O Bloco do Chapéu em Quatis estava marcado para às 11h. Chegamos antes disso, eu com um capacete de operário que achei por acaso e sorte no cabide de chapéus da casa onde estava esplendidamente hospedado. Digo sorte pois o material e design deste tipo de chapéu são os ideais no sol a pino, melhor que chapéu de palha.
De cuca fresca, de gelada em gelada, nada de bloco na concentração do Bar do Juarez. Vi um casal colorido numa calçada na moldura da loja funerária, não me contive de pedir uma foto.
Antes da banalização das imagens, na época dos rolos de 12, 24 e 36 eu amava tirar fotos da rua e das farras. Sentia-me um cartier-doisneau recifense. A economia do olhar, às vezes restando um único tiro, sem grana para comprar mais rolo. Perdi o tesão depois que percebi que a fotografia ficou mais importante que a experiência, ao ponto de a próxima espécie na evolução quando cascavulhar HDs daqui a centenas de anos sentirá vergonha alheia.
Mal sabemos que aquela quantidade inútil de fotos, que temos preguiça de apagar, é um entrave para a nossa comunicação com esses outros seres que já tentam contato. Lixo virtual entupindo as redes, enchente evolutiva. Eles compreenderão que a humanidade entrou em derrocada depois da invenção do selfie. O selfie foi a espada na aorta do Homo sapiens sapiens, espécie que surgiu para viver em comunidade.
No entanto, ouvi num podcast recente que o projeto Sanctuary on the Moon levará 24 discos de safira para serem enterrados numa cratera da Lua. Uma porrilhão infindável de terabytes com o que temos de melhor em textos, imagens e vídeos. Cartier, Doisneau e Salgado estarão lá.
Por que a Lua? Porque este planetinha lindo vai puf! sair do mapa via lácteo devido à nossa incompetência, por que as metrópoles acharam rudimentar demais os povos originários chorarem quando uma árvore era derrubada e um rio aterrado. Mas voltemos ao carnaval que é o que nos resta.
Já se passava do meio-dia quando o garçom anunciou que a demora se devia a uma senhora que morrera naquele domingo de carnaval, o atraso era uma manifestação de luto. Todos coloridamente à caráter, entre a funerária e o hospital da cidade do Médio Paraíba fluminense ficava justamente o Bar do Juarez. Concentrava-nos na real para um cortejo.
O Bloco do Chapéu deu largada e em menos de 100 metros o som foi silenciado, passávamos pelo hospital, onde provavelmente a senhora havia sido internada. Puxei uma salva de palmas aos que não poderiam sair do leito e pular um frevo.
O cortejo foi breve, algumas casas generosamente montaram um cano longo com um chuveiro na ponta que dava para a rua. O carro do som, sim infelizmente som mecânico, fez um recuo e por ali a folia esquentou.
Em meio a pulos e pontapés, um amigo encontra uma borboleta abrindo e fechando sincronicamente suas asas violáceas respingada de laranjas, pousada em um paralelepípedo de 50 graus. Uma linda sobrevivente, que escapou da marcha de tropas desgovernadas e muita lama. E se mantinha ali num balé popular, o axé comendo no centro e ela toda contemporânea.
Meu amigo a resgatou pelas asas e ela voou num céu azul total.
O último adeus à folia de Quatis.


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