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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Eu sou o que der na telha, nem que seja por quatro dias

Meu filho mais velho, do nada, disse que queria conhecer o samba. Quase chorei, como as suas fases de gosto são intensas, ele estava há meses encalacrado no funk, havia descido a ladeira: Beatles, Raul Seixas, rock clássico, funk carioca podrão. Ninguém aguentava mais, daí veio a redenção. E sabe mais, papai? Eu sou Portela e queria ver um bloco de carnaval.

“É feito uma reza, um ritual / É a procissão do samba abençoando”, pensei logo em cura espiritual.

Levei-o no último sábado ao Cordão Umbilical, bloco infantil perto de casa, só para ele prestar atenção na bateria, pois estava interessado na caixa, apesar de ter ganhado de presente de Natal uma guitarra.


Chegamos em ponto, o bloco atrasado. Para não desanimar fui falando quem eu conhecia e as músicas dos crias do samba. O interesse pelo samba nasceu do interesse da estética cria, pelo que entendi é o protótipo da criança da favela que usa colares, boné de lado e possui a tão sonhada liberdade de ir e vir sem precisar da companhia dos pais. É tipo um malandro herói, Antônio Balduíno e Pedro Bala, para ficarmos com as personagens do Amado.


Foquei nos crias Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Geraldo Pereira, claro que não falei que nenhum desses usava boné de lado.


A bateria chegou e esquentou, a sua primeira pergunta foi onde está a cuíca? Fiz questão de chegar perto e lhe explicar como este instrumento produz aquele som mágico.


Antes de ele perder interesse na música, pois queria ter visto uma bateria de escola de samba e estava à procura de um amigo, fomos reparar nas fantasias. Particularmente, gosto de sair no carnaval com fantasias próprias, nada de pierrot, pirata ou super-homem. A não ser se a minha avó paterna, Hercy, figurinista do Teatro de Amadores de Pernambuco, costurasse alguma dessas para mim, pois ficava top profissional na minha infância.


Passei uma vez o Halloween em Nova Iorque e descobri o carnaval deles, a produção de fantasia é muito séria, compras com muita antecedência, fantasias nos trinques. Não gosto disso, muito sério para mim não combina com carnaval. Eu quero justamente nos quatro dias ser o mínimo sério possível, dissolver o juízo ao máximo.


Foi uma dificuldade para sair de casa, havíamos pensado na fantasia familiar Stranger Family, uma ótima ideia da minha companheira. Pedi um logo para o Gemini e imprimi colorido em papel fotográfico.

A minha ideia seria sairmos com roupas estranhas, bermuda na cabeça, camiseta nas pernas, chapéu amarrado na bunda, por exemplo, e cada um com a placa pendurada.

A oposição queria que cada um se fantasiasse de um personagem da série, o que seria impossível na véspera do bloco, teria que ter uma produção tipo Halloween.


Discordantes, desistimos da ideia, guardarei as placas para outros carnavais, mas me mantive fiel à ideia e fui com uma cueca velha na cabeça, como se fosse uma touca. As pessoas só suspeitavam se chegassem perto. Quando eu sairia com uma cueca na cabeça? Uma das magias do carnaval. A outra é conversar como personagem com outros personagens fantasiados. O meu filho nunca tinha conscientemente visto isso, foi um espanto.


Vi um cara fantasiado de Bad Bunny, aquela roupa creme, segurando a bandeira de Porto Rico, assim como no Super Bowl. Ah, eu havia dado uma aula para os residentes do 2o ano da Residência de Medicina de Família e Comunidade da UERJ naquela semana, Arte, cuidado e política, e havíamos discutido a potência da arte no bojo do sistema hegemônico e como é gramsciana a estratégia de corromper por dentro, tornando-se patética a nudez do rei.


Nas férias de janeiro assisti em partes, após os meninos dormirem, Uma Batalha Após a Outra, que tem tudo ver com a temática do Bad Bunny. Há uma cena em que a personagem de Di Caprio, em apuros, grita para a personagem de Benício Del Toro, ambos auxiliam a imigração de mexicanos na fronteira: ¡Viva la revolución!

Pois bem, meu filho achou muito estranho quando fui falar em espanhol com Bad Bunny e depois, todas as vezes em que nos encontrávamos, eu gritava: ¡Viva la revolución!, e ele ¡Viva!

Deve ser bem estranho mesmo assistir pela primeira vez na rua este código do carnaval. Na quinta-feira, tudo volta a como era antes.

Sobre a cueca na cabeça, ouvi tanto recriminações quanto apoios, na próxima vem com aquela mais surrada, com os furos.

Importante, meu filho, é que o brasileiro tem 4 dias no ano, às vezes um pouco mais, para ser o que der na telha. Quando a gente não faz isso, o ano começa mais triste e existe uma grande chance de ficarmos dodóis. Seja cria, ou seja doutor.

  


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Morte, folia e a redenção da borboleta

O Bloco do Chapéu em Quatis estava marcado para às 11h. Chegamos antes disso, eu com um capacete de operário que achei por acaso e sorte no cabide de chapéus da casa onde estava esplendidamente hospedado. Digo sorte pois o material e design deste tipo de chapéu são os ideais no sol a pino, melhor que chapéu de palha.

De cuca fresca, de gelada em gelada, nada de bloco na concentração do Bar do Juarez. Vi um casal colorido numa calçada na moldura da loja funerária, não me contive de pedir uma foto.

Antes da banalização das imagens, na época dos rolos de 12, 24 e 36 eu amava tirar fotos da rua e das farras. Sentia-me um cartier-doisneau recifense. A economia do olhar, às vezes restando um único tiro, sem grana para comprar mais rolo. Perdi o tesão depois que percebi que a fotografia ficou mais importante que a experiência, ao ponto de a próxima espécie na evolução quando cascavulhar HDs daqui a centenas de anos sentirá vergonha alheia.


Mal sabemos que aquela quantidade inútil de fotos, que temos preguiça de apagar, é um entrave para a nossa comunicação com esses outros seres que já tentam contato. Lixo virtual entupindo as redes, enchente evolutiva. Eles compreenderão que a humanidade entrou em derrocada depois da invenção do selfie. O selfie foi a espada na aorta do Homo sapiens sapiens, espécie que surgiu para viver em comunidade.


No entanto, ouvi num podcast recente que o projeto Sanctuary on the Moon levará 24 discos de safira para serem enterrados numa cratera da Lua. Uma porrilhão infindável de terabytes com o que temos de melhor em textos, imagens e vídeos. Cartier, Doisneau e Salgado estarão lá.


Por que a Lua? Porque este planetinha lindo vai puf! sair do mapa via lácteo devido à nossa incompetência, por que as metrópoles acharam rudimentar demais os povos originários chorarem quando uma árvore era derrubada e um rio aterrado. Mas voltemos ao carnaval que é o que nos resta.


Já se passava do meio-dia quando o garçom anunciou que a demora se devia a uma senhora que morrera naquele domingo de carnaval, o atraso era uma manifestação de luto. Todos coloridamente à caráter, entre a funerária e o hospital da cidade do Médio Paraíba fluminense ficava justamente o Bar do Juarez. Concentrava-nos na real para um cortejo.

O Bloco do Chapéu deu largada e em menos de 100 metros o som foi silenciado, passávamos pelo hospital, onde provavelmente a senhora havia sido internada. Puxei uma salva de palmas aos que não poderiam sair do leito e pular um frevo.


O cortejo foi breve, algumas casas generosamente montaram um cano longo com um chuveiro na ponta que dava para a rua.  O carro do som, sim infelizmente som mecânico, fez um recuo e por ali a folia esquentou.


Em meio a pulos e pontapés, um amigo encontra uma borboleta abrindo e fechando sincronicamente suas asas violáceas respingada de laranjas, pousada em um paralelepípedo de 50 graus. Uma linda sobrevivente, que escapou da marcha de tropas desgovernadas e muita lama. E se mantinha ali num balé popular, o axé comendo no centro e ela toda contemporânea.


Meu amigo a resgatou pelas asas e ela voou num céu azul total.


O último adeus à folia de Quatis.


Arrepio de carnaval

Uma paciente agendou comigo uma consulta na manhã da última sexta de carnaval. Cheguei antes da hora, peguei a rua Jardim Botânico prestes a fechar para blocos. Humaitá e Botafogo livres. Desci em frente ao empresarial na Voluntários. O consultório fica no nono andar. Na fila dos elevadores ímpares, duas mulheres de meia idade batiam um papo às 8h50. Pelo que entendi, uma estava em busca de outro consultório, e a outra era a ascensorista dos elevadores ímpares. Nós três adentramos assim que abriu.

- Acabei de passar pela Presidente Vargas, tão fechando tudo - disse a paciente com ar de recriminação. A ascensorista só acenava com a cabeça. - Daqui a pouco vai ficar aquela loucura, nessa semana já levaram o celular de duas amigas - a ascensorista fechou os olhos e inspirou lenta e profundamente.

Sentada em sua cadeira metálica, abriu os olhos e nos encarou, mostrou o antebraço esquerdo, e com o indicador direito foi pendulando por cima, a voz com um quê de saudade e papo reto:


- Olha só como eu fico.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

o puxador de sonhos

Não era São João. Quando ultrapassei a porta pela primeira vez, o lençol o embalsamava. Em poucas circunstâncias, ele cedia, arreando a barra para debaixo dos olhos. Ele estava vivo, mas se fazia de morto. José era o paciente mais difícil para a equipe de enfermagem do 9º- andar do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco: recusava medicação, diálogo, comida e procedimentos. É daqueles que causa rebuliço de vozes pelo corredor:

- José hoje tá que tá!

- Oxe! Se quiser morrer, que morra!

- Bicho cabuloso, se não quer ajudar, que dê a vaga pra outro...

Em nosso primeiro encontro, não me lembro ter dito mais de duas frases, recheamos nosso espaço de silêncio em aproximadamente uma hora. Eu sentado, ele se fingindo de morto, embrulhado da cabeça a baixo pelo lençol bege. No final mandei um “até mais ver”. Na outra semana, também numa segunda-feira e num horário semelhante, estava eu, a cadeira, o embalsamado e um violão como um novo visitante. Falei menos ainda, no entanto o silêncio foi quebrado por alguns acordes desarranjados. Às vezes parecia que ia dar numa canção, em outras se desgarravam, talvez num impulso de começar tudo de novo. O lençol escorregou embaixo dos olhos, o tempo da visita terminou, outro até mais ver. Ao sair da enfermaria, onde ele estava “sepultado”, apertei o botão do elevador e olhei meio desconfiado para o violão dentro do do seu case preto.

Estava no início do 3º- ano de medicina e pertencia a um grupo recém-fundado, “O Caminho”, que já pintava umas fachadas estranhas, porém interessantes aos olhos alheios na velha estrutura do hospital universitário. Eram grupos pequenos de estudantes que iam visitar toda segunda à tarde pacientes que, antes da primeiro encontro, nunca haviam se visto. Um projeto de extensão universitária. Havia música, teatro e até um espaço para se assistir a filmes, escolhidos pelos próprios pacientes, chamado “cine-enfermaria”. E ainda se discutia notícias nacionais e internacionais através de jornais e revistas novas.

Como eu era um dos veteranos do grupo, as auxiliares de enfermagem desse 9º- andar, que eram parceiras do projeto, incubiram-me da tarefa mais difícil: “dar um jeito em José”. Uma estudante desse grupo já havia tentado, mas havia se frustrado em lágrimas.

Conforme fazíamos, antes da primeira visita não recorri ao prontuário para saber de sua história clínica, o que era um dos objetivos do projeto: despir-se do jaleco, abrir-se da defesa da impessoalidade. Apenas por volta do terceiro ou quarto encontro, descobri que José, um jovem de trinta e algo, havia sido vítima de uma tragédia, já banalizada pela imprensa: teve sua bicicleta roubada e um projétil de arma de fogo lhe roubou o prazer de andar com as próprias pernas.

Naquela hora vi o errado que abraçava o mundo, um cinto apertado na linha do Equador. O roubo, o bairro chamado Linha do Tiro, seres humanos que ganharam dinheiro na fabricação e venda daquele revolver e daquela bala, acontecer isso em quem muitas vezes só tem as pernas como opção de meio de transporte, a pele parda, o estreitamento do caminho, a esperança encurralada.

Por trás da tragédia, havia um palco com outras possibilidades sobre o qual me apoiei e compreendi o porquê da música servira como um eficiente instrumento de comunicação entre nós. José havia passado grande parte da vida num posto social que o destacava perante seus vizinhos. Era “puxador de quadrilha”, daquelas estilizadas com visibilidade na imprensa durante o mês de junho. Coordenava e planejava a coreografia, as cores dos vestidos e das camisas, escolhia as músicas. O baião e o forró eram seus gêneros musicais prediletos. Mobilizava a comunidade onde morava, injetava em bolus ampolas de vida no terreno da violência. Era, na real, um puxador de sonhos.

No terceiro ou quarto encontro, já trocávamos algumas palavras e a barra do lençol já se encontrava na linha do tórax. Depois disso, não lembro em qual visita, propus que coordenássemos dentro da enfermaria uma quadrilha fora de época. Não sei bem se sua expressão na hora era definida, mas se percebia que ali estava se iniciando um duelo entre o possível e o improvável. Pois o impossível já se vinha diluindo desde o silêncio, quando José se fingia de morto.

As cinco semanas seguintes foram de puro trabalho: pesquisa da origem das quadrilhas (descobrimos que os matutos dançavam passos de nobres), escolha do repertório, elaboração dos diálogos do padre, noivos, delegado, dos sogros, de todo aquele teatro. Acho que foi a primeira vez que o vi sorrir.

 Chegavam as auxiliares de enfermagem e elas me agradeciam. José não só estava se alimentando melhor, como também estava colaborativo com as medicações e os cuidados de higiene. Eu levava toda semana um micro system e alguns CDs de forró e baião. O ano era 2002. Ouvíamos, discutíamos sobre as letras e acabamos elegendo o repertório em cima de uma coletânea de Dominguinhos. Por algum tempo, o parceiro do leito ao lado, eram dois nessa enfermaria, nos ajudava, pois além de gostar das canções havia cantado na noite.

Lembro-me de uma tarde memorável um pouco antes da quadrilha. A noite já caía e com pandeiros e violão, auxiliado por outros parceiros do projeto, fizemos uma mini-serenata. Acabamos registrando tudo em vídeo. O côco comia no centro, José já sentado com o encosto da cama levantado, a barra do lençol nos pés, batia palmas, remexia o tronco e dava gargalhadas.

Voltei para casa espantado com o poder da música. A depender de sua manipulação, um instrumento tanto do cuidado quanto do descuido. Faz as pessoas sentirem saudade, medo, força para viver, melancolia. As cornetas que ajudam nos campos de batalha um homem matar um desconhecido, o ilú do candomblé que favorece o transe e convida as entidades a participarem da dança, o hino do time que amolece os corações mais endurecidos, a música do casal que acabou de completar bodas de metais preciosos, e do outro casal, no mesmo baile, que acabou de se apaixonar ou se desfazer. A música da paixão, a música da guerra, a música da evocação dos deuses. Às vezes a linguagem do próprio divino, do religare.

Em outra circunstância, ele me deu a impressão que iria desistir, como se percebesse que aquilo não passava de uma palhaçada. Estava na cara que não daria para ele voltar ao que era e que, de volta à comunidade, terra onde não faltará dificuldade a mais, sentindo-se em um navio afundando, o corpo inútil que tem um certo peso jogado ao mar, ele temia ser escanteado quando da sua volta. Se a ausência de carro ou van para transportar a quadrilha para os ensaios e apresentações já era difícil, imagina agora sem pernas e numa cadeira de rodas? E se conseguir uma cadeira, pois até agora ninguém havia se pronunciado... Era melhor ter morrido, era o que eu ouvia muitas vezes nos subterrâneos do seu silêncio.

Não era São João, mas o hall da enfermaria do 9o andar foi enfeitado de bandeirinhas e balões e era palco de desfile das matutas dos mais coloridos trajes. Chapéus de palha repousavam junto aos pés-de-moleque e pamonhas em cima de uma mesa. Apareciam novos cavanhaques e bigodes a lápis de olho. Foram convidados pacientes, acompanhantes e profissionais não só daquele andar, mas também de outros.

Chegavam em cadeiras de roda, sustentando os soros, outros carregavam bolsas de enterostomia. Ali abatidos, acolá se mantendo em pé, aqui um que acabou de receber alta e comemora a ida em alto estilo. José, já portando um daqueles chapéus, engatilha o microfone e convida os casais para um passeio na roça. Havíamos ensaiado umas duas vezes, eu ali servindo de “assistente de direção” fazia a ponte de comunicação, pois ele se aborrecia com os passos em falso e a falta de sincronia. No dia D não deu para perceber deslizes.

Ele ia a toda com a cadeira de rodas, como se abrisse o Mar Vermelho “cavalheiro de um lado e dama do outro”, ai quem ficasse na frente. Parecia estar segurando uma batuta e se descabelando perante uma orquestra.

Pouco tempo depois recebeu alta, ganhou uma cadeira de rodas de uma instituição beneficente e ensaiava o retorno para casa. Senti um banzo de ter perdido um amigo quando encontrei o leito vazio. Prometi-lhe uma visita, levar um VHS para assistirmos ao vídeo da quadrilha. Não consegui, a roda-viva me abocanhou. Não sei se vive, ou se já puxou outras quadrilhas depois disso. Tomei-o como exemplo de superação. O seu amor pela dança e pela música arreou o manto da desesperança, empurrou-o a se levantar, mesmo sem as pernas.

Agora não era mais São João. Era São José. José são.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

sonhos e arpões

para Sebastião Salgado e Miró da Muribeca

O cara do biscoito no sinal
amolece a patricinha doce
que dirige um porshe
ela faz coraçãozinho
o laranja acende a janela
ela e o porshe
Jorge era o cara do biscoito

A amargura em pessoa devora
com sinceridade e angústia um sonho
escorre água salgada no rosto do arpoador                  
um sonho é devorado em frente ao mar
armagura em doce de leite
lágrima flor de sal

A brisa resseca meu sorriso de infância
é só um sonho que me resta
quem tem um barco? uma chuva que me aqueça?
tem muita graça nesta prancha do Seixas

O divino sorriso preto da Jamaica
em Hackney

Nesta bolsa da moça imersa em sobriedade
a resistência hippie chilena
sexo pictórico
células de um tecido abstrato
estriadas, eriçadas
tinta tesão

Beijo a pinacoteca inteira

Menina grande com dedo na boca
volto pro colo, me encolho
cadeira de rodas gira o coração em memórias
e o pôr do sol senta na cadeira
vislumbra sem rodas os olhinhos de orvalho

Embasbacados é o nome da música
que venderei no atacado
A bossa do samba é o funk do bamba

Os Dois Irmãos gostam é de sossego
brincam no play da orla
juntinhos no cobertor de folhas

O piano do Tom embaraça os cabelos da menina
a natureza grande faz a gente se sentir miúdo
e bonito
aperto os olhos pra ver se Deus tá vendo

Vem sem medo contra um vento sudeste
a oeste de quem tem saudade
repete o mantra
olho marejado não tem idade
Marujo! É por ali o leme do teu norte!

A proa divide vento, ressoa os dados da sorte
na poupa só músculo
estriado cardíaco
coração de poupa
no final, água só
Carbono e nitrogênio
náufragos
o ovo aberto no verão

Tudo será elemento
Re li ga re
um instantâneo sem Insta
nunca mais insista
em aterrar
o que não tem mais jeito

A música salva
até em lua nova
Afro Roda
Fela fala, follows
felow feelings
Coreana, baixo, baixo, baixo
Calote de Volks
gira please percussão PIX it

Acordou saxofone, dormiu trombone
Mengo a caminho da Gávea
e o Vidiga?
pisca, pisca, pisca

Sextou na cesta
e ninguém deixa a fumaça cair
o vento espanta o medo abafado
rouba o trono da primavera

Uma gota aqui uma louca lá
e a fumaça se afasta
apesar da brasa teimar acesa

À tardinha, o Rio tem sede
correnteza de drinks
a terceira margem do chopp
li que Demi Moore topou
um remake de Ghost

De braços abertos chega uma saudade
Capiba no leito arterial
é tudo Recife
de que importa se a aorta tem cacife?

Saturno é um véio sábio ranzinza
e mandinga é palavra gostosa d'África

Os Dois Irmãos vivem de abraço
mesmo na briga uma luz escorre da barriga
e acende o mar

Do lado de lá, uma mensagem de zap te espreita
se esconde atrás do poste
tacape no post!
fight pós night

pode ser nice uma vida sem bright

Um rasante fim de tarde de um pombo botafogo joga uma tinta no azul distraído
lá na Quinta a gente se vê
e se cumprimenta no pé do ouvido

O sol não sabe qual é a praia
nunca ouviu falar de Ipanema, Garapuá, Boa Viagem ou Tamandaré
da menina com tatuagem no peito que passeia de bike elétrica
da prancha que tem apenas um astrodeck e o resto parafina
nunca soube como é bonito o beijo que ele próprio assinou
direção e iluminação
que se não fosse por ele
o carbono não teria paquerado com o nitrogênio
e a cor seria para sempre triste
não há samba e frevo sem ele

Mas hoje
ele tomou ciência
algum meteorito já cantou a pedra
a beleza estalando em cada grão
pele pedrinhas espuma
no riso de graça
graças a ele, o olho no olho não cegará
a esperança
de uma dia a gente se encontrar

se espreguiça yoga
e faz um carinho quente no Vidigal

Brisa atrasada de outono
dizem verão
mas pincelaram o mar cor de chumbo
as ondas ocuparam em protesto a nossa atenção
Inventa algum cartaz, o coro no repeat
alguma dose que esquente o nosso medo de amar
é só silabar que a melodia chega

Cobre os pés pra fora da canga
do casal que não queria dormir na areia
mas uma fragata me peitou ventania
engata ilha, me canta o segredo
incendeia

Nós frio laço cria
cutuca bala
pix tio
é Rio
bagaço
uruca
pedala
insiste
partiu

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Carta para os fiotes: pintos, pepecas e furicos

Meus amores, à jato e aterrisando com peso de jumbo as perguntas sobre sexo pousaram na nossa sala. Vocês embolarão de rir na adolescência.

Tomás sempre foi um radar, como um bom geminiano com ascendente e mercúrio em gêmeos, ou seja Tomás não é, Tomás são. Um dos primeiros da turminha a trazer novidades, o que espicha os ouvidos para conversas de adultos, mesmo longe. Sempre buscando o que está fora do alcance, um dos primeiros a ler da turma e a se interessar por filmes, livros e séries fora da idade. É tipo um planetário.

Desde os 8, pode ver 12 anos e 14 apenas com o papai, protetor do veto caso a barra fique pesada, o que não deu certo da última vez quando dei stop no anime Jujutsu Kaisen na cena em que a melhor amiga e noiva prometida do protagonista, na ocasião com uns 7, é atropelada na sua frente e a assombração que a persegue toma forma a partir do seu sangue e vira um monstro aterrorizante, escorre rumo ao protagonista e, com sangue escorrendo, clama: casa comigo, não me abandone… Desliguei na hora e foi um escândalo, daqueles de estrelas de Hollywood.

Fiotão, a dramaticidade dos seus paranauês lembra muito seu avô e meus tios da família Oliveira. Muitas vezes vejo o meu pai nos seus palavrões, e isso confirma que sabemos muito pouco ainda do poder da genética, que certamente está entrelaçada com a espiritualidade.

Vivico, como irmão mais novo libriano tenta pôr panos quentes, herdou a minha temperança paz e amor, por isso boto-lhe pilha no Itamaraty. No entanto, como todos mais novos, é um exímio pescador sobre o que os mais velhos se interessam, e tendo-se um irmão complexo midiático ambulante, vai sugando mais rápido do que outros caçulas.

Enfim, o interesse por terror, violência e sexo está cruzando o campo da gravidade terrestre. Nada de novo no front. Não precisa estudar comunicação para saber que sangue e sexo hipnotizam nossa espécie.

Mal sabem vocês, fiotes, que ser criança na década de 80, quando os pais não se importavam muito com o que consumíamos, pois tudo era limitado sem a internet, fazia com que fôssemos liberados para Freddy Krueger, Jason e pornô, alugados em videolocadoras marginais.

Particularmente, tive uma infância de uma psicoeducação esquizo, bem bífida, imiscível. De segunda a sexta vivia com mainha, funcionária pública, altamente organizada, ascendente em virgem, que contava os tostões para para o fim do mês, minha maior professora de virtudes e vida estoica, a solidariedade, a disciplina, a responsabilidade, a honestidade, um coração que não cabe no infinito.

Já entre sexta à noite e domingo, e nas férias, estava com meu pai que naquela época era uma mistura dionisíaca-beatnik com dinheiro no bolso: o importante são os excessos, a libertação de desejos, a vida é um estalo, amizade é tudo.

A minha primeira biblioteca foi a sua coleção pornô que vivia no armário sem chaves e cadeados da sua suíte. Aos 14 ganhei um carro de presente, mas não podia atravessar a rua sozinho. Vai saber. Todos os meus amigos o amavam, viveu como quis, sem restrições, até os 59.

Mas vamos ao que interessa à maioria das espécies. Ontem, Fiotão, fiotinho dormiu na rede da sala, sem banho, dever e jantar. Era véspera de sua apresentação de Come As You Are, do Nirvana, com a sua turma do inglês e precisávamos ensaiar o seu teclado. Fiquei sabendo que Rafa, o vocalista, ficou doente. Espero que Mig e Pedro conseguiram segurar os tambores e vocais. Claro que não te revelei que Kurt Cobain quando canta, em si e ré, I swear that I don’t have a gun era mentira.

Pois bem, assim que seu irmão dormiu, você me metralhou com inúmeras perguntas libidinosas, que listarei aqui:

  1. Gozar quer dizer chupar?

  2. Tesão é ficar com pau grosso?

  3. Para um pau grosso entrar na pepeca precisa lamber para entrar melhor?

  4. Mamãe falou que alguns adultos, não todos, gostam de chupar pau e pepeca, é verdade?

  5. Vi no trailer de O Corvo (Onde, filho? Onde? Naquelas telas de outdoor que ficam nas esquinas) que transar é assim: um homem com tanquinho se embola na cama beijando, sugando a boca, de uma mulher de sutiã e calcinha. (ele presenciou um chupão de adolescentes na rua um dia desses e toda vez que se remete a beijo lembra disso) 

  6. Quando os adultos transam os pêlos do pinto e da pepeca ficam enrolados e se grudam?

  7. Sarrar é assim? (Ficou esfregando o pinto na parede). Você já sarrou com a mamãe?


Quando olhei pro lado meu pai gargalhava. Respirei fundo e tentei as perguntas socráticas, zero sucesso. Entendi que havia chegado o momento da revelação concreta, papo reto: Gozar é quando a sementinha sai (morgado), tesão é quando um adulto quer muito namorar (pra 9 tá bom), não precisa lamber (só lembrei da cena de Sônia Braga em Aquarius), não tem nada a ver com tanquinho, todas as barrigas transam (me saí benzão), não se grudam, só se encontram (Yes!), já sarrei, mas não é assim como você fez (amarelei).

Quando começou a perguntar do furico, já me sentia um prisioneiro de guerra:


  • É amanhã! Manda aquele riff no mi pra eu acompanhar no violão.


Nirvana nas alturas.



sábado, 9 de novembro de 2024

rolezinho em Serrambi: o conto do canto

Geralmente era noite alta e após vários pedidos, ele pegava o violão, apoiava o uísque num porta-copos de uma mesa grande de centro, conferia a afinação no mi maior e, nos primeiros acordes, minha atenção se voltava aos olhos da pequena plateia. Ia de criança a gente de 40 + e eu focava nas mulheres. Das meninas às mais velhas, era como se aqueles olhos retirassem a roupa após um dia de trabalho e elevassem as pernas, como se entrassem numa banheira quente, tomassem o primeiro gole da sexta à noite e esquecessem os aperreios na escola, as intrigas, as culpas e os boletos. Olhos de pôr-do-sol. Contemplei durante toda a meninice e adolescência aquele poder de alumbramento de Tio Duca, pai do meu melhor amigo de infância e ex-integrante de uma banda da jovem guarda recifense na década de 60, Os Primos.
Invariavelmente o repertório tinha um lugar cativo para You Can't Do That, dos Beatles, e ele seguia com uma introdução de um dó maior para um mi com sétima na sétima casa, um rock clássico mi - lá - si, com uma segunda parte inventiva em sol sustenido, inventiva para o Lennon daquela época. Uma letra boba de ciúmes de um garoto pela namorada, que não poderia dançar com outro, bem 50's e 60's. O grande trunfo do Tio Duca era o ritmo da mão direita e o baixo que fazia nos acordes e, obviamente, sua voz rouca afinada e seu porte galã 60s, de botas, tipo Springsteen.

Bruno, o seu filho, e eu, apesar de sermos de 78, na pré-adolescência colamos nos 60s e 70s. Até gostávamos de Nirvana, Pearl Jam, Guns e Metallica, porém o que emocionava mesmo era Chuck Berry, Little Richard, Elvis, Beatles, Stones e Doors. Decidimos montar uma banda focada nestes gringos e na jovem guarda, tendo o conjunto do pai como referência local, demos o criativo nome de The Primos, o "the" para sugerir que cantávamos também em inglês. como já escrevi em Medo Medieval, durou do final do fundamental até o fim do ensino médio e o nosso ápice foi tocar na formatura do terceiro ano do Colégio Santa Maria em Boa Viagem, Recife.
Insistimos tanto em pegar a batida de Tio Duca, que You Can't Do That entrou no nosso repertório, eu adorava tocar esta música como baixista.
São José da Coroa Grande é a última praia do litoral sul pernambucano, fronteira com Alagoas. A minha praia de veraneio desde a barriga da minha mãe até o final da adolescência. Meu primo-irmão Lula, que também tocava no The Primos, tinha casa lá, assim como o Tio Duca, que por acaso era primo de segundo grau de Lula. Enfim, em todo janeiro a primaiada parte de mãe e amigos invadiam aquele paraíso cheio de corais. Primeiros porres e beijos, todos nós aprendemos a dirigir carros em São José.
As praias mais famosas do litoral sul pernambucano hoje em dia são Porto de Galinhas e a Praia dos Carneiros, que pertence ao município de Tamandaré. Naquela época, Tamandaré era um point mais legal que Porto, e Carneiros era uma praia deserta que ninguém se arvorava a ir. No litoral sul,  além das menos conhecidas, como Gaibu e Calhetas, tem a praia de Serrambi, situada entre Maracaípe, a praia de surfe perto de Porto, e a pequena Toquinho, que eu achava quando pequeno que era uma homenagem ao parceiro do Vinícius.

Por um acaso algorítmico no Airbnb, fui parar em Serrambi em um verão longíquo daqueles, poucos anos atrás. Já com filhos pequenos, juntei-me com a família de um amigo e, para economizarmos, pegamos uma casa mais recuada da orla. Serrambi ficou conhecido nacionalmente devido ao caso horroroso das duas meninas, que até hoje, mesmo passados 20 anos, não foi encerrado, mas que ficou emblemático, pois tem a ver com a cultura da elite nordestina: farras adolescentes na casa de praia dos pais. Todo o litoral nordestino possui talvez uma desigualdade tão escancarada quanto Leblon e Rocinha, mansões e lanchas à beira-mar, e quem vive ali de fato se contenta com casebres recuados e jangadas de pau.
Chegamos e montamos um cooler com boas cervejas, carregamos o guarda-sol e cadeiras da casa para conferir o mar. Passei por uma ruela em que dava para ver, entre plantas ornamentais, uma grande casa em que adolescentes de bermudas de linho e camisas sociais dobradas antes dos cotovelos conversavam com garotas de cabelos bravamente escovados ao som de Sunday Bloody Sunday em ritmo de axé. Pura sublimação histórica, o domingo sangrento entre católicos e protestantes irlandeses lá na década de 70 encontrara sua redenção tropical entre mauricinhos e patricinhas pernambucanas no século XXI em Serrambi.  Na beira-mar, ao sentarmos, em vez do horizonte marítimo benzodiazepínico e inspiração pulmonar profunda, lanchas ancoradas, uma ao lado da outra e jet skis ziguezagueando, quase um tapume de uma imobiliária anunciando as maravilhas de se adquirir um terreno chamado Mar. Quando mergulhamos no "terreno", pedindo licença às lanchas, óleo diesel na maré.
Contentamo-nos com picolé e cerveja e nos percebemos uma classe média dando um rolezinho no Praia Shopping Serrambi.
De volta à nossa casinha, peguei o violão e comecei a brincar com a harmonia de You Can't Do That no jeito Tio Duca de tocar, "Vou dar um rolé..." Comecei algumas estrofes e terminei logo em seguida. A banda Empenha, que se chama hoje Praia Vermelha, adotou-a rapidamente, pois se encaixava muito na nossa base rock. A segunda parte da música só veio anos depois, para melhorar a dinâmica e diminuir a chatice. Mostrei para o Zartinho (Moisés Nunes) a ideia melódica e ele harmonizou. Achei conveniente temperar com romance uma música cômico-social, porém seguindo o tom, entre um classe média e uma patricinha.
"Ponho minha camisa UV só pra te ver passar" vem da moda no litoral nordestino, no máximo uns 15 anos para cá, de os homens, de classes diferentes, todos usarem este tipo de malha durante o dia. O clássico Dia Branco, de Geraldinho, entrou na letra pois, na época da composição, Zartinho e eu estávamos fissurados, ouvindo toda a discografia dele.
Os baculejos, ação ostensiva da polícia no corpo de outrem à procura de tóxicos, eram comuns em não brancos e não classe média nas festinhas nos centros de Tamandaré e São José. Gostei da cena de o rapaz enfrentar uma dura ao ultrapassar o limite de castas e dar um beijo numa boyzinha. Fiquei também feliz em rimar o verso de Geraldinho com as minhas praias queridas do litoral sul. À propósito, o primeiro show que fui pós pandemia foi Chico César e Geraldo Azevedo no Circo Voador, tenho fotos, ainda de máscara chorando todo o litoral. Showzaço, vi novamente no primeiro Rock the Mountain. Duas vozes e dois violões, Paraíba e Pernambuco, explodindo o coração de todos em orquestra.
Apesar de, para a maioria do Brasil, jangada remeter a embarcações simples dos pescadores de Caymmi, de vela e madeira, em Pernambuco jangada também é uma lanchinha pequena, cerca de 16 pés, que a classe média costuma comprar se juntando a outras famílias, para irem aos paradisíacos "pocinhos", pontos rasos de areia no meio dos corais com águas cristalinas, é necessário destreza para, com o motor de poupa quase todo levantado, livrar o casco dos arrecifes, a depender do nível da maré, ao tentar entrar no pocinho. Por isso, "eu sei pilotar jangada".




Para a gravação assumimos um clima sábado de praia. Inicialmente, a ideia era terminar a música numa rodinha de violão na própria Praia Vermelha, na Urca, com a barulheira natural do vento, mar, praieiros e banhistas, mas não conseguimos produzir. No entanto, levamos ao estúdio a nossa memória dos pregadores da beira-mar do nordeste e do Rio. Globo, mate, ostra e caldinho.
Bruno Villar novamente assina a produção e a ideia de trazer a diversão praiana foi dele. Acho que Zartinho teve a ideia do coro na introdução "Serrambi" e da brincadeira vocal, que ficou ótima em "que rolé? que rolé? que rolé?". Eu gosto do tecladinho em vibrato, bem Renato e seus Blue Caps o qual, depois da Jovem Guarda, foi amplamente usado no brega.
A música foi toda gravada em várias sessões durante o ano de 2023 no estúdio Praia Vermelha, o nosso reduto e bunker.
A base se deu com Leo Graever na batera, Brenda Costa no baixo, os baianos Daniel e Fernando nas guitarras e Zartinho nos teclados. Nos vocais, Thaís Façanha, Laís Pimenta. Brenda e eu.
Apesar da experiência de se sentir dando um rolezinho no litoral, estas praias continuam lindas de morrer, com a água do mar quentinha, o abraço no balanço de ser e falar dos nativos e aquela vontade infinita de virar árvore ao curtir uma brisa numa rede amarrada entre coqueiros. 
Uma briga recente no bairro da Gávea, aqui no Rio, entre moradores e construtoras que insistem em avançar tratores em direção à floresta, justificando empreendimentos eco light de morar bem, me remontam às inúmeras tentativas de abocanhar pedaços de areia, céu e mar pelos resorts e outros lobos vestidos de cordeiros no Nordeste. Rolezinho em Serrambi brinca com a classe média branca que, segundo Jessé de Souza, fica achatada, na parte de cima quer se colar à elite e por isso defende os privilégios dos ricos, apesar de saber que dificilmente encontrará um buraco para subir, enquanto que seus pés tentam se livrar das camadas mais baixas, onde há muito mais buracos pra cair. É a classe média que ao se sentar na areia, e não contemplar o horizonte, dá graças a Deus de estar próxima às lanchas.   




Ficha técnica

bateria: Leo Graever
baixo: Brenda Costa
guitarras: Daniel Baiano e Fernando Baiano
teclado: Moisés Nunes
vocais: Thaís Façanha, Laís Pimenta, Brenda Costa e Tufa
voz: Tufa
produção: Bruno Villar e Moisés Nunes



Rolezinho em Serrambi
(Tufa e Moisés Nunes)

E7

Vou dar um rolé
                                             A
Vou dar um rolé em Serrambi
                          E7
vou dar um um rolé, um rolezinho
                                        A
um rolezinho em Serrambi
               B                       A                           E7     B
tomo cerveja importada, mas nao tenho jet ski
             E7                                                             A
Da mansão na beira-mar escapava um som  qualquer (2x)
       B                                    A                         E7
era Sunday Bloody Sunday       suingado no axé 

A
Mas me sento nessa areia
               C#m
mesmo sendo um sem-terra na maré cheia
G                                                           Bm
ponho minha camisa UV só pra te ver passar
A
como no canção do Dia Branco
          C#m
eu enfrento um baculejo pra te dar um beijo
               G
Pro que der e vier
                                                  B
em Gaibú, Tamandaré e São José


                        E7
Vou dar um rolé
                                             A
Vou dar um rolé em Serrambi
                          E7
vou dar um um rolé, um rolezinho
                                        A
um rolezinho em Serrambi
          B                            A
já viajei pra Nova Iorque
                                          E7
mas lua de mel não foi Paris


solo


A
Mas me sento nessa areia
             C#m
mesmo sendo um sem-terra na maré cheia
G                                                              Bm
ponho minha camisa UV só pra te ver passar
A
como no canção do Dia Branco
C#m                                                                G
eu enfrento um baculejo pra te dar um beijo

Pro que der e vier
                                                   B
em Gaibu, Tamandaré e São José


                 E7
O guarda-sol é protetor
                                    A
tem caranguejo e picolé (2x)
         B                              A
no rasinho é tanta lancha
                             E7       B
óleo diesel na maré

                        E7
Vou dar um rolé
                                             A
Vou dar um rolé em Serrambi
                          E7
vou dar um um rolé, um rolezinho
                                        A
um rolezinho em Serrambi
           B                       A
Eu sei pilotar jangada
                                             E7
mas pra alugar só dá pro esqui