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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Febre e paixão


Entrei na faculdade para ser cirurgião, adorava os desenhos de Andreas Vesalius e a personagem do Dr. Benton, do Plantão Médico, que conseguia trabalhar sob pressão, como se protagonizasse qualquer última cena de filme de herói. Curtia gazear aula e ir à biblioteca e seu silêncio no Centro de Ciências da Saúde, da minha amada Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para folhear As Bases das Técnicas Cirúrgicas e Anestésicas.

Desisti da vida de bloco assim que entrei como estagiário da Sala de Trauma do Hospital da Restauração e vi os modos com que um R1 de cirurgia era tratado pelo seu preceptor e, com maior gravidade, como essas equipes lidavam com os pacientes. Nunca pensei em carreira militar. A hipótese de ser recruta após a graduação e me expor a relações tóxicas nas décadas seguintes me brocharam.

Pensei na cardiologia e suas subespecialidades intervencionistas, tipo hemodinâmica, e marquei presença nas sessões clínicas do Serviço de Cardiologia.

Costumava me sentar no fundão e me deliciar com os casos complexos de cardiopatias diversas. Um dia percebi que havia dois gringos ao meu lado, mais velhos e cascudos. Ao término de um caso sobre cardiopatia reumática, a dúvida pairava sobre a indicação da prótese valvar, se mecânica ou biológica, pois os dados nos levavam à fronteira da conduta. Após a discussão, perguntaram aos gringos, professores cubanos velhos e cascudos. No podemos hablar del caso, pues en Cuba no hay fiebre reumática. Vupt! Por que?, voando para cima deles, frequento o maior ambulatório de febre reumática do Nordeste. Porque en Cuba la gente tiene acceso a médicos y antibióticos. Corei. Saí da sala não encontrando sentido na beleza clínica da sessão.

“Vai pra Cuba!” de 2013 me soou antiquado. Em 2004, no 5o ano, parti para Havana graças ao Núcleo Brasil Cuba da Diretoria Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, viagem que deu um ziguirau na minha vida até hoje.

Fui da turma 108 da UFPE, a última do currículo velho, apenas um ano de internato e zero sobre Atenção Primária à Saúde (APS). Ao final do 5o ano nem sabia que Medicina de Família e Comunidade (MFC) existia. 

Nós, estudantes de medicina brasileiros, boquiabertos com o número de equipes, a cobertura populacional, a relação dos médicos com o território, a comunicação entre níveis assistenciais e, sobretudo, com a vida pulsante e musical de Havana. Gravamos 10h de vídeo com câmera profissional da UFPE, apelidada de La Poderosa, inúmeras entrevistas, incluindo Aleida Guevara, filha do Che, pediatra em um hospital de cardiopediatria. Um dia produzirei este documentário.

Voltamos com metas palpáveis de se fazer uma revolução socialista no Brasil, mas nos contentamos em iniciar um movimento para emplacar a primeira residência multiprofissional na APS em Pernambuco. A inesquecível Liu Leal, minha contemporânea na universidade, pertencia ao grupo. Como havia um edital nacional aberto para estimular o aparecimento de novos programas de residências em Medicina de Família e Comunidade (PRMFC), saímos do coletivo e escrevemos o projeto do primeiro PRMFC de Pernambuco, ligada à UFPE. Isso mesmo, em 2005 internos escreveram o projeto de uma PRMFC.

Não satisfeitos com a ousadia, além do estágio optativo, inventamos mais dois, cada um com 30 dias de duração: o estágio integrativo, onde rodávamos em um serviço do SUS recifense que ofertava apenas práticas integrativas: acupuntura, homeopatia, fitoterapia etc; e o estágio estratégico, no assentamento do MST em Gameleira/PE, uma zona de conflito. O objetivo era iniciar a territorialização, abordagem comunitária, atendimentos e visitas domiciliares. Uma das maiores experiências da minha vida, passava a semana no assentamento e voltava para a capital aos fins de semana, sentindo-me num livro de Sebastião Salgado. A residência multiprofissional aconteceria uns 3 anos depois. Liu viveu para ver.

Quando falo “nós”, Izaias de Souza Jr., Vitor Hugo Lima Barreto, Júlio Lins e eu, um grupo ligado ao movimento estudantil e, principalmente, aos projetos de extensão Bulicomtu e O Caminho. O professor Oscar Coutinho e o recém egresso do PRMFC do Murialdo (RS), Rodrigo Cariri, nosso mestre dos magos veterano querido, encabeçaram a coordenação. Tornamo-nos R1s e, ao mesmo tempo, co-coordenadores. Era inimaginável, um retorno à década de 70 quando as primeiras residências brotaram no Brasil. Toneladas nos ombros.

Apesar de toda a insegurança de egresso e de R1s nessas condições, apesar de a maioria dos preceptores locais não ter título de MFC, não podíamos abandonar o barco e nos preparar para uma outra residência. As outras gozavam de um serviço experiente e formado, cronogramas já estabelecidos, onde residentes não precisavam articular com ninguém para garantir os estágios, prezar pela qualidade da carga teórica e nem prestar relatórios à Coreme.

A sensação era a de que a inserção de uma nova especialidade na medicina pernambucana dependia apenas da gente. Em parte era verdade, mas de outra, esta sensação guardaria um sentimento coletivo destruidor entre MFCs, que falarei mais adiante, a síndrome de super-homem.

Decidimos morar juntos, iniciando uma república, A Casa dos Macacos, cuja história contamos melhor em um livro homônimo. Aos trancos e barrancos, terminamos a 1a turma. Foi tão intenso que ao final do R2 migrei para o Rio, onde moro até hoje, e passei 2 anos fazendo mestrado e trabalhando em plantões de emergência sem querer saber de APS.

Voltei à MFC em 2010 em Niterói, ano de uma terrível enchente que conto no blog Riocife. Em 2011 assumi uma equipe como primeiro médico na Penha, Clínica da Família Felippe Cardoso, no início da reforma da APS no Rio e fui preceptor da 1a turma da PRMFC da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (PRMFC-Rio) em 2012. Para encurtar, passei 6 anos como preceptor, PRMFC-Rio e PRMFC da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fui professor de APS na UERJ por 5 anos e desde 2018 sou professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tive a imprescindível experiência de ser médico de equipe sem PRMFC, 20h por semana, de 2016 a 2024. Desde que ingressei na APS do Rio, passei por 9 unidades, sentia-me um Vinicius de Moraes da APS. Anti-longitudinalidade, mas fiel às paixões. 


Da sessão de cardiologia na UFPE até  eu assumir como preceptor de residência, a resposta ao “Por que MFC?” tinha mais a ver com um sentimento de missão, afinal era o que o SUS mais precisava, a taxa de cobertura naquela época era vergonhosa para um sistema universal de dimensões brasileiras. Também havia uma ideia de retribuição por ter cursado seis anos de universidade pública. A sensação de poder trabalhar alguns turnos da semana em visitas domiciliares e, sobretudo, montando grupos com a população, que poderiam ser de tabagismo a teatro, calcados na educação popular em saúde. Um atrativo gigante para um jovem que sempre quis conciliar medicina e arte.

No entanto, inexistia até então um encantamento pela clínica em si e pelo oceano das habilidades de comunicação, pois todo este universo era praticamente ignorado. A cirurgia ambulatorial é possível! Não há nada melhor do que residentes e internos indentando-nos os calcanhares, empurrando-nos a melhorar nosso tempo de maratona.

A partir daí, o tesão se concentrou na qualidade da consulta. Como proporcionar uma consulta e seguimento para usuários do SUS com uma qualidade superior do que muitos privados? O objetivo seria impressionar aquela pessoa já amplamente castigada não só pelo setor público de saúde, mas por todos os outros.

Retirando-se os 2 anos que passei fora da APS, já se vão 16 e uma aposta na docência atrelada à assistência, o medo do encastelamento acadêmico e, ao mesmo tempo, da roda viva dos serviços sem respiros para o necessário afastamento reflexivo. Em contrapartida, a pergunta “Por que continuar MFC?” rodopia o divã e vem me paralisando na encruzilhada.

A forma canhestra como reproduzimos um modelo de acesso da saúde privada californiana do final do século XX, e já criticado em vários cenários, em morros cariocas e periferias urbanas vem promovendo um descontentamento coletivo, uma alta rotatividade de profissionais e, o pior, adoecendo multidões.

O horror que tínhamos da velha agenda programática engessada nos aproximou de soluções utópicas para a nossa realidade, os erros de vieses na implementação são catastróficos. Uma população completamente diferente, equipes supersaturadas e nenhuma adequação entre oferta e demanda transformaram o acesso avançado no monstro do acesso arrombado. A gestão bate palma para os números.

E aqui retorno à síndrome de super-homem. O que mais me aflige é que a hipomania, regente dos chegados a esta especialidade, ajudou-nos a naturalizar, quase como um valor cultural. A tentativa de organizar o acesso soa quase como um cancelamento.

Não preciso repetir o quão insuportável é atender aquela imensa complexidade em tão pouco tempo, sem contar o excesso digital competindo com os minutos da consulta: prontuário à manivela, exames e suas impressões e registros, solicitação de exames e consultas para a atenção secundária em outras plataformas, interconsultas várias, renovações de receita indecorosas, passes livres para transporte público etc. O trabalho de vigilância invariavelmente invade o turno da visita domiciliar. Grupos? Abordagem familiar e comunitária? Sobrou apenas um “M” velho e frustrado, o Sr. Queixa-conduta.

Sem contar nos últimos anos da falta de itens essenciais de medicamentos e insumos nas unidades de APS do Rio que faziam Austrália, EUA e países da Europa sentirem inveja. 

A eterna sensação de que não dispomos do tempo suficiente para quem mais precisa, a equidade ferida no meio do peito.

Ou a gente coloca isso no centro da mesa, feito a tora cheia de cupim da Sônia Braga no filme Aquarius, ou destruiremos com tudo. Eis a minha encruzilhada: sinto-me acanhado para estimular graduandos a escolherem MFC.

O que me resta de esperança é estar completamente errado. Por que continuo? Porque tenho a certeza de que escolhi a especialidade certa, porque existem estudantes e residentes que me lampejam, porque o SUS ainda é o principal empregador de médicos do país. E em se tratando do maior sistema universal do mundo, tudo pode acontecer.

Por último, continuo especialmente por causa desta gente que carrega o Brasil nas costas e que me ensina todos os dias que meus white people problems são quite ridiculous.

Resisto porque não tem outra maneira de um médico classe média branco encarar a cidade de Deus, cuidar e ser cuidado por este torto arado chamado Brasil.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Eu sou o que der na telha, nem que seja por quatro dias

Meu filho mais velho, do nada, disse que queria conhecer o samba. Quase chorei, como as suas fases de gosto são intensas, ele estava há meses encalacrado no funk, havia descido a ladeira: Beatles, Raul Seixas, rock clássico, funk carioca podrão. Ninguém aguentava mais, daí veio a redenção. E sabe mais, papai? Eu sou Portela e queria ver um bloco de carnaval.

“É feito uma reza, um ritual / É a procissão do samba abençoando”, pensei logo em cura espiritual.

Levei-o no último sábado ao Cordão Umbilical, bloco infantil perto de casa, só para ele prestar atenção na bateria, pois estava interessado na caixa, apesar de ter ganhado de presente de Natal uma guitarra.


Chegamos em ponto, o bloco atrasado. Para não desanimar fui falando quem eu conhecia e as músicas dos crias do samba. O interesse pelo samba nasceu do interesse da estética cria, pelo que entendi é o protótipo da criança da favela que usa colares, boné de lado e possui a tão sonhada liberdade de ir e vir sem precisar da companhia dos pais. É tipo um malandro herói, Antônio Balduíno e Pedro Bala, para ficarmos com as personagens do Amado.


Foquei nos crias Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Geraldo Pereira, claro que não falei que nenhum desses usava boné de lado.


A bateria chegou e esquentou, a sua primeira pergunta foi onde está a cuíca? Fiz questão de chegar perto e lhe explicar como este instrumento produz aquele som mágico.


Antes de ele perder interesse na música, pois queria ter visto uma bateria de escola de samba e estava à procura de um amigo, fomos reparar nas fantasias.


Particularmente, gosto de sair no carnaval com fantasias próprias, nada de pierrot, pirata ou super-homem. A não ser se a minha avó paterna, Hercy, figurinista do Teatro de Amadores de Pernambuco, costurasse alguma dessas para mim, pois ficava top profissional na minha infância.


Passei uma vez o Halloween em Nova Iorque e descobri o carnaval deles, a produção de fantasia é muito séria, compras com muita antecedência, fantasias nos trinques. Não gosto disso, muito sério para mim não combina com carnaval. Eu quero justamente nos quatro dias ser o mínimo sério possível, dissolver o juízo ao máximo.


Foi uma dificuldade para sair de casa, havíamos pensado na fantasia familiar Stranger Family, uma ótima ideia da minha companheira. Pedi um logo para o Gemini e imprimi colorido em papel fotográfico.

A minha ideia seria sairmos com roupas estranhas, bermuda na cabeça, camiseta nas pernas, chapéu amarrado na bunda, por exemplo, e cada um com a placa pendurada.

A oposição queria que cada um se fantasiasse de um personagem da série, o que seria impossível na véspera do bloco, teria que ter uma produção tipo Halloween.


Discordantes, desistimos da ideia, guardarei as placas para outros carnavais, mas me mantive fiel à ideia e fui com uma cueca velha na cabeça, como se fosse uma touca. As pessoas só suspeitavam se chegassem perto. Quando eu sairia com uma cueca na cabeça? Uma das magias do carnaval. A outra é conversar como personagem com outros personagens fantasiados. O meu filho nunca tinha conscientemente visto isso, foi um espanto.


Vi um cara fantasiado de Bad Bunny, aquela roupa creme, segurando a bandeira de Porto Rico, assim como no Super Bowl. Ah, eu havia dado uma aula para os residentes do 2o ano da Residência de Medicina de Família e Comunidade da UERJ naquela semana, Arte, cuidado e política, e havíamos discutido a potência da arte no bojo do sistema hegemônico e como é gramsciana a estratégia de corromper por dentro, tornando-se patética a nudez do rei.


Nas férias de janeiro assisti em partes, após os meninos dormirem, Uma Batalha Após a Outra, que tem tudo ver com a temática do Bad Bunny. Há uma cena em que a personagem de Di Caprio, em apuros, grita para a personagem de Benício Del Toro, ambos auxiliam a imigração de mexicanos na fronteira: ¡Viva la revolución!

Pois bem, meu filho achou muito estranho quando fui falar em espanhol com Bad Bunny e depois, todas as vezes em que nos encontrávamos, eu gritava: ¡Viva la revolución!, e ele ¡Viva!

Deve ser bem estranho mesmo assistir pela primeira vez na rua este código do carnaval. Na quinta-feira, tudo volta a como era antes.

Sobre a cueca na cabeça, ouvi tanto recriminações quanto apoios, na próxima vem com aquela mais surrada, com os furos.

Importante, meu filho, é que o brasileiro tem 4 dias no ano, às vezes um pouco mais, para ser o que der na telha. Quando a gente não faz isso, o ano começa mais triste e existe uma grande chance de ficarmos dodóis. Seja cria, ou seja doutor.

  


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Morte, folia e a redenção da borboleta

O Bloco do Chapéu em Quatis estava marcado para às 11h. Chegamos antes disso, eu com um capacete de operário que achei por acaso e sorte no cabide de chapéus da casa onde estava esplendidamente hospedado. Digo sorte pois o material e design deste tipo de chapéu são os ideais no sol a pino, melhor que chapéu de palha.

De cuca fresca, de gelada em gelada, nada de bloco na concentração do Bar do Juarez. Vi um casal colorido numa calçada na moldura da loja funerária, não me contive de pedir uma foto.

Antes da banalização das imagens, na época dos rolos de 12, 24 e 36 eu amava tirar fotos da rua e das farras. Sentia-me um cartier-doisneau recifense. A economia do olhar, às vezes restando um único tiro, sem grana para comprar mais rolo. Perdi o tesão depois que percebi que a fotografia ficou mais importante que a experiência, ao ponto de a próxima espécie na evolução quando cascavulhar HDs daqui a centenas de anos sentirá vergonha alheia.


Mal sabemos que aquela quantidade inútil de fotos, que temos preguiça de apagar, é um entrave para a nossa comunicação com esses outros seres que já tentam contato. Lixo virtual entupindo as redes, enchente evolutiva. Eles compreenderão que a humanidade entrou em derrocada depois da invenção do selfie. O selfie foi a espada na aorta do Homo sapiens sapiens, espécie que surgiu para viver em comunidade.


No entanto, ouvi num podcast recente que o projeto Sanctuary on the Moon levará 24 discos de safira para serem enterrados numa cratera da Lua. Uma porrilhão infindável de terabytes com o que temos de melhor em textos, imagens e vídeos. Cartier, Doisneau e Salgado estarão lá.


Por que a Lua? Porque este planetinha lindo vai puf! sair do mapa via lácteo devido à nossa incompetência, por que as metrópoles acharam rudimentar demais os povos originários chorarem quando uma árvore era derrubada e um rio aterrado. Mas voltemos ao carnaval que é o que nos resta.


Já se passava do meio-dia quando o garçom anunciou que a demora se devia a uma senhora que morrera naquele domingo de carnaval, o atraso era uma manifestação de luto. Todos coloridamente à caráter, entre a funerária e o hospital da cidade do Médio Paraíba fluminense ficava justamente o Bar do Juarez. Concentrava-nos na real para um cortejo.

O Bloco do Chapéu deu largada e em menos de 100 metros o som foi silenciado, passávamos pelo hospital, onde provavelmente a senhora havia sido internada. Puxei uma salva de palmas aos que não poderiam sair do leito e pular um frevo.


O cortejo foi breve, algumas casas generosamente montaram um cano longo com um chuveiro na ponta que dava para a rua.  O carro do som, sim infelizmente som mecânico, fez um recuo e por ali a folia esquentou.


Em meio a pulos e pontapés, um amigo encontra uma borboleta abrindo e fechando sincronicamente suas asas violáceas respingada de laranjas, pousada em um paralelepípedo de 50 graus. Uma linda sobrevivente, que escapou da marcha de tropas desgovernadas e muita lama. E se mantinha ali num balé popular, o axé comendo no centro e ela toda contemporânea.


Meu amigo a resgatou pelas asas e ela voou num céu azul total.


O último adeus à folia de Quatis.


Arrepio de carnaval

Uma paciente agendou comigo uma consulta na manhã da última sexta de carnaval. Cheguei antes da hora, peguei a rua Jardim Botânico prestes a fechar para blocos. Humaitá e Botafogo livres. Desci em frente ao empresarial na Voluntários. O consultório fica no nono andar. Na fila dos elevadores ímpares, duas mulheres de meia idade batiam um papo às 8h50. Pelo que entendi, uma estava em busca de outro consultório, e a outra era a ascensorista dos elevadores ímpares. Nós três adentramos assim que abriu.

- Acabei de passar pela Presidente Vargas, tão fechando tudo - disse a paciente com ar de recriminação. A ascensorista só acenava com a cabeça. - Daqui a pouco vai ficar aquela loucura, nessa semana já levaram o celular de duas amigas - a ascensorista fechou os olhos e inspirou lenta e profundamente.

Sentada em sua cadeira metálica, abriu os olhos e nos encarou, mostrou o antebraço esquerdo, e com o indicador direito foi pendulando por cima, a voz com um quê de saudade e papo reto:


- Olha só como eu fico.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

o puxador de sonhos

Não era São João. Quando ultrapassei a porta pela primeira vez, o lençol o embalsamava. Em poucas circunstâncias, ele cedia, arreando a barra para debaixo dos olhos. Ele estava vivo, mas se fazia de morto. José era o paciente mais difícil para a equipe de enfermagem do 9º- andar do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco: recusava medicação, diálogo, comida e procedimentos. É daqueles que causa rebuliço de vozes pelo corredor:

- José hoje tá que tá!

- Oxe! Se quiser morrer, que morra!

- Bicho cabuloso, se não quer ajudar, que dê a vaga pra outro...

Em nosso primeiro encontro, não me lembro ter dito mais de duas frases, recheamos nosso espaço de silêncio em aproximadamente uma hora. Eu sentado, ele se fingindo de morto, embrulhado da cabeça a baixo pelo lençol bege. No final mandei um “até mais ver”. Na outra semana, também numa segunda-feira e num horário semelhante, estava eu, a cadeira, o embalsamado e um violão como um novo visitante. Falei menos ainda, no entanto o silêncio foi quebrado por alguns acordes desarranjados. Às vezes parecia que ia dar numa canção, em outras se desgarravam, talvez num impulso de começar tudo de novo. O lençol escorregou embaixo dos olhos, o tempo da visita terminou, outro até mais ver. Ao sair da enfermaria, onde ele estava “sepultado”, apertei o botão do elevador e olhei meio desconfiado para o violão dentro do do seu case preto.

Estava no início do 3º- ano de medicina e pertencia a um grupo recém-fundado, “O Caminho”, que já pintava umas fachadas estranhas, porém interessantes aos olhos alheios na velha estrutura do hospital universitário. Eram grupos pequenos de estudantes que iam visitar toda segunda à tarde pacientes que, antes da primeiro encontro, nunca haviam se visto. Um projeto de extensão universitária. Havia música, teatro e até um espaço para se assistir a filmes, escolhidos pelos próprios pacientes, chamado “cine-enfermaria”. E ainda se discutia notícias nacionais e internacionais através de jornais e revistas novas.

Como eu era um dos veteranos do grupo, as auxiliares de enfermagem desse 9º- andar, que eram parceiras do projeto, incubiram-me da tarefa mais difícil: “dar um jeito em José”. Uma estudante desse grupo já havia tentado, mas havia se frustrado em lágrimas.

Conforme fazíamos, antes da primeira visita não recorri ao prontuário para saber de sua história clínica, o que era um dos objetivos do projeto: despir-se do jaleco, abrir-se da defesa da impessoalidade. Apenas por volta do terceiro ou quarto encontro, descobri que José, um jovem de trinta e algo, havia sido vítima de uma tragédia, já banalizada pela imprensa: teve sua bicicleta roubada e um projétil de arma de fogo lhe roubou o prazer de andar com as próprias pernas.

Naquela hora vi o errado que abraçava o mundo, um cinto apertado na linha do Equador. O roubo, o bairro chamado Linha do Tiro, seres humanos que ganharam dinheiro na fabricação e venda daquele revolver e daquela bala, acontecer isso em quem muitas vezes só tem as pernas como opção de meio de transporte, a pele parda, o estreitamento do caminho, a esperança encurralada.

Por trás da tragédia, havia um palco com outras possibilidades sobre o qual me apoiei e compreendi o porquê da música servira como um eficiente instrumento de comunicação entre nós. José havia passado grande parte da vida num posto social que o destacava perante seus vizinhos. Era “puxador de quadrilha”, daquelas estilizadas com visibilidade na imprensa durante o mês de junho. Coordenava e planejava a coreografia, as cores dos vestidos e das camisas, escolhia as músicas. O baião e o forró eram seus gêneros musicais prediletos. Mobilizava a comunidade onde morava, injetava em bolus ampolas de vida no terreno da violência. Era, na real, um puxador de sonhos.

No terceiro ou quarto encontro, já trocávamos algumas palavras e a barra do lençol já se encontrava na linha do tórax. Depois disso, não lembro em qual visita, propus que coordenássemos dentro da enfermaria uma quadrilha fora de época. Não sei bem se sua expressão na hora era definida, mas se percebia que ali estava se iniciando um duelo entre o possível e o improvável. Pois o impossível já se vinha diluindo desde o silêncio, quando José se fingia de morto.

As cinco semanas seguintes foram de puro trabalho: pesquisa da origem das quadrilhas (descobrimos que os matutos dançavam passos de nobres), escolha do repertório, elaboração dos diálogos do padre, noivos, delegado, dos sogros, de todo aquele teatro. Acho que foi a primeira vez que o vi sorrir.

 Chegavam as auxiliares de enfermagem e elas me agradeciam. José não só estava se alimentando melhor, como também estava colaborativo com as medicações e os cuidados de higiene. Eu levava toda semana um micro system e alguns CDs de forró e baião. O ano era 2002. Ouvíamos, discutíamos sobre as letras e acabamos elegendo o repertório em cima de uma coletânea de Dominguinhos. Por algum tempo, o parceiro do leito ao lado, eram dois nessa enfermaria, nos ajudava, pois além de gostar das canções havia cantado na noite.

Lembro-me de uma tarde memorável um pouco antes da quadrilha. A noite já caía e com pandeiros e violão, auxiliado por outros parceiros do projeto, fizemos uma mini-serenata. Acabamos registrando tudo em vídeo. O côco comia no centro, José já sentado com o encosto da cama levantado, a barra do lençol nos pés, batia palmas, remexia o tronco e dava gargalhadas.

Voltei para casa espantado com o poder da música. A depender de sua manipulação, um instrumento tanto do cuidado quanto do descuido. Faz as pessoas sentirem saudade, medo, força para viver, melancolia. As cornetas que ajudam nos campos de batalha um homem matar um desconhecido, o ilú do candomblé que favorece o transe e convida as entidades a participarem da dança, o hino do time que amolece os corações mais endurecidos, a música do casal que acabou de completar bodas de metais preciosos, e do outro casal, no mesmo baile, que acabou de se apaixonar ou se desfazer. A música da paixão, a música da guerra, a música da evocação dos deuses. Às vezes a linguagem do próprio divino, do religare.

Em outra circunstância, ele me deu a impressão que iria desistir, como se percebesse que aquilo não passava de uma palhaçada. Estava na cara que não daria para ele voltar ao que era e que, de volta à comunidade, terra onde não faltará dificuldade a mais, sentindo-se em um navio afundando, o corpo inútil que tem um certo peso jogado ao mar, ele temia ser escanteado quando da sua volta. Se a ausência de carro ou van para transportar a quadrilha para os ensaios e apresentações já era difícil, imagina agora sem pernas e numa cadeira de rodas? E se conseguir uma cadeira, pois até agora ninguém havia se pronunciado... Era melhor ter morrido, era o que eu ouvia muitas vezes nos subterrâneos do seu silêncio.

Não era São João, mas o hall da enfermaria do 9o andar foi enfeitado de bandeirinhas e balões e era palco de desfile das matutas dos mais coloridos trajes. Chapéus de palha repousavam junto aos pés-de-moleque e pamonhas em cima de uma mesa. Apareciam novos cavanhaques e bigodes a lápis de olho. Foram convidados pacientes, acompanhantes e profissionais não só daquele andar, mas também de outros.

Chegavam em cadeiras de roda, sustentando os soros, outros carregavam bolsas de enterostomia. Ali abatidos, acolá se mantendo em pé, aqui um que acabou de receber alta e comemora a ida em alto estilo. José, já portando um daqueles chapéus, engatilha o microfone e convida os casais para um passeio na roça. Havíamos ensaiado umas duas vezes, eu ali servindo de “assistente de direção” fazia a ponte de comunicação, pois ele se aborrecia com os passos em falso e a falta de sincronia. No dia D não deu para perceber deslizes.

Ele ia a toda com a cadeira de rodas, como se abrisse o Mar Vermelho “cavalheiro de um lado e dama do outro”, ai quem ficasse na frente. Parecia estar segurando uma batuta e se descabelando perante uma orquestra.

Pouco tempo depois recebeu alta, ganhou uma cadeira de rodas de uma instituição beneficente e ensaiava o retorno para casa. Senti um banzo de ter perdido um amigo quando encontrei o leito vazio. Prometi-lhe uma visita, levar um VHS para assistirmos ao vídeo da quadrilha. Não consegui, a roda-viva me abocanhou. Não sei se vive, ou se já puxou outras quadrilhas depois disso. Tomei-o como exemplo de superação. O seu amor pela dança e pela música arreou o manto da desesperança, empurrou-o a se levantar, mesmo sem as pernas.

Agora não era mais São João. Era São José. José são.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

sonhos e arpões

para Sebastião Salgado e Miró da Muribeca

O cara do biscoito no sinal
amolece a patricinha doce
que dirige um porshe
ela faz coraçãozinho
o laranja acende a janela
ela e o porshe
Jorge era o cara do biscoito

A amargura em pessoa devora
com sinceridade e angústia um sonho
escorre água salgada no rosto do arpoador                  
um sonho é devorado em frente ao mar
armagura em doce de leite
lágrima flor de sal

A brisa resseca meu sorriso de infância
é só um sonho que me resta
quem tem um barco? uma chuva que me aqueça?
tem muita graça nesta prancha do Seixas

O divino sorriso preto da Jamaica
em Hackney

Nesta bolsa da moça imersa em sobriedade
a resistência hippie chilena
sexo pictórico
células de um tecido abstrato
estriadas, eriçadas
tinta tesão

Beijo a pinacoteca inteira

Menina grande com dedo na boca
volto pro colo, me encolho
cadeira de rodas gira o coração em memórias
e o pôr do sol senta na cadeira
vislumbra sem rodas os olhinhos de orvalho

Embasbacados é o nome da música
que venderei no atacado
A bossa do samba é o funk do bamba

Os Dois Irmãos gostam é de sossego
brincam no play da orla
juntinhos no cobertor de folhas

O piano do Tom embaraça os cabelos da menina
a natureza grande faz a gente se sentir miúdo
e bonito
aperto os olhos pra ver se Deus tá vendo

Vem sem medo contra um vento sudeste
a oeste de quem tem saudade
repete o mantra
olho marejado não tem idade
Marujo! É por ali o leme do teu norte!

A proa divide vento, ressoa os dados da sorte
na poupa só músculo
estriado cardíaco
coração de poupa
no final, água só
Carbono e nitrogênio
náufragos
o ovo aberto no verão

Tudo será elemento
Re li ga re
um instantâneo sem Insta
nunca mais insista
em aterrar
o que não tem mais jeito

A música salva
até em lua nova
Afro Roda
Fela fala, follows
felow feelings
Coreana, baixo, baixo, baixo
Calote de Volks
gira please percussão PIX it

Acordou saxofone, dormiu trombone
Mengo a caminho da Gávea
e o Vidiga?
pisca, pisca, pisca

Sextou na cesta
e ninguém deixa a fumaça cair
o vento espanta o medo abafado
rouba o trono da primavera

Uma gota aqui uma louca lá
e a fumaça se afasta
apesar da brasa teimar acesa

À tardinha, o Rio tem sede
correnteza de drinks
a terceira margem do chopp
li que Demi Moore topou
um remake de Ghost

De braços abertos chega uma saudade
Capiba no leito arterial
é tudo Recife
de que importa se a aorta tem cacife?

Saturno é um véio sábio ranzinza
e mandinga é palavra gostosa d'África

Os Dois Irmãos vivem de abraço
mesmo na briga uma luz escorre da barriga
e acende o mar

Do lado de lá, uma mensagem de zap te espreita
se esconde atrás do poste
tacape no post!
fight pós night

pode ser nice uma vida sem bright

Um rasante fim de tarde de um pombo botafogo joga uma tinta no azul distraído
lá na Quinta a gente se vê
e se cumprimenta no pé do ouvido

O sol não sabe qual é a praia
nunca ouviu falar de Ipanema, Garapuá, Boa Viagem ou Tamandaré
da menina com tatuagem no peito que passeia de bike elétrica
da prancha que tem apenas um astrodeck e o resto parafina
nunca soube como é bonito o beijo que ele próprio assinou
direção e iluminação
que se não fosse por ele
o carbono não teria paquerado com o nitrogênio
e a cor seria para sempre triste
não há samba e frevo sem ele

Mas hoje
ele tomou ciência
algum meteorito já cantou a pedra
a beleza estalando em cada grão
pele pedrinhas espuma
no riso de graça
graças a ele, o olho no olho não cegará
a esperança
de uma dia a gente se encontrar

se espreguiça yoga
e faz um carinho quente no Vidigal

Brisa atrasada de outono
dizem verão
mas pincelaram o mar cor de chumbo
as ondas ocuparam em protesto a nossa atenção
Inventa algum cartaz, o coro no repeat
alguma dose que esquente o nosso medo de amar
é só silabar que a melodia chega

Cobre os pés pra fora da canga
do casal que não queria dormir na areia
mas uma fragata me peitou ventania
engata ilha, me canta o segredo
incendeia

Nós frio laço cria
cutuca bala
pix tio
é Rio
bagaço
uruca
pedala
insiste
partiu

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Carta para os fiotes: pintos, pepecas e furicos

Meus amores, à jato e aterrisando com peso de jumbo as perguntas sobre sexo pousaram na nossa sala. Vocês embolarão de rir na adolescência.

Tomás sempre foi um radar, como um bom geminiano com ascendente e mercúrio em gêmeos, ou seja Tomás não é, Tomás são. Um dos primeiros da turminha a trazer novidades, o que espicha os ouvidos para conversas de adultos, mesmo longe. Sempre buscando o que está fora do alcance, um dos primeiros a ler da turma e a se interessar por filmes, livros e séries fora da idade. É tipo um planetário.

Desde os 8, pode ver 12 anos e 14 apenas com o papai, protetor do veto caso a barra fique pesada, o que não deu certo da última vez quando dei stop no anime Jujutsu Kaisen na cena em que a melhor amiga e noiva prometida do protagonista, na ocasião com uns 7, é atropelada na sua frente e a assombração que a persegue toma forma a partir do seu sangue e vira um monstro aterrorizante, escorre rumo ao protagonista e, com sangue escorrendo, clama: casa comigo, não me abandone… Desliguei na hora e foi um escândalo, daqueles de estrelas de Hollywood.

Fiotão, a dramaticidade dos seus paranauês lembra muito seu avô e meus tios da família Oliveira. Muitas vezes vejo o meu pai nos seus palavrões, e isso confirma que sabemos muito pouco ainda do poder da genética, que certamente está entrelaçada com a espiritualidade.

Vivico, como irmão mais novo libriano tenta pôr panos quentes, herdou a minha temperança paz e amor, por isso boto-lhe pilha no Itamaraty. No entanto, como todos mais novos, é um exímio pescador sobre o que os mais velhos se interessam, e tendo-se um irmão complexo midiático ambulante, vai sugando mais rápido do que outros caçulas.

Enfim, o interesse por terror, violência e sexo está cruzando o campo da gravidade terrestre. Nada de novo no front. Não precisa estudar comunicação para saber que sangue e sexo hipnotizam nossa espécie.

Mal sabem vocês, fiotes, que ser criança na década de 80, quando os pais não se importavam muito com o que consumíamos, pois tudo era limitado sem a internet, fazia com que fôssemos liberados para Freddy Krueger, Jason e pornô, alugados em videolocadoras marginais.

Particularmente, tive uma infância de uma psicoeducação esquizo, bem bífida, imiscível. De segunda a sexta vivia com mainha, funcionária pública, altamente organizada, ascendente em virgem, que contava os tostões para para o fim do mês, minha maior professora de virtudes e vida estoica, a solidariedade, a disciplina, a responsabilidade, a honestidade, um coração que não cabe no infinito.

Já entre sexta à noite e domingo, e nas férias, estava com meu pai que naquela época era uma mistura dionisíaca-beatnik com dinheiro no bolso: o importante são os excessos, a libertação de desejos, a vida é um estalo, amizade é tudo.

A minha primeira biblioteca foi a sua coleção pornô que vivia no armário sem chaves e cadeados da sua suíte. Aos 14 ganhei um carro de presente, mas não podia atravessar a rua sozinho. Vai saber. Todos os meus amigos o amavam, viveu como quis, sem restrições, até os 59.

Mas vamos ao que interessa à maioria das espécies. Ontem, Fiotão, fiotinho dormiu na rede da sala, sem banho, dever e jantar. Era véspera de sua apresentação de Come As You Are, do Nirvana, com a sua turma do inglês e precisávamos ensaiar o seu teclado. Fiquei sabendo que Rafa, o vocalista, ficou doente. Espero que Mig e Pedro conseguiram segurar os tambores e vocais. Claro que não te revelei que Kurt Cobain quando canta, em si e ré, I swear that I don’t have a gun era mentira.

Pois bem, assim que seu irmão dormiu, você me metralhou com inúmeras perguntas libidinosas, que listarei aqui:

  1. Gozar quer dizer chupar?

  2. Tesão é ficar com pau grosso?

  3. Para um pau grosso entrar na pepeca precisa lamber para entrar melhor?

  4. Mamãe falou que alguns adultos, não todos, gostam de chupar pau e pepeca, é verdade?

  5. Vi no trailer de O Corvo (Onde, filho? Onde? Naquelas telas de outdoor que ficam nas esquinas) que transar é assim: um homem com tanquinho se embola na cama beijando, sugando a boca, de uma mulher de sutiã e calcinha. (ele presenciou um chupão de adolescentes na rua um dia desses e toda vez que se remete a beijo lembra disso) 

  6. Quando os adultos transam os pêlos do pinto e da pepeca ficam enrolados e se grudam?

  7. Sarrar é assim? (Ficou esfregando o pinto na parede). Você já sarrou com a mamãe?


Quando olhei pro lado meu pai gargalhava. Respirei fundo e tentei as perguntas socráticas, zero sucesso. Entendi que havia chegado o momento da revelação concreta, papo reto: Gozar é quando a sementinha sai (morgado), tesão é quando um adulto quer muito namorar (pra 9 tá bom), não precisa lamber (só lembrei da cena de Sônia Braga em Aquarius), não tem nada a ver com tanquinho, todas as barrigas transam (me saí benzão), não se grudam, só se encontram (Yes!), já sarrei, mas não é assim como você fez (amarelei).

Quando começou a perguntar do furico, já me sentia um prisioneiro de guerra:


  • É amanhã! Manda aquele riff no mi pra eu acompanhar no violão.


Nirvana nas alturas.