Powered By Blogger
Mostrando postagens com marcador carta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador carta. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de julho de 2015

carta para Tomás 2

Filhote, seu pólo cefálico coroou no pólo sul da mamãe e eu estava lá, em transe. Escrevo esta carta para lhe narrar a experiência mais visceral que seu pai já viveu, sei que é chato fazer pedidos, mas gostaria que você a relesse no seu aniversário de 60 anos, em 2075. Nem sei por que lhe pedi isso, deu vontade.
Experiência literalmente visceral vivido por sua mãe no percurso de um trabalho de parto no qual a primeira contração já se distanciou de um intervalo de apenas 5 minutos da segunda e assim por 11h.
Tomás, meu filho, você é um lorde vitoriano: já com 37 semanas esperou seu pai defender o doutorado no dia 5, concedeu à sua mãe um prazo de uma semana a partir de sua licença e, fabulosamente, nasceu na data provável do parto (DPP), 22 de maio, apenas 5% dos bebês no mundo são tão pontuais. E, para ninguém ficar nervoso, esperou o momento do passe perfeito para dar um chute mais forte e romper a bolsa amniótica: seu pai havia acabado de chegar da aula de natação, o momento mais benzodiazepínico da semana, e nós havíamos acabado de saborear uma sopa de ervilha numa noite climatizada de outono. Luxo só.
Tínhamos uma certeza, estúpida como todas as certezas, de que obviamente você não viria por aqueles dias, sua mãe estava ótima, tinha acabado de vir andando da casa dos seus bisavós até nossa casa, uma distância de 5,6 km, e já havia combinado uma prainha no outro dia.

Nesse percurso, da Gávea até aqui na Rua Faro, ela fez questão de atravessar o Jardim Botânico, o parque construído pelo proto ecologista D. João VI, a miragem verde sobre a qual a Lispector imortalizou numa crônica, o ato gratuito, onde o Jobim praticava sua religião de ouvir passarinhos, o pedaço de chão que esconde toda a força tupã-oxóssi ancestral desta cidade. Muitos dizem que não, por ter sido um jardim construído pela metrópole com espécies cientificamente escolhidas de todos os continentes. Porém, ninguém me convence do contrário: há uma grandeza de mistério e saudade no silêncio verdejante entre o bambuzal e as andirobas. No coração, uma tamanha fertilidade povoa aquele verde-escuro. A sumaúma amazônica, uma das maiores do mundo, modifica as pessoas que lhe rodeiam, enraíza-nos. O passeio despretensioso de sua mãe foi fundamental para o peteleco de vida que faltava.
Interrompe a sopa de ervilha: “vê se isso é xixi?” Até então nunca havia presenciado uma ruptura espontânea de bolsa, apenas as violentas amniotomias praticadas nas salas de gritos durante minhas práticas de obstetrícia na faculdade. Não sabia que poderia pingar. Mas era. Sabíamos que em menos de um dia você chegaria, então brindamos um vinho branco, não havia tinto na adega.
No entanto, achava que dali em diante viria tudo lentamente, contrações com intervalos largos... Que nada, sua mãe nem acabou a taça do brinde. A minha agonia era a de que mesmo com contrações lhe abraçando forte de 5 em 5 minutos, eu não poderia realizar o toque, a bolsa tinha rompido, eu não tinha luva estéril. Liguei para Heloísa, sua enfermeira obstetra, a quem um dia você vai pedir bênça, e comecei a rememorar os passos do período expulsivo, para mim havia essa chance concreta... Helô chegou umas duas horas depois e pegou seu pai no flagra, eu juro que estava com medo de uma primípara dar a luz em 2h de trabalho de parto, praticamente impossível medicamente falando. Revelo: quando sua mãe ia ao vaso, eu tinha medo de ver seus cabelos. Helô não deu muita bola quando lhe disse que a contração era “rochedo”. Bom, de dinâmica uterina, pelo menos, eu estava ok. “7cm? é boa nisso, hein?” Eu sabia que sua mãe era boa parideira desde que a conheci em Cuba, mas 7 cm em 2h eu não esperava. Senti-me melhor ainda em obstetrícia, tanto Helô quanto eu sabíamos que em poucas horas poderia sim que você chegasse ali na cama dos seus pais. Heloísa olhou para mim sem sua mãe perceber e disse “simbora!” com uma piscadela. Virei Flash, a sua bolsa estava pronta, mas e a da sua mãe? E a minha? Havíamos nos mudado há 2 meses. Na minha mochila ensaquei tudo que achei muito importante, uma camisa, uma cueca, livros de Neruda e Bandeira, um caderno de anotações e uma caneta. Havia planejado que escreveria durante o seu parto uma poesia visceral, escrita em lágrimas de tinta, uma coisa meio Rimbaud e Rilke. Reuni todas as bolsas, peguei chaves, sua mãe, Heloísa, estava eu com o apartamento nos ombros. Entramos no carro, sua mãe em contrações de 5 em 5. Sempre tive uma ideia persecutória de como deve ser o grau de tanquilidade do motorista nessas ocasiões de parto e emergência. Respirei fundo e dirigi joão gilberto, Helô me pedia para encostar a cada contração, e eu ali, um motorista conduzindo Miss Daisy, atendia elegantemente. O desespero começou quando tive a certeza de que o túnel Rebouças estaria fechado, mas não estava, não era terça-feira. Pensei em inúmeras coisas, facas, narcotráfico, batidas, errar caminho, pisei fundo. Consegui sair da bad trip já na maternidade, elas subiram rapidamente para o quarto e eu me vi novamente um sujeito calmo de fala baixa na recepção, até me pedirem o RG e carteira do plano da sua mãe. Não tinha. Antes de refazer o percurso todo de volta, meu smartphone me salvou, havia emails antigos com número do cartão e jpg da identidade. Primeiro conselho, filho: não apague seus emails.
Peguei o essencial para entrar no bloco cirúrgico: livros, o caderninho, uma caneta e um celular descarregando, vesti-me de cirurgião e encontrei sua mãe na banheira. O quarto era pequeno, sem televisão, uma maca obstétrica de boa qualidade e uma honesta hidromassagem no banheiro. A penumbra era fundamental e a equipe sabia disso, Gabriela, sua obstetra, deu play numa música meio Tinariwen ibérica, outra a quem precisarás pedir bênça. Ainda era 1 da madrugada e sua mãe já apertava minha mão na banheira com intensidade maior do que aquelas brincadeiras de adolescentes que um dia você vai conhecer. Entendi que a dor era “do fim”, segundo Luiz Gonzaga. Por aí comecei uma atividade de massagem que só iria terminar às 8h06m, foi uma prova prática de massoterapia, tenho a certeza que ainda receberei pelos correios o título de especialista pela sociedade de massoterapeutas, fui aprovado pela equipe e quase tive cãibras nas mãos.
Levanta, rebola, não quer mais banheira, maca, cadeirinha, tudo doía, claro, seu polo cefálico invadia o polo sul da sua mamãe, respira, respira. Gostava de uma posição sentada na maca com uma perna para fora e a outra dobrada, talvez por isso e, segundo Helô, pelo encucamento no neocórtex, uma parte do colo uterino fez beiço. O edema só foi reduzido após a redução manual feita pela Fernanda Satty, sua obstetra auxiliar, outra bênça, após a anestesia. O momento da anestesia às 3h foi quando caiu a ficha que estávamos numa maternidade, a Medicina arrombou a porta do quarto. Acende a luz, desliga o Tinariwen, “pode sentar, mãezinha, e coloque a cabeça pra frente.” Reclama com a técnica que o campo está errado. The dream is over.
Em vez de relaxar e dormir, o objetivo da anestesia para desfazer o beiço, sua mãe começou a não sentir do quadril para baixo, pois é, drogas mesmo nas posologias indicadas podem causar revertério. Talvez quando você for pai ou avô a farmacoterapia genética personal esteja em voga. À medida que as drogas iam sendo metabolizadas, sua mãe parecia que estava num bar em Santa, papeou com a equipe, reviu meio mundo que estava de plantão e que não via há tempo. Pensei em catar umas cervejas na cantina. Eram 3h30m. Mas as pernas voltaram ao normal e as contrações voltaram dicumforça. Fecha o bar, liga o Tinariwen, baixa a luz. Tentávamos evitar a posição sentada na cama, levanta, rebola, massagem, agacha. Não queria mais banheira. O chato é que o danado do beiço não havia desinchado, veio nosso primeiro medo de mudar de sala e irmos para o bloco do lado. A madrugada passa rápido ali em Laranjeiras, nos intervalos das contrações ouvíamos gritos das colegas das salas contíguas, bem tragicômico, às vezes entoavam uma melodia, recortada com um “ya hooo!”. O ponteiro dos minutos zunia na parede.
Senti uma injustiça imensa de não compartilhar com sua mãe as dores, poderia ser pelo menos 3 para 1, fiquei com medo de um vasovagal, ela apagar de tanta dor. Inda bem que havia tomado a sopa de ervilha. Fernanda entrou e falou mansamente que sempre foi boa em práticas manuais, em manobras e procedimentos, que iria tentar reduzir o beiço com os dedos, o edema do colo do útero, que não deixava seu pólo cefálico avançar. Ainda restava um filete bioquímico do anestésico. Não doeu nada, uma manobra que costuma espremer gritos. Você adorou.
Eram 4h30 e achei que você viria em no máximo 2h, comecei a calcular seu mapa astral, dava ascendente em Touro, apegado demais, fiz bico, mas não poderia reclamar mais de nada, você havia esperado eu acabar a aula de natação. Vagou um banquinho da colega do lado, que teve bebê, um banquinho nada demais, apenas com um design para período expulsivo, lavamos o sangue da colega e testamos com sua mãe, ela aprovou, foi assim que você nasceu. No entanto, ainda teve muita rebolada, sua mãe caprichava nisso, Helô usava a técnica do reboso, chacoalhando um pano tensionado nos quadris, você curtia e dançava um tipo Fela Kuti de cabeça pra baixo.

Já havia passado o ascendente em Touro, já eram umas 7h30, e eu havia entrado num transe do qual não lembro nada semelhante no meu passado psicotrópico, sua mãe estava esgotada, já pedia clemência sem nunca ter sido batizada. Sentado por trás dela e a ela abraçado, comecei a revirar os olhos e fazer força durante as contrações para que você fosse um pouco mais abraçado. “Vamos fazer mais três”, ou “essa é a última” foi repetido várias vezes pela equipe, como se estivéssemos regredidos, aceitávamos igual uma criança e suas colheres de aviãozinho. Até que as obstetras deitam no chão com o foco do celular aceso e dizem, “põe aqui o dedo, tá aqui”. Sua mãe não viu isso, mas eu vi pelo ângulo de cima uma contração na qual um pedaço da sua tufa apareceu e voltou. Eu chorava.
Gabriela depois confidenciou para sua mãe que nunca usou tanto sonar para ouvir batimento cardiofetal no período expulsivo quanto no seu parto. Sua mãe traçava a conduta, no intervalo da contração: “vamos avaliar mais uma vez?” Foi tanto, que chegou o momento mais tenso de todo o parto. A sua tufa já aparecendo e o sonar emitindo uma ruidosa bradicardia, aquelas bulhas produziram muita noradrenalina em nossas adrenais e ressonaram como aquele tema musical de Kill Bill. Gelamos. O maior pavor da sua mãe desde os primeiros anos de residência em pediatria eram os bebês da neurologia pediátrica, muitos sofrem sequelas graves e morrem cedo por causa de asfixia no canal de parto, porém esses partos são geralmente horrorosos, cheios de intervenções desnecessárias e precedidos de um pré-natal negligente.
Sua frequência cardíaca logo voltou ao normal e, acredito eu, foi o que sua mãe precisava para, em poucas contrações adiante, fazer a maior e derradeira força se agachando para adiante do banquinho e fazendo com que você ouvisse melhor o som do Tinariwen ibérico.
Filhote, você era a tranquilidade personalizada, não deu um pio, sua mãe ficou nervosa e perguntou se Lívia, sua pediatra, bênça, não queria levá-lo, “claro que não”, você acabou de nascer e já dava lição: “não criem pânico!”. A felicidade jorrava dos nossos olhos e enchia toda a Baía de Guanabara, despoluindo Paquetá, passando pela Lagoa Rodrigo de Freitas e indo até o emissário do Leblon e Cagarras. Sem um centavo do Eike. Passei 30 minutos contados de relógio chorando, “vai ali e pega uma gaze com a técnica”, lá ia eu “boom diiaa, poor favor, umaa gazeee”. Levei você no berçário, mostrei-o para todos do vidro, tirei fotos, zap, tomei um expresso e uma água. Tudo chorando.
Fernanda e Gabriela me revelaram que fizeram questão de serem exatas nos minutos, tinham reparado em mim calculando o seu mapa. 8h06m. Gêmeos com ascendente em gêmeos. Foco, meu filho, foco.
Não sei se você notou, na sua primeira carta, chamo-lhe de Tomaz, com Z. Essa letra foi uma questão de intriga durante a gestação. Sua mãe e amigas eram do time do S, suas avós, inclusive minha sogra, meus amigos e eu, do Z. Há um cartório no subsolo da maternidade em Laranjeiras, assim que o deixei no quarto com sua mãe, tive essa incumbência. Antes eu brincava que quem iria registrar seria eu mesmo, então a mim cabia a decisão. Depois de 11h de trabalho de parto, nem pestanejei: “Tomás com S, né?” E fechei a porta.
ps1: recomendo-lhe usar Tomaz em qualquer coisa que possa fazer com esse gêmeos com ascendente em gêmeos.
ps2: o que saiu do poema Rimbaud e Rilke foi esse brega-Bandeira aqui:
to mais feliz
com tomás aprendi
to mais eu
to mais nós
to mais aqui
papai, mamãe,
vovô e vovós
saúdam o pequeno
com tomás renascemos

Beijos do seu pai que o ama desbragadamente,
Alfredo


quinta-feira, 7 de maio de 2015

Carta para Tomaz

Filhote, de agora até seu pólo cefálico coroar no pólo sul da mamãe, lhe mandarei cartas adiantando nossas conversas neste mundo novo para nós dois.
Hoje sonhei com seu avô, Bianor, vovô Bibi, que só conhecerás por fotos, poucos vídeos e histórias de monte. Trajava linho branco, como era seu costume às sextas em homenagem a Oxalá, mesmo sendo filho de Oxum. Estava num bar bonito, decorado por madeira e luz baixa, cercado por gente risonha. Lembrou-me de que nos vimos última vez também num sonho, era carnaval, eu de Chacrinha. Vagamente. Muito raro sonhar com seu avô, raro lembrar sonhos, vivo sonhando de olho aberto.
Você iria curtir bastante vovô Bibi. Na minha adolescência, era o pai predileto dentre os pais da minha gang. Extremamente liberal no nível do comportamento, sair com “tio Bianor” era sempre uma grande aventura na noite dos adultos. Como a contradição mora no cromossomo humano, ele me permitia na infância pilotar lanchas, mas nunca, e o “nunca”dele tinha força, atravessar a Av. Boa Viagem para tomar côco verde, ou me aventurar pela praia junto com meu bando. Já crescido, torcia o nariz quando eu peitava frequentar shows de rock, mas fui o primeiro da minha geração a ganhar um carro. As mães dos meus amigos achavam um absurdo, e era, eu tinha 14. “Tio Bianor é uma gréia”, só escutava.  
Os sobrinhos preferidos e eu recebíamos presentes de sonho: Castelo de Grayskull, caiaque personalizado com a grafia do nome, roupa de neoprene e aparelho de mergulho completo, home computer Hotbit MSX, passagens pra Disney, teclado Minami MP 2020, Fiat Uno vermelho zero km e um Del Rey conversível de marcha automática, ar-condicionado, vidro elétrico – quase uma mágica no final da década de 80, que ainda tinha uma televisão de três polegadas com sinal ruim que ficava embutida no som do carro e cuja a imagem era ampliada por uma lente. Para deixar a cena mais pitoresca para época, havia um telefone sem fio com um sinal de curta distância, mas que dava para usar no miolo de Boa Viagem em torno do prédio onde ele morava. Aos 8 anos, em 1987, ganhei um cartão de crédito, Dinners Club International, luxo só, porém novamente a controvérsia, ou a sabedoria, eu só poderia utilizar com a sua presença, nas compras que ele aprovasse. Paguei muita conta no Nino`s em Copacabana durante minhas férias em jantares regados à cavaquinha e uísque. Em todas as eleições antes de retirar meu título, ele me levava à cabine e me mandava votar, “não quero me responsabilizar, o futuro é seu”, deu no que deu, acabei votando no Collor. Claro que quando havia amigos seus como candidatos, e sempre havia, ele mudava minha caneta, “é melhor aqui ó”. Todo ano novo, ele segurava no gargalo uma Dom Perignon e servia um gole na boca para cada um dos seus, sempre usava o mesmo short preto e uma camiseta amarelo-ouro. De novo Oxum. Fazia anualmente uma festa ecumênica gigante na praia, em frente ao seu prédio à epoca, Edf. Nice, na qual juntava a sacristia da igrejinha de Boa Viagem com pai de santo e baianas, que rodavam a saia na beira do mar enquanto incorporavam. O padre começava a missa, havia imagens de cristo e Nossa Senhora da Conceição. Constituía uma cena típica de um filme de Glauber. Isso tudo acontecia à noite, o que me enchia de medo e curiosidade.
Medo e curiosidade era o que eu sentia pelo vovô Bibi durante toda minha infância e adolescência. Extravagante e supersticioso, liberal e repressor, irascível e educado, perseverante e perdulário. Um anarquista com pitadas de punk no comportamento e na moral, e um conservador na política. Excêntrico, megalomaníaco que amava seu pai “desbragadamente”. E, aqui pra nós, nenhum brinquedo me enchia mais de felicidade quando ele de soslaio me olhava e dizia: “É craque.” Isso acontecia com alguma nota dez na escola, ou em coisas que eu fazia e só ele enxergava tanta craquice. Depois que seu aneurisma na artéria comunicante anterior se rompeu, numa hemorragia subaracnoideia severa, a única sequela que sofreu foi uma mudança de comportamento... para melhor. Saiu do uísque para a cerveja, ficou mais manso e mais sociável. Nesse momento, perdoei-lhe por falhas e imperfeições, perdi o medo e joguei o karma no lixo mais próximo. Pena que durou pouco e vovô Bibi partiu aos 59.
Há milhões de outras histórias do seu avô que reunirei num romance sobre esta curiosíssima família Oliveira, mas o que quero lhe falar mais objetivamente nesta primeira carta é que te livrei de se chamar, em vez de Tomaz, Bianor de Oliveira III. Não só vovô Bibi queria, como você era naturalmente, numa tradição de no mínimo cem anos, a próxima vítima. Seu trisavô, Bianor de Oliveira teve o caçula, Alfredo de Oliveira, que homenageou o pai no primeiro filho homem, vovô Bibi, que teve o filho único, até onde eu saiba, Alfredo de Oliveira Neto, eu, que quebrei esta corrente Bianor-Alfredo-Bianor-Alfredo.
Quase, meu filho, por pouco.
Saiba que estou adorando nossa comunicação mão e chutes, tenho a certeza de que já reconheces quando é o papai, muitas mãos não recebem tantos chutes. Saiba que você já orgulhou muito o papai, pois seu primeiro movimento foi durante o disco Arena Canta Zumbi, você deve ter se empolgado com o batuque.  Você está agora com 37 semanas, cuidado com a cabeça ao se encaixar, tome conta do seu fígado recém-formado, e quando estiver naqueles soluços chatos, tente dar uns apertinhos no cordão. A partir de agora a mamãe me prometeu que vai dormir mais e falar menos ao telefone.
Tomaz, muita calma nessa hora, porque segundo Heráclito e o Lao-Tsé, tudo flui. Medite, meu filho.
Do papai que te ama desde que você tem 6cm,

Alfredo

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

bom dilma

Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jaques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)


Um dia passando de táxi na frente do Palácio da Alvorada vi no piso superior direito uma sala de estar ampla e bonita com uma grande TV ligada e tive a certeza de que a senhora estava lá. Já ia alta a madrugada e pude lhe ver sentada numa poltrona violeta, vestida com um tailleur branco com detalhes pretos, pés descalços com unhas bem feitas amparados no banquinho em frente, um tablet desligado no colo e os olhos fixos na TV. A sala em meia luz. Fiz mais um esforço para imaginar o que estaria na tela e, claramente, me veio o último capítulo da segunda temporada de House of Cards, que seu colega Obama já tinha visto antes de nós dois. Digo colega porque best friend está longe de ser após Snowden e WikiLeaks.
A inescrupulosa escalada ao poder do Frank Underwood nos convida à reflexão dos nossos próprios limites entre desejo, razão e ética, mas também salpica na tela toda a sujeira por detrás do paletós, os financiadores de campanha, os lobistas e todas as mais de 500 espécies de anelídeos sanguessugas que se alimentam de milhões de eleitores-hemácias. Pois bem, nesse mesmo dia em que lhe vi no Palácio, presidenta, havia votado “sim” no Plebiscito por uma constituinte exclusiva, o embrião da reforma política. Sei que a senhora também votou igual a mim e a 7.999.999 brasileiros.
Presidenta, eu lhe mando cartas desde 2011, sei que você as lê com carinho, mesmo sem entender uns trechos, já foram mais de 15 correspondências. Saiba que apesar do mensalão, de apertar a mão de Collor e Maluf, de denúncias diárias do Globo, Folha, Estadão e Veja, votei na senhora no primeiro turno e assim o farei no segundo, e sabe por quê? Porque em 44 anos de vida brasileira nunca havia conversado com uma empregada doméstica na poltrona ao lado do avião, nunca paguei tão caro a uma diarista e nunca, mais nunca mesmo, vi uma agente comunitária de saúde estudando medicina em uma universidade pública, tendo ainda como colega de turma a sua filha. Para a senhora ter ideia desse nunca, no meu tempo de faculdade havia apenas 1 negro nas 12 turmas,do primeiro ao sexto ano. E era de filho de diplomata.
E quer saber o que eu acho dos podres que eu mencionei lá em cima? Desde o Partido Republicano Paulista, primeiro partido republicano fundado antes da proclamação, sabe-se que para assumir o maior poder executivo do país precisa esquecer qualquer rito religioso praticado na infância e fazer alianças com divinos, centro-divinos, centrão, centro-demoníacos e demoníacos. Com os extremistas de ambos os lados, seja de esquerda ou direita, seja de cima ou debaixo, não se mexe, nem se entra em acordo, apesar de serem essenciais para se tensionar o tabuleiro do jogo senão o dado pula.

Daí a existência do Collor, Sarney, Maluf e Renan, o que deixaria novamente em coma um militante do PT que teve um acidente vascular hemorrágico vendo o famoso debate Collor e Lula na Globo em 1989, e que acordou na primeira década do século XXI e deu uma zapeada na TV. Claro, seria um choque comparável a uma mulher que viu o beta HCG positivo na quinta semana e na sexta pariu. O sujeito era de esquerda ou extrema esquerda e acordou como centro-esquerda ou centrão, que é sinônimo de PMDB desde 1989, ou 1889, sei lá...
Sobre o mensalão, Presidenta, resumo-lhe este diálogo que escutei na ante-sala do Congresso nos idos de 2004 ao lado de Eduardo Jorge, antes de ele ser secretário de saúde dos demoníacos (DEM), quando lá estávamos balançando faixas do movimento médico sindical contra o desmonte do CPMF:
- Não tem como a gente falar das mesadas! (cochichando) É assim desde que o Congresso é Congresso.
- Última carta, ninguém tem outra ideia pra acabar com a reeleição.
Para mais informações sobre isso, especificamente sobre o envolvimento do Joaquim Barbosa, aconselho-a reler minha última carta que lhe enviei em fevereiro, especificamente o trecho sobre o fatídico dia em que o encontrei no Metropolitan de Nova Iorque e lá, dentro do museu, o que a deusa Osíris me revelou no Templo de Dendur. http://riocife.blogspot.com.br/2014/02/bom-dilma.html  
Segundo o profeta satírico alemão, Brecht, que também era médico:
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.
Claro que Brecht está certo e, por isso, aqui no Rio votei no Tarcísio, Chico e Freixo, claro que toda essa naturalidade do jogo político é um lixão que produz várias estamiras esquizolúcidas, que nos enlouquece, nos confunde, mas, em paralelo, vai-nos polindo a razão e trazendo a angústia da lucidez no meio da rua de uma humanidade engarrafada. Entretanto, não se pode negar que o eixo estruturante do desenvolvimento econômico adotado pelo PT nesses 12 anos de inclusão social e de distribuição de renda, que culminou, segundo a ONU, com a retirada do país do mapa da fome mundial, e com a agente comunitária de saúde numa turma de medicina, não é absolutamente nada natural comparado com todo o período republicano, monarquista e colonial brasileiro.
Em relação às denúncias do Globo, Folha, Estadão e Veja, presidenta, é só ler um pouco a história da imprensa nesse país e entender que os Diários Associados, o Correio da Manhã e o Diário de Notícias nas décadas de 40 e 50 e o próprio Globo na década de 60 sempre foram contra qualquer governo que ousasse uma mísera que seja distribuição de renda via políticas sociais, ou que garantisse mais direitos trabalhistas, muito menos que propusesse debates mais progressistas como reforma agrária, ou reforma política. Assim se deu com o último governo de Getúlio, com o de JK e de Jango. É só lembrar que apenas um jornal de alcance nacional foi contra o golpe militar, “A Última Hora”, de Samuel Wainer, que eu sei que na época a senhora morria de vontade de assinar, mas era muito centro-esquerda para uma VAR-Palmarense. Portanto, presidenta, ter esse batalhão monopolista e quase monárquico produzindo diariamente manchetes negativas quer no mínimo dizer que a senhora está no caminho certo.

Em contrapartida, os paradoxos não podem justificar os fins. Para além de um partido que cresceu tanto, desconfigurou-se, e perdeu sua unidade dando margem a aventureiros mercenários, eu não aguento mais essa insistência na indústria automobilísitica e a redução eterna do IPI, mesmo sabendo que isso sustentou a crise internacional.
Diversifique, pelo amor, o setor industrial, ou invente o impossível: “compre seu carro e leve de graça uma rua, uma avenida ou um viaduto. Monte seu próprio bairro.”
Da mesma forma, não mais suporto que as políticas de transferência de renda sirvam majoritariamente para o jovem comprar moto e se acidentar, TV led e se emburrecer, smartphone para entrar no Face, e diploma de facul privada que se multiplica por geração espontânea. Produzimos a nova classe rolezinho-funk-ostentação, que quando se descasca, falta o tutano. As 23 milhões de carteiras assinadas, a amplidão do mercado interno, do consumo de massas, o aumento sustentado do salário mínimo, que fez grande fatia da classe média lavar louça e passar um pano no banheiro, precisa ser acompanhado de um investimento muito maior que o do Templo de Salomão no salário e capacitação do professor público, do Infantil à Pós-Graduação. O querer aprender com a vida nos tempos de zap zap e Face precisa produzir um novo universo de criatividade e esforço didático para se crescer, curtir, compartilhar, e crescer novamente.
Voltando ao meu solitário passeio noturno em torno do Palácio da Alvorada, nós sabemos muito bem quem é o Underwood tupiniquim. Toda vez que vejo o Never falando em acabar com a corrupção, inflação, e que vai fazer o país crescer lembro do Frank sozinho no salão oval em pé por detrás da cadeira presidencial se entupindo de orgulho e dando as duas rápidas batidas na mesa com a mão direita. É bom colocar os pontos no U, como dizia meu bisavô alemão: compra de votos para reeleição de FHC e o superfaturamento de trens e metrôs em São Paulo são exemplos corrupção no PSDB, a inflação no governo FHC era maior que todos os 12 anos do PT, e a estabilidade da moeda com o Plano Real em 1994 se deu graças a um endividamento brutal da dívida interna, o que culminou com a quebra do Brasil por três vezes, tendo-se como “solução” o maior OFF Brasil que já se teve notícia com dezenas de privatizações a preço de paçoquita. O PSDB materializou literalmente a canção “Aluga-se”, de 1980, do também profeta Raul Seixas, que cantara a pedra: “É tudo free / Tem o Atlântico, tem vista pro mar / a Amazônia é o jardim do quintal”.  O que mais me entristece, presidenta, é a quantidade de gente estudada que embarca nessa farsa com o único argumento de “mudar”, como se o Never representasse o que há de mais progressista de projeto de sociedade para o futuro do país. Abre a boca para falar de meritocracia, quando sua grande meritocracia foi ter virado mórula, blástula, gástrula e por aí vai após o encontro das células germinativas dos seus pais.

Para um eventual desastre, já organizei meus anti-depressivos e benzodiazepínicos na farmacinha do banheiro, como um bom virginiano, e reservei passagem de ida para Montevidéu, nossa Paris dos anos 20. A senhora poderia finalmente realizar o desejo de, desculpa a intimidade, pegar o Mujica. Eu seria o médico dessa nova família, e todo domingo dançaríamos um Candombe e enviaríamos axés para Lula aguentar firme até 2018.
Mas, não! Definitivamente, never. Chacoalho a cuca com Marte passando em trígono com meu Mercúrio em leão na casa 7, e aperto forte a guia de Iemanjá. Rezo para que o Estado seja laico, graças aos homens.
Presidenta, segundo Bertoldo Brecha, “veeeenhaa!”. Contudo, venha sabendo que, além do baixo crescimento, serão anos que o governo federal, diante de um Congresso mais reacionário desde 64, se não tiver clareza de que lado está sambando, vai descer até o chão.
É manter mais ainda a atitude multilateral na política externa, porque se aliar à cadeia produtiva global é copiar o fracasso mexicano e voltar à cartilha do FMI. É ter raça para baixar a Selic e investir na indústria nacional com sustentabilidade energética, sem medo da inflação, e longe dessa aberração de deixar o Banco Central “independente” nas mãos dos bancos privados. É fazer mágica com os estados e municípios para elevar a qualidade da saúde e educação sem privatizar. É desfivelar o cinto do Centrão e chegar mais perto da base e dos movimentos sociais. É fazer com que eu não consiga mais pagar minha diarista e passe o pano no chão do meu banheiro, é lotar um A330 de empregadas domésticas e pedreiros rumo à Fernando de Noronha.
Mas qualquer cuidado é muito pouco, vi na TV agora mesmo a senhora passando mal numa entrevista e dizendo que foi “pressão baixa”. Na verdade, foi um piti, um faimizim, uma bilora. Receito-lhe sal grosso no bolso do taileur, parar de assistir House of Cards, e ler todas as minhas cartas antigas para rir um pouquinho. Muito importante: nunca fixar o olhar no riso sardônico do adversário. Em vez de ele bater duas vezes a mão à mesa, por trás do riso ele dá duas trincadas na mandíbula para consumar o ato final. Mentalize: Underwood never.


Cordialmente,
Dr. Luiz



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Bom Dilma!

Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jacques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)


Desde julho que não lhe mando cartas, como frisei havia aderido aos Cypherpunks do Assange e Snowden. Tive que sair do Face, do Google e cancelar meu Smiles platinum. Havia voltado, inclusive, ao stupid phone. No entanto, descobri pelo DSM V, o mais novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que sofro de IAD, Internet Addiction Disorder, e, obviamente, de muita saudade de me comunicar com a senhora.
Consegui um afastamento da Clínica da Família no Rio, onde trabalho como médico, devido à enfermidade. Estava impraticável. Quando chegava próximo ao acolhimento para falar com um agente comunitário de saúde, no meio daquele oceano de gente, a tela do seu computador emitia as ondas azuis do Face, hipnotizava-me por alguns minutos e não conseguia desgrudar o olho até o agente correr toda a extensão da sua timeline. Podiam gritar “ô, doutor!” a tarde inteira que eu não saía do transe azul. Às vezes – confessarei só para a senhora – quando a geladeira da família dinossauro se abria, ou seja, quando o bicho comia na demanda espontânea, eu fingia uma enorme necessidade de banheiro e corria para a sala dos agentes. O bar dos bêbados, o pico do surfista, o banquete dos diabéticos, para mim, com IAD, a sala do paraíso. Todos os 10, 15 computadores abertos no Face. Numa dessas, a gerente me achou e perguntou se eu iria demorar para voltar ao atendimento, respondi: “curto, mas não comento”. Recebi a licença no mesmo dia e descobri que na New York University possui um grupo de pesquisa testando drogas para esse tipo de transtorno.

O que fiz? Vim para Lower East Side passar o fim de ano e me servir de cobaia. Há males que vem de trem, no meu caso vim de TAM, poltrona sardinha e atendimento carioca, ou seja, “por favor... Já foi.” Todavia, me diga, como estavam as coisas aí na Bahia no reveillon? Calor? Aqui está menos 3, umidade 50% e parcialmente nublado. O Abominável Homem das Neves passou por aqui, destruiu tudo de branco. Enquanto aí feministas fazem toplessaço, se eu fosse a senhora lá na base naval de Aratu faria um roupaçasso, pois topless é coisa de patricinha. Daria dia de folga para os seguranças, e paf! Roupaçasso presidencial. Soube que a senhora anda lendo Getúlio, do Lira Neto, mas lhe aconselho fortemente a trocá-lo pelo clássico 1984, do George Orwell. A senhora vai ficar mais orgulhosa do Itamaraty ter cancelado sua vinda para cá em outubro passado. Sei que a senhora não leu quando jovem, pois se tratava de uma literatura pelega. Quem diria?! O Estado totalitário que Orwell pintou sob o comando do Partido Interno não é de esquerda, longe disso, o seu aspecto materializou-se no país mais pelego do planeta, Here! O pior é que a diferença com a realidade atual ainda é mais absurda. Na ficção, a teletela é o olho do Estado nas vidas privadas dos cidadãos, sendo que é chata, com conteúdo e design patriota e careta, e agora temos a internet e o seu admirável novo mundo, e é justamente por essa beleza que somos fisgados, justamente por essa isca de sociabilidade, compartilhamento e rapidez na troca de informações. Para eles hoje em dia é mole, presidenta, só jogar a isca azul. Eu tentei, presidenta, juro que tentei, mas o DSM V foi maior que eu. Não sei se Winston, o protagonista do livro, também conseguiria resistir ao Face, a senhora eu tenho certeza, quem aguenta Sarney, Maluf e Renan, possui nervos de aço inoxidável, mas aí seria outra ficção, estilo Robocop.

Já que a senhora não veio a Nova Iorque, pintarei um pouco da cidade. Se Descartes, tivesse vivido por aqui diria: “Consumo, logo existo.” Se você tiver um dinheiro, ouvirá “enjoy!” em restaurantes, caso não tenha, plante talento e vá tocar no metro ou fazer teatro de rua. Ninguém ali está de bobeira, asiáticos, americanos, africanos e europeus estão ali para serem “the king of the Hill, the top of the heap”, como diz a canção. E aí chama o Tim Maia, porque vale tudo, principalmente homem com homem e mulher com mulher. Do Central Park para baixo tudo é prafrentex. Não é por acaso que cineastas gostam de filmar por aqui, economizam dinheiro com figurante e figurinista, sair na rua sem acessórios é praticamente ilegal. Gravatas borboleta, chapéus, suspensório, óculos, jaquetas, além de tatoos, cabeleiras, piercing, e todas as roupas da vogue. A senhora poderia inaugurar o transado vestido que comprou na África do Sul durante o funeral de Mandela, ou bancar um roupaçasso no Great Lawn do Central Park, seria mais uma latinoamericana exotic, pero sin perder la ternura jamás. Por aqui a senhora é um equilíbrio entre Chavez e Mujica, gosta de Cuba, mas é pop, porém nada de propaganda gay anti-aids que ofenda a bancada evangélica, muito menos legalização da erva de Feliciano, quer dizer, do diabo. A senhora, presidenta, aqui em Manhattan é uma estampa de Che pintada por Warhol.

Falando em artista, ontem eu estava no Met, o Metropolitan, o que é aquilo, né? A propaganda revela o que representa: “One MET, Many Worlds”. Bonito, né? Apesar de todos saberem que é “Many (robbed) Worlds”. Para entrar, você escolhe o preço que quer pagar, dei 1 dólar. O atendente falou que estava fazendo uma pesquisa e queria saber de onde eu era, fez uma chinfra, achando que eu iria me envergonhar, finquei firme o pensamento na senhora e falei com um riso escondido no canto da boca: “Brazil, with proud.”

Uma maquete encontrada no Egito há mais de 3 mil anos, em ótimo estado, mostrava o óbvio: a humanidade, desde o Egito, sempre comeu pão, escreveu e tomou cerveja. Pois bem, no meio dessa constatação de Amon-Rá, quem encontro ao meu lado? Joaquim Barboza de capuz vermelho, tinha vindo de Paris só para revisitar o Met. Enquanto ele ultrapassava o Templo de Dendur, juro que vi a deusa Osiris lhe oferecer uma taça, de onde saíram hieróglifos esfumaçantes, os quais pela ondulação, fundiram-se em letras latinas, talvez pelo fato do Templo ter sido construído pelos romanos, mas o que interessa é que consegui ler: “Fecit illud in Lula”.
Tive que sair do museu e me embrenhar no Central Park, quase cometi um roupaçasso em pleno inverno cruel de tanto atordoamento. Precisava de um Starbucks para poder entrar no Google Tradutor, que diachos de sinal era aquele transmitido de Osiris diretamente para Joaquim?
Depois de rodopiar por gramas brancas, caí no West Side e entrei no Zabar`s, um restaurante judeu. Pedi a senha do Wi-Fi, teria que consumir algo, claro. Enquanto devorava um cookie kosher, copiei a frase que li, 2 L em illud, 2 L em illud, vinha repetindo sobre as gramas brancas. Puf!: “Ele fez isso pelo Lula”. Oxalá, Osíris! Presidenta, a senhora acredita nisso? Acredita em algo?
Peguei um metrô, óbvio que errei a linha, eu precisava de um Face, comecei a sofrer abstinência, não queria ligar para o meu pesquisador psiquiatra. Invadi o Jules, bar de jazz na St Mark Place, a rua dos beatniks e de tudo mais um pouco, entornei uma dose do uísque mais barato e, como não tinha um rolo de telex e uma máquina de escrever, assumi o contrabaixo do set que iria começar em pouco tempo. O instrumento estava obviamente desplugado, mas os gatos pingados que estavam ali ouviram um brasileiro em abstinência de IAD cantando “Lula Lá” em ritmo de jazz, e com scats. Eu não estava bem, presidenta.

Agora, mais calmo, após alguns tablets e divãs, acesso a GloboNews e percebo que Orwell realmente é um profeta, Caio não jogou o rojão e é evidente que possui ligação com Freixo desde que nasceu. A questão é: por que ele assumiu o crime? Quem está por trás disso? Quem quer garantir a paz do apito nos gramados da Copa? Como será essa peleja? Justiceiros no ataque, a milícia na defesa, e o Cabral de helicóptero filmando tudo? Paes, é claro, como cobrador de ônibus para garantir a tarifa. Quem editará as imagens que Santiago gravou? Vejo tudo azul, presidenta, a neve azul, o prédio azul, a senhora própria está um azul smurfete, o mundo está azul, e Mark Zuckerberg acabou de passar pela minha janela vestido de Amon Rá azul. Algo me diz que ser cobaia do New York University não está com nada. Volto amanhã. De TAM!
tô tan-tan, presidenta, você não, né?
Cordialmente,
Dr. Luiz


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

carta aos residentes da primeira turma de Medicina de Família e Comunidade da Prefeitura do Rio

Rio, 1 de fevereiro de 2014

Já é.  D. Maria do Carmo foi atendida pelo menos uma vez por semana, ontem voltou novamente, a menina Yasmyn trouxe outra vez um TIG positivo, e Vitória, a da internação, sobreviveu e já teve dengue. Seu Romualdo recebeu alta da tuberculose, será que foi registrado no livro?
O grupo de gestantes vingou, a enfermeira tomou a frente, mas aquele outro de hipertensos e diabéticos... quem manda fazer grupo de hipertensos? Glorinha, da associação comunitária, mandou lembranças, o pastor também.
D. Conceição, que começamos a insulina, está morrendo de saudade de vocês, encheu os olhos d’ água, até a barraqueira Keylane deixou escapar um descontentamento, mas logo emendou: “mas a gente vai ficar sem médico até quando, hein? Olha lá!” Seu Orlando, aquele velhinho simpático, deixou-lhes presentes.  Aquela figura, D. Antonia, não voltou a fumar, entrou na dança de salão e está paquerando Seu Jorge, aquele quietinho, caladinho.
A ferida de Seu Gilberto fechou, mas continuamos sem dersane. Lembra a Stephanny, sua primeira paciente do DIU? Pediu para tirar, casou de novo, está morando longe. Já é.
Técnicos de enfermagem e ACS, cadê eles aqui?, mesmo depois das festinhas de despedida, não param de lastimar suas ausências, alertam todos os dias para escolhermos os próximos residentes que entrarão, como se pudéssemos. Claro que tem aquele e aquela que comemoram no seu íntimo discretamente, senão seria novela de Manoel Carlos. Longe disso, enquadramo-nos melhor num set com um enredo realista, beirando o naturalista.
Vocês são os filhos mais velhos, com todas as suas dores e delícias, sei como é porque também fui da primeira turma de uma residência, é como se a gente amadurecesse em acetileno, em panela de pressão, nossas lentes ficam mais grossas para enxergar as deficiências e as virtudes, sentimos um misto de sensação de cuidar da casa, mas também de quebrá-la por inteiro, atear fogo e gritar “sou Zé Pequeno, porra!”. No entanto, fico muito feliz que alguns se aventurarão na dificílima tarefa da preceptoria, na qual precisarão, além de se reinventar, alcançar os poderes de The Flash e do Multi-Homem dos Impossíveis, Hanna Barbera, lembram? Pois bem, vocês sairão de R2 para P1, era assim que o saudoso Armando nos chamava.
Por mais piegas que possa parecer, é verdade que fizemos história, aos trancos e barrancos, verdadeiros barrancos, tentamos melhorar a qualidade da assistência da atenção primária prestada no município. Digo uma coisa para vocês, não foi fácil para ninguém, nós, os P1s, também somos os filhos mais velhos, portanto também compartilhamos dos sentimentos do Zé Pequeno, além disso, trazemos nossos vícios de conduta médica e aprendemos muita coisa sem consultar previamente o livro para saber se era assim que se fazia. E tome Dynamed, Uptodate, Nice, AAFP, os bons capítulos do Tratado e do Duncan, além do próprio Duncan ambulante. E como dar conta disso com duas equipes, mais de quatro mil pessoas para cada uma, quatro residentes, negociações com gerentes e coordenadores? Tome natação, análise, alpinismo, bicicleta, guitarra, bateria, cerveja e violoncelo.
Apesar do Euract, dos cursos do pessoal do Conceição, das trocas de experiências com todo o grupo de Santa Catarina e Paraná, cada aula, espaço teórico era repensado. Como vamos avaliá-los? Antes disso, como reconhecer em cada um os potenciais e as deficiências? Como fazer um feedback com gentileza? Como cobrar uma mudança de atitude naquilo que se repete? Por que não estudaram? E por que eu não estudei? E vamos aprender PBI, como realizar a amada e odiada metodologia de aula do amigo de Armando. E mais PBI e as intermináveis aulas de revisões clínicas com Adelson. Enfim, se extrapolamos os limites da cobrança e da ansiedade, é porque estávamos realmente ansiosos.
Além de tudo isso e mais um pouco, a implantação da residência foi meio big bang dentro das Unidades, tendo como consequências cicatrizes que até hoje tem sempre um para espetar. Então o começo foi explosão, todos arremessados, tentando recolher os estilhaços ainda no ar. Agora, apesar de estarmos ainda num universo em expansão, tentamos navegar a Enterprise, mas daqui a um mês teremos outra batalha e se chama número 100.
O que teremos para amanhã? Coragem, podemos sim melhorar a cobertura, diminuir a quantidade de gente por equipe, pensar num melhor modelo público para APS, garantir espaços mais qualificados para as próprias pessoas atendidas refletirem e decidirem o que fazer para melhorar a demanda, a demora e a falta de esperança. Daqui a três anos, milhares de médicos recém-formados farão um novo tipo de residência, que se nós não ajudarmos a construir, a APS brasileira ficará muito chateada.
O SUS com 25 anos é um R1 que vai entrar agora na próxima turma, será nosso colega, então, por que não um “vem cá, SUS, vamos ali tomar uma cerveja”?
Corajosos filhos mais velhos, voai! Olho pra frente, o GPS? Esqueçam, quem faz o software somos nós, e precisa ser livre e compartilhado.
Beijos e abraços,
Alfredo de Oliveira Neto




segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Bom Dilma


















“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”

(Jacques Derrida)

“Mas mesmo assim precisa ser escrita”

(eu mesmo)

por Dr. Luiz, médico de família de uma OS perto de você




Presidenta,

Mário tem 46, acha que vai fazer 48, mas tem aparência de 60, é catador de lixo e engraxate, recém tratado de tuberculose, conversador toda vida mesmo faltando-lhe os incisivos superiores, foi meu último paciente hoje às 19h30m, era o 30º-.
Sei que a senhora não é médica, mas acredito, como em qualquer outra função, que despacho de presidenta tenha limite. Quando alguém do PMDB precisa vê-la no comecinho da noite, após 2 mesas intermináveis de lançamento de programas e 3 conversas de corredor, não menos intermináveis, com aquela mãozinha no cotovelo da senhora, imagino o quanto sentimento de inimigo emana da sua robusta paciência ao ser obrigada a se sentar com a base aliada.
Estava eu que nem a senhora, apertando a mão do escritor Sarney, às 19h30m, quando entra o Mário, bem-humorado, no meu consultório de médico de família e me apresenta seu caderno de caligrafia. Isso mesmo, ele não se queixou, diferente dos outros 29 do dia, de nenhuma dor de cabeça, diarréia, coisa-ruim, coceira, mancha ou falta de ar. Mostrou seu caderno de caligrafia, foi folheando lentamente enquanto diante de mim apareciam a, e, i, o, u, muito mais elegantes do que o Arial insosso em que digito esta carta. “E” de escada, “O” de ovo, “U” de uva, cada letra correspondendo a um desenho do Mário. Quando terminou, ele se sentou, e me disse em tom de confidência: “Dr., preciso de um remédio para abrir minha cabeça”.
Sabe, presidenta... naquele momento, depois de 6h e meia sem beber água, sem ter operacionalizado minhas diureses, sofrendo da lombalgia do partido dos trabalhadores (das antigas, é claro), meu coração de operário foi amolecido numa lata de óleo. E ficou assim por alguns minutos, batendo rubro-negro.
Mário estava sendo pressionado pelas professoras de alfabetização de adultos do curso noturno que freqüenta a uns dois quilômetros da sua casa, um dos cinco barracos mais precários da minha área adstrita. Elas haviam estimulado o Mário a ir atrás de ajuda para resolver, segundo elas, sua deficiência de aprendizado. “Elas me disseram que pode ser problema de hormônio”. Subentendi depois de alguns minutos que o hormônio se chamava ritalina, se a senhora não conhece, é um nome comercial do metilfenidato, uma catecolamina (agonista adrenérgico), que possui estrutura química semelhante à anfetamina (derivado piperidínico). Trocando em miúdos, é a alegria nos últimos vinte anos da indústria farmacêutica Novartis, pois além do filão para melhora da concentração entre executivos (leia-se produtividade no mundo dos negócios), e para emagrecimento de moças já bonitas, recentemente a Novartis mirou nas criancinhas “peraltas”, o que logo virou uma epidemia chamada distúrbio de hiperatividade com déficit de atenção. Também é uma febre entre estudantes que se preparam para concursos. Enfim, uma “bolinha” vendida em farmácia, assim como a cocaína na década de 20.
No início da consulta, apesar do coração já amolecido pelo óleo da lata, resisti: “Mário, infelizmente a medicina não tem um remédio para abrir a cabeça”. Ele me olhou surpreso: “tem não?”. Nesse “tem não?”, presidenta, confesso que senti nó de choro na goela. Lembrei do Giosuè, Guido e sua “principessa” do filme “A vida é bela”, todo aquele esforço de Hércules do Guido em esconder do garoto que aquilo ali era um campo de concentração nazista, tentando sustentar que tudo não passava de uma grande brincadeira muito bem bolada.
A miséria de Mário foi o campo de concentração em que me sustentei para não lhe privar da esperança. Não iria ali fazer um discurso “conscientizante” sobre classes sociais, estrutura e superestrutura, para lhe explicar o porquê da sua dificuldade de ler. Não iria estimulá-lo a se indignar com a injustiça do mundo capitalista e se associar ao sindicato dos catadores de lixo, tornando-se em vez de um Mário falador e bem-humorado, um companheiro sisudo e com a raiva na garganta dos seus discursos.
Também não iria lhe explicar que o mote do governo Lula era o Fome Zero e o da senhora é o Brasil sem Miséria, apesar de que a fome e a miséria nunca desaparecerão se outras bolsas-valores-‘famiglias’ não esvaziarem de vez.
Muito menos iria lhe noticiar que está acontecendo uma crise no capitalismo global e que os ricos, que são a condição para a existência da sua miséria, estão agora com uma cefaléia tensional leve, muito leve.
Definitivamente, não, presidenta.
Menti que nem o Guido a Giosuè: “buonguorno princepessa, me enganei! Tem sim um remedinho pra você, Mário”, ele me abriu o sorriso banguelo, pegou a receita e disse que tinha de ir, “tô atrasado pra aula”.
Bateu à porta e me deixou sozinho, com o rubro-negro já esfacelado no fundo da lata.


Mande-me notícias, presidenta, há tempos que não recebo uma carta sua.
Carinhosamente,
o seu Dr. Luiz
ps: o “remedinho” foi Gingko Biloba, um pop star da fitoterapia.