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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Febre e paixão


Entrei na faculdade para ser cirurgião, adorava os desenhos de Andreas Vesalius e a personagem do Dr. Benton, do Plantão Médico, que conseguia trabalhar sob pressão, como se protagonizasse qualquer última cena de filme de herói. Curtia gazear aula e ir à biblioteca e seu silêncio no Centro de Ciências da Saúde, da minha amada Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para folhear As Bases das Técnicas Cirúrgicas e Anestésicas.

Desisti da vida de bloco assim que entrei como estagiário da Sala de Trauma do Hospital da Restauração e vi os modos com que um R1 de cirurgia era tratado pelo seu preceptor e, com maior gravidade, como essas equipes lidavam com os pacientes. Nunca pensei em carreira militar. A hipótese de ser recruta após a graduação e me expor a relações tóxicas nas décadas seguintes me brocharam.

Pensei na cardiologia e suas subespecialidades intervencionistas, tipo hemodinâmica, e marquei presença nas sessões clínicas do Serviço de Cardiologia.

Costumava me sentar no fundão e me deliciar com os casos complexos de cardiopatias diversas. Um dia percebi que havia dois gringos ao meu lado, mais velhos e cascudos. Ao término de um caso sobre cardiopatia reumática, a dúvida pairava sobre a indicação da prótese valvar, se mecânica ou biológica, pois os dados nos levavam à fronteira da conduta. Após a discussão, perguntaram aos gringos, professores cubanos velhos e cascudos. No podemos hablar del caso, pues en Cuba no hay fiebre reumática. Vupt! Por que?, voando para cima deles, frequento o maior ambulatório de febre reumática do Nordeste. Porque en Cuba la gente tiene acceso a médicos y antibióticos. Corei. Saí da sala não encontrando sentido na beleza clínica da sessão.

“Vai pra Cuba!” de 2013 me soou antiquado. Em 2004, no 5o ano, parti para Havana graças ao Núcleo Brasil Cuba da Diretoria Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, viagem que deu um ziguirau na minha vida até hoje.

Fui da turma 108 da UFPE, a última do currículo velho, apenas um ano de internato e zero sobre Atenção Primária à Saúde (APS). Ao final do 5o ano nem sabia que Medicina de Família e Comunidade (MFC) existia. 

Nós, estudantes de medicina brasileiros, boquiabertos com o número de equipes, a cobertura populacional, a relação dos médicos com o território, a comunicação entre níveis assistenciais e, sobretudo, com a vida pulsante e musical de Havana. Gravamos 10h de vídeo com câmera profissional da UFPE, apelidada de La Poderosa, inúmeras entrevistas, incluindo Aleida Guevara, filha do Che, pediatra em um hospital de cardiopediatria. Um dia produzirei este documentário.

Voltamos com metas palpáveis de se fazer uma revolução socialista no Brasil, mas nos contentamos em iniciar um movimento para emplacar a primeira residência multiprofissional na APS em Pernambuco. A inesquecível Liu Leal, minha contemporânea na universidade, pertencia ao grupo. Como havia um edital nacional aberto para estimular o aparecimento de novos programas de residências em Medicina de Família e Comunidade (PRMFC), saímos do coletivo e escrevemos o projeto do primeiro PRMFC de Pernambuco, ligada à UFPE. Isso mesmo, em 2005 internos escreveram o projeto de uma PRMFC.

Não satisfeitos com a ousadia, além do estágio optativo, inventamos mais dois, cada um com 30 dias de duração: o estágio integrativo, onde rodávamos em um serviço do SUS recifense que ofertava apenas práticas integrativas: acupuntura, homeopatia, fitoterapia etc; e o estágio estratégico, no assentamento do MST em Gameleira/PE, uma zona de conflito. O objetivo era iniciar a territorialização, abordagem comunitária, atendimentos e visitas domiciliares. Uma das maiores experiências da minha vida, passava a semana no assentamento e voltava para a capital aos fins de semana, sentindo-me num livro de Sebastião Salgado. A residência multiprofissional aconteceria uns 3 anos depois. Liu viveu para ver.

Para além dos estágios, montamos um eixo de iniciação à docência no R1, sob supervisão de uma pedagoga, Regina, construímos ementa, preparávamos e produzíamos aulas teóricas e práticas e construíamos as avaliações da recente disciplina Fundamentos da Atenção Básica 1 para o 3o período de medicina. Em outras palavras, R1s tocavam uma disciplina da graduação. Não por acaso a maioria dos egressos desta primeira turma virou professor.

Quando falo “nós”, Izaias de Souza Jr., Vitor Hugo Lima Barreto, Júlio Lins e eu, um grupo ligado ao movimento estudantil e, principalmente, aos projetos de extensão Bulicomtu e O Caminho. O professor Oscar Coutinho e o recém egresso do PRMFC do Murialdo (RS), Rodrigo Cariri, nosso mestre dos magos veterano querido, encabeçaram a coordenação. Tornamo-nos R1s e, ao mesmo tempo, co-coordenadores. Era inimaginável, um retorno à década de 70 quando as primeiras residências brotaram no Brasil. Toneladas nos ombros.

Apesar de toda a insegurança de egresso e de R1s nessas condições, apesar de a maioria dos preceptores locais não ter título de MFC, não podíamos abandonar o barco e nos preparar para uma outra residência. As outras gozavam de um serviço experiente e formado, cronogramas já estabelecidos, onde residentes não precisavam articular com ninguém para garantir os estágios, prezar pela qualidade da carga teórica e nem prestar relatórios à Coreme.

A sensação era a de que a inserção de uma nova especialidade na medicina pernambucana dependia apenas da gente. Em parte era verdade, mas de outra, esta sensação guardaria um sentimento coletivo destruidor entre MFCs, que falarei mais adiante, a síndrome de super-homem.

Decidimos morar juntos, iniciando uma república, A Casa dos Macacos, cuja história contamos melhor em um livro homônimo. Aos trancos e barrancos, terminamos a 1a turma. Foi tão intenso que ao final do R2 migrei para o Rio, onde moro até hoje, e passei 2 anos fazendo mestrado e trabalhando em plantões de emergência sem querer saber de APS.

Voltei à MFC em 2010 em Niterói, ano de uma terrível enchente que conto no blog Riocife. Em 2011 assumi uma equipe como primeiro médico na Penha, Clínica da Família Felippe Cardoso, no início da reforma da APS no Rio e fui preceptor da 1a turma da PRMFC da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (PRMFC-Rio) em 2012. Para encurtar, passei 6 anos como preceptor, PRMFC-Rio e PRMFC da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), fui professor de APS na UERJ por 5 anos e desde 2018 sou professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tive a imprescindível experiência de ser médico de equipe sem PRMFC, 20h por semana, de 2016 a 2024. Desde que ingressei na APS do Rio, passei por 9 unidades, sentia-me um Vinicius de Moraes da APS. Anti-longitudinalidade, mas fiel às paixões. 


Da sessão de cardiologia na UFPE até  eu assumir como preceptor de residência, a resposta ao “Por que MFC?” tinha mais a ver com um sentimento de missão, afinal era o que o SUS mais precisava, a taxa de cobertura naquela época era vergonhosa para um sistema universal de dimensões brasileiras. Também havia uma ideia de retribuição por ter cursado seis anos de universidade pública. A sensação de poder trabalhar alguns turnos da semana em visitas domiciliares e, sobretudo, montando grupos com a população, que poderiam ser de tabagismo a teatro, calcados na educação popular em saúde. Um atrativo gigante para um jovem que sempre quis conciliar medicina e arte.

No entanto, inexistia até então um encantamento pela clínica em si e pelo oceano das habilidades de comunicação, pois todo este universo era praticamente ignorado. A cirurgia ambulatorial é possível! Não há nada melhor do que residentes e internos indentando-nos os calcanhares, empurrando-nos a melhorar nosso tempo de maratona.

A partir daí, o tesão se concentrou na qualidade da consulta. Como proporcionar uma consulta e seguimento para usuários do SUS com uma qualidade superior do que muitos privados? O objetivo seria impressionar aquela pessoa já amplamente castigada não só pelo setor público de saúde, mas por todos os outros.

Retirando-se os 2 anos que passei fora da APS, já se vão 16 e uma aposta na docência atrelada à assistência, o medo do encastelamento acadêmico e, ao mesmo tempo, da roda viva dos serviços sem respiros para o necessário afastamento reflexivo. Em contrapartida, a pergunta “Por que continuar MFC?” rodopia o divã e vem me paralisando na encruzilhada.

A forma canhestra como reproduzimos um modelo de acesso da saúde privada californiana do final do século XX, e já criticado em vários cenários, em morros cariocas e periferias urbanas vem promovendo um descontentamento coletivo, uma alta rotatividade de profissionais e, o pior, adoecendo multidões.

O horror que tínhamos da velha agenda programática engessada nos aproximou de soluções utópicas para a nossa realidade, os erros de vieses na implementação são catastróficos. Uma população completamente diferente, equipes supersaturadas e nenhuma adequação entre oferta e demanda transformaram o acesso avançado no monstro do acesso arrombado. A gestão bate palma para os números.

E aqui retorno à síndrome de super-homem. O que mais me aflige é que a hipomania, regente dos chegados a esta especialidade, ajudou-nos a naturalizar, quase como um valor cultural. A tentativa de organizar o acesso soa quase como um cancelamento.

Não preciso repetir o quão insuportável é atender aquela imensa complexidade em tão pouco tempo, sem contar o excesso digital competindo com os minutos da consulta: prontuário à manivela, exames e suas impressões e registros, solicitação de exames e consultas para a atenção secundária em outras plataformas, interconsultas várias, renovações de receita indecorosas, passes livres para transporte público etc. O trabalho de vigilância invariavelmente invade o turno da visita domiciliar. Grupos? Abordagem familiar e comunitária? Sobrou apenas um “M” velho e frustrado, o Sr. Queixa-conduta.

Sem contar nos últimos anos da falta de itens essenciais de medicamentos e insumos nas unidades de APS do Rio que faziam Austrália, EUA e países da Europa sentirem inveja. 

A eterna sensação de que não dispomos do tempo suficiente para quem mais precisa, a equidade ferida no meio do peito.

Ou a gente coloca isso no centro da mesa, feito a tora cheia de cupim da Sônia Braga no filme Aquarius, ou destruiremos com tudo. Eis a minha encruzilhada: sinto-me acanhado para estimular graduandos a escolherem MFC.

O que me resta de esperança é estar completamente errado. Por que continuo? Porque tenho a certeza de que escolhi a especialidade certa, porque existem estudantes e residentes que me lampejam, porque o SUS ainda é o principal empregador de médicos do país. E em se tratando do maior sistema universal do mundo, tudo pode acontecer.

Por último, continuo especialmente por causa desta gente que carrega o Brasil nas costas e que me ensina todos os dias que meus white people problems são quite ridiculous.

Resisto porque não tem outra maneira de um médico classe média branco encarar a cidade de Deus, cuidar e ser cuidado por este torto arado chamado Brasil.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Eu sou o que der na telha, nem que seja por quatro dias

Meu filho mais velho, do nada, disse que queria conhecer o samba. Quase chorei, como as suas fases de gosto são intensas, ele estava há meses encalacrado no funk, havia descido a ladeira: Beatles, Raul Seixas, rock clássico, funk carioca podrão. Ninguém aguentava mais, daí veio a redenção. E sabe mais, papai? Eu sou Portela e queria ver um bloco de carnaval.

“É feito uma reza, um ritual / É a procissão do samba abençoando”, pensei logo em cura espiritual.

Levei-o no último sábado ao Cordão Umbilical, bloco infantil perto de casa, só para ele prestar atenção na bateria, pois estava interessado na caixa, apesar de ter ganhado de presente de Natal uma guitarra.


Chegamos em ponto, o bloco atrasado. Para não desanimar fui falando quem eu conhecia e as músicas dos crias do samba. O interesse pelo samba nasceu do interesse da estética cria, pelo que entendi é o protótipo da criança da favela que usa colares, boné de lado e possui a tão sonhada liberdade de ir e vir sem precisar da companhia dos pais. É tipo um malandro herói, Antônio Balduíno e Pedro Bala, para ficarmos com as personagens do Amado.


Foquei nos crias Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa e Geraldo Pereira, claro que não falei que nenhum desses usava boné de lado.


A bateria chegou e esquentou, a sua primeira pergunta foi onde está a cuíca? Fiz questão de chegar perto e lhe explicar como este instrumento produz aquele som mágico.


Antes de ele perder interesse na música, pois queria ter visto uma bateria de escola de samba e estava à procura de um amigo, fomos reparar nas fantasias.


Particularmente, gosto de sair no carnaval com fantasias próprias, nada de pierrot, pirata ou super-homem. A não ser se a minha avó paterna, Hercy, figurinista do Teatro de Amadores de Pernambuco, costurasse alguma dessas para mim, pois ficava top profissional na minha infância.


Passei uma vez o Halloween em Nova Iorque e descobri o carnaval deles, a produção de fantasia é muito séria, compras com muita antecedência, fantasias nos trinques. Não gosto disso, muito sério para mim não combina com carnaval. Eu quero justamente nos quatro dias ser o mínimo sério possível, dissolver o juízo ao máximo.


Foi uma dificuldade para sair de casa, havíamos pensado na fantasia familiar Stranger Family, uma ótima ideia da minha companheira. Pedi um logo para o Gemini e imprimi colorido em papel fotográfico.

A minha ideia seria sairmos com roupas estranhas, bermuda na cabeça, camiseta nas pernas, chapéu amarrado na bunda, por exemplo, e cada um com a placa pendurada.

A oposição queria que cada um se fantasiasse de um personagem da série, o que seria impossível na véspera do bloco, teria que ter uma produção tipo Halloween.


Discordantes, desistimos da ideia, guardarei as placas para outros carnavais, mas me mantive fiel à ideia e fui com uma cueca velha na cabeça, como se fosse uma touca. As pessoas só suspeitavam se chegassem perto. Quando eu sairia com uma cueca na cabeça? Uma das magias do carnaval. A outra é conversar como personagem com outros personagens fantasiados. O meu filho nunca tinha conscientemente visto isso, foi um espanto.


Vi um cara fantasiado de Bad Bunny, aquela roupa creme, segurando a bandeira de Porto Rico, assim como no Super Bowl. Ah, eu havia dado uma aula para os residentes do 2o ano da Residência de Medicina de Família e Comunidade da UERJ naquela semana, Arte, cuidado e política, e havíamos discutido a potência da arte no bojo do sistema hegemônico e como é gramsciana a estratégia de corromper por dentro, tornando-se patética a nudez do rei.


Nas férias de janeiro assisti em partes, após os meninos dormirem, Uma Batalha Após a Outra, que tem tudo ver com a temática do Bad Bunny. Há uma cena em que a personagem de Di Caprio, em apuros, grita para a personagem de Benício Del Toro, ambos auxiliam a imigração de mexicanos na fronteira: ¡Viva la revolución!

Pois bem, meu filho achou muito estranho quando fui falar em espanhol com Bad Bunny e depois, todas as vezes em que nos encontrávamos, eu gritava: ¡Viva la revolución!, e ele ¡Viva!

Deve ser bem estranho mesmo assistir pela primeira vez na rua este código do carnaval. Na quinta-feira, tudo volta a como era antes.

Sobre a cueca na cabeça, ouvi tanto recriminações quanto apoios, na próxima vem com aquela mais surrada, com os furos.

Importante, meu filho, é que o brasileiro tem 4 dias no ano, às vezes um pouco mais, para ser o que der na telha. Quando a gente não faz isso, o ano começa mais triste e existe uma grande chance de ficarmos dodóis. Seja cria, ou seja doutor.

  


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Morte, folia e a redenção da borboleta

O Bloco do Chapéu em Quatis estava marcado para às 11h. Chegamos antes disso, eu com um capacete de operário que achei por acaso e sorte no cabide de chapéus da casa onde estava esplendidamente hospedado. Digo sorte pois o material e design deste tipo de chapéu são os ideais no sol a pino, melhor que chapéu de palha.

De cuca fresca, de gelada em gelada, nada de bloco na concentração do Bar do Juarez. Vi um casal colorido numa calçada na moldura da loja funerária, não me contive de pedir uma foto.

Antes da banalização das imagens, na época dos rolos de 12, 24 e 36 eu amava tirar fotos da rua e das farras. Sentia-me um cartier-doisneau recifense. A economia do olhar, às vezes restando um único tiro, sem grana para comprar mais rolo. Perdi o tesão depois que percebi que a fotografia ficou mais importante que a experiência, ao ponto de a próxima espécie na evolução quando cascavulhar HDs daqui a centenas de anos sentirá vergonha alheia.


Mal sabemos que aquela quantidade inútil de fotos, que temos preguiça de apagar, é um entrave para a nossa comunicação com esses outros seres que já tentam contato. Lixo virtual entupindo as redes, enchente evolutiva. Eles compreenderão que a humanidade entrou em derrocada depois da invenção do selfie. O selfie foi a espada na aorta do Homo sapiens sapiens, espécie que surgiu para viver em comunidade.


No entanto, ouvi num podcast recente que o projeto Sanctuary on the Moon levará 24 discos de safira para serem enterrados numa cratera da Lua. Uma porrilhão infindável de terabytes com o que temos de melhor em textos, imagens e vídeos. Cartier, Doisneau e Salgado estarão lá.


Por que a Lua? Porque este planetinha lindo vai puf! sair do mapa via lácteo devido à nossa incompetência, por que as metrópoles acharam rudimentar demais os povos originários chorarem quando uma árvore era derrubada e um rio aterrado. Mas voltemos ao carnaval que é o que nos resta.


Já se passava do meio-dia quando o garçom anunciou que a demora se devia a uma senhora que morrera naquele domingo de carnaval, o atraso era uma manifestação de luto. Todos coloridamente à caráter, entre a funerária e o hospital da cidade do Médio Paraíba fluminense ficava justamente o Bar do Juarez. Concentrava-nos na real para um cortejo.

O Bloco do Chapéu deu largada e em menos de 100 metros o som foi silenciado, passávamos pelo hospital, onde provavelmente a senhora havia sido internada. Puxei uma salva de palmas aos que não poderiam sair do leito e pular um frevo.


O cortejo foi breve, algumas casas generosamente montaram um cano longo com um chuveiro na ponta que dava para a rua.  O carro do som, sim infelizmente som mecânico, fez um recuo e por ali a folia esquentou.


Em meio a pulos e pontapés, um amigo encontra uma borboleta abrindo e fechando sincronicamente suas asas violáceas respingada de laranjas, pousada em um paralelepípedo de 50 graus. Uma linda sobrevivente, que escapou da marcha de tropas desgovernadas e muita lama. E se mantinha ali num balé popular, o axé comendo no centro e ela toda contemporânea.


Meu amigo a resgatou pelas asas e ela voou num céu azul total.


O último adeus à folia de Quatis.


Arrepio de carnaval

Uma paciente agendou comigo uma consulta na manhã da última sexta de carnaval. Cheguei antes da hora, peguei a rua Jardim Botânico prestes a fechar para blocos. Humaitá e Botafogo livres. Desci em frente ao empresarial na Voluntários. O consultório fica no nono andar. Na fila dos elevadores ímpares, duas mulheres de meia idade batiam um papo às 8h50. Pelo que entendi, uma estava em busca de outro consultório, e a outra era a ascensorista dos elevadores ímpares. Nós três adentramos assim que abriu.

- Acabei de passar pela Presidente Vargas, tão fechando tudo - disse a paciente com ar de recriminação. A ascensorista só acenava com a cabeça. - Daqui a pouco vai ficar aquela loucura, nessa semana já levaram o celular de duas amigas - a ascensorista fechou os olhos e inspirou lenta e profundamente.

Sentada em sua cadeira metálica, abriu os olhos e nos encarou, mostrou o antebraço esquerdo, e com o indicador direito foi pendulando por cima, a voz com um quê de saudade e papo reto:


- Olha só como eu fico.