Meu filho mais velho, do nada, disse que queria conhecer o samba. Quase chorei, como as suas fases de gosto são intensas, ele estava há meses encalacrado no funk, havia descido a ladeira: Beatles, Raul Seixas, rock clássico, funk carioca podrão. Ninguém aguentava mais, daí veio a redenção. E sabe mais, papai? Eu sou Portela e queria ver um bloco de carnaval.
“É feito uma reza, um ritual / É a procissão do samba abençoando”, pensei logo em cura espiritual.
Levei-o no último sábado ao Cordão Umbilical, bloco infantil perto de casa, só para ele prestar atenção na bateria, pois estava interessado na caixa, apesar de ter ganhado de presente de Natal uma guitarra.
Chegamos em ponto, o bloco atrasado. Para não desanimar fui falando quem eu conhecia e as músicas dos crias do samba. O interesse pelo samba nasceu do interesse da estética cria, pelo que entendi é o protótipo da criança da favela que usa colares, boné de lado e possui a tão sonhada liberdade de ir e vir sem precisar da companhia dos pais. É tipo um malandro herói, Antônio Balduíno e Pedro Bala, para ficarmos com as personagens do Amado.
Foquei nos crias Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Geraldo Pereira, claro que não falei que nenhum desses usava boné de lado.
A bateria chegou e esquentou, a sua primeira pergunta foi onde está a cuíca? Fiz questão de chegar perto e lhe explicar como este instrumento produz aquele som mágico.
Antes de ele perder interesse na música, pois queria ter visto uma bateria de escola de samba e estava à procura de um amigo, fomos reparar nas fantasias. Particularmente, gosto de sair no carnaval com fantasias próprias, nada de pierrot, pirata ou super-homem. A não ser se a minha avó paterna, Hercy, figurinista do Teatro de Amadores de Pernambuco, costurasse alguma dessas para mim, pois ficava top profissional na minha infância.
Passei uma vez o Halloween em Nova Iorque e descobri o carnaval deles, a produção de fantasia é muito séria, compras com muita antecedência, fantasias nos trinques. Não gosto disso, muito sério para mim não combina com carnaval. Eu quero justamente nos quatro dias ser o mínimo sério possível, dissolver o juízo ao máximo.
Foi uma dificuldade para sair de casa, havíamos pensado na fantasia familiar Stranger Family, uma ótima ideia da minha companheira. Pedi um logo para o Gemini e imprimi colorido em papel fotográfico.
A minha ideia seria sairmos com roupas estranhas, bermuda na cabeça, camiseta nas pernas, chapéu amarrado na bunda, por exemplo, e cada um com a placa pendurada.
A oposição queria que cada um se fantasiasse de um personagem da série, o que seria impossível na véspera do bloco, teria que ter uma produção tipo Halloween.
Discordantes, desistimos da ideia, guardarei as placas para outros carnavais, mas me mantive fiel à ideia e fui com uma cueca velha na cabeça, como se fosse uma touca. As pessoas só suspeitavam se chegassem perto. Quando eu sairia com uma cueca na cabeça? Uma das magias do carnaval. A outra é conversar como personagem com outros personagens fantasiados. O meu filho nunca tinha conscientemente visto isso, foi um espanto.
Vi um cara fantasiado de Bad Bunny, aquela roupa creme, segurando a bandeira de Porto Rico, assim como no Super Bowl. Ah, eu havia dado uma aula para os residentes do 2o ano da Residência de Medicina de Família e Comunidade da UERJ naquela semana, Arte, cuidado e política, e havíamos discutido a potência da arte no bojo do sistema hegemônico e como é gramsciana a estratégia de corromper por dentro, tornando-se patética a nudez do rei.
Nas férias de janeiro assisti em partes, após os meninos dormirem, Uma Batalha Após a Outra, que tem tudo ver com a temática do Bad Bunny. Há uma cena em que a personagem de Di Caprio, em apuros, grita para a personagem de Benício Del Toro, ambos auxiliam a imigração de mexicanos na fronteira: ¡Viva la revolución!
Pois bem, meu filho achou muito estranho quando fui falar em espanhol com Bad Bunny e depois, todas as vezes em que nos encontrávamos, eu gritava: ¡Viva la revolución!, e ele ¡Viva!
Deve ser bem estranho mesmo assistir pela primeira vez na rua este código do carnaval. Na quinta-feira, tudo volta a como era antes.
Sobre a cueca na cabeça, ouvi tanto recriminações quanto apoios, na próxima vem com aquela mais surrada, com os furos.
Importante, meu filho, é que o brasileiro tem 4 dias no ano, às vezes um pouco mais, para ser o que der na telha. Quando a gente não faz isso, o ano começa mais triste e existe uma grande chance de ficarmos dodóis. Seja cria, ou seja doutor.

Os crias são o que há!!! Eram pra estar mortos, mas resistes e seus corpos sua sexualidade, sua força incomodam o Rrriiiiooo. Sempre foi assim. Com o samba, com o funk da black rio, com o funk dos anos 90. Tudo é engolido e pasteurizado pela zona sul. Mas os crias se reinventam. Chocar é o que lhes resta. E o resto é silêncio.
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