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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A vida rompeu o asfalto (publicado em 1/6/20 na séria Atrás da Máscara no Blog Causos Clínicos)

 

Ela entrou e não conseguia falar, sua filha cortou o clima: meu irmão morreu domingo passado.

Na semana anterior havíamos pactuado o retorno da mãe ao antidepressivo que não usava há 15 anos. Uma consulta longa, a segunda, muitas ideações suicidas. Semana retrasada a colega médica da equipe tinha acolhido e registrado inúmeros parágrafos no campo subjetivo do E-SUS. Abuso infantil, 12 tentativas de suicídio, um casamento morto-vivo, a sensação de que a vida zuniu pela janela enquanto lavava pratos e arrumava os filhos para a escola. Chegou a concluir curso universitário, mas jogou a toalha no ringue dos sonhos. No entanto, agarrou-se ao último joule de energia e tentou pela enésima vez sair da inércia. Aplausos em pé.

Durante a pandemia, meu turno de “consultório normal” me relembra que a vida não está em isolamento, a mordida do cachorro de rua, o terrível peso de uma investigação de câncer, o aperto nos olhos por um sorriso escondido pela máscara da mãe, deitada na maca, ao ouvir as batidas do coração do primeiro filho, o barraco na sala de espera, um pneumotórax espontâneo num jovem fã de Legião Urbana, o corrimento vaginal que a envergonha pelo fato de precisar ficar de quarentena com o namorado novo, o início da insulinoterapia com a melhora dos níveis glicêmicos mesmo se empanturrando de pão. Essas e outras me desconectam da ficção científica trágica que nos metemos em 2020, mas a roda da vida, repito, definitivamente está furando a quarentena.

24 anos, diabético tipo 1 descoberto na infância, funcionário de um fast-food, e fã do batidão carioca havia deitado na cama da mãe na tarde de um domingo e soltado o verbo sobre planos e sonhos como há muito não fazia. Sem sintomas respiratórios. Como grande parte dos jovens, tinha uma péssima relação com a doença crônica, negação e aposta no poder curativo da juventude. Se para os idosos é dificílimo, para os jovens são insuportáveis a disciplina com a alimentação, exercício físico e medicações, os efeitos colaterais, os exames e consultas de rotina. Já no trabalho noturno na lanchonete durante a folga falou ao colega que iria relaxar no quartinho dos funcionários e nunca mais voltou. A mãe foi a primeira da família a chegar no local, “doutor, ele estava no chão feito um pacote jogado”, assim que recebeu o telefonema do gerente, ela sentiu que não era apenas mais uma hipoglicemia, assim como várias outras vezes.

Estou aqui para lhe ouvir, a senhora quer falar alguma coisa? “Ele não me deu tchau”. Foi uma das consultas mais tristes que já tive, e olhe que já tive muitas desde o meu início como médico em 2006. Todavia o motivo desta crônica não foi a maior tragédia do mundo, a de perder um filho no meio de uma pandemia e sim a reação desta mãe com alto risco de suicídio. Claro que em nenhum momento da consulta eu sondei como estava este risco, apesar de ser recomendado, foquei no que ela e a filha falavam, “a minha vontade é de gritar e socar e parede”. Quase prescrevi de tanto ter repetido que ela precisaria gritar muito e esmurrar o colchão, que quanto mais fizesse isso no começo, melhor, mas à medida que a consulta andava ela entendia o que eu queria saber sem ter perguntado e do nada diz: “fique tranquilo, doutor, não quero mais saber de morrer, a mensagem da morte dele para mim foi: viva, minha mãe!”. Marujei atrás da máscara e me segurei muito para não abraçá-la, falei que a minha vontade era esta.

Ela retornou na semana seguinte, dormindo demais e comendo de menos, a filha reclamando que a mãe precisa respeitar a maneira de encarar o seu luto, que é faxinar obsessivamente a casa. O pai, apático, catando os escombros no trabalho de jornaleiro, a outra irmã sofrendo pois havia brigado com ele antes de sua morte, suplicou à namorada do irmão, detentora da senha do seu celular, que apagasse sem ler as conversas de zap entre eles. E ela, a mãe, ainda firme, com planos de arrumar o quarto do filho com prazo determinado para cada item, “só o travesseiro, doutor, vai ficar comigo, ele deve ter chorado e sonhado muito nele”.

Ao sair da consulta me pede que nossos encontros fiquem mais espaçados, de 15 em 15 dias, olho para a filha, que me faz um ok com os olhos.

Será que é apenas uma reação inicial e em breve ela desmoronará e cometerá um suicídio de fato, ou será que esta morte ressignificou os sentidos da sua vida e a isso ela se abraçará até o fim? Não sabemos, mas o fato é que, pelo menos neste início, parafraseando Drummond, no meio da morte, a vida nasceu na rua, rompeu o asfalto.    

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Febre e paixão


Entrei na faculdade para ser cirurgião, adorava os desenhos de Andreas Vesalius e a personagem do Dr. Benton, do Plantão Médico, que conseguia trabalhar sob pressão, como se protagonizasse qualquer última cena de filme de herói. Curtia gazear aula e ir à biblioteca e seu silêncio no Centro de Ciências da Saúde, da minha amada Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para folhear As Bases das Técnicas Cirúrgicas e Anestésicas.

Desisti da vida de bloco assim que entrei como estagiário da Sala de Trauma do Hospital da Restauração e vi os modos com que um R1 de cirurgia era tratado pelo seu preceptor e, com maior gravidade, como essas equipes lidavam com os pacientes. Nunca pensei em carreira militar. A hipótese de ser recruta após a graduação e me expor a relações tóxicas nas décadas seguintes me brocharam.

Pensei na cardiologia e suas subespecialidades intervencionistas, tipo hemodinâmica, e marquei presença nas sessões clínicas do Serviço de Cardiologia.

Costumava me sentar no fundão e me deliciar com os casos complexos de cardiopatias diversas. Um dia percebi que havia dois gringos ao meu lado, mais velhos e cascudos. Ao término de um caso sobre cardiopatia reumática, a dúvida pairava sobre a indicação da prótese valvar, se mecânica ou biológica, pois os dados nos levavam à fronteira da conduta. Após a discussão, perguntaram aos gringos, professores cubanos velhos e cascudos. No podemos hablar del caso, pues en Cuba no hay fiebre reumática. Vupt! Por que?, voando para cima deles, frequento o maior ambulatório de febre reumática do Nordeste. Porque en Cuba la gente tiene acceso a médicos y antibióticos. Corei. Saí da sala não encontrando sentido na beleza clínica da sessão.

“Vai pra Cuba!” de 2013 me soou antiquado. Em 2004, no 5o ano, parti para Havana graças ao Núcleo Brasil Cuba da Diretoria Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, viagem que deu um ziguirau na minha vida até hoje.

Fui da turma 108 da UFPE, a última do currículo velho, apenas um ano de internato e zero sobre Atenção Primária à Saúde (APS). Ao final do 5o ano nem sabia que Medicina de Família e Comunidade (MFC) existia. 

Nós, estudantes de medicina brasileiros, boquiabertos com o número de equipes, a cobertura populacional, a relação dos médicos com o território, a comunicação entre níveis assistenciais e, sobretudo, com a vida pulsante e musical de Havana. Gravamos 10h de vídeo com câmera profissional da UFPE, apelidada de La Poderosa, inúmeras entrevistas, incluindo Aleida Guevara, filha do Che, pediatra em um hospital de cardiopediatria. Um dia produzirei este documentário.

Voltamos com metas palpáveis de se fazer uma revolução socialista no Brasil, mas nos contentamos em iniciar um movimento para emplacar a primeira residência multiprofissional na APS em Pernambuco. A inesquecível Liu Leal, minha contemporânea na universidade, pertencia ao grupo. Como havia um edital nacional aberto para estimular o aparecimento de novos programas de residências em Medicina de Família e Comunidade (PRMFC), saímos do coletivo e escrevemos o projeto do primeiro PRMFC de Pernambuco, ligada à UFPE. Isso mesmo, em 2005 internos escreveram o projeto de uma PRMFC.

Não satisfeitos com a ousadia, além do estágio optativo, inventamos mais dois, cada um com 30 dias de duração: o estágio integrativo, onde rodávamos em um serviço do SUS recifense que ofertava apenas práticas integrativas: acupuntura, homeopatia, fitoterapia etc; e o estágio estratégico, no assentamento do MST em Gameleira/PE, uma zona de conflito. O objetivo era iniciar a territorialização, abordagem comunitária, atendimentos e visitas domiciliares. Uma das maiores experiências da minha vida, passava a semana no assentamento e voltava para a capital aos fins de semana, sentindo-me num livro de Sebastião Salgado. A residência multiprofissional aconteceria uns 3 anos depois. Liu viveu para ver.

Para além dos estágios, montamos um eixo de iniciação à docência no R1, sob supervisão de uma pedagoga, Regina, construímos ementa, preparávamos e produzíamos aulas teóricas e práticas e construíamos as avaliações da recente disciplina Fundamentos da Atenção Básica 1 para o 3o período de medicina. Em outras palavras, R1s tocavam uma disciplina da graduação. Não por acaso a maioria dos egressos desta primeira turma virou professor.

Quando falo “nós”, Izaias de Souza Jr., Vitor Hugo Lima Barreto, Júlio Lins e eu, um grupo ligado ao movimento estudantil e, principalmente, aos projetos de extensão Bulicomtu e O Caminho. O professor Oscar Coutinho e o recém egresso do PRMFC do Murialdo (RS), Rodrigo Cariri, nosso mestre dos magos veterano querido, encabeçaram a coordenação. Tornamo-nos R1s e, ao mesmo tempo, co-coordenadores. Era inimaginável, um retorno à década de 70 quando as primeiras residências brotaram no Brasil. Toneladas nos ombros.

Apesar de toda a insegurança de egresso e de R1s nessas condições, apesar de a maioria dos preceptores locais não ter título de MFC, não podíamos abandonar o barco e nos preparar para uma outra residência. As outras gozavam de um serviço experiente e formado, cronogramas já estabelecidos, onde residentes não precisavam articular com ninguém para garantir os estágios, prezar pela qualidade da carga teórica e nem prestar relatórios à Coreme.

A sensação era a de que a inserção de uma nova especialidade na medicina pernambucana dependia apenas da gente. Em parte era verdade, mas de outra, esta sensação guardaria um sentimento coletivo destruidor entre MFCs, que falarei mais adiante, a síndrome de super-homem.

Decidimos morar juntos, iniciando uma república, A Casa dos Macacos, cuja história contamos melhor em um livro homônimo. Aos trancos e barrancos, terminamos a 1a turma. Foi tão intenso que ao final do R2 migrei para o Rio, onde moro até hoje, e passei 2 anos fazendo mestrado e trabalhando em plantões de emergência sem querer saber de APS.

Voltei à MFC em 2010 em Niterói, ano de uma terrível enchente que conto no blog Riocife. Em 2011 assumi uma equipe como primeiro médico na Penha, Clínica da Família Felippe Cardoso, no início da reforma da APS no Rio e fui preceptor da 1a turma da PRMFC da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (PRMFC-Rio) em 2012. Para encurtar, passei 6 anos como preceptor, PRMFC-Rio e PRMFC da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fui professor de APS na UERJ por 5 anos e desde 2018 sou professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tive a imprescindível experiência de ser médico de equipe sem PRMFC, 20h por semana, de 2016 a 2024. Desde que ingressei na APS do Rio, passei por 9 unidades, sentia-me um Vinicius de Moraes da APS. Anti-longitudinalidade, mas fiel às paixões. 


Da sessão de cardiologia na UFPE até  eu assumir como preceptor de residência, a resposta ao “Por que MFC?” tinha mais a ver com um sentimento de missão, afinal era o que o SUS mais precisava, a taxa de cobertura naquela época era vergonhosa para um sistema universal de dimensões brasileiras. Também havia uma ideia de retribuição por ter cursado seis anos de universidade pública. A sensação de poder trabalhar alguns turnos da semana em visitas domiciliares e, sobretudo, montando grupos com a população, que poderiam ser de tabagismo a teatro, calcados na educação popular em saúde. Um atrativo gigante para um jovem que sempre quis conciliar medicina e arte.

No entanto, inexistia até então um encantamento pela clínica em si e pelo oceano das habilidades de comunicação, pois todo este universo era praticamente ignorado. A cirurgia ambulatorial é possível! Não há nada melhor do que residentes e internos indentando-nos os calcanhares, empurrando-nos a melhorar nosso tempo de maratona.

A partir daí, o tesão se concentrou na qualidade da consulta. Como proporcionar uma consulta e seguimento para usuários do SUS com uma qualidade superior do que muitos privados? O objetivo seria impressionar aquela pessoa já amplamente castigada não só pelo setor público de saúde, mas por todos os outros.

Retirando-se os 2 anos que passei fora da APS, já se vão 16 e uma aposta na docência atrelada à assistência, o medo do encastelamento acadêmico e, ao mesmo tempo, da roda viva dos serviços sem respiros para o necessário afastamento reflexivo. Em contrapartida, a pergunta “Por que continuar MFC?” rodopia o divã e vem me paralisando na encruzilhada.

A forma canhestra como reproduzimos um modelo de acesso da saúde privada californiana do final do século XX, e já criticado em vários cenários, em morros cariocas e periferias urbanas vem promovendo um descontentamento coletivo, uma alta rotatividade de profissionais e, o pior, adoecendo multidões.

O horror que tínhamos da velha agenda programática engessada nos aproximou de soluções utópicas para a nossa realidade, os erros de vieses na implementação são catastróficos. Uma população completamente diferente, equipes supersaturadas e nenhuma adequação entre oferta e demanda transformaram o acesso avançado no monstro do acesso arrombado. A gestão bate palma para os números.

E aqui retorno à síndrome de super-homem. O que mais me aflige é que a hipomania, regente dos chegados a esta especialidade, ajudou-nos a naturalizar, quase como um valor cultural. A tentativa de organizar o acesso soa quase como um cancelamento.

Não preciso repetir o quão insuportável é atender aquela imensa complexidade em tão pouco tempo, sem contar o excesso digital competindo com os minutos da consulta: prontuário à manivela, exames e suas impressões e registros, solicitação de exames e consultas para a atenção secundária em outras plataformas, interconsultas várias, renovações de receita indecorosas, passes livres para transporte público etc. O trabalho de vigilância invariavelmente invade o turno da visita domiciliar. Grupos? Abordagem familiar e comunitária? Sobrou apenas um “M” velho e frustrado, o Sr. Queixa-conduta.

Sem contar nos últimos anos da falta de itens essenciais de medicamentos e insumos nas unidades de APS do Rio que faziam Austrália, EUA e países da Europa sentirem inveja. 

A eterna sensação de que não dispomos do tempo suficiente para quem mais precisa, a equidade ferida no meio do peito.

Ou a gente coloca isso no centro da mesa, feito a tora cheia de cupim da Sônia Braga no filme Aquarius, ou destruiremos com tudo. Eis a minha encruzilhada: sinto-me acanhado para estimular graduandos a escolherem MFC.

O que me resta de esperança é estar completamente errado. Por que continuo? Porque tenho a certeza de que escolhi a especialidade certa, porque existem estudantes e residentes que me lampejam, porque o SUS ainda é o principal empregador de médicos do país. E em se tratando do maior sistema universal do mundo, tudo pode acontecer.

Por último, continuo especialmente por causa desta gente que carrega o Brasil nas costas e que me ensina todos os dias que meus white people problems são quite ridiculous.

Resisto porque não tem outra maneira de um médico classe média branco encarar a cidade de Deus, cuidar e ser cuidado por este torto arado chamado Brasil.


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Medo Medieval: o conto do canto

A primeira vez que ouvi tiroteio de verdade no Rio foi numa madrugada no apê da Rua Gonzaga Bastos, Vila Isabel, que meu amigo Lucas Benevides, psiquiatra carioca que morava no Recife, me emprestou para uma temporada no Rio, a qual já dura 13 anos. Passei apenas seis meses, e foi naquela sala onde compus Medo Medieval, também na madrugada. Tinha acabado de ingressar no mestrado de Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social da UERJ. Acordei de supetão e rolei para debaixo da cama. Era 2008.
O medo de andar pra cima e pra baixo, de trem e busão, plantão de São Gonçalo a Bangu, estava presente, mas não me ameaçava. Cheguei no início do pacto de paz, aos custos reais que desconhecemos até hoje, e que durou até a Copa de 14. Cabral, UPP, grandes eventos. O fato é que todo aquele Rio perigoso, que ouvimos no JN desde a década de 80, havia se tornado novamente aquele Rio pré-70. O sol, o sal e o mar, e aquela sensação de que o caos estava abafado e escondidinho debaixo do tapete. Perdi o medo, voltei inúmeras vezes no sono alcoólico, 433, queimando a parada para despertar no terminal. A passos lentos, 3 da madruga, da Praça Barão de Drumond à Gonzaga Bastos, o único pedestre, destemido, que nem nos tempos de Noel.
O mestrado era puxado, só dava para trabalhar como plantonista, passava horas lendo uma literatura que não tinha a menor aproximação prévia: ciências políticas, economia, sociologia, filosofia. Outra linguagem, outros sentidos para as palavras, dicionário do Bobbio a tiracolo, como se aprendesse uma outra língua. Para aliviar a barra, minha turma era sensacional, multidisciplinar e adorava um bar. Rimou.
Fizemos jornalzinho, cine-clube, seminário estudantil, muitos rolês. Buscávamos outra maneira de escrever para a área, expressão em outros formatos que não fosse algo maçante. Foi quando, numa madrugada da sala da Gonzaga Bastos, lendo A Dinâmica do Capitalismo, do Fernand Braudel, para apresentar numa avaliação de disciplina, pensei em fazer algo diferente.
No dia da avaliação estaria no Recife para o São João, então tive a ideia de enviar uma gravação, que a minha turma apresentaria ao vivo quando chegasse a minha vez. Como estava interessado na área da comunicação e saúde e iria trabalhar com rádio comunitária, inventei um programa de rádio em que tentava imitar as vozes de radialistas populares do Recife da minha infância. Escrevi um roteiro sobre a minha parte naquele livro e em outros da disciplina, tentando temperar com humor tipo Pasquim e Monty Phyton. No entanto, precisava de uma canção.
Estudei teoria musical e cursei 3 anos de teclado no final da infância e pré-adolescência, tocava Yesterday, La Cumparsita, Reality e Eu sei que vou te amar nos natais em família. Não era lounge, num determinado momento da noite minha mãe chamava todo mundo para o meu quarto, eu ensaiava para tal, palmas e plateia. Aos 14, a primeira banda com a galera do Colégio Santa Maria. Levei meu teclado para o quartinho na cobertura do meu primo. O meu tio nos chamava de Inimigos do Ritmo, mas o nome era The Primos. Achei conveniente a crítica e pedi um baixo para o meu pai, queria resolver esta lacuna. Giannini Slim Line preto. A banda durou dos 14 aos 19, nosso ápice foi tocar na formatura do 3o ano. Rock 60s, Beatles, Stones, Doors e Jovem Guarda. Na infância gostava tanto de Elvis que levava a foto dele para o cabeleireiro, tentava o topete e não conseguia, apelei para o gel, e logo ganhei o apelido de Tufa na escola.
O nome da banda era em homenagem a uma outra, Os Primos, cujo pai de um dos integrantes teve, também com o seus primos. nos anos 60 e que teve alguma repercussão, tocavam nos auditórios de TV e eram amigos do ritmo e da afinação. Desde então nunca abandonei o violão e os songbooks de Almir Chediak, entrei na faculdade mais MPB. E daí para se apaixonar pelos ritmos pernambucanos foi um pulo. Saí da faculdade de pandeiro na mão.
Até 2008 havia escrito apenas 4 canções, todas em parceria: um rockão em inglês, um samba ainda sem harmonia, um baião que veio de um poema e outro sambinha que já tem harmonia e experiência em shows e que gravarei em 22. A minha praia era literatura, poesia e crônica.
O livro de Braudel foca em como se deu a expansão da economia de mercado do final da Idade Média até fins do século XVIII, como foi que a expansão do capitalismo acabou subjugando e empobrecendo os camponeses autônomos da Idade Média que estavam fora dos limites dos mercados em ascensão: Veneza, Flandres, Ístria, Pérsia, China. No final das contas, é o que já sabemos, a acumulação inumerável de riquezas roubadas da América, África e Ásia a partir do século XV, eliminando qualquer possibilidade de vida autônoma que seja a par desse sistema. E mesmo depois da Peste, todas as guerras e pandemias, “a cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”.
A referência para compor veio da Califórnia, a música Alabama Song (Whiskey Bar), dos The Doors. Colhi palavras e frases do livro do Braudel e comecei a compor uma métrica, pensei inicialmente num poema. Tanto que a brincadeira com mercado, ria! e pirata, ria! acabou ficando na gravação, e precisei castigar no “r” do verbo rir para não perder o trocadilho. Havia brincado também com Veneza (Vê, Neuza) e troquei "de coca", de cócoras, por "invoca". Havia escrito "elã", sei que não dá para entender esta palavra velha ao cantar, mas deixei. Quer dizer entusiasmo, impulso, acho que errei, mas prometo melhorar e tomar extremo cuidado quando for transcrever um poema para uma canção.
A harmonia original foi feita pelo meu parceiro João Bustamante, fizemos inclusive uma canção juntos em que, de novo, trouxe um poema para uma canção, e que gravaremos em 22, mas acho que nesta deu certo. O ritmo original é bem Alabama Song, meio circense, mas o samba sempre esteve presente. Eu fazia um vocalize humilde no final do formato original que virou o coro grande de samba do final.
Quando nós, médicos de família e comunidade do bairro da Penha, formamos a banda Empenha em 2012, a ideia era se divertir na base rock, assumi os vocais e matei a saudade da adolescência, porém sempre descambamos para música brasileira, Gil, Caetano e Chico com uma roupagem mais rock clássico. Levei o Medo Medieval para os ensaios e começamos a brincar, a rapaziada tira onda comigo até hoje, dizem não entender parte da letra. Certamente é a nossa mais antiga música autoral depois da marchinha Sisreg que fizemos bem no início e gravamos uma demo.
Adorei os arranjos de guitarra, baixo e bateria. a combinação de Zartinho (Moisés Nunes) e Baiano (Fernando Pedroso) na guitarra, a precisão, adoro especialmente o solo do Zartinho e o retorno pós início da parte B2 (Veneza) do Baiano, lembra muito Gang of Four, The Clash. A segurança na bateria, inclusive no samba, que não é a praia do Leo Graever, e a linha de baixo original e diferente do Jorge Maravilha (Jorge Esteves), prestem atenção, são pontos altos. A gravação e mixagem desses instrumentos ficaram ótimas nas mãos do nosso produtor nesta canção e em outras, Bruno Villar, que está conosco desde 2017. Não gosto do esforçozinho que fiz a mais para cantar, nunca mais gritarei, só em show, não gosto da minha dicção em "Pérsia", meio carioca de ponte aérea. Porém, gosto da voz no samba e adoro também o coro final.
Gravamos alguns instrumentos de percussão (surdo, tamborim, pandeiro, ganzá) com a minha amigona percussionista super talentosa Geiza Carvalho, que estudou clássico e popular aqui no Rio e na Alemanha, e foi minha parceira de percussão na banda Harmonia Enlouquece, da qual ainda pertenço com muito orgulho. Aprendi muito com ela e com Dedé, meu outro parceiro. Acho apenas que na próxima poderíamos melhorar na captação e mixagem, não é fácil gravar percussão.
Sobre o processo de gravação, deu-se em dois estúdios, Overloud, em Vila Isabel, e HR, na Tijuca. Lembro das madrugadas no Overloud, a garrafa de uísque e nós exaustos. Tem fotos de Baiano e Jorge dormindo no chão da sala da técnica e da gente gravando o coro, acho que tirada pelo Leo, que não sei porquê não cantou, apesar de afinado.

Medo Medieval é o nosso filho mais velho, então a gente ama, e também enxerga mais os defeitos, espero que trazer o contexto do processo ajude vocês a ouvir com outros tímpanos. Jacques Le Goff, especialista em Idade Média, defende a tese de que esta coisa de pintar essa época como sombria, cinza, trevas, estagnação, cheia de medo e de superstições, como antagonista do Renascimento, iluminado e ilustrado é um erro, mas também uma narrativa proposital. Não pode haver alegria e criatividade em tempos de baixo consumo. Porém, engana-se quem acha que os que ficaram à margem são necessariamente deprimidos por não terem grana para consumir o que não precisam no mercado livre.
No meio do massapê da monocultura exportadora escravocrata, na Zona da Mata pernambucana, nasce a flor do cavalo-marinho e maracatu rural. De mono para multicultura stereo, mais rico do que qualquer lucro. Daí a insistência no medo medieval, que é na verdade um não medo, uma coragem de enfrentar as nossas próprias trevas, que nunca estão isoladas, pois sempre terá a esperança de um batuque e da guitarra, seja em Vila Isabel, em Nazaré da Mata, na China, na Península da Ístria ou num banco de uma praça russa.

Instagram @praia_vermelha_



Medo Medieval (Tufa)


a Fernand Braudel


 


  Invista no vinho branco da Ístria

  Insista no extremo norte capitalista

  Elã!,  o verde trigo da Pérsia

  Conversa no banco da praça russa


 
Mercado,  ria!


Vem, capital

De poesia


  Chega de tanto lucro irreal (3X)


    Veneza comprou a seda da China

    Me ensina usura que não se esqueça

    Milito no rico mundo da troca

    Invoca, me peça mais gasolina



    Pirata,  ria!


Bem virtual


    À revelia


      Do nosso medo medieval (3x)


           (solo de guitarra)



Veneza comprou a seda da China


    Me ensina usura que não se esqueça

    Milito no rico mundo da troca

    Invoca, me peça mais gasolina



    Pirata,  ria!


Bem virtual


    À revelia

         
      Do nosso medo medieval

         Do nosso medo medieval

         Do nosso medo medieval

         Chega de tanto lucro irreal


            coro




créditos:


melodia e letra: Alfredo de Oliveira Neto (Tufa)

arranjo: banda Empenha

produção musical: Bruno Villar


créditos da gravação:

guitarra base: Fernando Pedroso (Baiano)

guitarra solo: Moisés Nunes (Zartinho)

bateria: Leo Graever

baixo: Jorge Esteves (Jorge Maravilha)

voz, pandeiro, palmas e efeitos: Alfredo de Oliveira Neto (Tufa)

vocais: Baiano, Zartinho, Tufa, Bruno Villar e Jorge Maravilha

surdo, tamborim, efeitos, palmas: Geiza Carvalho.


gravado entre 2017 e 2018 nos estúdios Overloud, no bairro de Vila Isabel, e HR, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro.


 



domingo, 14 de julho de 2013

bom dilma


Uma carta sempre pode falhar ao seu destino.
(Jacques Derrida)
Mas mesmo assim precisa ser escrita.
(eu mesmo)
Bom dilma, presidenta!
Escrevo-lhe da sua, da minha, da nossa ciudad marabijosa, onde no meio do ano o sol do meio-dia esquenta lightmente nossas cabeçorras. 25 graus ao meio-dia. Sugiro à senhora adotar no seu vocabulário esta expressão que aprendi aqui: "Já é!" Nosso inverno é um verão stella artois.
Minha querida, fico muito feliz de estarmos juntos nesta segunda década do 21th Century Terra. Acho que agora de fato começou o milênio. Sabemos que, didaticamente, os historiadores contarão que a nova Era começou com as Torres Gêmeas em 2001. Porém, aqui pra nós, sabemos que começou na Tunísia, quem diria!, quando nossa querida WikiLeaks denunciou a cara de pau de um daqueles ditadores-avatares dos States. E assim, Primavera Árabe, Occupy e a Copa das Manifestações. Digo outra, fico também alegre de estar nesse barquinho após os 30. Se eu tivesse 15, 20, estaria perdido sem “atenção para a canção”. Depois de muita canção nos meus tímpanos coroa, me sinto, obviamente, perdido, porém curtindo muito estar meio vertiginoso na minha própria casinha. Lembra Leminsky? “Distraídos, venceremos!”.
Presidenta, tenho duas coisas para lhe contar hoje. Uma, precisarei lhe escrever essas cartinhas em máquina de escrever e enviar para os correios, cartinhas que lhe mando desde 2011 pelo electronic-mail – fiquei muito feliz em saber, como soube por fontes, que você as ler no alpendre da Alvorada numa cadeira de balanço portuguesa (só não entendi o ‘portuguesa’). Segunda coisa, como a senhora sabe, como lhe indicava no cabeçalho de um Bom Dilma antigo, sou “um médico de família de uma OS perto de você” e preciso muito e mais e mais lhe contar o que acho dessa transformação do facebook de médicos em ringue UFC. Pois , se fosse uma discussão mais robusta, seria um clássico ringue de boxe inglês. Uma luta muito mais elegante, não presidenta?
Por que máquina de escrever? Porque entrei ontem no movimento cypherpunks, a luta armada de bytes, digo, terabytes. Por favor, leia “Cypherpunks” do Julian Assange, editora Boitempo, aquela editora que a senhora adorava. Assange é o verdadeiro superman IV em 3D, você já o conhece e repito-lhe dizer que fiquei chateado de a senhora não o ter exilado no bairro de Vila Isabel para que pudéssemos nos esbarrar no boteco levando nossos laptops. Mudando o mundo num boteco de Vila Isabel, ouvindo Noel e falando inglês macarrônico com Superman seria explode coração. Soube que o Snowden recebeu 3 propostas de asilo na América Latina. Confesse, presidenta, Vila Isabel?

Bom, enquanto isso, Patriota e mais 4 hermanos chanceleres estão, espero eu, na vinícola Bouza nos arredores de Montevidéu, discutindo como dar um cascudinho nos States. Diga ao Patriota que ele pode dar um cascudo maior, Assange garante. Ele está tão feliz com o Equador e com tudo que está rolando por aqui, que vem dizendo aos quatro ventos que “América Latina is the Guy”. Eu e você concordamos. Agora, um aviso de amigo para você e seus colegas hermanos: não contrate empresas de segurança virtual, todas estão atreladas ao States, pois o software de criptografia é patenteado pelos yankees. O que vocês precisam fazer é nos contratar: cypherpunks. Fazemos de graça com um software livre que produzimos. Ademais, os States ou qualquer outra nação ainda não crackeou a gente. Então, vem! Nunca pensei que eu pudesse trabalhar para a senhora de graça, mas os o mundo gira, e rápido.

Por essas e outras, precisarei voltar à Olivetti. O governo russo já está planejando também. As digitadoras, dores e barulhos voltarão. Necessitaremos de curso em larga escala: as teclas do laptop são muito macias, precisaremos de calos nos dedos. Lembra Kill Bill quebrando a madeira do caixão? Por aí.
Claro que serei banido do Facebook e Google, não terei mais mastercard Smiles platinum. Viverei num mundo meio McFly em De volta para o Futuro. Sem celular, cartão, facebook, porém com um ultrabook olivetti que só daqui a algumas décadas será compartilhado nas redes sociais. Se vencermos, é claro. Em caso de derrota, essa jóia high tech vai ser vendida no shopping de São Conrado e traficada no Morro do Alemão pelo BOPE. Em contrapartida, por enquanto, não poderei usar emails. Enfim, a batalha tá aí, presidenta, e eu me alistei. Você iria adorar, não se precisa mais fazer aqueles treinamentos chatos de tiro na deserta praia do Recreio.
Falando em praia, medicina também é a minha, em que chego religiosamente em ponto durante a semana. Aprendi a ser pontual com o Che, que disse uma vez: "pontualidade o muerte". Aqui no Rio eu sofro, Che.
Serviço civil obrigatório para os egressos de universidades públicas e privadas, no caso de alunos subsidiados pelo governo público: palmas, palmas. Óbvio, o Brasil é um país capitalista do BRICS, não tem como não exigir uma pequena ajuda depois de custear por baixo 30 mil reais ao ano/estudante de medicina. Quando entrei na faculdade há 8 anos eu já achava isso lógico. Não dá para se formar depois de 6 anos em universidade pública, fazer uma residência de dermato e abrir uma clínica de dermato estética no Leblon. Isso é contra o Brasil. Agora, se você custeou sua graduação, aí tudo bem, pode fazer o que der na cachola, tendo agora que queimá-la estudando ainda mais, pois as vagas precisam ser reguladas pelo Estado, e vaga de dermato vai ter bem menos em relação às áreas básicas: medicina de família e comunidade (mfc), clínica médica, cirurgia geral, ginecologia/obstetrícia e pediatria. Quem gostou disso foi o medcurso... presidenta, medcurso? Seria mais um toma lá me dá cá do Partido Republicano?
Agora o meu “não curti, não curti”: os 2 anos do segundo ciclo, pós 6 anos, não pode hoje em dia ser uma coisa diferente de residência médica obrigatória. Agora, se será em mfc, ou se será metade das vagas em mfc,  e a outra metade nas áreas básicas, é um conta para o governo fazer considerando a população brasileira. Presidenta, não dá para dizer: “calma, calma, os recém formados e estrangeiros não vão operar, fazer neurocirurgia, vão para a atenção básica e emergência/urgência, SAMU”. Para mim, não tem especialidade médica mais fácil de se fazer nas coxas e mais difícil de se fazer bem feito como medicina de família e comunidade. São inúmeras habilidades e tecnologias que não são facilmente medidas no dia-a-dia, mas que no fechamento da conta pode dar um rombo no já precarizado SUS se for feita de má qualidade. Em relação a emergência/urgência/samu a mesma coisa, principalmente levando em conta que a maioria das ‘emergências’ são pronto-atendimentos (PA), e PA para nós, médicos de família e comunidade, já fazemos diariamente no posto. Não se esqueça do CTI/UTI, que junto à emergência e atenção primária à saúde (aps) são os 3 cenários em que a maioria dos médicos formados apenas com a graduação no bolso vão atuar Brasil afora. 
País com saúde forte é país com aps robusta, poderosa, malhada, sin perder la ternura. Veja Canadá, Inglaterra e Cuba. Eu sei que a senhora já sabe disso, que Lula e FHC idem. Todos vocês sabem que investir árduo em APS é mais vantajoso economicamente e sanitariamente para o país, mais vantajoso para satisfação dos cidadãos, portanto, me diga, para que o retrocesso nesse ponto crucial: alta qualidade da aps?
Esses 2 anos do segundo ciclo precisa ser uma residência médica, não dá para deixar frouxo: “a universidade que vai decidir” etc. Não: residência. A gente já sairia da graduação com uma especialização e depois correria atrás dos sonhos de cada um, já tendo uma boa bagagem com uma boa residência federal de boa qualidade. E digo mais: se fosse de boa qualidade aumentaria muito a chance de fixar os médicos como mfc.
Sobre os estrangeiros? Portugal já tem isso, possui um convênio com Honduras, Costa Rica e Cuba. Recebe sem “rrevalida” para áreas de vazio assistencial. Juridicamente, não daria para os estrangeiros agora fazer o revalida, pois a prova é ruim, e caso faça medcurso e passe, ele poderia montar uma clínica de dermato estética no Leblon (to malhando a dermato, perdão, colegas, saibam que gosto muito de dermato sanitária. Ah, sobre o Leblon, a livraria Argumento é fantástica).

Bom, presidenta, acho que o Brasil precisará gastar uma grana a mais para supervisionar de perto os gringos. Mesmo em caso de terem uma boa capacidade técnica e um bom entendimento de como se funciona o SUS e o Brasil, a tal da língua é bastante traidora no começo. Acho que os cubanos, que fazem o curso tradicional de Cuba, a melhor safra para essa missão. A ELAN, escola para a América Latina ainda tem muitas fissuras e o ensino é bem mais fraco. Fui a Cuba 2 vezes, eu sei que a senhora foi 108, mas já deu para perceber isso: os estudantes de medicina cubanos são mais cabeçudos.  Se brincar, a formação é melhor que a nossa.
Para finalizar a minha extensa epístola (tô animado hoje), quero lhe dizer que eu só acredito em aps forte com equipe multidisciplinar. Médico sozinho não faz verão, longe disso, nem um outono capenga. Então troque o +médicos para o +saúde e abra vagas para as outras profissões, também com residências e especializações de alta qualidade. Médico sem qualidade na aps revigora a tese de que o médico potencialmente pode fazer mal à saúde com iatrogenias clínicas, sociais e culturais. Recomendo Ivan Illich: “Limites para a medicina”, editora utopia, a qual a senhora conhece muito bem.
Sobre o ringue UFC entre médicos no facebook: Universidades de medicina, por favor, cometam uma redução de danos! pelo menos do UFC para o boxe: cobrem um pouquinho que seja de filosofia, sociologia e história para todos nós.

Presidenta, que tal aulas básicas de economia nos cursos de medicina ao se aposentar como presidenta? Uma coisa eu lhe digo, para a senhora passar no concurso com uma banca de médicos, só vindo comigo pro cypherpunks. Venha, você vai gostar.
Carinhosamente,
Dr. Luiz

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Bom Dilma 2 (postada pelo amigo Dr. Luiz)


“Uma carta sempre pode falhar ao seu destino”
(Jacques Derrida)
“Mas mesmo assim precisa ser escrita”
(eu mesmo)

Presidenta, queria lhe agradecer a carta que você me enviou escrita em chinês. Fico muito agradecido de a senhora ter lido e, mais ainda, retribuído tantas gentilezas em língua oriental. Entendi perfeitamente quando me advertiu que me escreveria na “língua do futuro”, a qual já me empenhei em aprender, 非常感謝.
O que preciso lhe revelar hoje é um sentimento que tem pouco a ver com a dinastia Ming. É o sentimento irrefutável e onipresente que habita os corações dos profissionais da atenção primária: a impotência.
Visitei três senhoras nesta semana que me deixaram olhando pro chão. Muito diferente das 3 viúvas de Pablo Neruda, das longíquas montanhas chilenas, que serviam banquetes à francesa para os andarilhos mais arriscados. No meu caso, fui recebido também com muita dignidade, mas desci as florestas de pedra do morro faminto de alegria…
D. Conceição vem perdendo progressivamente ambas as visões, foi diagnosticada catarata por um médico em Bangu e, desde dezembro, ela tenta um encaminhamento para o oftalmolgista através do seu posto de referência. Mora próximo a um lixão com a neta adolescente e já parou de frequentar a igreja, pois não consegue mais andar só. É diabética dependente de insulina, e a neta às vezes se esquece de aplicar as doses. Sua médica do posto, na última consulta lhe aconselhou ser mais “dura” com a recepcionista no intuito de conseguir mais rapidamente a vaga da doutora da vista.
Já D. Maria vive com duas filhas, a biológica está tentando aos poucos se estruturar após meses de internação num hospital psiquiátrico, a outra, adotada quando adolescente, sofre de retardo mental e depende integralmente da mãe. D. Maria parou de faxinar para cuidar das duas. recebe uns trocados do ex-marido que se aposentou com um salário mínimo. D. Maria está obesa, pressão nas alturas, uma aparência de ter ultrapassado há muitas noites o seu limite. Me revela que não lhe sobra dinheiro para comprar o medicamento das filhas, isso há 3 semanas.
D. Rosa, após fraturas múltiplas por várias quedas e 50 anos de experiência em lavar roupas para a família de um doutor no Leblon, é impedida pelos filhos de cozinhar e de pegar na vassoura, eles  temem uma nova queda. Ela precisa se contentar com a única tarefa que lhe liberaram: passar roupas em cima da cama. É de Alagoas, morava perto do mar, e agora habita um porão de pedras,  o ar é sufocante e úmido. Não sai dali nem para ver a rua, “tenho medo de cair”. Realmente, no percurso de sua porta para rua, até eu ia caindo quando saí. Sua neta de 12 anos acompanha atentamente a consulta e me promete que vai lhe ajudar no manejo dos medicamentos, que estavam sendo administrados em outros fuso horários.
Presidenta, quando me distanciei rumo ao posto de saúde, hiperdia, captopril, estetoscópio, carimbo, caneta, palavras, recomendações, medicina, ciência, SUS, todos os programas, normas e planejamentos se esfarelavam pelas minhas mãos e escorriam morro abaixo numa correnteza de desilusão. Sinceramente, se na enxurrada me levassem todas essas palavras, eu me voaria para outros parágrafos, outras páginas, mergulharia em livros e iria me esconder por entre os terabytes da internet, me poria a pregar poesias islandesas do século XVIII e, após a tontura dos insaciáveis, repousaria inerte no colo de uma placa mãe.
Tudo, presidenta, faria de tudo naquele momento para não voltar à condição de me sentir um joão-bobo inflável de riso ridículo. Desculpe a ironia, presidenta, mas quando ouço que a senhora está inaugurando mais uma Clínica da Família, meu coração se desacelera num compasso murcho. A senhora não sabe o que significa um prato de SISREG vazio, uma farmácia “Tem mas tá faltando”, uma dança sem par intersetorial.
Me responda, por favor: Por que não fortalecer a base antes de construir o prédio? Melhorar a relação entre atenção primária e secundária, implantar e fortalecer o NASF, assegurar financiamento adequado para laboratórios e farmácias, ops!, me enganei, essas perguntas devem ser feitas à OS…
Preciso dizer à senhora que eu não quero carregar o mundo nas costas e que até o super-homem morreu tetraplégico. Enquanto D. Conceição não operar a visão, D. Maria não conseguir remédios para as filhas e D. Rosa não sair do porão, o mundo precisa ficar no chão de castigo, e ai se pular nas costas de alguém. Até porque operar visão, conseguir remédio e sair do porão, até podem rimar, mas não são solução.

Com estima,
不來的超人
Dr. Luiz