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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A vida rompeu o asfalto (publicado em 1/6/20 na séria Atrás da Máscara no Blog Causos Clínicos)

 

Ela entrou e não conseguia falar, sua filha cortou o clima: meu irmão morreu domingo passado.

Na semana anterior havíamos pactuado o retorno da mãe ao antidepressivo que não usava há 15 anos. Uma consulta longa, a segunda, muitas ideações suicidas. Semana retrasada a colega médica da equipe tinha acolhido e registrado inúmeros parágrafos no campo subjetivo do E-SUS. Abuso infantil, 12 tentativas de suicídio, um casamento morto-vivo, a sensação de que a vida zuniu pela janela enquanto lavava pratos e arrumava os filhos para a escola. Chegou a concluir curso universitário, mas jogou a toalha no ringue dos sonhos. No entanto, agarrou-se ao último joule de energia e tentou pela enésima vez sair da inércia. Aplausos em pé.

Durante a pandemia, meu turno de “consultório normal” me relembra que a vida não está em isolamento, a mordida do cachorro de rua, o terrível peso de uma investigação de câncer, o aperto nos olhos por um sorriso escondido pela máscara da mãe, deitada na maca, ao ouvir as batidas do coração do primeiro filho, o barraco na sala de espera, um pneumotórax espontâneo num jovem fã de Legião Urbana, o corrimento vaginal que a envergonha pelo fato de precisar ficar de quarentena com o namorado novo, o início da insulinoterapia com a melhora dos níveis glicêmicos mesmo se empanturrando de pão. Essas e outras me desconectam da ficção científica trágica que nos metemos em 2020, mas a roda da vida, repito, definitivamente está furando a quarentena.

24 anos, diabético tipo 1 descoberto na infância, funcionário de um fast-food, e fã do batidão carioca havia deitado na cama da mãe na tarde de um domingo e soltado o verbo sobre planos e sonhos como há muito não fazia. Sem sintomas respiratórios. Como grande parte dos jovens, tinha uma péssima relação com a doença crônica, negação e aposta no poder curativo da juventude. Se para os idosos é dificílimo, para os jovens são insuportáveis a disciplina com a alimentação, exercício físico e medicações, os efeitos colaterais, os exames e consultas de rotina. Já no trabalho noturno na lanchonete durante a folga falou ao colega que iria relaxar no quartinho dos funcionários e nunca mais voltou. A mãe foi a primeira da família a chegar no local, “doutor, ele estava no chão feito um pacote jogado”, assim que recebeu o telefonema do gerente, ela sentiu que não era apenas mais uma hipoglicemia, assim como várias outras vezes.

Estou aqui para lhe ouvir, a senhora quer falar alguma coisa? “Ele não me deu tchau”. Foi uma das consultas mais tristes que já tive, e olhe que já tive muitas desde o meu início como médico em 2006. Todavia o motivo desta crônica não foi a maior tragédia do mundo, a de perder um filho no meio de uma pandemia e sim a reação desta mãe com alto risco de suicídio. Claro que em nenhum momento da consulta eu sondei como estava este risco, apesar de ser recomendado, foquei no que ela e a filha falavam, “a minha vontade é de gritar e socar e parede”. Quase prescrevi de tanto ter repetido que ela precisaria gritar muito e esmurrar o colchão, que quanto mais fizesse isso no começo, melhor, mas à medida que a consulta andava ela entendia o que eu queria saber sem ter perguntado e do nada diz: “fique tranquilo, doutor, não quero mais saber de morrer, a mensagem da morte dele para mim foi: viva, minha mãe!”. Marujei atrás da máscara e me segurei muito para não abraçá-la, falei que a minha vontade era esta.

Ela retornou na semana seguinte, dormindo demais e comendo de menos, a filha reclamando que a mãe precisa respeitar a maneira de encarar o seu luto, que é faxinar obsessivamente a casa. O pai, apático, catando os escombros no trabalho de jornaleiro, a outra irmã sofrendo pois havia brigado com ele antes de sua morte, suplicou à namorada do irmão, detentora da senha do seu celular, que apagasse sem ler as conversas de zap entre eles. E ela, a mãe, ainda firme, com planos de arrumar o quarto do filho com prazo determinado para cada item, “só o travesseiro, doutor, vai ficar comigo, ele deve ter chorado e sonhado muito nele”.

Ao sair da consulta me pede que nossos encontros fiquem mais espaçados, de 15 em 15 dias, olho para a filha, que me faz um ok com os olhos.

Será que é apenas uma reação inicial e em breve ela desmoronará e cometerá um suicídio de fato, ou será que esta morte ressignificou os sentidos da sua vida e a isso ela se abraçará até o fim? Não sabemos, mas o fato é que, pelo menos neste início, parafraseando Drummond, no meio da morte, a vida nasceu na rua, rompeu o asfalto.    

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Bom Dilma (por Dr. Luiz, um médico da família de uma OS perto de você)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)





Querida presidenta, não sei mais o que faço aqui no Rio para me manter em linha com meu juízo. Toda semana uma novidade, “vocês agora vão precisar escrever no livro verde o nome do paciente diagnosticado com tuberculose, no vermelho os seus contactantes, no ALERT vão preencher todos em cada campo específico, e, por favor, não se esqueçam da notificação”. “A partir de hoje, todas as receitas serão impressas”. “Amanhã, você e você e você deverão estar presentes no curso sobre raiva humana”, “Pera aí, e os pacientes marcados?” acho que com tanta desmarcação em cima do pênalti devido a cursos-relâmpagos-surpresa, está mais que justificada um curso sobre a raiva humana.
A educação está em permanente crise de afobamento, é como se a gestão quisesse lavar as mãos do contrato em proporcionar um cardápio de cursos para os trabalhadores. Sendo que tais cursos morrem ao girar em torno de si numa velocidade de quebrar o rabo. Os profissionais são arrancados de suas agendas e postos numa sala onde existe uma pessoa falando de um determinado tema. Quando termina, esses profissionais retornam para o seu feijão com arroz e o tempero esperado não é adicionado à panela. Não é compartilhado com a equipe e nem avaliado pela gestão o quanto daquilo foi digerido e metabolizado para a velha prática do dia-a-dia. A questão é tratada da seguinte maneira: “ah, você fez o curso de insulinoterapia (de 2h)? hum... então sabe tudo de diabetes...”.
É grave, presidenta, de enfartar Paulo Freire. A educação permanente na atenção básica aqui do Rio está fracionada, desarticulada com a realidade das equipes e sendo produzida verticalmente, com direito a todo aquele “depósito bancário” que o barbudo gostava de falar. E nisso vão se gastando os PABs, PAB de lá, PAB de cá.
É tudo muito no aqui e agora, esvaziando água de barco furado. Parece filme de Chaplin. Um corre-corre, tudo pra ontem, salve-se quem puder!
São depositadas nas equipes de saúde da família a esperança da transformação da sociedade brasileira. Entendo que na redemocratização, o setor Saúde saiu na pole position, corajosamente reformista, o SUS deslanchando na frente, idealista, aquariano. A estratégia de saúde da família é o pelotão de frente, podemos dizer hoje que é a cara do SUS. A atenção hospitalar, assim como a classe política, vem sendo desacreditada há pelo menos duas décadas. No entanto, presidenta, Brasília virou Babel: Ministério da Saúde fala português, o da Fazenda, inglês e o do Planejamento, chinês. Enquanto temos uma atenção primária nas bases cubanas, a Fazenda continua na conduta do New Deal, colônia exportadora de matéria prima, os juros altos beneficiam a visão do país como parque de diversão de investidores, e o Planejamento sonha com o crescimento chinês. No caso de lá, do Oriente, na ausência de direitos humanos básicos, inclusive uma escravidão não revelada; por aqui uma melhora na vida, sem dúvida, mas alienada pelo “consumo, logo existo”.
Quando pergunto aos adolescentes da minha área, qual é o sonho, muitos respondem ter uma moto. Uma moto, presidenta. Uma moto, aliada a um celular smartphone e qualquer 2000 de salário é o pacote felicidade lá do morro. Fácil de entender: os pais estão alcochoados na aposentadoria da avó + Bolsa-Família, na Escola, corpo docente + salário indecente = mente doente; o que resta ao adolescente (juro que não quis mais rimar) é TIBIA, GTA, Call of Duty e Fifa 11(games, presidenta), além de ficar sonhando com a moto roubada que o tio moto-boy pilota pra cima e pra baixo, pra não dizer em cima da calçada e sobre a passarela de pedestres.
O que eu preciso lhe falar, presidenta, é que a tal da intersetorialidade precisa deletar a “ordem e progresso” e fincar um “Ctrl + V” na bandeira nacional. Não se pode achar que a equipe de saúde da família vai dar conta da HAS/DM, Tuberculose, DST/AIDS, Puericultura, Pré-natal, Transtornos mentais, Violência Familiar, Etilismo, Tabagismo, Abuso de drogas, Planejamento familiar, Pequenas cirurgias, Alimentação saudável, Atividades físicas, Reabilitação, Urgências e Raiva Humana de 4000 pessoas se o sonho continuar sendo uma moto.
Por mais que o conceito de saúde se amplie, a SUStentação reformista da democracia brasileira precisa se basear na lógica do exército zapatista, sem chefe, todos são sub-comandantes. Então Saúde da Família deve andar de braços com a Educação da Família, Cultura da Família, Economia da Família, Meio-ambiente da Familia, Esportes da Família sem ONG, para, enfim, montarmos a República Federativa da Família-Brasil. Salve, salve, presidenta.
ps 1: gostei da frase que li: “não é coitado do Lula, é coitado do câncer... foi brotar logo em quem...”
ps 2: para negociar com a Fifa e com o Comitê Olímpico, nada melhor que um comunista à brasileira, devoto de Mao Tsé-Tung, Nossa Senhora Aparecida e Saci Pererê. Baforada neles!
Carinhosamente,
Dr. Luiz











segunda-feira, 25 de julho de 2011

Bom Dilma (carta 4)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Querida presidenta, estava eu há pouco na parada de ônibus pós-expediente e as únicas 2 linhas que me levam à minha santa casa me deixaram de braço ereto, porém impotente. Fingiram que eu não estava ali. Fui impelido a confabular sobre público e privado, os-sem-república, os-sem-democracia, os-sem-cidadania e, finalmente, me veio a máfia dos transportes à cachola. Daí o Nascimento da idéia de lhe escrever esta carta que, como a senhora mesma me confidencia, morre de rir e chorar ao saboreá-la no divã da sala íntima da Alvorada. Apenas não entendi o porquê da sala íntima, muito menos do divã.
Acredito como médico de família que seria muito salutar para a Família República Brasil que os eleitos e eleitas para mandatos no Legislativo e Executivo fossem obrigados a utilizar os serviços públicos, idem para seus parentes de 1º- grau: saúde, educação, transporte. Paremos por aí. Uns podem me desiludir: mas eles e elas já utilizam dos serviços, porém os das ilhas de excelência, das miragens públicas, aquelas que possuem um acesso mais restrito que camorote vip em fla flu. Outros ainda podem me convencer: filas para exames, cirurgias e consultas seriam abertas perante a presença de rostos e assinaturas mais tarimbadas. Desculpe, presidenta, mas não consigo lhe ver pedindo a um assessor para checar, por exemplo, se a sua consulta no SISREG para oftalmologia já saiu.
O mesmo para melhores escolas e universidades públicas: achariam matrícula até em ovo de páscoa para entrada imediata de tão ilustres brasileiros. Agora, quando o assunto é transporte, aí não tem escapatória. Duvido muito as empresas concessionárias de metrôs, trens e ônibus abrirem exceção até mesmo para a senhora.
Se a farra do boi causa arrepios nos vegetarianos, a farra dos carros me deixa de tanque vazio. Dá para enxergar daqui a felicidade de Lula, transmita-lhe meus abraços, quando ele passa na rua por concessionárias e fábricas Fiat, Honda, Renault, Volkswagen etc. Imagino ele fazendo um tipo sinal da cruz dos católicos motoristas.
A farra dos carros, dentre outras blefadas certeiras, sustentou o Brasil no início do cracking de 2008. Lembro-me dele suplicando “comprem, batom; comprem, batom”. Presidenta, haverá um tempo em que ao me deslocar do meu quarto para o banheiro, no mínimo um ford Ka vai estar parado no meu corredor. O que eu esperaria da senhora e do Ministério dos Transportes?
Como sei que o PT, muito menos o PR, teria coragem em restringir um pouco que seja a venda de carros, que pelo menos fosse exigido a entrega grátis de um beco, rua, ou avenida, a depender do tamanho do carro vendido na hora da compra. O cidadão sairia da concessionária com seu automóvel e uma rua compacta, dobrável e inflável que poderia ser guardada numa maleta de primeiros socorros. Para os grandes, avenidas; médios, ruas; pequenos, becos e ruelas. Pronto, o estacionamento estaria garantido, sem flanelinhas. Projeto Rua Portátil para um Brasil melhor.
Se a educação e a saúde foram e estão sendo na medida do Impossível construído socialmente: SUS, Conselho Nacional de Educação, Fundeb, PNE etc, os transportes foram e ainda são jogados na piscina dos tubarões. Metrôs, trens e ônibus são engolidos sem mastigação, sem boas maneiras e sem dieta pela Família Tubarão SA.
Deixe-me ser mais claro, presidenta: a farra dos carros é apenas uma gota de gasolina da farra dos transportes. Isso vem de muito tempo, crescendo na era JK, e que se perpetuou com o PR desde o primeiro mandato de Lula para cá. K, cá, K, cá, K, cá. Não me refiro ao craque.
Voltando à minha parada de ônibus, venho anotando meticulosamente horários exatos e número dos ônibus que atrasam, que não param, que trasportam gente feito carga. Sabe o que o órgão público regulador me responde? “O motorista já foi encaminhado para o setor de psicotécnico”, leia-se: ante-sala do depejo. Eu insisto: e qual vai ser a pena para o dono da empresa?. “Não há correções para os donos, só para os empregados”.
Como a senhora sabe moro no Rio de Janeiro, e não vou me estender aqui sobre os contratos de licitação aprovados na calada de um ano-novo recente no intuito de renovação por 20 anos da empresa que chicoteia, quer dizer, regula o serviço de trem da Cidade Maravilhosa. A senhora com certeza já sabe de tudo isso, e de muito mais histórias que desconheço e que se remetem ao tempo de Cabral. O Pedro, presidenta.
Consigo entender o quanto que a senhora está preocupada com o Senado, no caso do PR cruzar para a calçada da oposição, mas, presidenta, 75% de governistas na Câmara não são vistos desde a época da Arena e MDB. 75%! Vejo Obama, coitado, suspirando antes de dormir: that’s the guy, that’s the girl...
You are the Girl, my darling. Por isso, coragem. Leve todos da Alvorada e do Congresso para a parada de ônibus mais próxima e boa viagem. Xiii, Brasília! Golpe baixo? Por que não um nocaute certeiro?
Carinhosamente,
Dr. Luiz

Bom Dilma (terceira carta)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)


Querida presidenta, entendo na pele a causa do seu silêncio em relação à minha última carta. Essa coisa de separação nos faz monotemáticos obsessivos. Se não forçarmos a mente para as tarefas do trabalho, corre o risco de ficarmos alguns minutos olhando para um porta-lápis, ou para um detalhe na infiltração de uma parede e insistentemente perguntando o porquê de Palocci, perdão!, dele ou dela ter dito aquilo, ou tido aquela atitude naquele dia aparentemente ingênuo.
Digo “na pele”, pois recentemente me separei da minha esposa, e um belo dia me peguei por alguns minutos olhando abestadamente para uma prateleira da farmácia básica da unidade de saúde da família onde trabalho. Quando voltei à realidade, a viagem foi mais cruel: o local onde deveria estar o remédio contra sarna estava vazio! Olhe só, presidenta, para onde vagueiam nossos olhos nesses dias de tristeza...
Mas poeira pra cima, e demos voltas pro lado que o santo é de barro. Trabalhemos, trabalhemos, marchons, marchons. E aindo lhe digo que a senhora saiu ganhando, o fato de ele ser querido entre os empresários e patrões a tornava unanimidade pelas mídias de lá e de cá, mas deixemos essa coisa de unanimidade com Chico Buarque.
Uma estadista precisa enfrentar as naturais inimizades e ter coragem para dizer com quem realmente anda. Ademais, é nas quedas que o rio cria energia, e de energia a senhora entende, não é mesmo? Parece que Gleisi Hoffmann também...
Falando em trabalho, gostaria lhe pedir com urgência a instalação do Plano Nacional de Banda Larga, mas larga mesmo, no quarteirão onde fica meu posto. É que o software onde operamos prontuários, cadastramentos e sistema de dados está cheirando a carimbo e papel. Lembra da “Dança da manivela”? Pois bem, essa coreografia é habitué lá no posto, principalmente no meio da manhã, e até os usuários estão entrando no clima.
Se é para digitalizar a APS, ou falar à massa que somos uma cyber família, que chame logo essa Banda Larga para a inauguração, que não agüento mais axé.
Além da Dança da Manivela, quando se aproxima o dia de fechamento dos dados mensais relativos ao trabalho da equipe, que acontece por volta do dia 19 do mês, começo a ouvir valsas, polcas e maxixes cujas melodias me vem como num sonho raso, de repente aparecem meus antepassados com pincenê, barbas suíças e relógio de bolso.
Presidenta, preencher o BPA e o PMA2 é quase uma experiência espírita mística que nos transporta ao século XIX. 19 – XIX.
O pior é que, depois de todo esse axé e espiritismo na Era OS, fiquei sabendo que no final das contas os números são levados a um salão de beleza e recebem uma demorada maquiagem com escova grátis. Tipo um “antes e depois da Xuxa em números”. Fica uma beleza, presidenta.
Metas, metas, qualidade, qualidade. Ótimo, estratégia de certificação da qualidade da assistência, 900 milhões por ano, uma beleza, mas lhe pergunto: quem vai ficar na porta do salão de beleza dos números? Quando será o show dessa Banda Larga?
Querida presidenta, me vou por aqui, desejando-lhe muita coragem nessa nova vida pós-Palocci, vida nova para o Brasil que nunca viu três superpoderosas no Palácio: Ideli, Gleisi e a senhora. Para um Palácio feminino, salões de beleza de verdade.
Ah, ia esquecendo uma dica de um leitor (pois é, presidenta, não tenho eleitores, mas já há alguns e-leitores!), o William Porto: por que não alocar o Palocci na Saúde? multiplicaria por 20 a eficiência do SUS... William, ex é ex, né?




Carinhosamente,
Dr. Luiz

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Bom Dilma 2 (postada pelo amigo Dr. Luiz)


“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Presidenta, queria lhe agradecer a carta que você me enviou escrita em chinês. Fico muito agradecido de a senhora ter lido e, mais ainda, retribuído tantas gentilezas em língua oriental. Entendi perfeitamente quando me advertiu que me escreveria na “língua do futuro”, a qual já me empenhei em aprender, 非常感謝.
O que preciso lhe revelar hoje é um sentimento que tem pouco a ver com a dinastia Ming. É o sentimento irrefutável e onipresente que habita os corações dos profissionais da atenção primária: a impotência.
Visitei três senhoras nesta semana que me deixaram olhando pro chão. Muito diferente das 3 viúvas de Pablo Neruda, das longíquas montanhas chilenas, que serviam banquetes à francesa para os andarilhos mais arriscados. No meu caso, fui recebido também com muita dignidade, mas desci as florestas de pedra do morro faminto de alegria…
D. Conceição vem perdendo progressivamente ambas as visões, foi diagnosticada catarata por um médico em Bangu e, desde dezembro, ela tenta um encaminhamento para o oftalmolgista através do seu posto de referência. Mora próximo a um lixão com a neta adolescente e já parou de frequentar a igreja, pois não consegue mais andar só. É diabética dependente de insulina, e a neta às vezes se esquece de aplicar as doses. Sua médica do posto, na última consulta lhe aconselhou ser mais “dura” com a recepcionista no intuito de conseguir mais rapidamente a vaga da doutora da vista.
Já D. Maria vive com duas filhas, a biológica está tentando aos poucos se estruturar após meses de internação num hospital psiquiátrico, a outra, adotada quando adolescente, sofre de retardo mental e depende integralmente da mãe. D. Maria parou de faxinar para cuidar das duas. recebe uns trocados do ex-marido que se aposentou com um salário mínimo. D. Maria está obesa, pressão nas alturas, uma aparência de ter ultrapassado há muitas noites o seu limite. Me revela que não lhe sobra dinheiro para comprar o medicamento das filhas, isso há 3 semanas.
D. Rosa, após fraturas múltiplas por várias quedas e 50 anos de experiência em lavar roupas para a família de um doutor no Leblon, é impedida pelos filhos de cozinhar e de pegar na vassoura, eles  temem uma nova queda. Ela precisa se contentar com a única tarefa que lhe liberaram: passar roupas em cima da cama. É de Alagoas, morava perto do mar, e agora habita um porão de pedras,  o ar é sufocante e úmido. Não sai dali nem para ver a rua, “tenho medo de cair”. Realmente, no percurso de sua porta para rua, até eu ia caindo quando saí. Sua neta de 12 anos acompanha atentamente a consulta e me promete que vai lhe ajudar no manejo dos medicamentos, que estavam sendo administrados em outros fuso horários.
Presidenta, quando me distanciei rumo ao posto de saúde, hiperdia, captopril, estetoscópio, carimbo, caneta, palavras, recomendações, medicina, ciência, SUS, todos os programas, normas e planejamentos se esfarelavam pelas minhas mãos e escorriam morro abaixo numa correnteza de desilusão. Sinceramente, se na enxurrada me levassem todas essas palavras, eu me voaria para outros parágrafos, outras páginas, mergulharia em livros e iria me esconder por entre os terabytes da internet, me poria a pregar poesias islandesas do século XVIII e, após a tontura dos insaciáveis, repousaria inerte no colo de uma placa mãe.
Tudo, presidenta, faria de tudo naquele momento para não voltar à condição de me sentir um joão-bobo inflável de riso ridículo. Desculpe a ironia, presidenta, mas quando ouço que a senhora está inaugurando mais uma Clínica da Família, meu coração se desacelera num compasso murcho. A senhora não sabe o que significa um prato de SISREG vazio, uma farmácia “Tem mas tá faltando”, uma dança sem par intersetorial.
Me responda, por favor: Por que não fortalecer a base antes de construir o prédio? Melhorar a relação entre atenção primária e secundária, implantar e fortalecer o NASF, assegurar financiamento adequado para laboratórios e farmácias, ops!, me enganei, essas perguntas devem ser feitas à OS…
Preciso dizer à senhora que eu não quero carregar o mundo nas costas e que até o super-homem morreu tetraplégico. Enquanto D. Conceição não operar a visão, D. Maria não conseguir remédios para as filhas e D. Rosa não sair do porão, o mundo precisa ficar no chão de castigo, e ai se pular nas costas de alguém. Até porque operar visão, conseguir remédio e sair do porão, até podem rimar, mas não são solução.

Com estima,
不來的超人
Dr. Luiz