, nossa Paris dos anos 20. A senhora poderia finalmente realizar o desejo de, desculpa a intimidade, pegar o Mujica. Eu seria o médico dessa nova família, e todo domingo dançaríamos um Candombe e enviaríamos axés para Lula aguentar firme até 2018.
Mas, não! Definitivamente, never. Chacoalho a cuca com Marte passando em trígono com meu Mercúrio em leão na casa 7, e aperto forte a guia de Iemanjá. Rezo para que o Estado seja laico, graças aos homens.
Presidenta, segundo Bertoldo Brecha, “veeeenhaa!”. Contudo, venha sabendo que, além do baixo crescimento, serão anos que o governo federal, diante de um Congresso mais reacionário desde 64, se não tiver clareza de que lado está sambando, vai descer até o chão.
É manter mais ainda a atitude multilateral na política externa, porque se aliar à cadeia produtiva global é copiar o fracasso mexicano e voltar à cartilha do FMI. É ter raça para baixar a Selic e investir na indústria nacional com sustentabilidade energética, sem medo da inflação, e longe dessa aberração de deixar o Banco Central “independente” nas mãos dos bancos privados. É fazer mágica com os estados e municípios para elevar a qualidade da saúde e educação sem privatizar. É desfivelar o cinto do Centrão e chegar mais perto da base e dos movimentos sociais. É fazer com que eu não consiga mais pagar minha diarista e passe o pano no chão do meu banheiro, é lotar um A330 de empregadas domésticas e pedreiros rumo à Fernando de Noronha.
Mas qualquer cuidado é muito pouco, vi na TV agora mesmo a senhora passando mal numa entrevista e dizendo que foi “pressão baixa”. Na verdade, foi um piti, um faimizim, uma bilora. Receito-lhe sal grosso no bolso do taileur, parar de assistir House of Cards, e ler todas as minhas cartas antigas para rir um pouquinho. Muito importante: nunca fixar o olhar no riso sardônico do adversário. Em vez de ele bater duas vezes a mão à mesa, por trás do riso ele dá duas trincadas na mandíbula para consumar o ato final. Mentalize: Underwood never.


Cordialmente,
Dr. Luiz



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Bom Dilma!

Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jacques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)


Desde julho que não lhe mando cartas, como frisei havia aderido aos Cypherpunks do Assange e Snowden. Tive que sair do Face, do Google e cancelar meu Smiles platinum. Havia voltado, inclusive, ao stupid phone. No entanto, descobri pelo DSM V, o mais novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que sofro de IAD, Internet Addiction Disorder, e, obviamente, de muita saudade de me comunicar com a senhora.
Consegui um afastamento da Clínica da Família no Rio, onde trabalho como médico, devido à enfermidade. Estava impraticável. Quando chegava próximo ao acolhimento para falar com um agente comunitário de saúde, no meio daquele oceano de gente, a tela do seu computador emitia as ondas azuis do Face, hipnotizava-me por alguns minutos e não conseguia desgrudar o olho até o agente correr toda a extensão da sua timeline. Podiam gritar “ô, doutor!” a tarde inteira que eu não saía do transe azul. Às vezes – confessarei só para a senhora – quando a geladeira da família dinossauro se abria, ou seja, quando o bicho comia na demanda espontânea, eu fingia uma enorme necessidade de banheiro e corria para a sala dos agentes. O bar dos bêbados, o pico do surfista, o banquete dos diabéticos, para mim, com IAD, a sala do paraíso. Todos os 10, 15 computadores abertos no Face. Numa dessas, a gerente me achou e perguntou se eu iria demorar para voltar ao atendimento, respondi: “curto, mas não comento”. Recebi a licença no mesmo dia e descobri que na New York University possui um grupo de pesquisa testando drogas para esse tipo de transtorno.

O que fiz? Vim para Lower East Side passar o fim de ano e me servir de cobaia. Há males que vem de trem, no meu caso vim de TAM, poltrona sardinha e atendimento carioca, ou seja, “por favor... Já foi.” Todavia, me diga, como estavam as coisas aí na Bahia no reveillon? Calor? Aqui está menos 3, umidade 50% e parcialmente nublado. O Abominável Homem das Neves passou por aqui, destruiu tudo de branco. Enquanto aí feministas fazem toplessaço, se eu fosse a senhora lá na base naval de Aratu faria um roupaçasso, pois topless é coisa de patricinha. Daria dia de folga para os seguranças, e paf! Roupaçasso presidencial. Soube que a senhora anda lendo Getúlio, do Lira Neto, mas lhe aconselho fortemente a trocá-lo pelo clássico 1984, do George Orwell. A senhora vai ficar mais orgulhosa do Itamaraty ter cancelado sua vinda para cá em outubro passado. Sei que a senhora não leu quando jovem, pois se tratava de uma literatura pelega. Quem diria?! O Estado totalitário que Orwell pintou sob o comando do Partido Interno não é de esquerda, longe disso, o seu aspecto materializou-se no país mais pelego do planeta, Here! O pior é que a diferença com a realidade atual ainda é mais absurda. Na ficção, a teletela é o olho do Estado nas vidas privadas dos cidadãos, sendo que é chata, com conteúdo e design patriota e careta, e agora temos a internet e o seu admirável novo mundo, e é justamente por essa beleza que somos fisgados, justamente por essa isca de sociabilidade, compartilhamento e rapidez na troca de informações. Para eles hoje em dia é mole, presidenta, só jogar a isca azul. Eu tentei, presidenta, juro que tentei, mas o DSM V foi maior que eu. Não sei se Winston, o protagonista do livro, também conseguiria resistir ao Face, a senhora eu tenho certeza, quem aguenta Sarney, Maluf e Renan, possui nervos de aço inoxidável, mas aí seria outra ficção, estilo Robocop.

Já que a senhora não veio a Nova Iorque, pintarei um pouco da cidade. Se Descartes, tivesse vivido por aqui diria: “Consumo, logo existo.” Se você tiver um dinheiro, ouvirá “enjoy!” em restaurantes, caso não tenha, plante talento e vá tocar no metro ou fazer teatro de rua. Ninguém ali está de bobeira, asiáticos, americanos, africanos e europeus estão ali para serem “the king of the Hill, the top of the heap”, como diz a canção. E aí chama o Tim Maia, porque vale tudo, principalmente homem com homem e mulher com mulher. Do Central Park para baixo tudo é prafrentex. Não é por acaso que cineastas gostam de filmar por aqui, economizam dinheiro com figurante e figurinista, sair na rua sem acessórios é praticamente ilegal. Gravatas borboleta, chapéus, suspensório, óculos, jaquetas, além de tatoos, cabeleiras, piercing, e todas as roupas da vogue. A senhora poderia inaugurar o transado vestido que comprou na África do Sul durante o funeral de Mandela, ou bancar um roupaçasso no Great Lawn do Central Park, seria mais uma latinoamericana exotic, pero sin perder la ternura jamás. Por aqui a senhora é um equilíbrio entre Chavez e Mujica, gosta de Cuba, mas é pop, porém nada de propaganda gay anti-aids que ofenda a bancada evangélica, muito menos legalização da erva de Feliciano, quer dizer, do diabo. A senhora, presidenta, aqui em Manhattan é uma estampa de Che pintada por Warhol.

Falando em artista, ontem eu estava no Met, o Metropolitan, o que é aquilo, né? A propaganda revela o que representa: “One MET, Many Worlds”. Bonito, né? Apesar de todos saberem que é “Many (robbed) Worlds”. Para entrar, você escolhe o preço que quer pagar, dei 1 dólar. O atendente falou que estava fazendo uma pesquisa e queria saber de onde eu era, fez uma chinfra, achando que eu iria me envergonhar, finquei firme o pensamento na senhora e falei com um riso escondido no canto da boca: “Brazil, with proud.”

Uma maquete encontrada no Egito há mais de 3 mil anos, em ótimo estado, mostrava o óbvio: a humanidade, desde o Egito, sempre comeu pão, escreveu e tomou cerveja. Pois bem, no meio dessa constatação de Amon-Rá, quem encontro ao meu lado? Joaquim Barboza de capuz vermelho, tinha vindo de Paris só para revisitar o Met. Enquanto ele ultrapassava o Templo de Dendur, juro que vi a deusa Osiris lhe oferecer uma taça, de onde saíram hieróglifos esfumaçantes, os quais pela ondulação, fundiram-se em letras latinas, talvez pelo fato do Templo ter sido construído pelos romanos, mas o que interessa é que consegui ler: “Fecit illud in Lula”.
Tive que sair do museu e me embrenhar no Central Park, quase cometi um roupaçasso em pleno inverno cruel de tanto atordoamento. Precisava de um Starbucks para poder entrar no Google Tradutor, que diachos de sinal era aquele transmitido de Osiris diretamente para Joaquim?
Depois de rodopiar por gramas brancas, caí no West Side e entrei no Zabar`s, um restaurante judeu. Pedi a senha do Wi-Fi, teria que consumir algo, claro. Enquanto devorava um cookie kosher, copiei a frase que li, 2 L em illud, 2 L em illud, vinha repetindo sobre as gramas brancas. Puf!: “Ele fez isso pelo Lula”. Oxalá, Osíris! Presidenta, a senhora acredita nisso? Acredita em algo?
Peguei um metrô, óbvio que errei a linha, eu precisava de um Face, comecei a sofrer abstinência, não queria ligar para o meu pesquisador psiquiatra. Invadi o Jules, bar de jazz na St Mark Place, a rua dos beatniks e de tudo mais um pouco, entornei uma dose do uísque mais barato e, como não tinha um rolo de telex e uma máquina de escrever, assumi o contrabaixo do set que iria começar em pouco tempo. O instrumento estava obviamente desplugado, mas os gatos pingados que estavam ali ouviram um brasileiro em abstinência de IAD cantando “Lula Lá” em ritmo de jazz, e com scats. Eu não estava bem, presidenta.

Agora, mais calmo, após alguns tablets e divãs, acesso a GloboNews e percebo que Orwell realmente é um profeta, Caio não jogou o rojão e é evidente que possui ligação com Freixo desde que nasceu. A questão é: por que ele assumiu o crime? Quem está por trás disso? Quem quer garantir a paz do apito nos gramados da Copa? Como será essa peleja? Justiceiros no ataque, a milícia na defesa, e o Cabral de helicóptero filmando tudo? Paes, é claro, como cobrador de ônibus para garantir a tarifa. Quem editará as imagens que Santiago gravou? Vejo tudo azul, presidenta, a neve azul, o prédio azul, a senhora própria está um azul smurfete, o mundo está azul, e Mark Zuckerberg acabou de passar pela minha janela vestido de Amon Rá azul. Algo me diz que ser cobaia do New York University não está com nada. Volto amanhã. De TAM!
tô tan-tan, presidenta, você não, né?
Cordialmente,
Dr. Luiz


domingo, 14 de julho de 2013

bom dilma


Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jacques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)
Bom dilma, presidenta!
Escrevo-lhe da sua, da minha, da nossa ciudad marabijosa, onde no meio do ano o sol do meio-dia esquenta lightmente nossas cabeçorras. 25 graus ao meio-dia. Sugiro à senhora adotar no seu vocabulário esta expressão que aprendi aqui: "Já é!" Nosso inverno é um verão stella artois.
Minha querida, fico muito feliz de estarmos juntos nesta segunda década do 21th Century Terra. Acho que agora de fato começou o milênio. Sabemos que, didaticamente, os historiadores contarão que a nova Era começou com as Torres Gêmeas em 2001. Porém, aqui pra nós, sabemos que começou na Tunísia, quem diria!, quando nossa querida WikiLeaks denunciou a cara de pau de um daqueles ditadores-avatares dos States. E assim, Primavera Árabe, Occupy e a Copa das Manifestações. Digo outra, fico também alegre de estar nesse barquinho após os 30. Se eu tivesse 15, 20, estaria perdido sem “atenção para a canção”. Depois de muita canção nos meus tímpanos coroa, me sinto, obviamente, perdido, porém curtindo muito estar meio vertiginoso na minha própria casinha. Lembra Leminsky? “Distraídos, venceremos!”.
Presidenta, tenho duas coisas para lhe contar hoje. Uma, precisarei lhe escrever essas cartinhas em máquina de escrever e enviar para os correios, cartinhas que lhe mando desde 2011 pelo electronic-mail – fiquei muito feliz em saber, como soube por fontes, que você as ler no alpendre da Alvorada numa cadeira de balanço portuguesa (só não entendi o ‘portuguesa’). Segunda coisa, como a senhora sabe, como lhe indicava no cabeçalho de um Bom Dilma antigo, sou “um médico de família de uma OS perto de você” e preciso muito e mais e mais lhe contar o que acho dessa transformação do facebook de médicos em ringue UFC. Pois , se fosse uma discussão mais robusta, seria um clássico ringue de boxe inglês. Uma luta muito mais elegante, não presidenta?
Por que máquina de escrever? Porque entrei ontem no movimento cypherpunks, a luta armada de bytes, digo, terabytes. Por favor, leia “Cypherpunks” do Julian Assange, editora Boitempo, aquela editora que a senhora adorava. Assange é o verdadeiro superman IV em 3D, você já o conhece e repito-lhe dizer que fiquei chateado de a senhora não o ter exilado no bairro de Vila Isabel para que pudéssemos nos esbarrar no boteco levando nossos laptops. Mudando o mundo num boteco de Vila Isabel, ouvindo Noel e falando inglês macarrônico com Superman seria explode coração. Soube que o Snowden recebeu 3 propostas de asilo na América Latina. Confesse, presidenta, Vila Isabel?

Bom, enquanto isso, Patriota e mais 4 hermanos chanceleres estão, espero eu, na vinícola Bouza nos arredores de Montevidéu, discutindo como dar um cascudinho nos States. Diga ao Patriota que ele pode dar um cascudo maior, Assange garante. Ele está tão feliz com o Equador e com tudo que está rolando por aqui, que vem dizendo aos quatro ventos que “América Latina is the Guy”. Eu e você concordamos. Agora, um aviso de amigo para você e seus colegas hermanos: não contrate empresas de segurança virtual, todas estão atreladas ao States, pois o software de criptografia é patenteado pelos yankees. O que vocês precisam fazer é nos contratar: cypherpunks. Fazemos de graça com um software livre que produzimos. Ademais, os States ou qualquer outra nação ainda não crackeou a gente. Então, vem! Nunca pensei que eu pudesse trabalhar para a senhora de graça, mas os o mundo gira, e rápido.

Por essas e outras, precisarei voltar à Olivetti. O governo russo já está planejando também. As digitadoras, dores e barulhos voltarão. Necessitaremos de curso em larga escala: as teclas do laptop são muito macias, precisaremos de calos nos dedos. Lembra Kill Bill quebrando a madeira do caixão? Por aí.
Claro que serei banido do Facebook e Google, não terei mais mastercard Smiles platinum. Viverei num mundo meio McFly em De volta para o Futuro. Sem celular, cartão, facebook, porém com um ultrabook olivetti que só daqui a algumas décadas será compartilhado nas redes sociais. Se vencermos, é claro. Em caso de derrota, essa jóia high tech vai ser vendida no shopping de São Conrado e traficada no Morro do Alemão pelo BOPE. Em contrapartida, por enquanto, não poderei usar emails. Enfim, a batalha tá aí, presidenta, e eu me alistei. Você iria adorar, não se precisa mais fazer aqueles treinamentos chatos de tiro na deserta praia do Recreio.
Falando em praia, medicina também é a minha, em que chego religiosamente em ponto durante a semana. Aprendi a ser pontual com o Che, que disse uma vez: "pontualidade o muerte". Aqui no Rio eu sofro, Che.
Serviço civil obrigatório para os egressos de universidades públicas e privadas, no caso de alunos subsidiados pelo governo público: palmas, palmas. Óbvio, o Brasil é um país capitalista do BRICS, não tem como não exigir uma pequena ajuda depois de custear por baixo 30 mil reais ao ano/estudante de medicina. Quando entrei na faculdade há 8 anos eu já achava isso lógico. Não dá para se formar depois de 6 anos em universidade pública, fazer uma residência de dermato e abrir uma clínica de dermato estética no Leblon. Isso é contra o Brasil. Agora, se você custeou sua graduação, aí tudo bem, pode fazer o que der na cachola, tendo agora que queimá-la estudando ainda mais, pois as vagas precisam ser reguladas pelo Estado, e vaga de dermato vai ter bem menos em relação às áreas básicas: medicina de família e comunidade (mfc), clínica médica, cirurgia geral, ginecologia/obstetrícia e pediatria. Quem gostou disso foi o medcurso... presidenta, medcurso? Seria mais um toma lá me dá cá do Partido Republicano?
Agora o meu “não curti, não curti”: os 2 anos do segundo ciclo, pós 6 anos, não pode hoje em dia ser uma coisa diferente de residência médica obrigatória. Agora, se será em mfc, ou se será metade das vagas em mfc,  e a outra metade nas áreas básicas, é um conta para o governo fazer considerando a população brasileira. Presidenta, não dá para dizer: “calma, calma, os recém formados e estrangeiros não vão operar, fazer neurocirurgia, vão para a atenção básica e emergência/urgência, SAMU”. Para mim, não tem especialidade médica mais fácil de se fazer nas coxas e mais difícil de se fazer bem feito como medicina de família e comunidade. São inúmeras habilidades e tecnologias que não são facilmente medidas no dia-a-dia, mas que no fechamento da conta pode dar um rombo no já precarizado SUS se for feita de má qualidade. Em relação a emergência/urgência/samu a mesma coisa, principalmente levando em conta que a maioria das ‘emergências’ são pronto-atendimentos (PA), e PA para nós, médicos de família e comunidade, já fazemos diariamente no posto. Não se esqueça do CTI/UTI, que junto à emergência e atenção primária à saúde (aps) são os 3 cenários em que a maioria dos médicos formados apenas com a graduação no bolso vão atuar Brasil afora. 
País com saúde forte é país com aps robusta, poderosa, malhada, sin perder la ternura. Veja Canadá, Inglaterra e Cuba. Eu sei que a senhora já sabe disso, que Lula e FHC idem. Todos vocês sabem que investir árduo em APS é mais vantajoso economicamente e sanitariamente para o país, mais vantajoso para satisfação dos cidadãos, portanto, me diga, para que o retrocesso nesse ponto crucial: alta qualidade da aps?
Esses 2 anos do segundo ciclo precisa ser uma residência médica, não dá para deixar frouxo: “a universidade que vai decidir” etc. Não: residência. A gente já sairia da graduação com uma especialização e depois correria atrás dos sonhos de cada um, já tendo uma boa bagagem com uma boa residência federal de boa qualidade. E digo mais: se fosse de boa qualidade aumentaria muito a chance de fixar os médicos como mfc.
Sobre os estrangeiros? Portugal já tem isso, possui um convênio com Honduras, Costa Rica e Cuba. Recebe sem “rrevalida” para áreas de vazio assistencial. Juridicamente, não daria para os estrangeiros agora fazer o revalida, pois a prova é ruim, e caso faça medcurso e passe, ele poderia montar uma clínica de dermato estética no Leblon (to malhando a dermato, perdão, colegas, saibam que gosto muito de dermato sanitária. Ah, sobre o Leblon, a livraria Argumento é fantástica).

Bom, presidenta, acho que o Brasil precisará gastar uma grana a mais para supervisionar de perto os gringos. Mesmo em caso de terem uma boa capacidade técnica e um bom entendimento de como se funciona o SUS e o Brasil, a tal da língua é bastante traidora no começo. Acho que os cubanos, que fazem o curso tradicional de Cuba, a melhor safra para essa missão. A ELAN, escola para a América Latina ainda tem muitas fissuras e o ensino é bem mais fraco. Fui a Cuba 2 vezes, eu sei que a senhora foi 108, mas já deu para perceber isso: os estudantes de medicina cubanos são mais cabeçudos.  Se brincar, a formação é melhor que a nossa.
Para finalizar a minha extensa epístola (tô animado hoje), quero lhe dizer que eu só acredito em aps forte com equipe multidisciplinar. Médico sozinho não faz verão, longe disso, nem um outono capenga. Então troque o +médicos para o +saúde e abra vagas para as outras profissões, também com residências e especializações de alta qualidade. Médico sem qualidade na aps revigora a tese de que o médico potencialmente pode fazer mal à saúde com iatrogenias clínicas, sociais e culturais. Recomendo Ivan Illich: “Limites para a medicina”, editora utopia, a qual a senhora conhece muito bem.
Sobre o ringue UFC entre médicos no facebook: Universidades de medicina, por favor, cometam uma redução de danos! pelo menos do UFC para o boxe: cobrem um pouquinho que seja de filosofia, sociologia e história para todos nós.

Presidenta, que tal aulas básicas de economia nos cursos de medicina ao se aposentar como presidenta? Uma coisa eu lhe digo, para a senhora passar no concurso com uma banca de médicos, só vindo comigo pro cypherpunks. Venha, você vai gostar.
Carinhosamente,
Dr. Luiz

terça-feira, 18 de junho de 2013

bom dilma

Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jacques Derrida)
Mas mesmo assim ela precisa ser escrita.
(eu mesmo)

Bom dilma, presidenta.

Preciso muito saber qual é a sua turma. Ontem dia 17/06, no Rio, eu vi ao meu lado uma fauna de travar a Wikipédia com tantas espécies e referências: os que querem seu impeachment, os que sustentam a sua bandeira PT, os que querem a volta dos militares (“para acabar com a corrupção”), os que querem o fim da república e da democracia representativa, nazifascistas, anarquistas, existencialistas, neoliberais, comunistas e socialistas (de Fourier a Fidel), os que querem a legalização da maconha, a união civil gay, os evangélicos (de todos os costais), os contra a PEC37, EC29, os contra a FIFA e a Copa, os indigenistas, os contra os impostos, os agroindustriais (eu juro), a juventude católica, os do PV, PSTU, PCB, PSB e PCdoB, e os que, coitados, queriam apenas a revogação do aumento das passagens. Todos juntos na mesma avenida Rio Branco. Nem o Bola Preta reúne essa gente toda.
Apesar de que, presidenta, na sua época era o bloco de uma turma só, a do “abaixo à ditadura”, sinto lhe informar que não tenho inveja. Paulo Leminsky intitulou profeticamente num de seus livros de poesia da década de 80: “distraídos venceremos”, que se encaixa perfeitamente nesta geração que nasceu com a TV por assinatura e agora se esbalda a “perder tempo” na internet. Acho que todos os pais e mães aprenderam ontem que a criança precisa sim perder tempo, que a internet pode educar, fazer refletir e, sem dúvida, mobilizar. E que há muitos links bonitos, blogs encantadores e perfis do tweeter mais lindos e mais cheios de graça. E que por esses múltiplos interesses, a nossa passeata tem essa cara que a senhora viu e deve ter mastigado “tão bonitos, mas tão perdidos”.
É que a gente tem orgulho de admitir que estamos perdidos num planeta azul boiando em espirais em torno do sol, temos o orgulho de dizer “não sei”, tanto para deus, quanto para a ciência, para o “progresso” e para esse formato de república democrática representativa francesa que, pelo visto, anda tão atracada com interesses privados, que chega ao ponto de não nos representar mesmo quando conscientes apertamos o botão da urna. Presidenta, a nova civilização brasileira ontem acordou, curtiu e compartilhou.

No entanto, tenha a certeza de que tudo isso não aconteceria se não fosse o Movimento Passe Livre (MPL), que começou em 2005, em Floripa, na Revolta das Catracas. De lá para cá, eles formaram passeatas anuais em vários pontos do país, e, quando a rainha mídia filmava (perdão, mas a senhora mesma sabe que é apenas uma “primeira-ministra” no tabuleiro do war midiático), só editava as imagens de vandalismo e marginalidade. Editava, passado, agora somos capas dos jornalões, todos ao nosso favor, somos pop, anúncios de empresas e publicidades já devem estar prontos para garantir matérias ao nosso favor. Super novos tempos, não é presidenta? Tudo muito potente e muito frágil, o diamante numa sala de espelhos.
No entanto, mesmo os “distraídos” possuem um pé na terra de virgem e capricórnio. Serei agora o eco de tanta pluralidade: queremos a revogação imediata do aumento da passagem e um maior subsídio público no preço da tarifa. Los Hermanos (os vizinhos, não a banda) pagam mais de 60% de subsídio público, o Chile, mais de 50%, e nós apenas 12%, o que nos encarece enormemente a cada rodada de catraca. Depois, caso consigamos, aí vamos atrás de outras coisas, como o aniquilamento completo das máfias de transporte em cada município, limpa geral nas licitações e contratos melados de champanhe, sangue e uísque escocês.
Hoje mesmo o 488 Caxias Usina parou bem depois do ponto rumo ao trabalho e, na volta para casa, uma viatura da mesma empresa queimou a minha parada. Inda bem que a “minha parada” não era maconha, pois seria queimada em via pública.
Catraca, presidenta!, notou que a passeata dos 100 mil, onde estavam a senhora, Norma Bengell e outros 99.998, também foi no mês de junho? Dia 26, e o nosso 17. O que é que Gêmeos e Câncer tem a ver com isso? Provavelmente a faísca da facilidade de comunicação geminiana com o sentimento canceriano de que somos diferentes, porém, família, povo, nação, civilização.
Está me achando disperso? Lembre-se de Leminsky, presidenta, “distraídos venceremos”.
Qual é mesmo a sua turma?

Cordialmente,
Dr. Luiz




domingo, 26 de fevereiro de 2012

Bom Dilma

Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)
por Dr. Luiz, médico de família de uma OSS perto de você

Querida presidenta, bom Dilma!
Recebi a sua última carta de Natal e me deliciei em lê-la em pleno vôo de férias rumo a Recife. Eu não lhe contei, mas casei novamente, na verdade, união estável, até que se prove a instabilidade inevitável das uniões. Ela é de Garanhuns, o que já cheguei a comentar via mensagem de “face” ao Lulão, o qual me respondeu: “em terra de muitas flores, é comum se esquecerem dos muitos espinhos”. Bom, como estamos no começo, ando levitando entre os perfumes de rosas e jasmins, sem sangue no dedo. Mas, voltando à sua carta, adorei a sua classificação para o balanço dos meses dez-jan-fev, “o trimestre da euforia”. Apesar de vazamento do Enem (aliás, eu diria uma infiltração crônica) e do golpe baixo à EC29, a popularidade da senhora atingiu novo recorde só perdendo para Michel Teló, nosso mais novo embaixador europeu. Delícia, hein presidenta? “Assim você recandidata…”
Comprovamos essa euforia: ao nosso lado no vôo lotado de fim de ano, estava Ademilson, um motoboy da Rocinha se batizando nos ares. Uma beleza, doutor ao lado de motoboy a 11 mil metros de altitude, estávamos no céu, todos irmãos, pátria amada e idolatrada, quase uma União Soviética. Como se mostrava visivelmente nervoso, ensinei-o a afivelar o cinto e o tranquilizei, disse-lhe que o piloto automático não some nem da caixa preta. Mais relaxado, o tadinho foi pedir uma cerveja para aeromoça da Gol, e foi nesse momento que começamos um papo sobre segurança pública na Cidade Maravilhosa. Ao descer no Recife, boa parte da minha ilusão sobre a UPP tinha se esvaído no calor da capital pernambucana.
Ademilson é amigo de infância do Nem, sobre o Enem ele não quis falar, disse que esteve por dentro de toda negociação daquele “teatro pra Gávea ver”. Blitz + caçamba de caminhonete = operação sucesso. A “semanada” que os motoboys tinham de se coçar para pagar aos rodoviários e policiais militares, para comprar a vista grossa sobre as motos roubadas, apenas foi transferida para a mão da milícia. Como aquele deputado que a senhora adora, o Freixo, comentou na última entrevista: “o tráfico não mata juíza, não elege deputado estadual”. Já a milícia, presidenta, é uma gestapo, a corporação que assume o comando político e financeiro nas comunidades sem precisar trocar tiros ou se esconder, a milícia pertence ao Estado, é aparelhada no bojo político-burocrático, suas ações são pagas pelos contribuintes. Presidenta, por incrível que pareça, é mais grave que o impasse diplomático de Michel Teló…
Após ele lamentar que a única novidade pós UPP foi a necessidade de usar capacete, lembrei a Ademilson um caso que uma paciente me contou e também tem a ver com o papo sobre a segurança pública. A consequência desse relato culminou no meu trauma com iogurtes, pensei até em procurar um psicanalista, mas desisti, recusei-me a rememorar meus chandeles da infância.
Durante a invasão do final de 2010, Ana estava em casa com os três filhos e o marido, todos apavorados com a guerra que se desenrolava na porta da casa, quando adentraram policiais do Bope supostamente atrás de armas e fugitivos. Após revirarem, numa “contra-faxina”, a casa inteira, não satisfeitos com a desordem, abriram a geladeira da família e começaram a “confiscar” os danoninhos da criançada. Com a trilha sonora dos lamentos choramingados de Ana e seu marido, os heróis do Rio e do Brasil se lambuzaram do creme lácteo, rosado e infantil, e bateram em retirada, levando ainda 50 reais da conta da luz que estavam em cima do móvel da sala. Danoninho ser despojo de guerra foi o bastante para o gatilho do meu trauma com iogurtes.
Ademilson, amigo de infância do Nem, estando longe de não estar nem aí, comoveu-se com a história, até porque estava seguindo do Recife para o interior da Paraíba, sua terra natal, rever sua filha depois de 8 anos. A menina agora está com dez, ele até me mostrou um pinguim de pelúcia que havia de lhe presentear. Um pinguim no verão da Paraíba? Fiquei calado.
Presidenta, sei que são histórias bem comoventes e por isso fiz questão de não as lhe contar próximo às festas de fim de ano.
Mas deixe-me acabar essa carta com boas notícias de Pernambuco. O cheiro de flores ainda perfuma meu caminho, principalmente após muito dengo com cuscuz, macaxeira, queijo coalho e bolo de rolo. Ralei muito o bucho.
Pernambuco está rememorando os investimentos de ingleses e holandeses que nem no período colonial, de vento na caravela em popa. Estaleiro Atlântico-Sul, Refinaria Abreu e Lima, Pólo Petroquímico e por aí vai, tem até gringo vindo morar por aqui, ensaiando os passos do forró.
Entretanto, o neto de Arraes, o atual governador, está mais para Margareth Thatcher do que Vladimir Ulianov, o Lênin, pois sendo do Partido Socialista Brasileiro, está dando uma de doido e governando capitalisticamente o setor saúde. Privatizou geral, demitiu estatutário e concentrou o poder nas OS e num instituto filantrópico materno-infantil, que está mais para papai de gravata tomando uísque do que uma mamãe amorosa e fraternal cheia de leite para dar.

É bom ficar de olho, dizem que ele pode atrapalhar a senhora em 2014. Aconselho-a fugir dos seus olhos azuis, que dizem lá por Pernambuco virem de Chico Buarque. É, também não entendi… Bom, se ele cantar para senhora “ai, seu eu te pego”, cuidado! “assim você não se recandidata”.
Cordiais saudações e até o carnaval,

Dr. Luiz

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Bom Dilma


















“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”

(Jacques Derrida)

“Mas mesmo assim precisa ser escrita”

(eu mesmo)

por Dr. Luiz, médico de família de uma OS perto de você




Presidenta,

Mário tem 46, acha que vai fazer 48, mas tem aparência de 60, é catador de lixo e engraxate, recém tratado de tuberculose, conversador toda vida mesmo faltando-lhe os incisivos superiores, foi meu último paciente hoje às 19h30m, era o 30º-.
Sei que a senhora não é médica, mas acredito, como em qualquer outra função, que despacho de presidenta tenha limite. Quando alguém do PMDB precisa vê-la no comecinho da noite, após 2 mesas intermináveis de lançamento de programas e 3 conversas de corredor, não menos intermináveis, com aquela mãozinha no cotovelo da senhora, imagino o quanto sentimento de inimigo emana da sua robusta paciência ao ser obrigada a se sentar com a base aliada.
Estava eu que nem a senhora, apertando a mão do escritor Sarney, às 19h30m, quando entra o Mário, bem-humorado, no meu consultório de médico de família e me apresenta seu caderno de caligrafia. Isso mesmo, ele não se queixou, diferente dos outros 29 do dia, de nenhuma dor de cabeça, diarréia, coisa-ruim, coceira, mancha ou falta de ar. Mostrou seu caderno de caligrafia, foi folheando lentamente enquanto diante de mim apareciam a, e, i, o, u, muito mais elegantes do que o Arial insosso em que digito esta carta. “E” de escada, “O” de ovo, “U” de uva, cada letra correspondendo a um desenho do Mário. Quando terminou, ele se sentou, e me disse em tom de confidência: “Dr., preciso de um remédio para abrir minha cabeça”.
Sabe, presidenta... naquele momento, depois de 6h e meia sem beber água, sem ter operacionalizado minhas diureses, sofrendo da lombalgia do partido dos trabalhadores (das antigas, é claro), meu coração de operário foi amolecido numa lata de óleo. E ficou assim por alguns minutos, batendo rubro-negro.
Mário estava sendo pressionado pelas professoras de alfabetização de adultos do curso noturno que freqüenta a uns dois quilômetros da sua casa, um dos cinco barracos mais precários da minha área adstrita. Elas haviam estimulado o Mário a ir atrás de ajuda para resolver, segundo elas, sua deficiência de aprendizado. “Elas me disseram que pode ser problema de hormônio”. Subentendi depois de alguns minutos que o hormônio se chamava ritalina, se a senhora não conhece, é um nome comercial do metilfenidato, uma catecolamina (agonista adrenérgico), que possui estrutura química semelhante à anfetamina (derivado piperidínico). Trocando em miúdos, é a alegria nos últimos vinte anos da indústria farmacêutica Novartis, pois além do filão para melhora da concentração entre executivos (leia-se produtividade no mundo dos negócios), e para emagrecimento de moças já bonitas, recentemente a Novartis mirou nas criancinhas “peraltas”, o que logo virou uma epidemia chamada distúrbio de hiperatividade com déficit de atenção. Também é uma febre entre estudantes que se preparam para concursos. Enfim, uma “bolinha” vendida em farmácia, assim como a cocaína na década de 20.
No início da consulta, apesar do coração já amolecido pelo óleo da lata, resisti: “Mário, infelizmente a medicina não tem um remédio para abrir a cabeça”. Ele me olhou surpreso: “tem não?”. Nesse “tem não?”, presidenta, confesso que senti nó de choro na goela. Lembrei do Giosuè, Guido e sua “principessa” do filme “A vida é bela”, todo aquele esforço de Hércules do Guido em esconder do garoto que aquilo ali era um campo de concentração nazista, tentando sustentar que tudo não passava de uma grande brincadeira muito bem bolada.
A miséria de Mário foi o campo de concentração em que me sustentei para não lhe privar da esperança. Não iria ali fazer um discurso “conscientizante” sobre classes sociais, estrutura e superestrutura, para lhe explicar o porquê da sua dificuldade de ler. Não iria estimulá-lo a se indignar com a injustiça do mundo capitalista e se associar ao sindicato dos catadores de lixo, tornando-se em vez de um Mário falador e bem-humorado, um companheiro sisudo e com a raiva na garganta dos seus discursos.
Também não iria lhe explicar que o mote do governo Lula era o Fome Zero e o da senhora é o Brasil sem Miséria, apesar de que a fome e a miséria nunca desaparecerão se outras bolsas-valores-‘famiglias’ não esvaziarem de vez.
Muito menos iria lhe noticiar que está acontecendo uma crise no capitalismo global e que os ricos, que são a condição para a existência da sua miséria, estão agora com uma cefaléia tensional leve, muito leve.
Definitivamente, não, presidenta.
Menti que nem o Guido a Giosuè: “buonguorno princepessa, me enganei! Tem sim um remedinho pra você, Mário”, ele me abriu o sorriso banguelo, pegou a receita e disse que tinha de ir, “tô atrasado pra aula”.
Bateu à porta e me deixou sozinho, com o rubro-negro já esfacelado no fundo da lata.


Mande-me notícias, presidenta, há tempos que não recebo uma carta sua.
Carinhosamente,
o seu Dr. Luiz
ps: o “remedinho” foi Gingko Biloba, um pop star da fitoterapia.