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domingo, 14 de julho de 2013

bom dilma


Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jacques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)
Bom dilma, presidenta!
Escrevo-lhe da sua, da minha, da nossa ciudad marabijosa, onde no meio do ano o sol do meio-dia esquenta lightmente nossas cabeçorras. 25 graus ao meio-dia. Sugiro à senhora adotar no seu vocabulário esta expressão que aprendi aqui: "Já é!" Nosso inverno é um verão stella artois.
Minha querida, fico muito feliz de estarmos juntos nesta segunda década do 21th Century Terra. Acho que agora de fato começou o milênio. Sabemos que, didaticamente, os historiadores contarão que a nova Era começou com as Torres Gêmeas em 2001. Porém, aqui pra nós, sabemos que começou na Tunísia, quem diria!, quando nossa querida WikiLeaks denunciou a cara de pau de um daqueles ditadores-avatares dos States. E assim, Primavera Árabe, Occupy e a Copa das Manifestações. Digo outra, fico também alegre de estar nesse barquinho após os 30. Se eu tivesse 15, 20, estaria perdido sem “atenção para a canção”. Depois de muita canção nos meus tímpanos coroa, me sinto, obviamente, perdido, porém curtindo muito estar meio vertiginoso na minha própria casinha. Lembra Leminsky? “Distraídos, venceremos!”.
Presidenta, tenho duas coisas para lhe contar hoje. Uma, precisarei lhe escrever essas cartinhas em máquina de escrever e enviar para os correios, cartinhas que lhe mando desde 2011 pelo electronic-mail – fiquei muito feliz em saber, como soube por fontes, que você as ler no alpendre da Alvorada numa cadeira de balanço portuguesa (só não entendi o ‘portuguesa’). Segunda coisa, como a senhora sabe, como lhe indicava no cabeçalho de um Bom Dilma antigo, sou “um médico de família de uma OS perto de você” e preciso muito e mais e mais lhe contar o que acho dessa transformação do facebook de médicos em ringue UFC. Pois , se fosse uma discussão mais robusta, seria um clássico ringue de boxe inglês. Uma luta muito mais elegante, não presidenta?
Por que máquina de escrever? Porque entrei ontem no movimento cypherpunks, a luta armada de bytes, digo, terabytes. Por favor, leia “Cypherpunks” do Julian Assange, editora Boitempo, aquela editora que a senhora adorava. Assange é o verdadeiro superman IV em 3D, você já o conhece e repito-lhe dizer que fiquei chateado de a senhora não o ter exilado no bairro de Vila Isabel para que pudéssemos nos esbarrar no boteco levando nossos laptops. Mudando o mundo num boteco de Vila Isabel, ouvindo Noel e falando inglês macarrônico com Superman seria explode coração. Soube que o Snowden recebeu 3 propostas de asilo na América Latina. Confesse, presidenta, Vila Isabel?

Bom, enquanto isso, Patriota e mais 4 hermanos chanceleres estão, espero eu, na vinícola Bouza nos arredores de Montevidéu, discutindo como dar um cascudinho nos States. Diga ao Patriota que ele pode dar um cascudo maior, Assange garante. Ele está tão feliz com o Equador e com tudo que está rolando por aqui, que vem dizendo aos quatro ventos que “América Latina is the Guy”. Eu e você concordamos. Agora, um aviso de amigo para você e seus colegas hermanos: não contrate empresas de segurança virtual, todas estão atreladas ao States, pois o software de criptografia é patenteado pelos yankees. O que vocês precisam fazer é nos contratar: cypherpunks. Fazemos de graça com um software livre que produzimos. Ademais, os States ou qualquer outra nação ainda não crackeou a gente. Então, vem! Nunca pensei que eu pudesse trabalhar para a senhora de graça, mas os o mundo gira, e rápido.

Por essas e outras, precisarei voltar à Olivetti. O governo russo já está planejando também. As digitadoras, dores e barulhos voltarão. Necessitaremos de curso em larga escala: as teclas do laptop são muito macias, precisaremos de calos nos dedos. Lembra Kill Bill quebrando a madeira do caixão? Por aí.
Claro que serei banido do Facebook e Google, não terei mais mastercard Smiles platinum. Viverei num mundo meio McFly em De volta para o Futuro. Sem celular, cartão, facebook, porém com um ultrabook olivetti que só daqui a algumas décadas será compartilhado nas redes sociais. Se vencermos, é claro. Em caso de derrota, essa jóia high tech vai ser vendida no shopping de São Conrado e traficada no Morro do Alemão pelo BOPE. Em contrapartida, por enquanto, não poderei usar emails. Enfim, a batalha tá aí, presidenta, e eu me alistei. Você iria adorar, não se precisa mais fazer aqueles treinamentos chatos de tiro na deserta praia do Recreio.
Falando em praia, medicina também é a minha, em que chego religiosamente em ponto durante a semana. Aprendi a ser pontual com o Che, que disse uma vez: "pontualidade o muerte". Aqui no Rio eu sofro, Che.
Serviço civil obrigatório para os egressos de universidades públicas e privadas, no caso de alunos subsidiados pelo governo público: palmas, palmas. Óbvio, o Brasil é um país capitalista do BRICS, não tem como não exigir uma pequena ajuda depois de custear por baixo 30 mil reais ao ano/estudante de medicina. Quando entrei na faculdade há 8 anos eu já achava isso lógico. Não dá para se formar depois de 6 anos em universidade pública, fazer uma residência de dermato e abrir uma clínica de dermato estética no Leblon. Isso é contra o Brasil. Agora, se você custeou sua graduação, aí tudo bem, pode fazer o que der na cachola, tendo agora que queimá-la estudando ainda mais, pois as vagas precisam ser reguladas pelo Estado, e vaga de dermato vai ter bem menos em relação às áreas básicas: medicina de família e comunidade (mfc), clínica médica, cirurgia geral, ginecologia/obstetrícia e pediatria. Quem gostou disso foi o medcurso... presidenta, medcurso? Seria mais um toma lá me dá cá do Partido Republicano?
Agora o meu “não curti, não curti”: os 2 anos do segundo ciclo, pós 6 anos, não pode hoje em dia ser uma coisa diferente de residência médica obrigatória. Agora, se será em mfc, ou se será metade das vagas em mfc,  e a outra metade nas áreas básicas, é um conta para o governo fazer considerando a população brasileira. Presidenta, não dá para dizer: “calma, calma, os recém formados e estrangeiros não vão operar, fazer neurocirurgia, vão para a atenção básica e emergência/urgência, SAMU”. Para mim, não tem especialidade médica mais fácil de se fazer nas coxas e mais difícil de se fazer bem feito como medicina de família e comunidade. São inúmeras habilidades e tecnologias que não são facilmente medidas no dia-a-dia, mas que no fechamento da conta pode dar um rombo no já precarizado SUS se for feita de má qualidade. Em relação a emergência/urgência/samu a mesma coisa, principalmente levando em conta que a maioria das ‘emergências’ são pronto-atendimentos (PA), e PA para nós, médicos de família e comunidade, já fazemos diariamente no posto. Não se esqueça do CTI/UTI, que junto à emergência e atenção primária à saúde (aps) são os 3 cenários em que a maioria dos médicos formados apenas com a graduação no bolso vão atuar Brasil afora. 
País com saúde forte é país com aps robusta, poderosa, malhada, sin perder la ternura. Veja Canadá, Inglaterra e Cuba. Eu sei que a senhora já sabe disso, que Lula e FHC idem. Todos vocês sabem que investir árduo em APS é mais vantajoso economicamente e sanitariamente para o país, mais vantajoso para satisfação dos cidadãos, portanto, me diga, para que o retrocesso nesse ponto crucial: alta qualidade da aps?
Esses 2 anos do segundo ciclo precisa ser uma residência médica, não dá para deixar frouxo: “a universidade que vai decidir” etc. Não: residência. A gente já sairia da graduação com uma especialização e depois correria atrás dos sonhos de cada um, já tendo uma boa bagagem com uma boa residência federal de boa qualidade. E digo mais: se fosse de boa qualidade aumentaria muito a chance de fixar os médicos como mfc.
Sobre os estrangeiros? Portugal já tem isso, possui um convênio com Honduras, Costa Rica e Cuba. Recebe sem “rrevalida” para áreas de vazio assistencial. Juridicamente, não daria para os estrangeiros agora fazer o revalida, pois a prova é ruim, e caso faça medcurso e passe, ele poderia montar uma clínica de dermato estética no Leblon (to malhando a dermato, perdão, colegas, saibam que gosto muito de dermato sanitária. Ah, sobre o Leblon, a livraria Argumento é fantástica).

Bom, presidenta, acho que o Brasil precisará gastar uma grana a mais para supervisionar de perto os gringos. Mesmo em caso de terem uma boa capacidade técnica e um bom entendimento de como se funciona o SUS e o Brasil, a tal da língua é bastante traidora no começo. Acho que os cubanos, que fazem o curso tradicional de Cuba, a melhor safra para essa missão. A ELAN, escola para a América Latina ainda tem muitas fissuras e o ensino é bem mais fraco. Fui a Cuba 2 vezes, eu sei que a senhora foi 108, mas já deu para perceber isso: os estudantes de medicina cubanos são mais cabeçudos.  Se brincar, a formação é melhor que a nossa.
Para finalizar a minha extensa epístola (tô animado hoje), quero lhe dizer que eu só acredito em aps forte com equipe multidisciplinar. Médico sozinho não faz verão, longe disso, nem um outono capenga. Então troque o +médicos para o +saúde e abra vagas para as outras profissões, também com residências e especializações de alta qualidade. Médico sem qualidade na aps revigora a tese de que o médico potencialmente pode fazer mal à saúde com iatrogenias clínicas, sociais e culturais. Recomendo Ivan Illich: “Limites para a medicina”, editora utopia, a qual a senhora conhece muito bem.
Sobre o ringue UFC entre médicos no facebook: Universidades de medicina, por favor, cometam uma redução de danos! pelo menos do UFC para o boxe: cobrem um pouquinho que seja de filosofia, sociologia e história para todos nós.

Presidenta, que tal aulas básicas de economia nos cursos de medicina ao se aposentar como presidenta? Uma coisa eu lhe digo, para a senhora passar no concurso com uma banca de médicos, só vindo comigo pro cypherpunks. Venha, você vai gostar.
Carinhosamente,
Dr. Luiz

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Bom Dilma


















“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”

(Jacques Derrida)

“Mas mesmo assim precisa ser escrita”

(eu mesmo)

por Dr. Luiz, médico de família de uma OS perto de você




Presidenta,

Mário tem 46, acha que vai fazer 48, mas tem aparência de 60, é catador de lixo e engraxate, recém tratado de tuberculose, conversador toda vida mesmo faltando-lhe os incisivos superiores, foi meu último paciente hoje às 19h30m, era o 30º-.
Sei que a senhora não é médica, mas acredito, como em qualquer outra função, que despacho de presidenta tenha limite. Quando alguém do PMDB precisa vê-la no comecinho da noite, após 2 mesas intermináveis de lançamento de programas e 3 conversas de corredor, não menos intermináveis, com aquela mãozinha no cotovelo da senhora, imagino o quanto sentimento de inimigo emana da sua robusta paciência ao ser obrigada a se sentar com a base aliada.
Estava eu que nem a senhora, apertando a mão do escritor Sarney, às 19h30m, quando entra o Mário, bem-humorado, no meu consultório de médico de família e me apresenta seu caderno de caligrafia. Isso mesmo, ele não se queixou, diferente dos outros 29 do dia, de nenhuma dor de cabeça, diarréia, coisa-ruim, coceira, mancha ou falta de ar. Mostrou seu caderno de caligrafia, foi folheando lentamente enquanto diante de mim apareciam a, e, i, o, u, muito mais elegantes do que o Arial insosso em que digito esta carta. “E” de escada, “O” de ovo, “U” de uva, cada letra correspondendo a um desenho do Mário. Quando terminou, ele se sentou, e me disse em tom de confidência: “Dr., preciso de um remédio para abrir minha cabeça”.
Sabe, presidenta... naquele momento, depois de 6h e meia sem beber água, sem ter operacionalizado minhas diureses, sofrendo da lombalgia do partido dos trabalhadores (das antigas, é claro), meu coração de operário foi amolecido numa lata de óleo. E ficou assim por alguns minutos, batendo rubro-negro.
Mário estava sendo pressionado pelas professoras de alfabetização de adultos do curso noturno que freqüenta a uns dois quilômetros da sua casa, um dos cinco barracos mais precários da minha área adstrita. Elas haviam estimulado o Mário a ir atrás de ajuda para resolver, segundo elas, sua deficiência de aprendizado. “Elas me disseram que pode ser problema de hormônio”. Subentendi depois de alguns minutos que o hormônio se chamava ritalina, se a senhora não conhece, é um nome comercial do metilfenidato, uma catecolamina (agonista adrenérgico), que possui estrutura química semelhante à anfetamina (derivado piperidínico). Trocando em miúdos, é a alegria nos últimos vinte anos da indústria farmacêutica Novartis, pois além do filão para melhora da concentração entre executivos (leia-se produtividade no mundo dos negócios), e para emagrecimento de moças já bonitas, recentemente a Novartis mirou nas criancinhas “peraltas”, o que logo virou uma epidemia chamada distúrbio de hiperatividade com déficit de atenção. Também é uma febre entre estudantes que se preparam para concursos. Enfim, uma “bolinha” vendida em farmácia, assim como a cocaína na década de 20.
No início da consulta, apesar do coração já amolecido pelo óleo da lata, resisti: “Mário, infelizmente a medicina não tem um remédio para abrir a cabeça”. Ele me olhou surpreso: “tem não?”. Nesse “tem não?”, presidenta, confesso que senti nó de choro na goela. Lembrei do Giosuè, Guido e sua “principessa” do filme “A vida é bela”, todo aquele esforço de Hércules do Guido em esconder do garoto que aquilo ali era um campo de concentração nazista, tentando sustentar que tudo não passava de uma grande brincadeira muito bem bolada.
A miséria de Mário foi o campo de concentração em que me sustentei para não lhe privar da esperança. Não iria ali fazer um discurso “conscientizante” sobre classes sociais, estrutura e superestrutura, para lhe explicar o porquê da sua dificuldade de ler. Não iria estimulá-lo a se indignar com a injustiça do mundo capitalista e se associar ao sindicato dos catadores de lixo, tornando-se em vez de um Mário falador e bem-humorado, um companheiro sisudo e com a raiva na garganta dos seus discursos.
Também não iria lhe explicar que o mote do governo Lula era o Fome Zero e o da senhora é o Brasil sem Miséria, apesar de que a fome e a miséria nunca desaparecerão se outras bolsas-valores-‘famiglias’ não esvaziarem de vez.
Muito menos iria lhe noticiar que está acontecendo uma crise no capitalismo global e que os ricos, que são a condição para a existência da sua miséria, estão agora com uma cefaléia tensional leve, muito leve.
Definitivamente, não, presidenta.
Menti que nem o Guido a Giosuè: “buonguorno princepessa, me enganei! Tem sim um remedinho pra você, Mário”, ele me abriu o sorriso banguelo, pegou a receita e disse que tinha de ir, “tô atrasado pra aula”.
Bateu à porta e me deixou sozinho, com o rubro-negro já esfacelado no fundo da lata.


Mande-me notícias, presidenta, há tempos que não recebo uma carta sua.
Carinhosamente,
o seu Dr. Luiz
ps: o “remedinho” foi Gingko Biloba, um pop star da fitoterapia.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Bom Dilma (por Dr. Luiz, um médico da família de uma OS perto de você)

“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Querida presidenta, também assisti ao documentário Trabalho Interno (Inside Job, 2011) e, assim como a senhora, descobri que o Lehman, de “Brothers” não tem nada...
A senhora não pode quando estiver com insônia se ater a conteúdos ansiogênicos, recomendo fazer cálculos de aritmética sem nenhuma correspondência com PIB, taxa de câmbio ou juros líquidos. Sugiro contas do tipo: Pedrinho foi à feira comprar mamão, só tinha 10 reais, e a promoção era 2 mamões por 5, quantos mamões Pedrinho levou? Recomendo parar por aí, pois Pedrinho pode perguntar: por que há 3 meses o mesmo feirante vendia 3 mamões por 5?
Insisto nisso, presidenta, para que o seu sono não seja invadido por uma tempestade tenebrosa de dólares, seguido de um Godzila chamado Inflação avançando sobre a Esplanada, sua sombra crescendo... O bicho, morto de sede devido à baixa umidade de ar, num só golpe, arranca a cuia do Congresso para sorver em goles o lago Paranoá. Nem ouse, presidenta, senão pode vir um pesadelo pior: o sumiço da reserva do pré-sal. Os chineses drenaram tudo através do mais profundo buraco no chão perfurado do outro lado da Terra. E distribuíram o ouro negro por toda a China em vasilhames de molho shoyo. A senhora poderia acordar molhada de royalties, ser compulsoriamente afastada por alguns dias e... Michel Temer... não!
Mas deixemos pesadelos e Godzilas de lado, pois quero focar em tecnologia na Atenção Primária à Saúde. Sei que a senhora, ao mesmo tempo que deseja atrair investimentos, também sonha com o aumento da cadeia produtiva nacional, investindo em inovação e tecnologia, não é? Quer mandar esse papo de país-banana-agro-exportador pastar, não é? Pois bem, então por que diachos a Fiocruz praticamente havia comprado sem licitação o tal do Alert a 365 milhões dos portugueses? Saravá Dom Pedro que a Folha de São Paulo noticiou o fato e o contrato foi cancelado há poucos dias. Quem diria que poderíamos agradecer à Folha, hein?
Para quem não sabe o Alert é um software de gestão de dados, que permite a formatação de prontuários eletrônicos, e a integração das informações de saúde em rede. Para as OSs, é por onde se avalia o cumprimento das sagradas metas. Isso mesmo, no Rio já está sendo usado em vários serviços de saúde, o que quase aconteceu foi a expansão nacional.
Todo esse arrodeio, presidenta, é para lhe dizer que os portugas e os mineiros (a representação da marca é de uma empresa de Minas) nunca foram tão bem pagos para tocarem a Dança da Manivela. Lembra? Nós, profissionais do Saúde da Família do Rio, ainda estamos nos esbaldando com tamanha riqueza coreográfica. A cada travamento, um passinho: pa pa ra pá pa ra ra...
Preste atenção, há duas questões sérias a respeito do Alert. A estrutural se relaciona com uma outra dança, a do empurra-empurra, digamos num formato mais punk inglês do que axé baiano. A empresa mineira que representa o Alert no Brasil diz que a prefeitura do Rio não cumpriu cláusulas contratuais que garantem um nível “x” necessário de qualidade de rede de internet para poder correr o programa online. Leia-se sem manivelas. Já a prefeitura retruca dizendo que isso não estava no contrato original, enquanto isso a OS cobra de ambos pois ainda não está podendo checar metas e, por conseguinte, produzir mais lucros.
A outra questão é mais técnica, pois sendo um software para ser usado na Atenção Primária, não possui ferramentas diretas e acessíveis para a saúde da família: georreferenciamento, heredograma, prontuário familiar e outros recursos que poderiam ser uma mão na roda, mas é na manivela que a roda gira.
Recheando tudo isso, adiciono a cereja do ridículo treinamento a que os profissionais foram submetidos. A prefeitura diz que a empresa deveria ter oferecido mais que o dobro de horas para ensinar as equipes a manejá-lo, resultado: muitas críticas, pouca satisfação, e nenhum sentimento afetivo por parte dos trabalhadores, tipo: um software para chamar de seu.
Após 189 anos de independência, mesmo que seja de mentirinha, mesmo que tenhamos sidos transferidos para outras metrópoles, não merecíamos montar o nosso próprio software de gestão de dados para uma estratégia tão pop star para o governo como a Saúde da Família?
Bom, presidenta, espero que reflita a respeito das danças, e ponha-se em Alerta sobre transferência de tecnologias entre os cruzmaltinos e os tupiniquins.
Despeço-me lhe rogando que cuide do seu sono. Afaste-se do Godzila, do Pepe Vargas, de uma EC 29 sem Fundeb, do PT do RiOS, das tecnologias sem antropofagias e, sobretudo, desses “Brothers” que fazem Pedrinho gastar mais dinheiro.




Carinhosamente,
Dr. Luiz.