Como recifense de 78, a minha impressão é que Chico Science teve o mesmo papel de João Gilberto no final dos 50. Fazer com que vários jovens amantes e principiantes da música se perguntassem "e pode, é?".
Antes do mangueBit*, nós, classe média alta branca do Recife, tínhamos vergonha das manifestações populares que vinham à capital durante o carnaval: maracatu, caboclinho. ciranda, cavalo marinho etc, porque possuíam uma produção lamentável e serviam ao público estrangeiro, "para inglês ver".
Muitos antes do Rap ser importado para as periferias paulistas, duplas de emboladores andavam pelas praias de Boa Viagem com seus pandeiros e violas, paravam em frente aos turistas para fazerem improvisos. Muitos eram idosos, como Mauro e Quitéria, que estão no início da faixa “Miséria” dos Titãs. Ganhavam apenas centavos após andarem, suando em bicas, toda a extensão da praia.
Lembro-me de pequenos ônibus caindo aos pedaços chegando à praia de Boa Viagem, os adereços caindo dos figurinos, a necessidade de aceitar qualquer trocado extra para reproduzir aos brancos e gringos toda aquela resistente ancestralidade índigena e negra passada por gerações e gerações da Zona da Mata Pernambucana. Terminado o espetáculo, retornavam ao corte e estocagem da cana-de-açúcar em regime semi-escravocrata, assim como seus ascendentes desde a época colonial.
Para resistir à insanidade da miséria, só a arte e toda a produção anual realizada por todos, do menino ao velho, a música, a dança, o teatro, o figurino e adereços, o estandarte, o único momento em que todos estão livres, dançando e cantando nas ruas do interior o seu maracatu, o seu cavalo-marinho. A estrovenga vira rabeca, o facão de cana vira gonguê.
Estou falando de uma época em que Ministério da Cultura só existia no papel, em que a cultura era loteada e vendida a quem pagava mais. Nesta época em Boa Viagem, na semana pré carnavalesca reinava o axé, a micareta se chamava Recifolia. Big production, leds, muralhas de som, figurinos nos trinques, tudo socialmente dentro do cordão de isolamento, nossa cadeirinha de arruar colonial. Tudo à luz dos holofotes exibido pelas TVs, para deixar claro o apartheid sul-africano, as castas indianas.
O que tínhamos de acesso à nossa cultura popular ao vivo eram os ônibus em cacarecos vindos do interior e o Frevioca, um trio elétrico antigo, baixinho e de som miúdo de frevo que em cima ia o Capiba, já velhinho, acenando para as vovós das sacadas da beira-mar, as quais relembravam o furdunço dos seus carnavais. O axé era novo, vibrante, potente e rico; o resto, velho, estertorante, pobre e pálido. E um dia desses um amigo pesquisador musical, Ricardo Morais, me contou que Dodô e Osmar, que introduziram o trio elétrico na Bahia, no início da empreitada só tocaram frevo na capital baiana. Por mais de 20 anos.
Foi o movimento mangueBit e uma política cultural mais democrática e incisiva a partir de 2001 quem salvou a minha geração de playboys minimamente antenados de Boa Viagem. Em 2001 foi o retorno da esquerda à prefeitura do Recife, fato que não acontecia desde Miguel Arraes em 1960. No carnaval de 2001, eu já tinha 22 anos e estava no segundo ano da faculdade de medicina da UFPE. Fui testemunha ocular da extinção do Recifolia, foi como uma expulsão dos piratas, eu vi o nascimento do Carnaval Multicultural, um festival de música descentralizado pela cidade durante o carnaval com inúmeros palcos e atrações diversas, incluindo o maracatu, cavalo-marinho, ciranda, côco, caboclinho etc.
Para quem não conhece, é como aqueles festivais que se multiplicaram após a pandemia, sendo que em vez de 2 palcos, há dezenas, em vez de muros e ingressos caros, está espalhado pela cidade, bairro rico e bairro pobre, e é gratuito em pleno carnaval. Perdoem a síndrome de pernambucano, mas isso se unindo ao carnaval centenário e fantástico das ruas de Olinda, virou o melhor carnaval da Via Láctea que se sustenta até hoje, pelo menos até 2026, mas eu sei que os piratas sempre voltam, seja em Olinda, no Recife, ou alhures.
Ou seja, aquela produção famélica, de vergonha alheia, pisou no palco principal, subiu no trio elétrico. Nada contra o axé, eu adoro a música, o problema é o Estado sub mínimo na cultura, que abre as cancelas aos mercenários, que estão nas caravelas privadas e públicas. O problema é quando se apropriam das manifestações populares, sem dar royalties e créditos, para montarem uma indústria cultural e enriquecerem às custas dos marginalizados. Assim foi com o jazz, rock, blues, samba, forró, sertanejo, pagode e axé.
O problema é o monopólio, que no setor cultural pode ser mais devastador que no econômico, apagando a história de um povo, toda uma riqueza imaterial, que é a maior riqueza que nós temos.
Posso estar enganado, mas entendo que a presença de uma política cultural mais democrática em 2001 se deu muito graças à expressão que o mangueBit fez acontecer no país desde 1994, ano do lançamento do “Da Lama ao Caos”. Porque antes disso, Fred 04 já escrevera que após de 10 anos do Recife despontando como campeã das capitais nacionais de desemprego e inflação, só restava ao jovem aspirante a músico no início da década de 80 comprar uma passagem para a Europa.
Muito do cinema pernambucano desde “O Baile Perfumado” (Lírio Ferreira e Paulo Caldas, 1996) foi inflamado pelo mangueBit. Lembro de ver pela primeira vez com orgulho na tela grande um filme que tinha a nossa música, a nossa história com uma produção impecável. Quando eu choro nos filmes de Kleber, o Brasil não entende. Aquelas cenas longas de único take do Pina e da sacada do Cinema São Luiz, a Ponte Duarte Coelho e a Rua do Sol, em “O Agente Secreto”, são de partir o coração de qualquer recifense que o valha.
O que era o Recife da minha infância? Os olhos para Europa, a bunda para a cidade. Nada contra bundas. E toda esta reviravolta foi graças ao mangue e às políticas públicas.
Depois do mangueBit, muitos da minha geração largaram a guitarra e foram aprender pandeiro. Hype nesta época era ir ao interior para ver as manifestações in loco, passar uma madrugada inteira em Nazaré da Mata tomando cachaça e dançando maracatu rural na rua. Juntar a guitarra hendrixiana de Lúcio Maia, da banda Loustal, com o impacto percussivo dos gêneros regionais do Lamento Negro, foi quase uma epifania para a minha geração que não tinha vivido o movimento Udigrudi de Alceu, Lula Côrtes, Zé Ramalho e Marco Polo da década de 70.
Importante realçar aqui a capacidade diplomática, agregadora e de diálogo de Chico Science. No começo da década de 90 a galera do rock odiava a galera do axé, sertanejo e pagode, e vice-versa. Não foi fácil convencer a Loustal e o Lamento Negro a não só tocarem juntos, mas principalmente a criarem juntos, todos saírem dos seus pedestais e irem ao chão da plateia, o power trio produzindo e sendo brother das alfaias. O resultado foi uma das maiores bandas de todos os tempos, ainda em atividade.
E não só a periferia começou a mostrar a que veio (Devotos do Ódio, Sheik Tosado), na classe média tinha Mestre Ambrósio, Mundo Livre S/A, Eddie etc e até na classe média alta tinha Jorge Cabeleira, que eram da minha escola uns 3 anos mais velhos. Todos na MTV e com gravadora. Para a minha banda de rock do Ensino Médio que tocava Beatles e Jovem Guarda, era possível!
Foi uma ressuscitação musical, desde Gonzagão, de Alceu e Geraldo e dos psicodelismo dos 70, desde o Movimento Armorial de Suassuna, não se via nada parecido. Lembro que Ariano adorava, mas tirava onda, chamando Chico de Chico Ciência, para não dar o braço a torcer aos americanos. Em tempos de Trump e Bad Bunny, Ariano é um profeta. Eu tive o prazer de tê-lo ao meu lado, em pé, na plateia com quase 70 anos no lançamento de Olho de Peixe, disco de Lenine e Marco Suzano no pequeno Clube Atlântico de Olinda em 1994. A abertura foi do Mestre Ambrósio.
Uma lástima Chico ter morrido estupidamente naquele carnaval de 97. Em pleno carnaval! O mundo caiu para nós que frequentávamos a Soparia desde os 15, o bar cenário da cena mangue. Ouso dizer que em Pernambuco foi algo parecido para os brasileiros com a morte de outro francisco, Francisco Alves, o “Rei da Voz”, em 1952, também por acidente de carro. Todos os pernambucanos da minha geração lembram onde estavam e o que estavam fazendo. Eu estava na casa de um primo em Candeias pedindo uma pizza por telefone fixo.
Fui ao Abril Pro Rock de 97. No show do Nação Zumbi foi a primeira vez que vi um choro coletivo masculino fora dos estádios de futebol, o que era bem raro naquela época no Nordeste. A Nação mandou todos tirarem a camisa e rodar por cima das cabeças, pulando em homenagem a Chico.
Izaías Francisco de Souza Jr, o Chico Júnior, não era playboy de Boa Viagem, era classe média baixa de Piedade, bairro de Jaboatão dos Guararapes, da Região Metropolitana do Recife, bairro colado a Candeias. O impacto que o mangueBit criou nele o aproximou bem mais da possibilidade de ser um mangueboy do Rio Doce, bairro olindense de classe média baixa onde Chico viveu a infância e adolescência, apesar da distância entre Piedade e Rio Doce ser de 2h de ônibus. Na nossa adolescência ser cria era ser mangueboy.
Conhecemo-nos em 2000 na faculdade de medicina e nunca mais nos largamos. Precisávamos um do outro, eu do mangueboy, ele do playboy. Eu vindo de colégios e cursos pré-vestibulares da elite, ele tendo que trabalhar como caixa em estacionamentos de shopping, antigamente tinha funcionário na guarita da cancela, para pagar os cursinhos numa época sem cota. Ele entrou na faculdade com o mangue nas veias e todos os inúmeros projetos políticos que fizemos juntos na no Diretório Acadêmico de Medicina Umberto Câmara Neto lá estava o mangueBit.
Participamos em 2001 da produção da Festa Mangue, festa pernambucana para encontros estudantis nacionais de medicina. Fomos ao centro da cidade para encomendar painéis grafitados com figuras da cultura pernambucana para configurarem como cenário em uma enorme lona de circo para esta festa que aconteceu em Londrina/PR. Gravamos toda a discotecagem em um pendrive. Levamos e trazemos de volta tudo de ônibus, Recife-Londrina.
MangueBit: brodagem, diversidade e diversão. Assim como conceberam seus idealizadores.
Quando construímos a primeira residência médica de medicina de família e comunidade do Estado de Pernambuco, lá novamente estava o mangueBit como referência da criatividade na adversidade, a resistência em manter de pé a antena parabólica cravada no mangue. Lá estava o mangue com a sua ousadia: “e pode, é?” O natural seria nos mudarmos para Porto Alegre/RS, a residência médica melhor estabelecida nesta especialidade em 2006, mas dissemos não ecoando o groove dos tambores.
Chico Júnior não só conhece o Litoral, nasceu no Sertão do Araripe, morou alguns anos no Sertão do Baixo São Francisco e mora há anos no Agreste. É a pessoa mais pernambucana que conheço. Eu, por exemplo, estou há 18 anos no Rio de Janeiro, e só morei no Recife, até os 29. Só no Litoral, ele morou em Piedade, Recife e Olinda.
Ele inclusive divide a peça em atos cujos títulos são as grandes regiões do Estado. Ele não escreve de fora.
A Ópera Mangue está mais ligada esteticamente ao teatro de bonecos, o teatro reconhecidamente nordestino pelo IPHAN, do que com o modelo teatral de ópera europeia, mas a antena parabólica não pode cair, assim como a guitarra de Lúcio Maia e os instrumentos medievais do Movimento Armorial. E Ariano já dizia que precisamos criar uma liga entre Sertão, Agreste e Litoral em Pernambuco. Iza nos presenteia com a sua contribuição para este vaticínio.
Impossível não pensar também como referência no Teatro Popular do Nordeste, uma tentativa na década de 60 e 70, de criar “uma maneira nordestina de interpretar”. Um movimento vindo dos professores do recém criado curso de artes cênicas da UFPE: Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna, José Carlos Cavalcanti Borges, Gastão de Holanda e Alfredo de Oliveira, meu avô paterno.
Para quem não sabe, Chico Júnior, além de médico, também é professor de medicina da UFPE Caruaru.
A Ópera Mangue precisa também ousar na encenação, convidar grupos de pesquisa jovens e férteis do teatro pernambucano, para o elenco atores e atrizes de boas oficinas de teatro da periferia e da classe média, assim como produtores musicais e cenógrafos. Precisa ter a galera do brega, do slam, do terreiro, do frevo, os cantautores da MPB. Remix e originais. Conseguir juntar o morro e o asfalto, sem e com IA, fazer os prompts de raízes ancestrais diferentes dialogarem, injetar novos bits de criatividade no cyber rizoma, enloucrescer nossos futuros patrões. Um experimento, uma alquimia.
Lembro-me dele me falando da ideia da peça há mais de 10 anos, eu achando interessante, porém uma viagem de execução. Bom, a garrafa estourou no cais, agora é só seguir o barco dos editais., enquanto ainda temos editais.
A ideia do cortejo é genial, pois resgata a religiosidade do nordestino na rua, no coletivo e não dentro de igrejas privadas, um cortejo do Sertão ao Litoral, unindo Pernambuco numa época de cisão política, todos defendendo a riqueza cultural, que gera identidade, produção de sentido. O necessário ritual com a morte, que renasce em legado.
A escolha dos personagens, idem, os cânones políticos e culturais, de Zumbi a Josué de Castro, médico, ativista contra a fome no mundo, presidiu o órgão responsável pelo combate da fome na ONU na década de 50, e uma das maiores referências do mangueBit. Traz também referências atuais do brega e do slam.
A BR-232 que corta o Sertão e Agreste vira a nossa Route 66 beatnik, uma espécie de beber o morto e seguir em frente, uma prática difícil de ser entendida pelos cristãos e anglo-saxões, que vem dos bantos e iorubás e é comum no nordeste brasileiro, a vida não acaba aí. “a morte de Chico não era fim, era travessia”. Da BR para os rios, tudo dando no mar.
Quando vejo Bad Bunny no Super Bowl Half Time Show, impossível não imaginar o que Chico Science aprontaria se lá estivesse. “Viva Zapata, viva Sandino, viva Zumbi, Antônio Conselheiro, todos os Panteras Negras…” , inimaginável pensar que Monólogo ao Pé do Ouvido se tornou pop na década de 90, Collor, FHC, FMI e Banco Mundial ditando a cartilha econômica de como os países periféricos deveriam se portar. A manutenção da colônia, agroexportadora de mão-de-obra barata, para não dizer semi-escrava.
Culturalmente, a globalização na década de 90 era um lobo em pele de cordeiro, utilizando a estrutura do capital para surrupiar as riquezas imateriais locais, mais uma estratégia aparentemente fofa do imperialismo. Acho que a melhor imagem-objetivo do mangueBit para tal é a Afrociberdelia.
Quando o Mangueboy com voz firme profetiza: “Ele não se foi… ele virou maré”, é como se houvesse uma necessidade de, sempre quando estivermos confortáveis e alienados, esta maré produzir a náusea necessária para sairmos do lugar de mediocridade dos nossos selfies. “Quando a maré encher!”
Segundo Chico Júnior, “cada vez que um aboio se mistura com um beat, cada vez que uma rabeca responde a uma guitarra…” o mangueboy e a manguegirl são despertados. O coração de terra e o trovão elétrico.
Espero muito que vocês se despertem e consigam seguir este cortejo nos palcos do Brasil e do mundo.
*Bit: unidade mínima de toda informação. Escreverei aqui mangueBit, em vez de manguebeat como ficou conhecido, pois foi assim que Fred 04, Renato L e h.d. mabuse conceberam o movimento no início.
Referências:
A Grande Serpente: poéticas da criação do MangueBit. Paula Lira. 2014.
Da Lama aos Caos (O Livro do Disco). Cobogó. Lorena Calábria. 2020.
Teatro Popular do Nordeste: o palco e o mundo de Hermilo Borba Filho. Cepe. Luís Reis. 2018.

